Antonio Prata. Cronista antes de nascer

10 Setembro 2016

“Meio Intelectual, Meio de Esquerda” é o título do livro do brasileiro António Prata publicado pela Tinta da China. Nuno Costa Santos falou com o "homem de um português "económico, ritmado e dançado".

“A minha relação com a escrita começou antes de eu nascer”. Uma entrada à cronista, esta de Antonio Prata, autor de Meio Intelectual, Meio de Esquerda, editado na colecção Outono/Inverno da Tinta da China.

“Meu pai é escritor. Publicou vários livros, escreveu telenovelas, roteiros de filmes, que vocês aí chamam de guiões, e foi cronista do jornal O Estado de São Paulo por muitos anos. Hoje ele escreve policiais. Minha mãe era jornalista quando eu nasci, mas depois largou o jornalismo e virou dramaturga e roteirista, também. Ou seja, eu meio que não tinha opção”. Já se percebeu que “meio” é uma palavra com a qual Prata convive bem.

meio intelectual meio de squerda

“Meio Intelectual Meio de Esquerda”, de Antonio Prata (Tinta da China)

É seu hábito dizer que teve uma “educação hippie” muito rígida. “Meus pais me levavam pra ver ‘Hair’ ainda criança de colo, me obrigavam a pintar as paredes de casa com tinta, me punham em escolinhas construtivistas onde sentávamos todos em roda, no chão, batucando em cumbucas de madeira, de modo que, para agradá-los, acabei escritor.”

Faz uma travagem para se questionar: “Mas quem sabe, com mais alguns anos de análise, eu não me liberte da opressão libertária e me dedique às minhas paixões mais profundas e verdadeiras? Contabilidade, quem sabe?” Por enquanto, além de cronista, é, para ganhar a vida, argumentista da Rede Globo.

O título do livro foi sacado ao texto “Bar Ruim é Lindo, Bicho”, um tratado da arte de bem cronicar, desabafo com o leitor no qual o escriba se encaixa ironicamente numa categoria de pessoas que procura o “Brasil autêntico” nos bares, para além das revistas da moda, que quer fazer amizade com o “garçom” e pede cachaças, frangos à passarinho e carne de sol para inspirar conversas sobre arte.

“Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins.” A gente conhece-os aqui, em Portugal, frequentadores de tascas, bebedores de CRF, alérgicos à palavra gourmet. Prata especula à distância: “A diferença é que o bar meio ruim daí deve estar aberto há duzentos anos na mesma esquina e servir sardinhas sensacionais com um vinho verde incrível. Os daqui exibem orgulhosos uma plaquinha ‘Since 1997’ e servem quibe com ketchup e cerveja ruim”.

O país da crónica

Que o Brasil é o país da crónica já o sabíamos – tanto quanto Portugal é o país do solene artigo de opinião. O jornalista José do Carmo Francisco, que muito evoca nos seus escritos cronistas portugueses, numa tentativa de valorizar o género por cá, comenta: “Tenho dois tesouros da crónica do século XIX e do século XX, de Ernesto Rodrigues e Fernando Venâncio. Só de enumerar os nomes do índice do século XX é um arrepio: Mayer Garção, Rocha Martins, Carlos Malheiro Dias, João de Barros, Brito Camacho, João Chagas, Norberto de Araújo, José Régio, Irene Lisboa. E chega. A paixão pela crónica é em mim coisa antiga. Fui
leitor e amigo de Fernando Assis Pacheco, de Luiz Pacheco, de Artur Portela Filho, de Afonso Praça, de Ruben A., sem esquecer Nuno Bragança.”

"Me chamaram pra escrever crónicas para garotas de 13 a 17 anos, numa revista chamada Capricho (eu tinha uns 23). Eu disse que não podia aceitar, pois não sabia nada sobre garotas de 13 a 17 anos e a prova disso era que eu tinha passado dos 13 aos 17 anos tentando convencê-las a me beijarem na boca, com raros episódios de sucesso”
Antonio Prata, escritor

José do Carmo Francisco lembra uma crónica de Mário de Carvalho sobre “as ambições e os limites da crónica num país de analfabetos”. O escritor e académico Fernando Venâncio, organizador de uma antologia de crónica portuguesa, dá uma definição possível: “A crónica de jornal pode ser um comentário à actualidade política, uma proposta de comportamento cívico, uma indignação perante os desvarios deste Mundo. Mas, no seu mais genuíno feitio, a crónica tenta apanhar o quotidiano quando ele é razão para espanto, quando é inesperadamente reconhecível.” E aí temos, no entender de Venâncio, a narração do “caso exemplar, o pormenor gritante em que nunca reparáramos, o cenário óbvio agora posto em questão”.

