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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Alexandra Lencastre: "Fui bem comportada de mais, embora a imagem que as pessoas têm de mim não seja essa"

Aos 60 anos, a atriz regressa ao teatro. Em entrevista, fala de imagem, exposição pública, das críticas e do amor — e do que se perde da vida a troco de representar.

Lá fora cai uma chuva torrencial, mas dentro do Teatro da Trindade, em Lisboa, o silêncio é espesso e imperturbável. No palco, atores vestem roupas leves, aquecem o corpo, repetem falas. Ensaiam um tempo e um clima que não são estes.

Alexandra Lencastre entra sem anúncio. A estatura pequena fá-la passar despercebida no vaivém entre cenário, elenco e equipa técnica. É discreta, quase invisível. O contraste revelar-se-á nas duas horas seguintes, quando surge em cena majestosa, emocional, a dar corpo e voz a Irina Arkadina, diva do teatro clássico, cuja personalidade se impõe no palco e fora dele.

Escrita em 1895, A Gaivota é uma das peças mais emblemáticas de Tchékhov, frequentemente lida como um comentário meta-teatral sobre a arte, o ego e a fragilidade dos artistas. A nova encenação de Diogo Infante estreia-se a 29 de janeiro no teatro lisboeta, onde ficará em cena até 5 de abril.

Poucos minutos depois de o pano azul cair, findo o ensaio, Alexandra Lencastre atravessa o palco e sobe ao salão nobre. Usa ainda o casaco de pelo, o cabelo e a maquilhagem da personagem. Não houve tempo para despir a pele de Arkadina. Pouco importa. A atriz e a personagem confundem-se, como acontece tantas vezes ao longo de uma vida em cena.

O ensaio, confessa, correu-lhe mal. Não queria chorar. Sabia que uma entrevista a esperava e não haveria tempo para retoques. “Pensei nisso”, admite, com franqueza. Durante a hora seguinte, porém, a contenção cede. Ao olhar para trás — quarenta anos de carreira, sessenta de vida —, comove-se com as histórias que nem sempre aconteceram como as revistas e jornais as escreveram. Tal como na peça de Tchékhov, também a vida de Alexandra Lencastre é feita das perdas silenciosas que acompanham quem escolheu, em prol da arte, viver à vista de todos. “Ser atriz é cumprir um sonho, mas também é uma maldição”, atira, ciente do peso das palavras. “Não é a fama. Não são os aplausos. Não é nada disso que interessa”. Pensou muitas vezes em parar, desistir, mas continuou. Até quando? “Às vezes vejo-me a morrer em cena.”

Chora muito nesta peça?
Não, mas no terceiro ato quando o Trigorin [personagem interpretada por Ivo Canelas] descreve o amor que nunca sentiu… Ela é mais velha que ele. Se calhar ele já teve outros flirts. Se calhar já se ficou encantado com outras raparigas mais novas. Mas… a descrição que ele faz do amor puro, da doçura de um amor fresco, de uma coisa que ele nunca sentiu. Ela não tem medo de o perder ao princípio. Está muito confiante. Mas, de repente, percebe que o pode perder para uma miúda. Como ela dizia, é o último capítulo da vida dela. Convém que, já que vai acabar, acabe em bem. Aí normalmente choro porque… E choro quando vejo a Nina. Porque fiz a Nina há 36 anos no Teatro da Graça. Esta Nina [Rita Rocha Silva] é muito boa atriz. É engraçado que normalmente eu apago os textos. É tipo delete. Não sou aquela pessoa que numa festa sirva para animar porque sabe um fado, um poema, um texto… Eu apago.

Mas lembrava-se deste texto?
Lembrava-me deste texto. E não sabia. Quando a Rita começa a ler no primeiro dia, na primeira leitura, chorei tanto, tanto, tanto. Ninguém percebia o que é que se passava comigo. E eu não conseguia explicar porque estava tão comovida. Cada vez que vejo… Evito ver. Mas cada vez que vejo esta última cena, em que ela vem destruída e diz: “Sou uma gaivota”. Fico tão sensibilizada [comove-se].

Traz-lhe memórias?
Traz-me muitas memórias do Teatro da Graça, onde fui muito feliz e onde gostei muito do trabalho que eles desenvolviam. Ter trabalhado lá foi para mim um privilégio enorme. Ter trabalhado com Isabel de Castro, e com a Zezinha [Maria José] Pascoal e a Elisa Lisboa, o Amílcar Botica, o Mário Jacques, o José Wallenstein… A Isabel de Castro fazia uma Arkadina… maravilhosa, muito subtil, o oposto desta, uma coisa muito etérea, branca, branca, não apanhava sol, quase como se ela nem sentisse. O terceiro ato da peça era muito diferente deste. Mas adaptação do Diogo [Infante] é muito bem feita. Ainda no outro dia dizia: isto é A Gaivota do Diogo. É um espetáculo completamente diferente. Não no essencial porque as ideias e as questões sociais e humanas estão lá. As questões existenciais, o porquê, a morte, a vida, e as questões dos artistas… Tudo isto nos toca muito. É um texto particular… Há textos que nos tocam porque são muito bons, mas este fala da condição do ator, do desespero. Quando eu dizia: “não sabia onde pôr as mãos”, sentia que já tinha passado por isso. Passei por isso na minha estreia profissional. É de uma verdade, de uma crueza… É realista.

