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Pedaços de cartão enfiados nos braços, cotoveleiras e capacetes azuis na cabeça. Horas depois do prazo legal para a permanência na praça, os manifestantes esperavam o regresso da PSP à Praça D. João I, no Porto. E preparavam-se para uma eventual repetição da carga policial da madrugada de quinta-feira.
Nem todos ficaram. Houve quem decidisse abandonar a praça, incluindo alguns dos elementos que tinham estado nas conversas com o subintendente da PSP, Eduardo Silva. Uma dessas manifestantes chorava entre desabafos de consciência: “Eu não quero ser uma desertora”, admitia, afirmando ainda que “já sabia que isto ia acabar assim”. Mas várias centenas de pessoas não arredaram pé. “Tenho medo da polícia desde que nasci, mas hoje não tenho medo”, dizia ao Observador Bernardo Guerra, da organização.
A noite tinha começado em festa — entre workshops de dança, lanches partilhados e crianças a pintar casas de cartão —, mas transformou-se num compasso de espera à medida que o relógio ultrapassava as 00h30, o limite legal concedido para a concentração. Horas antes, os manifestantes eram lembrados do “protocolo de segurança” para lidar com a polícia.
RITA FRANÇA/LUSA
“Desmobilização deve ser completa”, mas “isto não é um grupo organizado”: as conversas dos manifestantes com a polícia
A primeira tentativa de aproximação, quando os relógios se aproximavam das 00h30 — e, como tal, do limite legal para a permanência dos manifestantes ali — partiu da PSP. Pediram para falar com Tiago Machado, advogado ligado ao movimento. Assim aconteceu, no topo da praça, zona onde os poucos agentes da polícia que estiveram presentes ficavam a vigiar.
Passada a mensagem de vontade de falar com os promotores do movimento, Tiago Machado foi procurar quem pudesse servir como tal. Desceu a escadaria junto ao Teatro Rivoli — espaço que chegou a ser evocado num discurso da assembleia, em memória da ocupação histórica de 2006 contra a intenção da autarquia de entregar a concessão do espaço a privados — e começou a deambular pela praça.
No centro do recinto, o advogado encontra Mariana e pergunta por João Silveira (porta-voz até este sábado). Traz na mão um gelado que tinha comprado minutos antes. É nessa altura que Diana, uma das mais recentes porta-vozes do coletivo (embora a organização preferisse não usar esse termo), lhe deixa um aviso: dali em diante, antes de abordar a polícia ou os órgãos de comunicação social, Tiago Machado teria de esperar para que fossem indicados representantes da assembleia para a conversa. “É também pela tua própria segurança”, diz-lhe.
David Oliveira/Observador
O ambiente borbulhava. Minutos antes destas conversas intermitentes com a polícia, deflagrou um foco de incêndio junto a contentores do lixo nas imediações da praça. Alguns agentes da polícia municipal correram para o local e um homem ainda tentou usar um extintor para apagar as chamas, mas o fogo só ganhou força. Os bombeiros acabariam por o controlar, em poucos minutos.
Já as teorias espalharam-se em segundos pela multidão. Um rapaz chegou a relatar à PSP ter visto quatro jovens a atear fogo aos caixotes, um deles com equipamento desportivo e máscara cirúrgica na cara. A PSP tomou nota. Pouco depois, novo sobressalto: um homem que corria pela estrada arremessou uma garrafa de vidro contra um carro em andamento que não parou. E também a noite seguiu.
Foi já depois da hora combinada que o grupo escolhido para reunir com a PSP se apresentou. Cumprimentaram o subintendente Eduardo Silva com um aperto de mão e duas pessoas identificaram-se como advogadas. Começaram logo por frisar que não eram chefes de nada, sublinhando que aquele não era “um grupo organizado”.
O subintendente foi direto, mas calmo na explicação. Avisou que, se a multidão não desmobilizasse, teria de ser elaborado um auto de notícia a remeter para tribunal. Os representantes do protesto ainda tentaram testar uma alternativa: perguntaram se seria viável fazer uma “desmobilização parcial”, sensibilizando quem quisesse sair sem forçar o grupo todo. A resposta? A “desmobilização deve ser completa”. E lembrou que a partir da meia-noite e meia era ilegal fazer ruído — uma regra que caiu por terra escassos minutos depois, quando os megafones voltaram a ecoar na praça.
“Tarefas revolucionárias concluídas com sucesso”: a assembleia popular que votou pernoitar com tendas e pediu “demissão”
Horas antes, pouco depois das 19h, tinha arrancado a assembleia popular. Apesar de ter durado mais de uma hora, as votações para cada um dos cinco pontos da ordem de trabalhos foram resolvidas em segundos. De braço no ar, com gritos, acenos ou palmas: eram estas as formas de demonstrar o sentido de voto. E toda a praça pôde participar na votação.
Por esse motivo — o de qualquer pessoa que passasse poder votar e logo a seguir desaparecer —, vários elementos ligados ao movimento da acampada que geriam as intervenções e a logística da concentração na praça fizeram várias vezes o mesmo pedido aos manifestantes: “Não desmobilizem, por favor.”
