Depois de ter esgotado o Coliseu do Porto e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa (este último por duas vezes), lança esta sexta-feira, 18 de abril, o oitavo disco em 13 anos, Entre Nós. Uma Sexta-Feira Santa com novas preces deste rapper de Mem Martins, profissional há uma década, de nome Pedro Bispo, com o apelido como marca. Diz-nos que este novo Entre Nós é a sua Mona Lisa. Trata-se de um disco profundamente íntimo, vulnerável e cru, sobretudo de mágoas e desamor, onde não houve necessidade de colocar filtros. Longe de ser o rapper mais técnico, mas também sem vocação para as rimas de ostentação ou egotrip, a grande força de Bispo sempre foi a ligação mais direta entre microfone e emoções.
Não se confunda isto com canções insípidas sobre histórias de amor vagas, que um qualquer algoritmo de inteligência artificial poderia conseguir replicar. A matéria-prima de Bispo, que tem o sal das periferias, foi sempre a própria vivência. Mais do que nunca, é esta que volta a ser o combustível e a essência dos temas que têm movido multidões e criado um legado junto de uma base de fãs leal.
Um disco íntimo e sem filtros para comunicar com o outro
O álbum foi trabalhado durante pouco mais de um ano nos Estúdios Santa Catarina, na Cruz Quebrada, onde nos encontrámos com Bispo. O rapper tinha sido chamado ali, em novembro de 2023, para gravar a sua parte de Bênção, tema com Mizzy Miles e Van Zee. Depois de criar uma ligação com o técnico de som e responsável pelo estúdio, Pablo, Bispo acabou por adotar aquele espaço para a construção do seu novo disco.
“Além do lado humano, o Pablo é uma máquina, um excelente profissional, alguém que acrescentou muito ao meu projeto”, explica Bispo ao Observador, sublinhando a importância de ter um local disponível, com “muita liberdade e flexibilidade”, para criar de forma fluida consoante o estado de espírito. “Sou muito de ter uma ideia e querer gravá-la já hoje ou amanhã.”
[o vídeo de “Não Dá Pa Parar”, com Papillon:]
Entre Nós foi um disco muito moldado ao vivo, sobretudo de forma presencial, contrastando com a era digital em que vivemos. Os instrumentais foram compostos sobretudo por pessoas que estavam presentes, como é o caso de Fumaxa, velho companheiro de Bispo, que produziu uma série de faixas do álbum. Em linha com aquilo que se tem vindo a tornar a norma no rap português mais profissionalizado, uma série de instrumentistas foram convocados a dar os seus contributos, resultando em canções mais elaboradas, complexas e com várias camadas sonoras.
“Foi muito importante para mim existirem instrumentos, guitarras ou saxofones, que me fizessem libertar as coisas que eu estava a sentir”, explica Bispo. “Não pus filtros. Prezo muito, e agora mais do que nunca, dizermos o que sentimos uns aos outros. O objetivo é ser mais comunicativo e menos silencioso. Porque nunca se sabe o dia de amanhã. Falando de uma música específica, a O Teu Cheiro, antigamente eu não conseguia falar no presente para uma mulher. E isso devia-se ao receio de o que é que ia acontecer amanhã. E isso já é um filtro. Agora não quis valorizar nem priorizar isso. Foi mesmo deixar fluir. Amanhã não sabemos o que vai acontecer, mas hoje estou a sentir e a expressar isto.”
Para Bispo, a música sempre foi terapêutica, como se pode comprovar pelo título do EP de 2014, Bispoterapia. Aliás, usar o rap para desabafar foi como tudo começou ainda em criança.
“Para mim, a música foi sempre terapia. A primeira canção que fiz foi para a minha mãe quando o meu avô morreu, a 9 de dezembro de 2003. Lembro-me de lhe escrever um poema, de tentar rappar, porque ela estava a chorar baba e ranho. E até hoje é isso: os meus lamentos, os meus sentimentos. E agora estava numa fase da vida em que estava mais aberto a falar sobre isto. Muitas vezes não consegui comunicar com uma ou outra pessoa que estava ao meu lado. Mas consegui fazê-lo com um caderno ou com um beat. E sinto que esta é a minha Mona Lisa por causa da minha entrega, de não ter posto filtros, de toda a transparência. Este sou eu, são capítulos do meu livro. Se alguém não gostar, peço desculpa, não quero magoar nem ferir ninguém. Só quero ser eu e ser livre. Entre todos os nós da minha vida, continuo aqui. A corda pode estar cada vez mais gasta, mas sinto que está cada vez mais forte.”
▲ "Vou levar isto para a estrada e levo também uma pessoa nova, porque é assim que estou a olhar para mim”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Embora Bispo rime e cante sobre experiências e sentimentos seus, íntimos e particulares, sente que é um disco que pode reverberar junto do público — porque muitos dos ouvintes já passaram por situações semelhantes ou conseguem transportar aquelas canções para as suas próprias vidas.