O que mudou na sua relação com o ato de representar desde então?
Mudou muita coisa. É mais fácil dizer o que não mudou. Não mudou o respeito enorme. O respeito e o medo. Continuo a ter medo de entrar no palco. É um medo associado a uma enorme responsabilidade.

O tempo e a idade não lhe trouxeram mais segurança no ofício?
Não, nada, nada, nada.

Não se sente melhor atriz hoje?
Às vezes sinto que a Rita Rocha está menos nervosa do que eu [risos]. Está mais segura do que eu. Acho que isso tem a ver com a personalidade de cada um. Sempre fui insegura. É uma característica minha. Como atriz, também não consigo fechar isto numa gaveta, deixar em casa fechado à chave.

Nem a bagagem de personagens? Já fez muita coisa…
Mas há sempre… Já foi tudo inventado. Aliás, digo isso na peça: “Já foi tudo inventado”. Há sempre uma tentativa de nos superarmos, de fazermos coisas diferentes, de não cristalizarmos, de evoluirmos, de irmos para zonas… Houve aqui uma grande luta que agora finalmente começou a esbater-se. O Diogo achava que eu defendia muito esta personagem, a Irina Arkadina. Eu não queria que ela fosse má, não queria que ela fosse um estupor, não queria que ela fosse bitchy. E ela é isso tudo.

Ela é muito julgada…
Sim, e eu queria que ela fosse… Dava imensos beijinhos a toda a gente, era muito querida. E ele dizia-me: “não é nada disso”. E eu dizia: mas não é porquê? Então, eu sou uma mulher mais velha… E ele dizia-me: “mas não és tu! Não estamos a falar de ti, Alexandra”. E eu de repente percebi que estava a fazer uma colagem completa da personagem.

A atriz veste a pele de Irina Arkadina na peça "A Gaivota", de Anton Tchékhov, encenação Diogo Infante, em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, de 29 de janeiro a 5 de abril

Alípio Padilha

Estava a defender-se.
Estava a defender-me. Penso que poderá acontecer com algum público se calhar mais informado, mais intelectual, achar que estou a fazer uma caricatura de mim própria, por exemplo. Eu queria defender e queria fazer uma mulher mais profunda. Já que ela gosta tanto de fazer teatro… Mas isso matava uma série de situações e contradizia, como está a dizer e bem, o que o próprio filho e o irmão, por exemplo, dizem dela. Sei que o Diogo também defende bem as personagens dele. É por isso que tenho tanta confiança nele, não é por acaso que volto sempre a fazer teatro com ele…

A última vez que subiu a palco foi há quase dez anos, em 2017, aquando de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, também pela mão de Diogo Infante…
O Diogo para mim é uma âncora.

A ideia que fica é que é ele que acorda algo que parece adormecido em si.
É um bocadinho… O tempo é mesmo um fósforo, isto passa a correr. O tempo é a dimensão mais relativa que há. Quando éramos pequeninos achávamos que as férias demoravam tanto tempo, até já tínhamos saudades, não é? Agora é tudo a correr, é tudo um fósforo e de repente tenho 60 anos. Como é que a minha filha está ali, vai fazer 30, como é que ela está ali em palco? O que é que aconteceu? Foi tudo tão rápido.

Se passou a correr é bom sinal — ou não?
Sim, é bom sinal. Quer dizer, não sei se é bom sinal. É um sinal. É um sinal que temos que aproveitar, é um sinal que temos que lutar pelas coisas de que gostamos e temos que tratar bem as pessoas que amamos e temos que cuidar uns dos outros e se não pudermos cuidar dos que estão mais longe pelo menos temos a obrigação de cuidar dos que estão mais perto. Mas bem, eu estava nesta luta e depois ele disse-me: “não se trata de ti, minha cara amiga. Vocês podem ter coisas parecidas, mas não a podes continuar a defender assim porque não estás a fazer bem”. Andei aqui um bocado aflita, mas o Diogo, de facto, é muito talentoso e transmite muita confiança, como colega, como ator, é maravilhoso. Talvez pela nossa amizade também, já tem 34 anos, desde a [novela] A Banqueira do Povo (1993)…

As coisas não se misturam, mas, como diz o Diogo, muitas vezes, contaminam-se. Nós, no fundo, estamos contaminados. A amizade não existe, aqui ele é encenador e eu sou atriz, mas a amizade existe, há salpicos, é como se fossem fadinhas que trazem coisas boas e trazem outras menos boas, que são exatamente ele conhecer as minhas fraquezas. Ele percebeu perfeitamente quando é que eu estava a derrapar e quando é que estava a fugir e começou a puxar-me. E ainda temos uma semana! O Diogo não chega a uma altura em que diz: “pronto, agora está tudo pronto, agora vamos só répétition”. Os ensaios em francês chamam-se repetição, que é uma coisa que normalmente nós, portuguesas, não gostamos. Em inglês, por exemplo, diz-se play, to play, to play the play, portanto, vamos brincar.

