Nenhum artista digno desse nome é o mesmo para duas pessoas. Para este crítico, Bruce Springsteen será sempre o primeiro disco que comprou na vida, depois de juntar suadamente quatro contos dos antigos para aquele Greatest Hits que ia ter de se pagar a cada canção. Alguém que o acompanha há, portanto, 30 anos de tropeções, com o sortilégio de ter escrito canções onde tanto o adolescente como o quarentão encontram onde se acoitar. O “Boss”, que nasceu no mesmo ano, apenas mês e meio antes, que o pai biológico deste vosso. Figura paternal musical. Um dos últimos heróis do panteão pessoal, por dentro e por fora da obra, o artista e o homem.
É impossível, portanto, chegar a este Tracks II sem isso tudo. Mas, de qualquer modo, só chegará mesmo a Tracks II quem já vier com muita bagagem de Springsteen, muitos anos de estradas percorridas ao som de Born to Run ou Thunder Road; quem se sinta, de uma maneira ou de outra, parte da família, da banda, do bando. Isto não é para não iniciados, nem curiosos, muito menos detratores. Quem não gosta nem percebe continuará à porta; os outros agradecerão aos deuses de New Jersey ainda passar, de vez em quando, um destes comboios onde se esconder do ruído de um mundo cada vez mais intrusivo, estridente e feito com pó instantâneo. Colegas, amigos, família, deem-nos 4 horas e 45. Já voltamos.
[o trailer de “Tracks II: The Lost Albums”:]
O subtítulo não deixa dúvidas. The Lost Albums não é “apenas” mais uma coleção de lados B e raridades, como o primeiro Tracks, que tinha o belo Sad Eyes de avanço, já lá vão 27 anos (sim, quando chegámos a essa conclusão, também íamos tendo uma apoplexia); é um conjunto de sete discos, sete álbuns inteiros que Springsteen foi gravando ao longo dos anos e, nalguns casos, deixando totalmente misturados e produzidos, mas que, por uma razão ou por outra, mas, principalmente, por causa do perfeccionismo do homem, acabaram por não ser lançados – até agora. Os fãs mais hardcore reconhecerão muitos temas, de atuações ao vivo e gravações pirata; os outros identificarão, pelo menos, épocas, atmosferas e fases da carreira. Para todos, Tracks II: The Lost Albums será mais uma inacreditável adenda ao conhecimento que julgavam ter já do Boss: como é possível que ainda carregasse mais estas 83 canções escondidas na manga? (e dizem que há ainda muitas mais de onde estas vieram. E álbum novo pronto a sair.)
É uma pena que já não tenhamos a mesma relação física com a música que tínhamos no tempo daquele primeiro disco namorado, planeado, adquirido e, depois, cuidadosamente, desembrulhado, ouvido e estudado, de booklet na mão, até ao infinito. Tracks II está à venda por valores a rondar os 300 euros e é claro que muitos indefetíveis o irão comprar, mas a maior parte de nós já nem tem casa onde caibam coisas destas e ainda o resto da família e a comida do gato; limitamo-nos, portanto, a ser virtualmente esmagados pelos números visíveis no streaming. Fosse Tracks II, porém, o objeto que temos na cabeça e ocuparia toda a área de um baú com o enxoval da noiva. Uma arca pessoana do escritor de canções Springsteen, com cadernos inteiros e alguns fragmentos, uns heterónimos ou maneiras de ser sem trocar de nome.
Sete discos, como as notas de música ou os pecados capitais, um por cada dia da semana confirmando a nossa teoria de que há um Bruce Springsteen para cada ocasião. Para quando um tipo está feliz, triste, de luto, em trânsito, a olhar para trás ou para a frente. Tracks, não por acaso, meninos, tanto quer dizer trilhas como trilhos, faixas musicais e de rodagem, canções e caminhos. Estas foram feitas para nos acompanhar. Façamo-nos à estrada.
[as 83 faixas que compõe o alinhamento de “Tracks II” estão disponíveis no Spotify:]
A primeira etapa chama-se LA Garage Sessions ‘83. É a mais antiga das gravações e corresponde ao período entre dois discos fundamentais Nebraska e Born in the U.S.A., aqueles que, já depois de 10 anos de álbuns e muitos outros de atuações ao vivo, finalmente projetaram Bruce Springsteen como estrela nacional e global. Não fosse estar precisamente entre essas duas torres da sua discografia e seria praticamente impossível perceber porque nunca foi lançado este disco, mesmo que, eventualmente, depurado nalgum do seu extenso alinhamento (18 canções). Com certeza não por acaso, é o único dos sete de onde artista e editora entenderam não extrair nenhum dos singles que foram lançando a cada duas semanas, desde inícios de Abril, para terminar coincidindo com o lançamento da caixa. Na verdade, é aquele que contém, provavelmente, os menos desconhecidos dos segredos entre os fiéis.