“É meu, mas torna-se nosso. Este álbum fala muito sobre ‘eu’ e ‘tu’. O ‘tu’ pode ser a minha mãe, pode ser uma pessoa que feri e perdi. É sobre reconhecer as minhas atitudes, que errei, reconhecer que amo e perdi. É tentar ser melhor. Não que seja uma cena de narcisismo, mas estou a pensar mais em mim. É muito importante pensarmos em nós. Não sei o meu dia de amanhã, estou só a viver, sou uma pessoa com problemas como qualquer outra. E alguns problemas marcam muito e não dá para passares o pano. Porque te ferem e tens de lidar com eles durante muito tempo. Há pessoas que se calhar lidam com o mesmo problema uma vida inteira. Tenho mesmo estes problemas todos, mas vais-me ver a sorrir e a aproveitar a vida também. Porque fiz o Check-In, sem saber para onde vou em concreto, mas estou só a ir. Também é uma coisa que nos liga a todos. Podemos ter objetivos, mas nunca sabemos em concreto o que vai ser, se vai dar certo ou não. Também usei o áudio de um amigo meu para meter no final dessa música, que é a mensagem de que se não viveres o hoje, amanhã não sabes o que vai acontecer, e tanta coisa muda. Há um ano e meio estava a lançar a minha linha de roupa e tinha lá um amigo a comemorar a minha vitória. Agora vou lançar o álbum e ele não vai estar cá, porque faleceu. A vida é mesmo isso e temos de a aproveitar. Quero dizer à minha mãe que vou estar lá para ela, independentemente das coisas do passado. Quero dizer à pessoa de quem gosto que o cheiro dela não sai de mim. E quando comecei a fazer os primeiros sons já tinha a intenção de fazer este tipo de álbum, de fazer sons mais fortes do que aqueles que já tinha feito, de me superar a mim mesmo.”
De Olavo Bilac a uma canção-poema, um álbum construído de forma fluida e espontânea
Entre Nós foi construído de forma espontânea, consoante os impulsos e as emoções a cada momento. “Durante um ano inteiro fui vivendo coisas e escrevendo sobre elas”, conta Bispo. Os sons e as ambiências dos instrumentais ou dos instrumentos tocados foram apelando à escrita e aos sentimentos do rapper, que foi canalizando a sua energia de forma cirúrgica.
“Por exemplo, estava no Porto, após ter participado no concerto no coliseu do Van Zee, e liguei ao Gama para ir ao estúdio dele. Precisava de desabafar. Estava lá o Mateus, o guitarrista dele, precisava que ele me ouvisse. Foram para o estúdio esperar por mim, o Gama estava a duas horas do Porto mas foi lá ter connosco e foi muito bonito. Disse ao Mateus o que estava a sentir, que precisava que ele tocasse algo que tivesse a ver com aquilo, ele começou a tocar umas notas e eu disse que era mesmo aquilo! Há dias em que estou mais feliz, dias em que não estou tanto, então posso usar um beat mais agressivo e outro mais chill para relaxar e isso é que faz sentido.”
Além de Papillon, Chyna, Gama WNTD e do rapper do Gabão Benjamin Epps, radicado em França há vários anos e que Bispo conheceu online, a colaboração mais curiosa neste disco é a de Olavo Bilac. O cantor dos Santos & Pecadores participa em Dimeu, mas também gravou vozes para o single O Teu Cheiro. Foi por volta de 2017 que Bispo teve pela primeira vez a ideia de trabalhar com Olavo Bilac, numa sessão com Fumaxa e os Wet Bed Gang que nunca se chegou a concretizar numa música.
“Estávamos no nosso estúdio, na casa do Fumaxa, e eu comecei a entoar o Fala-me de Amor. Às tantas estava eu, o Fumaxa e o Gson a cantar o refrão. Disse para convidarmos o Olavo Bilac, mas acabou por não acontecer. Passados estes anos, tinha uma música — que não vai sair neste álbum — em que idealizava uma voz rouca, vivida, com experiência, e lembrei-me dele. Mostrou-se logo super disponível e acabámos por criar outra música em estúdio, a Dimeu. Ele tinha perdido a mãe há dois meses, estava frágil, e fizemos um tema para as nossas mães.”
Uma das 16 faixas, Última Pétala, não é uma canção, mas um poema declamado por Bispo sobre uma cama de saxofones erguida pelo músico Samsacion. “Estava aqui no estúdio a fechar o álbum, tinha escrito este poema e disse: vou gravar. O Pablo já me estava a dizer: ‘Bispo, precisas de fechar o álbum!’ E eu: ‘Sim, só mais uma cena, ‘bora’. Gravei, o Samuel tocou por cima da minha voz e gosto muito. Estás a falar sobre amor e perguntas onde é que ele está agora, se me amas, se me queres, onde é que estás, porque preciso de um abraço e de conversar contigo.”
[o vídeo de “O Teu Cheiro”:]
Para o rapper, Entre Nós foi um disco que voltou a despertar “a fome do primeiro álbum”. “Apanhou-me numa fase de transformação, que também englobou os coliseus, e entreguei-me completamente ao projeto. Já tenho tocado algumas músicas nos concertos, as pessoas cantam muito alto, está a correr muito bem. Vou levar isto para a estrada e levo também uma pessoa nova, porque é assim que estou a olhar para mim.”