"[Ser atriz] é uma profissão um bocadinho maldita. É uma profissão que nos obriga a andar ao contrário do relógio, ao contrário dos outros. Trabalhamos para os outros, para entreter os outros, para chamar a atenção dos outros. E às vezes esquecemos... Ficamos sem vida no meio disto tudo."

Sente-se a brincar? Ou encarou a profissão sempre como algo muito sério?
Para mim é muito sério, mas acho que este espetáculo, particularmente, pretende que as pessoas também se divirtam, que não fiquem só a pensar nos assuntos realmente muito sérios. Estamos a viver uma fase um bocadinho parecida, por incrível que pareça. Há aqui, de facto, muitos aportes à realidade e isso não foi invenção do Diogo. É incrível como há coisas… Esta insegurança coletiva, este afastamento, porque é que as pessoas se estão a fechar? Se estão a isolar? O medo, parece que estamos na iminência de acontecer qualquer coisa. E estamos. De muito grave. Se calhar final, derradeira. O primeiro monólogo devia ser muito mal representado, mas a Rita não sabe representar mal, é maravilhoso. O monólogo anuncia um bocadinho isso, é um bocadinho o arauto da desgraça. É um bocadinho anunciar o final dos tempos.

Acha que estamos nesse lugar, à beira do precipício?
Acho. Acho. Mas como disse há bocado, o tempo é uma dimensão muito relativa, portanto se calhar ainda pode durar alguns milhares de anos [risos]

A personagem que interpreta é bastante julgada pelos outros. Ao longo da carreira, sentiu que também foi, às vezes, julgada injustamente?
Acho que todos nós, todas as pessoas que se expõem, sejam atores, sejam artistas. Há uns que se conseguem defender um bocadinho melhor porque não têm que aparecer, por exemplo, os pintores. Estão na vernissage, mas depois não têm que estar lá todos os dias enquanto há a exposição.

Os quadros vendem-se sozinhos.
Vendem-se sozinhos, exatamente. Um pintor pode-se isolar. Há pessoas que podem permitir-se a alguma loucura e um estilo de vida muito particular. Estou-me a lembrar do [pintor norte-americano Jackson] Pollock, por exemplo. Podem dizer que ele era louco, não sabemos. O que é facto é que fazia aquelas obras de arte maravilhosas. Precisava daquilo. Somos nós e as circunstâncias e às vezes temos sorte, outras vezes não. Quando as circunstâncias jogam a nosso favor, as pessoas reconhecem e dizem bem. Às vezes as circunstâncias não jogam a nosso favor ou nós não somos espertos suficientes para aproveitar certas oportunidades e as pessoas aí também não perdoam. E aí falo do meio, falo do público em geral e falo desta… Aliás, até falamos das redes sociais [na peça]. Há aqui uma pequena crítica também, mas ela própria diz: eu tenho que fazer isto porque senão não sou atrativa para as marcas e dentro de pouco tempo, porque o mercado está pejado de mil jovens, altas, giras. Ela tem um bocado de ciúmes, claro que destila um bocadinho o veneno, é um bocadinho cobra…

Essa situação que descreve, sente-a? Essa pressão, essa competição?
Sinto que isso existe. Sinto que existe bastante. Mas, como esta personagem também diz a dada altura, “evito as notícias”.

“Não penso no futuro e evito as notícias”.
Exatamente. “Tenho uma regra fundamental: nunca penso no futuro e evito as notícias”. Isto é uma maneira de ela se manter mentalmente não só mais saudável, mas também mais equilibrada. Porque é muito desequilibrante no mesmo trabalho, no mesmo dia ou na mesma noite, no mesmo espetáculo, vir um encenador importantíssimo, uma atriz que adoro, mais velha, que tem mais experiência, que trabalha comigo, que diz que é uma porcaria o meu trabalho. E vir outra pessoa encantada. Isto é muito desequilibrante.

"As idiossincrasia dos atores têm de ser assumidas. Temos de ter as gavetas desarrumadas e de viver com isso. Para quem está connosco é duro, mas ou aprende a viver com isso ou então não pode viver connosco. Por isso é que é tão difícil os artistas manterem famílias e relações durante muito tempo. Porque os outros sentem que às vezes há algo maior que nos absorve, que nos drena tanta energia que estamos tão focados que perdemos o foco."