Rolam por aqui clássicos instantâneos como Follow that Dream, Johnny Bye Bye” ou Don’t Back Down, hinos para estradas perpétuas como Fugitives Dream e bons riscos assumidos como The Klansman. Por outro lado, My Hometown, numa versão mais aguda e pueril do que surgiria um ano depois, madura e acabada, fechando o alinhamento de Born in the U.S.A., uma versão baladeira de Fugitive’s Dream (aqui, com apóstrofo) e, enfim, o registo de Unsatisfied Heart, tão tocada ao vivo que tem direito a versão caricatural dos The War on Drugs, não vão além do gabinete das curiosidades. Mas é o teor geral, Springsteen vintage, o que daqui levamos, a do cantor de histórias de Black Mountain Ballad ou Richfield Whistle, de gente à procura de ganhar a vida e com quem a viver, entre a partida da casa dos pais e a fuligem da fábrica, na mesma América profunda hoje em mudança. Afinal, é difícil não pensar que Bruce vota uma coisa e as suas personagens, acaso existissem, outra – e que, nesse paradoxo pode estar cristalizado todo o enigma que coloca, hoje, em dolorosa tensão, toda a América.
A segunda etapa leva-nos às Streets of Philadelphia Sessions, um salto sónico de dez anos no tempo e no espaço. Sai o Springsteen clássico e entram os sintetizadores atmosféricos e loops de bateria dos anos de uma canção para um filme que mudaria tudo: a carreira de Springsteen, então em baixa, a de Tom Hanks, rumo ao primeiro Óscar, e a de uma causa: o alarme necessário e, enfim, desestigmatizado para a epidemia de SIDA (falamos, obviamente, do Philadelphia, de Jonathan Demme). As longas estradas interestaduais levaram-nos à cidade e é aí que descobrimos Blind Spot, um dos singles de avanço para Tracks II, Maybe I Don’t Know You, a perfeita Waiting on the End of the World, The Little Things, simples e eficazes, no registo Springsteen Suave de então. Between Heaven and Earth descreve, quase literalmente, esse estado intermédio encontrado então por Bruce, guiado por uma voz em semi-falsete só possível a um muito restrito clube de roucos melódicos, flauta encantatória que se substituía, então, às harmónicas, metais e teclados grandiosos naqueles solitários anos sem E-Street Band, de mais máquina e menos banda. Termina com uma versão de Secret Garden que, mais uma vez, confirma o acerto na escolha do original posto ao tempo ao circular, e The Farwell Party, sobre os sonhos de “uma vida não tocada pelos nossos falhanços”.
▲ Bruce Springsteen alo vivo em Milão com a E Street Band a 30 de junho de 2025
Mondadori Portfolio via Getty Im
Evidentemente, como cada um chega pelo seu próprio caminho ao mesmo artista, também cada um sai de lá com os seus retalhos da obra. Destes sete, o que mais levamos connosco é o terceiro andamento: Faithless, álbum composto em meados dos anos zero como banda sonora para um “western espiritual” que acabou por não ser feito (sim, porque nem o Bruce Springsteen está livre de levar com estas banhadas dos projetos que vão mesmo acontecer e, depois, desaparecem no ar). Disco conceptual, acabado, perfeito, leva-nos, imediatamente, para outra paisagem: The Desert, à primeira faixa, instrumental. De banjos, esporas, bandolins e coros de crianças, seguimos para um muito bom Where You Going, Where You From e daí para o tema-título Faithless, também um dos singles promocionais da arca. Canções extraordinárias como All God’s Children e God Sent You, com os seus coros gospel e a voz do próprio Springsteen em registos experimentais em que poucas ou nenhuma vez o ouvimos, garantem-nos que estamos perante um grande disco e que daqui já não saímos. Depois, o belo Going to California e o instrumental The Western Sea limpam-nos o palato, antes de fecharmos com Let Me Ride e os seus ecos de espiritual negro, e a entrega, final, em My Master’s Hand. Para nós, o tal puto feito quarentão que, algures lá atrás, comprou um Springsteen como seu primeiro disco, este é, isoladamente considerado, um álbum maior, quando considerada toda a paisagem springsteenesca.