Com Antonio Prata entramos em contacto com os cronistas brasileiros nascidos na década de 70 e 80 que reinventam com talento o cânone da melhor prosa curta e leve. Nota-se que o autor leu pontas de lança da arte em português do Brasil mas que tem uma voz sua e uma bagagem variada: “Cronistas que me influenciam: Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes. Mas acho que as influências são de todas as áreas. Monty Python, Woody Allen, Seinfeld, Machado de Assis, Beatles, Fernando Pessoa, Tony Soprano e Kurt Vonnegut, só para citar alguns, me influenciam da mesma forma”.

Pede-se a Ferreira Fernandes, excelentíssimo cronista deste lado, para dissertar sobre a alta crónica daquele lado. A sua glosa sai assim, em espirituosa sintonia: “Se tivéssemos apoio do Estado também fazíamos crónicas boas. Não tão boas, claro, como as do Verissimo, do Rodrigues ou do Braga, isso, além de obrigar a nascer lá, era preciso nascer Luis Fernando, Nelson ou Rubem, e só mesmo aqueles”.

O cronista do Diário de Notícias, que já passeou o seu toque de bola por vários relvados, adiciona outro comentário: “A gente tem ideia de um Brasil deixa andar, mas sobre crónicas é muito bem organizado”. Alega, sem queixas, haver instituições brasileiras que patrocinam a causa. “Lá, investiu-se em ruas brasileiras, são fundações chamadas prefeituras que as fazem. Criaram-se hospitais que obrigam a uma produção regular de brasileiros. E ainda há mil outras fundações, como a patrocinadora de botecos”.

Depois, diz Ferreira Fernandes, põem “os estagiários de cronista” a viver lá dentro, desde a pré-primária. “Nos botecos, ao princípio, só aulas de passagem, mas ouvidos abertos”. Isso cria, nas suas palavras, um ambiente – “como aqueles sofás com música de cascatas que há em Silicon Valley e dão vontade de inventar telemóveis que podem cair na água” – que cria um “ouvir brasileiro” todo o dia “e isso desemboca tudo em boas crónicas”. E, para Fernandes, não são só as crónicas brasileiras a beneficiar de um Plano Nacional de Pôr Gente a Falar Português Imaginativo e Lindo. “Vejam chegar um Wanderley à Portela, ala esquerdo, com cara de cafajeste e corte de cabelo pior, que se exprime como nunca conseguirão um Inácio ou um Diamantino, apesar de tanto prime-time”.

Escrever para as garotas

Saltam muitas referências populares na escrita de Prata. O cinema e a música de salas cheias são convocados para falar das diversas camadas da vida – de “Rocky IV” a “Toy Story”, dos Guns N’ Roses a Michel Teló. E a televisão, a que assiste com frequência e que lhe oferece alguns tópicos para desenvolver. O futebol televisionado, por exemplo, é matéria primeira, não fizesse ele parte de um país em que até até os escritores têm uma selecção. De vez em quando há um grito pelo Corinthians. Nos intervalos, para disfarçar a auto-ironia, vai distribuindo pelo chão alusões a Cortazar, Fellini e Winston Smith (sim, esse, o protagonista de 1984).

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Antonio Prata nasceu em São Paulo em 1977

Desde o final da adolescência, ao experimentar os primeiros contos e crónicas, percebeu que queria ser escritor. Aos 19 anos criou uma revista cultural com amigos e, com naturalidade, começaram a aparecer os livros. “Aí me chamaram pra escrever crónicas para garotas de 13 a 17 anos, numa revista chamada Capricho (eu tinha uns 23). Eu disse que não podia aceitar, pois não sabia nada sobre garotas de 13 a 17 anos e a prova disso era que eu tinha passado dos 13 aos 17 anos tentando convencê-las a me beijarem na boca, com raros episódios de sucesso”. A editora decretou: escreve sobre isso. “E lá fiquei, por oito anos, falando mal da adolescência. Depois me chamaram pra escrever crónicas no Estadão e enfim na Folha, que é onde escrevo todo domingo”.