É possível encontrar um equilíbrio?
Acho que nunca se encontra. Vivemos dentro deste desequilíbrio. As idiossincrasia dos atores, às tantas, têm de ser assumidas. É como a nossa desarrumação. Temos de ter as gavetas desarrumadas e temos de viver com isso. E para quem está connosco é duro, mas ou aprende a viver com isso ou então não pode viver connosco. Por isso é que acho que é tão difícil muitas vezes os artistas manterem famílias e manterem relações durante muito tempo. Porque os outros sentem que, se calhar, às vezes, há algo maior que nos absorve, que nos drena, às vezes, tanta energia, que estamos tão focados que perdemos o foco. E isso é de um grande egoísmo. E depois nós queremos compensar. E sempre fiz isso. Com as minhas filhas, por exemplo. Mas, sei lá, se na altura que eu as queira compensar, elas ainda estão disponíveis para receber? Portanto, ao mesmo tempo que é que ser atriz é cumprir é um sonho que eu tinha também é um bocadinho uma maldição, não é? Isto é um bocadinho maldito, é uma profissão um bocadinho maldita. É uma profissão que nos obriga a andar ao contrário do relógio, a andar ao contrário dos outros. Trabalhamos para os outros, trabalhamos quando os outros não trabalham. Trabalhamos para entreter os outros, trabalhamos para chamar a atenção dos outros. E às vezes esquecemos… às vezes ficamos sem vida no meio disto tudo.

Alguma vez se arrependeu?
[silêncio] Arrepender não, mas já pensei em parar. Lá está. Não é a fama. Não é a fama. Não são os aplausos. [comove-se] Não é nada disso que interessa. O importante é continuar. Há quase uma sensação de dever, de missão. E de que nos preparamos. Tivemos uma escola que nos musculou interiormente para esta profissão. E para dar. E, portanto, às tantas, se calhar somos um bocadinho handicapés noutras áreas. E também não gostamos de falhar noutras áreas. E, portanto, voltamos. Voltamos sempre aqui ao cerne da questão, que é ser ou não ser, o Hamlet.

É curioso dizer que não quer falhar noutras áreas quando é fundamental para um ator a pré-disposição para falhar constantemente. O que é um ensaio se não um espaço para falhar?
Claro, claro! Fazemos uma carreira de espetáculos e, sei lá, há dois, três em que somos iluminados pelos deuses.

Numa carreira só dois ou três espetáculos são bons?
Não sei, ou muito bons ou de facto dignos daquilo do que nós trabalhámos ou do que o encenador nos pediu. Porque o nosso primeiro espectador é sempre o encenador e trabalhamos para ele. Enquanto ele não estiver satisfeito, nenhum ator está satisfeito. Sentimos quando o público não está satisfeito. O Diogo, no outro dia, estava-nos a dar um exemplo. Ele trabalhou com o Bob Wilson, teve esse privilégio. E estava a dizer que o Bob Wilson dizia que nós estamos ligados, de repente, a uma plateia por milhares de fios invisíveis. Isto falando energeticamente, não estamos aqui a falar de espiritualidade, nem de religião.

E ele dizia que o ator é como se saísse daqui [aponta para a nuca]. Quando entra em cena, tchá! É como se lançasse os fios, que não podem perder a tensão. Isto envolve mais do que a concentração, mais do que os mínimos olímpicos, envolve a generosidade, a capacidade de sacrifício, magoarmo-nos em cena e continuarmos… Não paramos o espetáculo. The show must go on. Isso é das coisas mais tristes que já vi acontecer e, ao mesmo tempo, maravilhosas. É, realmente, este exemplo que ele deu dos fios que se podem partir. É assim. Há um espectador que se distrai e fala, ou vê o telemóvel. Nós não o podemos perder. Temos que captar a atenção. Para ter os espectadores por inteiro temos que estar completamente por inteiro também.

Presentes.
Presentes, completamente.

Regressa ao teatro, mas a sua presença na televisão é recorrente, é uma das rainhas da televisão.
Às vezes acontece-me estar com miúdos que já não me conhecem, não sabem o meu nome e nunca viram nada meu. Já chegámos a uma geração assim. Ouvir isto não me custa, até acho graça.

