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De um lado, uma humorista cuja sátira está a ser acusada de ter ultrapassado os limites do humor. Do outro, a dupla pop que se queixa de ter sofrido danos financeiros e não patrimoniais. Estão em tribunal e esta segunda-feira protagonizam a terceira sessão de um dos mais mediáticos casos judiciais dos últimos anos em Portugal. Recordamos tudo o que já se sabe e apontamos o que falta saber sobre o processo que opõe os Anjos a Joana Marques.
Quem são os Anjos?
Sérgio e Nélson Rosado — de 45 e 49 anos, respetivamente — são os irmãos que compõem os Anjos, dupla pop que despontou no final dos anos 90 e que se tornou num reconhecido nome da música popular nacional cantada em português. Depois de uma infância ligada à música, de participações vitoriosas em concursos de talentos e de uma passagem breve pela boyband Sétimo Céu, os dois optaram por uma carreira em dupla com o nome Anjos, já que era a alcunha que uma das suas avós usava para tratá-los.
Lançado em 1999, Ficarei, o álbum de estreia, foi tripla platina, à boleia de êxitos como a faixa-título, Quero Voltar, Perdoa e Nesta Noite Branca. Após o disco seguinte, Espelho, de 2001, tomam a decisão de rescindir contrato com a editora NZ Produções e fundar a própria produtora, a Angel Minds, também envolvida neste processo contra Joana Marques.
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Entre os destaques da carreira dos Anjos constam a gravação de todos os temas da novela Vingança, da SIC, em 2007, a participação como jurados nos programas televisivos Família Super Star (do mesmo canal) e a edição inaugural do The Voice, na RTP1, e a fundação de uma academia de música com o nome do grupo na Arrentela, no Seixal.
Além das canções acima mencionadas, têm como êxitos temas como A Vida Faz-me Bem, Num Fio de Céu e Virar a Página. O mais recente álbum de originais, Longe, data de 2017, mas desde então têm lançado singles em colaboração com artistas como Diogo Piçarra, Calema e Nuno Ribeiro. No final de 2024, assinalaram 25 anos de carreira com um espetáculo acompanhado de orquestra na MEO Arena, em Lisboa, em colaboração com com as bandas sinfónicas da Guarda Nacional Republicana e da Polícia de Segurança Pública. Desde então, têm dado concertos pelo país a celebrar um quarto de século em atividade.
TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR
Quem é Joana Marques?
Guionista de formação e humorista por vocação, Joana Marques, de 39 anos, ficou conhecida do grande público enquanto personalidade televisiva, mas, acima de tudo, como locutora de uma das rubricas de rádio mais populares do país, o Extremamente Desagradável.
Filha do historiador e escritor João Pedro Marques, formou-se em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A carreira em guionismo levou-a a escrever para programas como 5 Para a Meia Noite antes de se estrear enquanto personalidade televisiva com Altos e Baixos, em 2012, no Canal Q, ao lado do humorista Daniel Leitão — com quem casaria e teria dois filhos.
A par da atividade como guionista, Joana Marques começou nesse mesmo ano a trabalhar na rádio Antena 3, conduzindo com Ana Galvão o programa As Donas da Casa e sendo responsável pelas rubricas de humor +/- 2 Minutos e Extremamente Desagradável — esta segunda resultou na sua explosão de popularidade, fazendo uso de conteúdos mediáticos, de entrevistas a publicações nas redes sociais, para pequenos episódios de análise e sátira.
Em 2019, trocou a Antena 3 pela Rádio Renascença, reencontrando Ana Galvão e passando a trabalhar também com Carla Prata e depois Inês Lopes Gonçalves em As Três da Manhã, programa que desde então se tornou um fenómeno de audiência — apoiado, em parte, por Joana Marques ter trazido consigo o formato e a marca do Extremamente Desagradável.
Além de ter feito parte da equipa de jurados do programa Ídolos, em 2022, Joana Marques integra a equipa de autores do programa de sátira política Isto é Gozar com Quem Trabalha, de Ricardo Araújo Pereira, na SIC. É ainda autora de vários livros, como Vai Correr Tudo Mal (2019), Apontar é Feio (2022) e Elefante na Sala (2024) — tratando-se este último de uma coletânea de crónicas que assinou na revista Visão entre 2022 e 2023. No ano passado, apresentou o espetáculo humorístico Desconfia em Lisboa e no Porto.