E que assuntos encontramos em Meio Intelectual, Meio de Esquerda, volume de 246 páginas? A melancolia de quem ficou a saber através de um documentário televisivo que a Lua será engolida pelas chamas solares. Um mini ensaio sobre o guarda-chuva, objecto pertencente ao reino da comédia, outro sobre meias e bicicletas, uma divagação sobre os sapatos do tio Estevão, um manifesto sobre a gostosa, esse “acontecimento literário”, uma ode a uma tenista chamada Svetlana, uma short story sobre uma separação, o lamento pela incompetência para grandes viagens, uma divagação sobre a loja de colchões, onde cabe o pensamento “nada nos é menos íntimo do que intimidade alheia”, um desvario sobre a solidão do homem na hora do “espermograma”, uma cronicaça que abre com uma pergunta inadiável: “Você não acha estranho que existam os outros?”. Ah, e toda uma teoria na primeira pessoa sobre a arte de ser pai de crianças pequenas.

A prosa ora se detém no quotidiano ora em transcendentes sentimentos. Mas o quotidiano é o principal escorrega de Antonio Prata, não fosse ele um destacado adepto da arte de desintelectualizar: “A crónica se concentra mais no comezinho. A meta é tirar leite de pedra, ver o que há de grande , ou cómico, trágico, lírico, melancólico, num alfinete, num botão, numa lista de compras de supermercado”.

O amor — e as dificuldades da vida a dois – é convocado por um motivo biográfico: “Cinco anos atrás eu e minha mulher cometemos o equívoco de nos mudarmos para uma casa fora de São Paulo, isolada de tudo, e cometemos o segundo equívoco de ter dois filhos em três anos. Ou seja, o quotidiano se reduziu um pouco à minha mulher e meus dois filhos. E à Peppa Pig, ao George, à Mamãe Pig e ao Papai Pig (desenhos animados, sim). As crónicas, portanto, se voltaram bastante pra isso”.

Ironia não é cinismo, não

O humor de António Prata tem muita graça e alguma sombra, assume a dúvida, é empático para com as ocorrências e os conflitos, valoriza as coisas que o motivam realmente como apreciar uma “chuleta na brasa” e — importante — nunca é cínico. Aliás, o cinismo é tema da crónica “Trinta e Três”, idade de Cristo durante a qual escreveu a sentença “se ressentimento é fungo, cinismo é ferrugem”.

“Meus pais me levavam pra ver ‘Hair’ ainda criança de colo, me obrigavam a pintar as paredes de casa com tinta, me punham em escolinhas construtivistas onde sentávamos todos em roda, de modo que, para agradá-los, acabei escritor.”
Antonio Prata, escritor

Em entrevista, considera haver uma diferença entre ironia e cinismo. “A ironia é a gente se dobrar para enfrentar e/ou aceitar os pequenos e grandes conflitos da existência. O cinismo é se fechar para eles.” Especula que talvez seja mais charmoso olhar para tudo com humor corrosivo como o de Bogart em “Casablanca”. “Mas já é estar meio morto, não é? Além de que, lembrando do filme, agora, a máscara do Rick cai assim que Ingrid Bergman entra no boteco e descobrimos que toda aquela panca de machão não passava de dor de cotovelo por um rabo de saia.”

Na conversa entra a literatura, a formulação original, a certeira escolha de palavras. O português é económico, ritmado, dançado, resultando em formulações originais como “trocar os sonhos pelo crediário” e “insone fluxo neonatal”. Produzem-se sentenças pitorescas como “acocorar-se diante das camadas sedimentares do passado é repensar a própria vida” e “num mundo dessacralizado, a gente tem que se agarrar ao nosso quinhãozinho de absoluto”. Ou então “há uma diferença nada subtil entre assistir a ‘Paris, Texas’ e estar em ‘Paris, Texas’ – a diferença entre, digamos, uma poltrona e um deserto”. É, se quisermos, o lado meio conservador de Prata – não há nada mais habitual e pouco revolucionário do que uma poltrona. E “um prato bem preparado, um copo de cerveja, um dia de sol”.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

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