Porquê?
Acho graça porque, de facto, a vida é isto. Houve uma altura que eu dizia: não sei quantos não sabem quem é a Claudia Cardinale? Ou nomes de atores muito conhecidos, portugueses, bons. Há uma geração que sabe imenso sobre teatro e literatura, pintura e escultura, mas não conhece os atores portugueses, os antigos. Lembro-me que para os da minha geração e para cima ficava tudo muito chocado. De repente, quando percebi que também não me conheciam, achei graça e pensei: que bom, que liberdade. Agora vou trabalhar com estas pessoas na novela e não vão ter nenhum parti pris, nenhum preconceito em relação a mim, não vão dizer: ai, ela fez a Ana e os Sete (2005) e ao mesmo tempo fazia striptease, ou porque já apareceu com decotes muito grandes, ou porque fez coisas muito interessantes, mas também fez um programa que se chamava Na Cama Com (1993-1994), portanto foi muito atrevida, era sex symbol. Isto às vezes confunde-se com outras coisas…

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Acha que ainda está colada a essa imagem?
[Suspiro] Infelizmente. Há colegas, imensos jornalistas que, quando estão a conversar comigo, mesmo com um propósito muito definido, lembram-se muito do Na Cama Com, vão buscar muitas vezes a Rua Sésamo. A Rua Sésamo acho uma ternura, claro, e tenho muitas saudades, mas o Na Cama Com, porquê? De facto, eu não sabia entrevistar pessoas, e fiz muito mal aquele trabalho, acho mesmo que o fiz muito mal, mas tive a sorte de ter convidados maravilhosos e os pedaços que se podem aproveitar daqueles programas, se aquilo fosse tudo editado e se pudesse mostrar… Há coisas maravilhosas. Tive o José Cardoso Pires, o Raul Solnado, o Sérgio Godinho, o Diogo Infante, a Rita Blanco, a Graça Lobo, a Rosa Mota, pessoas de todas as áreas. Pessoas deliciosas que muitas vezes achávamos que não iam aceitar esse desafio, de ir a um programa chamado Na Cama Com. Normalmente ficavam na cadeira, não ficavam sentados na cama, mas havia outros que se sentavam assim aos pés da cama. Tive esta sorte de os conhecer. E quando as pessoas falam do Na Cama Com pensam que era um programa maroto, era um late night show, e não era.

Hoje ainda sente algum desse julgamento?
Sim, sim, sou julgada, sim, às vezes levo ainda pancada. E outras vezes tenho elogios que até fico sem palavras e sem saber o que responder. E das mais variadas… Talvez possa dizer com algum orgulho que sou um bocadinho transversal. Já tenho 60 anos, portanto, acho que posso dar-me ao luxo de não ter vergonha de dizer. Isto é o despudor completo, mas de facto acho que consegui isso. Tanto tenho a caixa do supermercado a falar-me de uma novela como tenho alguém na Gulbenkian a vir falar comigo e dizer-me que viu um espetáculo naquele ciclo de teatro de português com o Jorge Listopad.

Parece envergonhada. Tem pudor em reconhecer que fez alguma coisa bem?
Tenho, tenho.

Porquê?
Porque uma coisa nunca está completamente bem, está sempre inacabada, é por isso que é bom termos o teatro, porque podemos ir melhorando, temos sempre uma oportunidade um dia a seguir de fazer melhor, e isso é muito bom.

Fez teatro, muita televisão, mas para a ver no cinema seu é preciso voltar atrás.
É. Houve uma altura que deixei de ser convidada. No ano passado o Manuel Pureza convidou-me para almoçar e disse: porque é que eu estou a almoçar com uma atriz que devia fazer a maior parte dos protagonistas de certos filmes, porque é que tu não estás à frente de um departamento criativo, de conteúdos, não sei o quê, porquê é que tu não… Não sei. Porque é o meu destino. Eu nunca procurei muitas coisas, deixei que as coisas viessem ter comigo… Sempre me senti um bocadinho complexada, talvez, sempre achei que não tinha, se calhar, capacidades…

E no entanto começa com grandes: Filha da Mãe (1990), de João Canijo, faz Os Imortais (2003), de António Pedro Vasconcelos, entra n’Os Mutantes (1994), de Teresa Villaverde…
Sim, uma cena muito pequenina. E fiz o Delfim (2002) com o Fernando Lopes, e lá fora, e com o João Botelho também fiz as Três Palmeiras (1994) que é um filme muito pequenino. E fiz muito cinema no Conservatório com os meus colegas, porque na altura na escola estávamos todos juntos, cinema e teatro. Os estudantes de cinema iam muitas vezes buscar os estudantes de teatro para realizarem as curtas, para os trabalhos de teatro iam às vezes buscar as bailarinas porque eram mais giras. É verdade, a Catarina [Furtado], nessa altura era muito novinha. Foi ainda na Rua dos Caetanos, no Bairro Alto. Foi um belo sítio para tirar o curso, sítio lindíssimo, edifício lindo, e estavam as escolas todas reunidas, música, dança, teatro e cinema. Aquele refeitório… Havia pessoas que vinham de outros sítios, de outras faculdades almoçar lá, era uma fauna diferente, era muito giro. Nós às vezes também íamos a Belas Artes, porque também era muito interessante.

Como é que era o seu círculo, nessa altura? Com quem se dava?
Dava-me com o mundo.