Teresa Dias Costa/Observador
Que caso é este?
O caso remete para 24 de abril de 2022, quando os Anjos foram convidados a cantar o hino nacional antes de uma prova do MotoGP no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. No dia seguinte, Joana Marques publicou no Instagram um vídeo satírico onde surge uma montagem que intercala momentos dessa atuação — marcada, de resto, por problemas técnicos — com reações do júri da edição de 2022 do programa Ídolos, do qual fez parte.
Publicado com a legenda “Será que foi para isto que se fez o 25 de Abril?”, o vídeo tem como propósito humorístico dar a entender que foi uma má prestação da dupla de cantores, terminando com outro dos jurados do Ídolos, Tatanka, a dizer “entraste ali num campo muito delicado, que é assassinar uma música destas e eu tive de mandar parar”.
Pouco mais de dois anos depois, a revista TV Mais noticiou em junho de 2024 que Sérgio e Nélson Rosado tinham dado entrada com um processo no Juízo Central Cível de Lisboa contra Joana Marques, exigindo uma indemnização de um milhão e 118 mil euros. À época, Nélson Rosado afirmou a essa mesma publicação que a dupla quis recorrer à justiça devido ao “impacto altamente lesivo” do vídeo publicado pela humorista, alegando-se perdas financeiras e danos reputacionais.
De acordo com Timi Montalvão, produtora da banda, a primeira opção dos irmãos Rosado passou por várias tentativas infrutíferas de contactar Joana Marques para apagar o vídeo, tanto por contacto informal como através de carta registada. “Foram feitas várias tentativas de contacto logo na altura, em 2022, muito antes da formalização da queixa”, afirmou ao Observador. Além da dupla, estão também envolvidas no processo duas empresas: a já referida Angel Minds e a Senhores do Ar II, fundada pelos irmãos para gerir a marcação e produção de concertos.
Depois da incapacidade de chegar à fala com a radialista da Renascença, o caso judicial ainda podia ter sido evitado, mas as partes envolvidas também não chegaram a acordo na audiência prévia que decorreu a 12 de março. Segundo a juíza responsável pelo caso, “a possibilidade de acordo saiu gorada” pelo que as audiências do processo ocorreriam em julho.
À partida, era sabido que os irmãos Rosado iriam depor, tal como as testemunhas arroladas por ambas as partes — a incógnita era se a própria Joana Marques também iria falar em tribunal, o que não aconteceu até agora. A primeira sessão, decorrida a 17 de junho, foi dedicada em exclusivo aos queixosos e a segunda, no dia 18, às testemunhas que chamaram.
Quem são as advogadas?
Os irmãos Sérgio e Nelson Rosado e as sociedades Angel Minds e Senhores do Ar II são representados neste processo por duas advogadas: Luciana Rosa de Oliveira e Natália Luís. Formadas na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 2004 e 2005, respetivamente, são amigas há muito tempo e possuem ambas escritório próprio de advocacia, mais concretamente em Alcobaça e nas Caldas da Rainha.
Natália Luís abriu o seu escritório logo após o estágio de admissão para a Ordem dos Advogados e tem exercido em nome individual desde então, nomeadamente na área criminal, com vários processos relacionados com tráfico de droga. Chegou a este caso dos Anjos versus Joana Marques através da colega Luciana Rosa de Oliveira, que é amiga e advogada de Nelson e Sérgio Rosado há mais de uma década.
Ao contrário da colega, Luciana Rosa de Oliveira passou por outras experiências profissionais além do escritório em nome individual. No seu percurso constam passagens por outras sociedades de advogados (PRA, SCA Global e MSB & Associados), bem como o exercício de funções como jurista no Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ) e no Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) ou a coordenação do departamento jurídico de um grupo empresarial. Embora mais vocacionada para a área cível, teve no processo do cartel dos camiões, que decorreu no Tribunal da Concorrência, em Santarém, o seu caso mais mediático.
“O Sérgio e Nelson são meus amigos e clientes há já uns 10 anos. Fui eu que iniciei este processo e já tinha a petição inicial praticamente feita quando pedi a colaboração da Natália, porque entendi que, dada a complexidade do processo, seria melhor ter duas pessoas”, conta ao Observador a advogada, que se assume como fã dos Anjos “desde sempre” e que diz ter acompanhado “o sofrimento” dos dois irmãos após o vídeo partilhado pela humorista no Instagram.