A consagração e o desejo antigo de atuar nos coliseus
Com poucas semanas de distância entre os concertos nos coliseus e o lançamento de um novo álbum, Bispo não quis misturar as duas coisas. Aliás, só anunciou que vinha aí um novo disco a 1 de abril, após ter feito os três espetáculos nos coliseus de Lisboa e Porto. Os coliseus representavam um momento de consagração, uma retrospetiva do percurso feito até aqui.
Nas duas músicas a que deu o título de Aviola, em homenagem à avó com quem viveu, cantou sentado numa poltrona para evocar a sala da casa da avó. “A minha avó estava na sala, na sua solidão, com o seu copo, a ver televisão. Quis marcar esse momento.” Por outro lado, também construiu um cenário de um quarto para prestar tributo a todos os estúdios caseiros que foram essenciais no seu trajeto. “Simboliza o meu quarto, o quarto do nastyfactor, o quarto do Fumaxa, o sótão do Singa, a casa do Intakto, os sítios por onde passei e gravei os meus discos e músicas.”
O desejo de pisar o palco do Coliseu dos Recreios em nome próprio era antigo. A vontade tinha despontado em 2013, quando Bispo estava na plateia para assistir ao Festival Hip Hop All Stars. “Lembro-me de estar a ver o Regula, com o amigo Rubinho que estava em palco a puxar pelo público. E quando vi aquilo disse a um amigo meu: um dia vou ser eu e tu estarás ali ao lado a puxar pelo público. Já estava a visualizar as pessoas a levantarem o braço quando estivessem a cantar uma música minha e entrasse o refrão.”
▲ “Quero muito que as pessoas que têm seguido o meu caminho oiçam este álbum. Olha, como é que ele está a pensar cinco ou dez anos depois? Como está a vida dele?"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Dois anos depois, chegava pela primeira vez àquele palco, enquanto um dos novatos presentes no Festival Hip Hop Sou Eu, ao lado de nomes como Sam The Kid & Mundo Segundo, Jimmy P, Plutonio, Dillaz, ProfJam, GROGNation e MGDRV. Hoje, uma década depois, seria no mínimo um festival de estádio.
“Aí foi chegar e dizer: estou a um passo de fazer isto acontecer. Pensava eu. Estava a muitos passos e faz parte do processo. Atuar agora nos coliseus foi muito importante porque me reconetou com aquilo que faço. Estava muito desligado, delegava as coisas aos outros e deixava que agarrassem no leme. Por coisas da vida, desleixei-me e deixei-me estar. Os coliseus vieram mudar isso. Ao ver os concertos com que sempre sonhei, agarrei-me a isto outra vez. Isto depende da minha entrega, da minha dedicação, das minhas ideias, da minha cabeça, de mim. E foi magnífico porque estive presente em tudo, estive muito mais envolvido.”
O legado de uma “Mentalidade Free”
Dos estúdios amadores e caseiros às grandes salas de espetáculo do país, a ascensão de Bispo é equiparável à de outros rappers da sua geração. Começou por fazer concertos em pequenas discotecas e nas festas das listas das associações de estudantes das escolas por tuta e meia, até se conseguir profissionalizar após lançar o seu primeiro álbum, Desde a Origem (2015). Bispo tinha estado nas forças armadas, vivia com a avó e não tinha um plano B. Mentalidade Free, um dos seus primeiros êxitos e que daria nome à sua editora pessoal e marca de merchandising, pôs todo um país a entoar o código-postal de 2725, da freguesia de Algueirão-Mem Martins. O instrumental desse single, produzido por Fumaxa, estava perdido num computador estragado. Quando o produtor finalmente o conseguiu ligar, com o objetivo específico de enviar beats para Bispo, só conseguiu enviar um par de batidas. Felizmente, uma delas era a que daria origem a Mentalidade Free.
Os fãs que o acompanham desde aí, aos quais se foram juntando muitos outros desde então, constituem um legado palpável que espalhou raízes de norte a sul do país. “Quero muito que as pessoas que têm seguido o meu caminho oiçam este álbum. Olha, como é que ele está a pensar cinco ou dez anos depois? Como está a vida dele? Há umas semanas, depois do Coliseu do Porto, em modo festejo fui para a rua beber um copo. E encontrei um gajo sozinho na rua a ouvir o meu som Não Tou Sozinho. Eram duas e meia da manhã, a duzentos e tal quilómetros da minha casa, e claro que fui ter com ele e estivemos a cantar os dois. Às vezes não temos bem noção do impacto que temos, mas ele esteve a falar comigo sobre vários sons, como o S2, e é sobre a minha história mas ele ouviu e fez sentido com a dele. E estivemos ali a cantar os dois na rua, eu tinha uma guitarra no carro.”
Embora sublinhe que tem objetivos concretos e “sonhos por realizar” na música, prefere não partilhar as suas ambições artísticas com o mundo. “Gosto de fazer música e gosto cada vez mais de a partilhar, de partilhar momentos com as pessoas. Estar nos coliseus a cantar uma música e ver aquela sala inteira a cantar… É mágico.”