Vinda de Belém, da zona do Restelo, o que é que encontrou?
Cheguei a casa. Quando cheguei ao conservatório para fazer os testes de admissão, que eram quatro dias, percebi que afinal havia pessoas iguais, que pensavam e sentiam como eu, que também tinham medo, que eram complexadas, que eram inseguras, que queriam muito, mas que sabiam de certeza que iam falhar e que não iam entrar. E, de repente, houve um sentimento de união muito grande. Houve uma comunhão. Há uma comunhão muito forte, entre a questão das sensibilidades… Há uma altura, principalmente quando as pessoas são muito meninas e estão muito disponíveis, quando têm mais tempo, não é só uma disponibilidade realmente física, mas também mental, em que sentimos que o mundo pode ser nosso. Pode ser nosso, pode ser naquele momento, mas é nosso, nós agarramos aquele momento. Acho que eu, como todos, agarramos muitos momentos, e isso não há nada que pague.

Guarda alguém desse tempo?
Muitas pessoas.

Antes estudara filosofia. Porquê?
Sentia que o meu pai, principalmente, não estava de acordo com o facto de eu seguir esta profissão.

Não havia artistas na família?
Havia a Inês Pedrosa, que era escritora, que é minha prima direita, mas não havia atores, nem bailarinos. Havia tias que pintavam, que tocavam, mas nas festas familiares, ou em quermesses, ou nas festas da igreja.

Não enquanto profissão.
Exato, e acho que o meu pai pensou sempre que eu ia ficar por aí. Ele achava que eu tinha esta coisa da justiça, sou do signo balança, e era muito chata desde pequenina, porque tinha que ser justa, tinha que ser não sei o quê. Ele achava que eu devia ir para a direito. Isto era a opinião dele.

Reconhece-se nesse sentido?
Um bocadinho, um bocadinho. Se tivesse tido tempo era um curso que gostaria de ter feito. Mas às vezes não é o curso, por exemplo, filosofia não é a questão de ter a licenciatura ou não ter a licenciatura, o que interessa é ter passado por lá, é ter conhecido aqueles professores, ter conhecido aqueles alunos, também ter sido contaminada por aquelas mentes brilhantes. No entanto, o que é que faltava? Faltava a fusão, e a fusão chega no conservatório. Aí é que eu percebi que não era completamente uma outsider, que não era, na minha família e dentro do meu círculo de amigos do liceu, não era uma pessoas completamente esteriónica. Ali eram todos como eu, que bom.

Sentiu-se compreendida?
Senti-me compreendida, senti-me livre, senti-me aprovada, senti-me, sei lá, senti que havia um lugar para mim no mundo.

É aí que assume o nome Lencastre, ou é antes?
É aí. É aí que o meu pai se recusa e diz que eu não posso usar o nome dele [Pedrosa]. Eu comecei logo a trabalhar no primeiro ano, portanto fui obrigada a pôr o nome num programa, num cartaz.

Isso custou-lhe?
Custou-me. Custou-me. Mas também me senti muito compensada pelo facto de o meu avô, pelo lado da minha mãe, ter ficado muito orgulhoso por eu usar o nome dele. Digamos que as coisas podem compensar-se uma à outra, eram dois homens muito importantes na minha vida, o meu avô e o meu pai.

Alguma vez falou sobre isso com o seu pai?
Sim, até porque o meu pai nasceu no litoral norte, numa vila pequena, e houve uma altura em que, lá está, tudo passa, tudo muda, as gerações, as pessoas vão morrendo, os filhos vão nascendo, ele deixa de ir para lá tanto e, de repente, chamavam-lhe doutor Lencastre [risos]. Eu não devia dizer isto, mas agora acho que já posso dizer, não é com a maldade. Acho que ele encaixou, o meu pai sempre foi um homem muito inteligente, ele percebeu. É como fazer uma caricatura, no fundo, não temos que ficar magoados, é uma homenagem, é como o humor, quando nos satirizam, é uma homenagem, estão a falar de nós, estiveram atentos ao nosso trabalho, estiveram atentos às nossas falhas, mas estiveram atentos.

Dizer isso num dia em que se soube que o primeiro-ministro vai apresentar queixa sobre uma publicação satírica…
“Eu evito as notícias”, querida [risos]

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Falando de caricatura e crítica, aquando da sua estreia no teatro, aos 19 anos, em Pilates, de Pasolini, no Teatro Experimental de Cascais, quando frequentava o primeiro ano do Conservatório, o crítico teatral Tito Lívio disse que se devia dedicar às corridas de caracóis.
Exato. E disse exatamente isto [que é dito na peça], não disse que eu não sabia onde pôr as mãos, mas fez uma descrição na crítica, tipo: se fala não anda, se anda não fala. Ainda por cima eu estava ao lado da Luísa Cruz, estávamos as duas em cena, e eu sentia que ela… Sentia que estava ali perante uma sábia, um talento enorme e eu devia dedicar-me mais. Eu concordava com o Tito Lívio, eu devia dedicar-me mais, mas é assim.