“Que eles tenham justiça. Vi o Nelson e o Sérgio como nunca os tinha visto. Lidei e presenciei estes momentos muito difíceis na parte pessoal e na parte profissional da vida deles, tudo isto por causa de um vídeo que a Joana Marques manipulou. Não pode passar impune. Estas pessoas com grande expressão mediática também devem fazer uma avaliação prévia se vão causar dano. O que está em causa não é a liberdade de expressão, mas a manipulação de um vídeo. É aqui que está o dano, eles não têm qualquer pretensão de limitar a liberdade de expressão”, resume.
Do outro lado, a representar Joana Marques, está a advogada Elsa Seara. A mandatária da humorista licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e tem uma carreira de mais de 20 anos na prática da advocacia. Atualmente integra o escritório Sousa Ferro & Associados, onde é associada sénior e trabalha desde 2022. O Observador contactou o escritório, mas não foi possível chegar à fala com a advogada em tempo útil para este artigo.
A sua experiência profissional como advogada começou ao serviço de uma grande empresa de construção e em 2005 passou a integrar a sociedade de advogados J.A.P.R. (agora designada como Pinto Ribeiro Advogados). Aqui esteve à frente do departamento de contencioso, especializando-se nesta área jurídica e na arbitragem, além de colaborar com o departamento das áreas de societário, M&A (“mergers and acquisitions”, ou seja, fusões e aquisições) e Venture Capital (capital de risco).
Apesar de ter maior experiência na área de contencioso societário e comercial ligada, sobretudo, a disputas bancárias ou insolvências, Elsa Seara aqui enfrenta um processo cível com caraterísticas muito distintas, mas que será também o seu processo nacional mais mediático.
Quem é a juíza do caso?
Com quase 30 anos de carreira na magistratura judicial, Francisca Preto ocupa o lugar de Juiz 7 no Juízo Central Cível de Lisboa e é das suas mãos que irá sair a sentença de um dos casos mais mediáticos nos tribunais portugueses em 2025. No entanto, apesar de não ser comum haver processos cíveis muito mediáticos em Portugal, este não é o primeiro caso desta magistrada a chamar a atenção do público.
Em maio de 2021, Francisca Preto ganhou destaque por condenar André Ventura pelas “ofensas ao direito à honra e ao direito de imagem” da família Coxi. O caso surgiu depois de o presidente do Chega se ter referido — num debate na televisão para as eleições presidenciais de 2021 — aos sete elementos que posaram para uma foto com Marcelo Rebelo de Sousa no Bairro da Jamaica, no Seixal, como “bandidos”.
Então, a juíza de direito condenou o líder do Chega (e o partido) a apresentarem um pedido de desculpa “escrita ou oral”, numa “retratação pública” que teria de ser divulgada nos meios de comunicação que tinham transmitido os comentários de Ventura. “O que é essencial é o caráter ilícito das declarações com referência à fotografia que foi exibida e a ofensa aos direitos de personalidade”, referiu a magistrada na decisão desse julgamento.
Caso tal não fosse feito após a decisão transitar em julgado, haveria uma multa de 500 euros para pagar por cada dia de atraso. André Ventura só acabaria por se desculpar em outubro desse ano, já após o Tribunal da Relação de Lisboa ter recusado a apelação do político (e jurista) e confirmado a sentença. “Apenas peço desculpa porque os tribunais assim me obrigaram. Em momento algum considerei a possibilidade de isto poder acontecer, mas aconteceu, e a outra hipótese era levar o partido para um abismo jurídico e financeiro. Faço essa retratação pública violentamente contra a minha consciência”, admitiu, então, o presidente do Chega.
Ao Observador, uma fonte judicial que conhece bem a magistrada não lhe poupa elogios, mesmo reconhecendo-lhe algum ‘azar’ com o mediatismo. “Tem tido karma a esse nível, tem calhado com processos mediáticos, mas em todos eles tem sido segura. É uma juíza que não gosta de palco e se mantém no recato”, conta.
Sublinhando que Francisca Preto “só não está nos tribunais superiores porque não se terá candidatado”, uma vez que “não tem qualquer impedimento em termos de qualidade”, a mesma fonte evidencia a capacidade da juíza de 58 anos e natural do Alentejo: “É uma pessoa muito experiente, sabedora em matéria de cível e muito boa no trato pessoal. É uma boa juíza”.