O volume IV, Somewhere North of Nashville, foi gravado em 1995, paralelamente às sessões de The Ghost of Tom Joad. É o Bruce mais feliz dos sete, bom para sextas à noite com os amigos, cheio de alegres canções rockabilly para nos levar para bem longe das questões existenciais de Faithless. Repo Man, Tiger Rose, Detail Man, Delivery Man ou Janey Don’t You Lose Your Heart fazem a festa, enquanto uma versão do tema de Johnny Rivers Poor Side of Town assegura o módico de canção-de-esperança-neorrealista. Há ainda por ali uma versão de Stand on It, originalmente lançada como lado B de Glory Days, e Somewhere North of Nashville, o tema-título do disco e, de facto, mais séria proposta de todo ele, já incluída em Western Stars, de 2019.
A quinta etapa, Inyo, leva-nos à fronteira. Gravada entre 1995 e 1997, durante a digressão de The Ghost of Tom Joad, anda entre o Texas e o México, pelo Mojave, cidades índias, danças astecas e a temível Ciudad Juárez. Entre o perigo de One False Move e o sonho em tom menor de When I Build My Beautiful House, levamos connosco, sobretudo, a alegria triste de The Lost Charro e a recordação de todo um pueblo que nunca vimos a dançar.
[documentário sobre “Tracks II: The Lost Albums”:]
Sexto disco, sexto Bruce. Twilight Hours é o chefe agora em modo romântico, feito para acompanhar escapadinhas em casal. Começamos com o belo Sunday Love, sexto e último (ou primeiro, se pensarmos em termos de contagem decrescente) dos singles de avanço para a coleção, e seguimos para um Late in the Evening que confirma a boa forma do artista e põe o ouvinte a perguntar, pela enésima vez, “mas porque é que ele não quis lançar isto?” September Kisses, Twilight Hours, o falsete de Sunliner, feito para deslizar por estradas suaves, junto à costa, são todas para guardar, enquanto falam de amores de vida comum, de jantares aos dias de semana, de maridos e mulheres que não encontrarão outros como eles. Aqui e ali um pouco meloso de mais para o fã médio, é um disco indiscutivelmente eficaz, acabado de gravar em 2018, o que faz dele o mais recente dos sete, expandindo assim o espectro da caixa para 35 anos na vida de um dos mais importantes criadores da história do rock (e das coisas tantas que ele toca).
Finalmente, Perfect World, ou Bruce para estádios. Reunião de canções compostas durante um largo período entre 1994 e 2011, foi compilado, especificamente, para esta edição. É, portanto, o menos “álbum perdido” de todos e mais, acima de tudo, um álbum de perdidos & achados. Ainda assim, o que se perde em consistência global é compensado com a solidez individual da maioria das canções, musculadas à boa maneira da E-Street Band para noites épicas de multidão. Abre cheio de estrica com I’m not Sleeping, segue cheio de speed para Idiot’s Delight e entra em modo guitar hero com Another Thin Line. Depois, acalma forçosamente em The Great Depression, com ressonâncias de Dylan, para, depois, voltar a subir em Rain in the River, o primeiro single de avanço para a coleção a que só chegamos, portanto, passadas mais de quatro horas de audição, “Cutting Knife”, explícita quanto às suas capacidades de entranhamento, ou You Lifted Me Up, igualmente auto-explicativa quanto ao que Bruce e a E-Street Band tantas vezes fez, faz e continuará a fazer por nós.
Para quem estiver com pressa, menos fundos ou tenha restrições alimentares, também está disponível para venda Lost and Found, uma compilação autónoma de 20 faixas que resume Tracks II: The Lost Albuns, à maneira do que 18 Tracks fez pela primeira coleção de raridades. Mas devoto que é devoto, familiar ou amigo do Boss (que é como todo o devoto dele, na realidade, se sente) vai escolher a dose inteira ou nada, que isto é caminho para se fazer caminhando, sem atalhos. São 35 anos de vida, canções e mundo a rodar; é impossível abarcar tudo de uma só vez. 83 canções, quantas delas marginais, independentes, solitárias peregrinas por estradas secundárias. Foram feitas ao longo do tempo e precisam de ser ouvidas ao longo do tempo. Não são para consumir na loja, mas para levar connosco. São para o caminho.