Como é que se cresce a partir de uma crítica — ou não se cresce?
Não se cresce. Nessa altura pensei muitas vezes que se calhar melhor era mesmo desistir. E quem é que não me deixou desistir? O Jorge Listopad que era o diretor do Conservatório. E eu pensei: eu gosto tanto do trabalho que ele faz, que ele desenvolve, gosto dele particularmente, é uma pessoa particular para mim, os livros dele, os livros de poesia dele… Ficava muito chocada, porque ele descrevia coisas eróticas, e eu pensava: que horror, o meu encenador. Nessa altura tinha mais pudor do que hoje, era um bocadinho mais envergonhada, não me despia à frente das minhas colegas, ia sempre para um sítio… Chamava-me a estrelinha de Belém, tão querida, não sei o quê, tem vergonha.

Quando é que perdeu a vergonha?
Quando percebi que isso não é o importante. No entanto, também nunca fui obrigada, por exemplo, a estar nua em cena, nunca fui confrontada com essa situação, e ainda bem, porque devia ser uma grande luta. Ainda hoje não lhe consigo dar a resposta se aceitaria ou não. Agora já não aceitava, nem pensar, senão não tínhamos público. É muito bonito, aquele filme — Boa Sorte, Leo Grande (2022) — não sei se viu, com a Emma Thompson, em que ela contrata um rapaz, um acompanhante, para estar com ela. Revi-me imenso nesse filme. Ela também não se consegue ver nua e acaba o filme a ver-se nua ao espelho. Primeiro tapa-se e depois vai tirando as mãos devagarinho e vê o seu corpo com a idade que tem, que tem 63 ou 64. E fica apaziguada consigo própria, finalmente ultrapassou esse grande complexo, esse grande medo, esse pavor da degenerescência, não só dos órgãos internos, mas também dos órgãos externos. A nossa pele fica tão feia, tão flácida, mas depois há pessoas que têm a sorte… Não são só as pessoas bonitas, acho que são as pessoas que são bonitas por dentro. A Charlotte Rampling, está linda, é linda. A Pina Bausch, linda. Há pessoas com 90 anos lindas.

Usou a palavra “apaziguada”. Como é que se sente hoje em relação ao envelhecimento? A ideia da finitude é algo que a tranquiliza ou continua a ser um lugar de conflito?
Acho que para já é bastante injusto, mas isso é a condição humana, há muitas coisas injustas e nós temos de continuar, não é? Temos fases em que precisamos de coisas diferentes, em que nos alimentamos de coisas diferentes, e chega uma altura em que precisamos de mais tranquilidade, por exemplo, de outro tipo de música, fazemos outro tipo de descobertas, descobrimos outro tipo de pessoas, outro tipo de leitura, outro tipo de música. Quer dizer que estamos vivos e que estamos alerta e interessados ainda. A sabedoria está em saber escolher o alimento certo: se preciso de vitamina D vou buscar vitamina D, se não tiver sol, eu tomo vitamina D em cápsulas [risos]. Isto não é uma receita, mas foi talvez uma forma prática e pragmática de não sofrer todos os dias muito, porque passei uma fase em que sofri muito, nos 50 e tais. Depois de repente quando fiz 60 achei graça. Lá está, não sei se estou apaziguada… Se voltava atrás? Ai, claro que voltava. Aos 20 não. Voltava aos 30, 30 e tais.

Foi a melhor altura da sua vida?
Acho que é uma altura em que as mulheres se sentem fortes, já fizeram alguma coisa, sentem-se capazes, sentem-se atraentes. Foi uma altura em que era muito ativa, era muito interessada a todos os níveis e isso fazia de mim uma pessoa com mais brilho e atraía pessoas assim também. Dava-me aqui nesta pequena Lisboa com a creme de la creme, com os melhores escritores, com os melhores pintores, com os melhores não sei o quê, vivia maravilhada, tinha uma sorte, uma grande sorte.

Estava a rever uma entrevista sua dessa altura, 1996, no programa Falatório. O jornalista Pedro Rolo Duarte termina a entrevista perguntando-lhe: “tem a sua filha, volta ao teatro, que é a sua paixão, não deixou de fazer televisão, vive com o homem de que gosta. É o pleno da felicidade?”. E a Alexandra responde: “Tenho obrigação de ser muito bem comportada porque sou uma privilegiada”. Acha que foi bem-comportada?
Acho, acho que às vezes até fui bem comportada de mais, embora a imagem que as pessoas têm de mim não seja essa, tenho noção disso. E tenho pena, às vezes, tenho pena, mas não posso andar a explicar a toda a gente: olha, não é bem assim, vou explicar… Mas fui um bocadinho arrogante numa coisa: fui arrogante no amor. Achei que seria possível manter uma família com todas as tradições familiares e ser atriz, ao mesmo tempo, com os deshorários e com os desarranjos emocionais que esta profissão implica.