O retrato é condizente com o relatório da inspeção ordinária pela Secção de Assuntos Inspetivos e Disciplinares do Conselho Superior da Magistratura, que, relativamente ao período entre abril de 2017 e janeiro de 2021, avaliou a juíza com a nota “Muito Bom” pelo seu serviço no Juízo Local Cível de Lisboa.
Francisca Preto iniciou o seu percurso nos tribunais portugueses em julho de 1997 no Tribunal Judicial de Vila Franca de Xira, mas no ano seguinte foi colocada como efetiva em Torre de Moncorvo. Permanece no distrito de Bragança por dois anos até que em 2000 se muda para o tribunal da comarca de Alcanena (distrito de Santarém). Cumpre novo ciclo de dois anos e obtém nova colocação, desta feita no tribunal cível do Seixal, em 2002, onde acabaria por permanecer 11 anos. Só em 2013 é que fica, finalmente, colocada no tribunal cível de Lisboa — primeiro na instância local cível e só depois de 2022 na instância central cível —, mantendo-se há já 12 anos nesta área do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa.
O que disseram os Anjos?
Um dos argumentos centrais da dupla é de que o vídeo publicado por Joana Marques foi editado para aumentar o potencial cómico, o que no entender dos queixosos foi uma forma de manipulação que “não transparece aquilo que aconteceu”. “Há uma respiração que é cortada e torna o vídeo um pouco mais hilariante”, afirmou, por exemplo, Sérgio Rosado. Para demonstrá-lo, os Anjos pediram para emitir no tribunal uma versão da atuação gravada pela sua produtora, Timi Montalvão, fazendo questão de ressalvar, por exemplo, que também aquele vídeo não dava totalmente conta do que se passou por haver “eco” no autódromo.
O grosso da argumentação dos dois irmãos, porém, centrou-se nos efeitos nefastos da publicação do vídeo, com Nelson Rosado a afirmar que a banda ainda está “a pagar essa fatura”. Segundo a dupla, não só têm sido continuamente alvo de cyberbullying — sendo, por exemplo, acusados de se enganar a cantar o hino devido à sua pronúncia da palavra “egrégios” —, como receberam “ameaças de grupos nacionalistas”, sentindo-se obrigados “a contratar segurança privada para estar à paisana no meio do público” durante os concertos”. Nenhum dos dois, porém, explicitou o conteúdo dessas ameaças.
Em virtude destas circunstâncias, ambos afirmam que sofreram sequelas psicológicas e físicas: Nélson afirmou que passou algum tempo sem conseguir dormir e que precisou de recorrer a medicação clínica e Sérgio, além de sentir-se atacado na sua saúde mental, também diz ter tido “uma crise de acne” resultante do stress causado pelo caso. “Felizmente tenho a barba crescida para poder tapar as marcas”, afirmou.
Além daquilo que afirmam ser “consequências na saúde”, os Anjos queixam-se também de ter sofrido danos patrimoniais devido à publicação do vídeo, alegando que pelo menos 11 concertos foram cancelados, assim como patrocínios e contratos de publicidade — inclusive uma campanha com a agência de viagens Abreu. “As pessoas não se querem associar a uma banda que tem uma polémica”, atirou Sérgio Rosado.
A este respeito, o pai dos dois irmãos, Manuel Rosado, ali presente na qualidade de representante da sociedade Angel Minds, foi instado a explicar quantitativamente como é que a banda foi afetada a nível financeiro pela difusão do vídeo. O depoente não soube responder a estas questões, tendo a juíza dado por terminado o seu depoimento em cerca de 10 minutos.
Uma última linha de argumentação utilizada pelos queixosos centrou-se no caráter atentatório do vídeo, com Nélson Rosado a defender que “para se fazer bom humor não é preciso falar mal de ninguém” e que, mesmo afirmando-se como defensor da liberdade de expressão, considera que esta termina “a partir do momento em que causa dano”. O mesmo acusou ainda a ré de utilizar aquele vídeo em espetáculos ao vivo após a publicação no Instagram, frisando acreditar que esta “não tivesse a noção do que aquilo [vídeo] poderia ter causado”.
Da parte de Sérgio Rosado, foi protagonista de um dos momentos mais inusitados desta primeira sessão ao afirmar-se um grande fã de humor — “enquanto me fizer rir, é o humor perfeito”, disse — e lembrando que uma vez contou uma “anedota sobre um invisual” quando tinha “um invisual no concerto”. Na sua interpretação, contudo, ao contrário do que fez Joana Marques com a publicação do vídeo, ele não causou “danos nessa pessoa”. O mesmo queixoso disse ainda que chegou a ser fã dos conteúdos da ré quando se encontrava a trabalhar no Canal Q. No entanto, a advogada da humorista fez questão de recordar que esse programa, Altos e Baixos, tinha uma fórmula semelhante ao que ela fez com o vídeo da atuação dos Anjos, em que “fazia piada com os vídeos”.
O que disseram as testemunhas?
A segunda sessão foi inteiramente marcada pelos depoimentos das testemunhas de Nélson e Sérgio Rosado, parte delas para emitir “pareceres técnicos” sobre os problemas na transmissão da atuação dos Anjos e analisar a qualidade da sua interpretação do hino nacional e outra parte para atestar os danos psicológicos e financeiros sofridos com a publicação do vídeo.
A primeira testemunha foi o maestro Nuno Feist, que defendeu que os Anjos não desafinaram na atuação no Moto GP, culpando antes a equipa técnica responsável por fazer o som desta performance. “Se o som tivesse estado a 100% isto nunca teria acontecido, porque eles não estiveram mal”, observou. “Isto não são os Anjos que eu conheço”, acrescentou, considerando que a forma como foram representados em vídeo foi diferente de estar in loco a vê-los cantar.
Seguiu-se Sérgio Antunes, diretor técnico da empresa Media Pro International, que caracterizou a transmissão da atuação como “desastrosa ao nível técnico”. “A mistura é muito pouco musical, harmónica, não faz nenhum sentido. Já para não dizer que houve erros de broadcast mesmo, um delay que houve, um loop que é bastante audível”, considerou, apontando que o vídeo partilhado foi “claramente montado para atingir um fim”, o da “ridicularização”
Por fim, o último especialista convocado foi João Pedro Ferreira, editor de imagem da TVI, que reforçou a tese de que as imagens do vídeo foram manipuladas, existindo cortes em “sítios planeados, estratégicos para causar ainda mais impacto à situação”. “Inserir imagens fora do contexto causa dano, neste caso foi o que aconteceu”, afirmou.
Seguiram-se então os depoimentos de três gerentes de empresas que admitem ter cancelado contratos de patrocínio com os Anjos devido à controvérsia gerada pelo vídeo, considerando que a imagem pública da dupla ficou comprometida. O primeiro foi Pedro Miguel Ferreira Duque, gestor de uma empresa que não foi identificada, mas que tinha celebrado um contrato em 2022 onde pagaria 35 mil euros (mais IVA) à banda, “além de todo o material” que seria dado para a promoção. Segundo o próprio, esse acordo foi cancelado a 9 de maio — ou seja, já depois da difusão do vídeo — porque “cada um de nós tem o nosso próprio negócio e o que não quer é má publicidade e polémica”.
Outro dos empresários, Bruno Carvalho, disse que firmou um contrato com a Angel Minds para celebrar um patrocínio de cerca de 75 mil euros por dois anos (+IVA) com o grupo, mas também ele terminou-o ao ser “confrontado” com o vídeo e apercebendo-se que não podia “estar no meio disto”. Tomando conta do que se estava a passar, disse que ligou a Nélson Rosado e disse ““Não me leves a mal, mas, com tudo isto que está a acontecer, tenho de olhar para o que pode sobrar para a minha empresa”.
A última das figuras presentes com quem os irmãos Rosado tinham feito negócio foi Luís Ramos, que gere uma empresa de produtos farmacêuticos. Esta tinha contratado os Anjos para realizarem um concerto privado para esta firma, assegurando também “parte técnica, luz e deslocações”, no valor de 85 mil euros (+IVA) por um período de dois anos. A escolha nesta banda, admite, foi em parte devido ao facto de estar “associada a ações de solidariedade”, em particular “contra o cancro da mama”. No entanto, ficaram “alarmados” com o vídeo e cancelaram tudo. “Achámos internamente que não fazia sentido para a nossa empresa ficar associada a esta polémica que estava a existir”, concluiu.