E isso não é possível?
Acho que só é possível se fosse uma pessoa mais calma, menos ansiosa. Pensei que com a idade ia tornar-me uma pessoa mais calma e menos ansiosa, e não, continuo, não sou nada calma, sou nervosa, sou ansiosa, sou uma pessoa que se enerva com facilidade, que ferve em pouca água, às vezes dou-me é menos menos importância. Aprendi muito a não pesar sobre os outros. Porque há uma altura em que a pessoa explode e não percebe, às vezes pode-se tornar uma pessoa tóxica. Isso aprendi, acho que foi uma lição. O Diogo, por exemplo, é uma pessoa extremamente comedida e extremamente introvertida em alguns assuntos. Ele sempre me disse: tu falas de mais, tu falas de mais, falas de ti própria e da tua intimidade, tens uma necessidade que as pessoas gostem de ti, tens necessidade de ser amada, tens medo que as pessoas não gostem de ti, tens medo de rejeição.

"Fui um bocadinho arrogante numa coisa. Fui arrogante no amor, achei que seria possível manter uma família com todas as tradições familiares e ser atriz ao mesmo tempo, com os deshorários e com os desarranjos emocionais que esta profissão implica."

Não é transversal aos atores, não têm todos o desejo de serem amados?
Sim, temos, mas não é preciso andar a contar, às vezes, certas coisas. Para quê? Aprendi a poupar-me e a poupar as outras pessoas, e acho que isso é um caminho bastante inteligente, devia ter começado antes. E devia ter-me comportado pior, um bocadinho [risos].

Disse que sempre achou que toda a gente era melhor do que a Alexandra. Ainda acha isso?
Não, acho que há pessoas horríveis. Falo das boas pessoas, e dentro das boas pessoas, sim, normalmente acho que sou a pior, mas vou à corrida. É a história da corrida na ponte: posso ficar em último lugar, podem correr todos mais depressa e aguentar, mas eu vou na mesma. Talvez não me tivesse explicado bem, mas não incluí aí as pessoas terríveis, nem vou agora também estar a mencionar os nomes das pessoas que nos assustam. E neste momento temos vários papões…

Quer revelar um sentido de voto?
Eu? Acho que as pessoas têm de ter muita calma, muita calma, e pensar muito bem. Acho que já tem a resposta.

Falou de corrida. O que é que ainda a faz correr, o que é que ainda procura?
[comove-se] O que é que eu posso procurar? Neste momento posso procurar ter um final de vida digno, um final de carreira digno, que as minhas filhas estejam bem. Adorava ser avó, mas a mais velha não quer ter, a outra talvez, mas se calhar já não vou ser uma avó muito jovem, se calhar vou ser uma avó velhota ou já vou estar morta, não sei…

Tenho pena de não ter mais sonhos, de não ter corrido atrás de mais sonhos, mas aí posso dizer que sou um bocadinho cobarde. Por exemplo, tenho medo de viajar, não gosto de viajar. E dá-se um fenómeno muito estranho que é quando chego ao local, ao destino, normalmente numa viagem de trabalho, não quero voltar, e quero levar os meus entes queridos para ao pé de mim, quero recomeçar a vida nesse sítio. Há qualquer coisa de nómada dentro de mim, mas ao mesmo tempo sou cobarde, tenho que admitir. Há uma certa cobardia, fico acomodada, se tenho uma casa confortável, e se as pessoas me sentem confortáveis ali… Isto é um erro, atenção, mas vivo muito através do reflexo que os outros emanam. Se as pessoas me transmitem uma determinada aprovação, se dizem: ai, que bem que se está aqui, ai, a tua sala tem esta luz maravilhosa ao final da tarde, há uma espécie de aprovação. Sinto-me mais feliz porque as pessoas de quem eu gosto estão mais felizes. Tenho essa necessidade de cuidar e de tornar as outras pessoas mais felizes. Não é uma obrigação, mas é um dever, é um dever que eu preciso, é uma coisa que sinto que preciso sempre, que sem isso eu não sou eu e não sou inteira.

E porque chama a isso cobardia?
Não, cobardia no sentido de não ter nunca embarcado numa grande aventura e ter ido viajar ou estar sozinha, por exemplo.

O que é que a impede? 
Eu. Eu autoboicoto-me. Arranjo sempre um drama qualquer, não consigo ir.

Vê-se a representar até ao fim?
Sim. Às vezes vejo-me a morrer em cena. Passo a vida a dizer: meninos, atenção, se me acontecer qualquer coisa, por amor de Deus, não chamem a ambulância nem os bombeiros porque eu não quero ir para o hospital, quero ir para não sei onde, conheço não sei quem e, se eu ainda for viva, pode ser que me salvem.

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