O rol final de testemunhas chamadas a depor foram pessoas próximas à banda, procurando-se assim demonstrar o impacto que o caso teve nas suas vidas íntimas. Uma delas é a já referida Timi Montalvão, que trabalha com o grupo há mais de 20 anos e que chegou mesmo a emocionar-se, referindo-se aos Anjos como “nós” porque “os Anjos somos todos nós, somos todos uma equipa, uma família. Somos 28 pessoas, 28 famílias, que trabalhamos juntos e vivemos juntos na estrada.” A produtora descreveu o momento em que o “vídeo completamente manipulado” foi publicado, afirmando que, na altura, achavam que ia ser algo passageiro. No entanto, ao aperceber-se das proporções que a sua divulgação estava a tomar, tentou “repor a verdade” ao partilhar online o mesmo vídeo que foi exibido na primeira sessão, mas não resultou porque “uma coisa boa nunca consegue superar uma coisa má”, notou. “O vídeo continuou a onda de ódio”, classificou, revelando que ela própria recebeu mensagens privadas a assediá-la.
Num dos depoimentos mais veementes do caso até agora, a produtora acusou Joana Marques de prejudicar a banda e a sua equipa de propósito, de continuar a alimentar “o bullying digital” e de ser responsável pelos Anjos terem “cerca de metade” do número de concertos que antes tinham marcados por ano. Mais do que isso, Montalvão diz que a humorista “adora humilhar pessoas” e que teve “conhecimento de publicações da Joana humilhar pessoas doentes, a humilhar pessoas deficientes”. Instada a dar exemplos, porém, disse que não conseguia precisá-los, fazendo ainda a ressalva de que “o humor não pode tudo”.
As duas últimas testemunhas foram as esposas de Nélson e Sérgio Rosado, Sílvia e Andreia Rosado, respetivamente. A primeira afirmou que o vídeo teve o “propósito de gerar sangue e de ter visualizações” e que teve de explicar aos filhos, de 10 e 15 anos, que o fenómeno teve efeitos no pai. A esse propósito, Sílvia comenta que teve de começar a ajudá-lo a adormecer por meio de uma “oração”, lamentando ainda que a filha do casal, de 15 anos, fosse incapaz de ignorar a polémica. “Digo-lhe para ela não comentar, mas é impossível, ela tem redes sociais”, apontou. Já no caso de Andreia, mostrou-se visivelmente emocionada, argumentando que “não vale tudo independentemente da profissão das pessoas” e que deram-se “coisas graves que só não aconteceram porque temos uma família incrível”, não especificando, porém, que coisas seriam essas.
TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR
O que se espera da terceira sessão?
Na terceira sessão, marcada para esta segunda-feira, 30 de junho, pelas 9h30, ainda não é certo que Joana Marques deponha em tribunal. No entanto, deverá contar com quatro testemunhas requeridas pela própria. Entre elas é esperado que constem o humorista Ricardo Araújo Pereira e o radialista Fernando Alvim, mas a lista final não é conhecida.
Não sendo possível prever a substância do que as testemunhas arroladas pela ré vão afirmar, Ricardo Araújo Pereira já se pronunciou publicamente em mais do que uma ocasião quanto ao caso. Convidado a participar no programa Contra-Corrente, na rádio Observador, afirmou que “sentar uma piada no banco dos réus é uma ideia bizarra”, até porque “não tem potência suficiente para causar dano substancial”. A este respeito, invocou o conceito jurídico de animus iocandi — a ideia de que se uma ideia for expressa com intenção de fazer humor ou dita em tom sarcástico ou irónico, então não tem “intenção difamatória”. “É muito parecido com julgar o Batatinha porque a flor que tem na lapela esguichou água para o olho do espectador”, exemplificou.
No entender de Araújo Pereira, não existe fundamento legal para condenar Joana Marques, já que “têm de provar que a Joana praticou um ato ilícito. (…) No vídeo ela não lhes imputa factos falsos. Não é possível considerar aquilo ilícito”. Quanto às acusações de que o vídeo está editado de forma manipuladora, explica que essa é apenas a “natureza do trabalho humorístico”. Por fim, considera “bastante alarmante” se a acusada tiver de pagar qualquer que seja o valor de indemnização. “Não só para a minha profissão, mas para qualquer pessoa que queira articular a ideia ‘não gostei muito desta atuação’”, salientou.