Primeiro, e entre vários comentários sobre o SNS e a Palestina, apelos a “destruir o capitalismo e os seus cães fascistas” e a proposta para “arrastar a CGTP para uma greve geral ibérica” (com data apontada a 11 de novembro), votou-se que ficariam a pernoitar na praça. Depois veio o como: com ou sem tendas (para as quais não tinham autorização da Câmara Municipal do Porto).
David Oliveira/Observador
Ana Casado, da organização, defendeu a montagem das tendas, mas acabou chamada à atenção por Mariana. Virou costas à plateia, defendendo ser apenas a sua opinião.
A votação das tendas foi a única que recolheu um apoio mais tímido: ao contrário da votação anterior, os aplausos surgiram apenas de alguns pontos isolados da praça, apesar da insistência de quem pegava no microfone. Mas já horas antes, a Praça D. João I contava com seis tendas montadas.
Durante a tarde, que foi de convívio, workshop de dança e música com uma pequena pista de dança ao lado que se foi formando, a praça foi enchendo. Ao lado, uma criança pintava os tijolos desenhados numa casa de cartão instalada na praça, a “casa dos três porquinhos”: “Montenegro”, “Pedro Duarte” e “Ventura”.
David Oliveira/Observador
Enquanto uns tiravam selfies durante a assembleia e grupos de casais e reformados paravam para bater palmas ao conjunto de pessoas e bandeiras de sindicatos e coletivos antifascistas, falou-se ainda no “exemplo dos países nórdicos”. João Silveira sorria, passava a mão pela cabeça quando olhava para as centenas de pessoas à volta. E ia sempre sendo chamado para segredar.
Na reta final da assembleia, não deixou de haver reação à notícia dada pela TSF. O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, tinha recusado ir à praça, embora afirmasse que há “dois dias” tinha deixado a porta aberta para receber os manifestantes na câmara.
O jovem que se dirigiu à multidão nesta altura — o mesmo que ficou ferido na cabeça durante a intervenção policial da madrugada de quinta-feira — perguntou: “Pedro Duarte, se tu não queres reunir connosco, o que é que nós dizemos?”. A multidão respondeu a uma só voz: “Demissão!”. Sobre o convite de “há dois dias” para ir à Câmara, não se falou.
Fechada a assembleia, com um “Bella Ciao”, apelos à demissão de Pedro Duarte e pedidos de “por favor, não desmobilizem”, a garantia deixada por uma das manifestantes e que foi recebida com entusiasmo pela multidão: “Vamos montar aquela que será a melhor acampada desta cidade.”
Em poucos minutos, as tendas multiplicam-se e passaram a ocupar metade da praça. Ao megafone, foram deixados avisos: “Se quiserem beber, se quiserem fumar coisas ilícitas, saiam da praça. Vamos também manter a praça limpa”.
Pelo microfone passou também uma certeza: “As nossas tarefas revolucionárias estão concluídas com sucesso”.
O “FODASE”, as rondas para “desescalar situações” e “vigiar outros”: a segurança na praça
Ainda antes de a assembleia popular ter início, numa esquina da praça decorre uma reunião da “equipa de segurança” do movimento. Durante toda a tarde e noite em que centenas de manifestantes se concentraram na Praça D. João I, o movimento da Acampada do Porto pela Habitação tinha uma equipa de pessoas a fazer a vigilância da concentração. “Nunca andavam sozinhos” e grande parte estavam de caras tapadas. Além de quererem “garantir que ninguém está sozinho”, os objetivos destes elementos passavam por “desescalar situações” e “vigiar outros grupos”.
A organização foi lembrando ao longo da assembleia o “protocolo de segurança” criado para a manifestação: o FODASE:
F: “Ficar calmo. Ninguém foge à toa, ninguém cede à paranoia ou à pressão e ninguém fica sozinho”;
O: “Observar-nos uns aos outros”;
D: “Distância de segurança”;
A: “A cidade” que ‘é a nossa arma e é nossa’;
S: “Segurança pessoal”, que “garante a segurança coletiva”;
E: “Estrilho total contra o capital”
Com medo de um novo confronto com a polícia, além do protocolo, a organização distribuiu também capacetes, cotoveleiras e pedaços de cartão para serem colocados por dentro das camisolas.
Mais atrás, operava a unidade de primeiros socorros. Jo Rodrigues, médico, explicou ao Observador que a equipa médica estaria em permanência no terreno, pronta a intervir. Ao início da noite, com lanternas presas na cabeça e ajoelhados no chão, já tinham tratado de um homem: limparam uma ferida ligeira no braço direito, desinfetaram com gaze. Ainda assim, ao Observador explicam que a situação que mais têm tratado são ataques de pânico e crises de ansiedade.
Apesar de ter sido esta equipa a prestar os primeiros socorros a alguns dos feridos da carga policial da madrugada de quinta-feira, foram os bombeiros que socorreram oito feridos da noite. Já durante a noite deste sábado, a tensão também subiu no quartel de bombeiros a poucos metros da praça.
De acordo com os operacionais que ali estavam neste sábado à noite, um grupo vindo da manifestação veio acusá-los de estarem a encobrir o tipo de ferimentos registados naquela noite, dizendo: “Os bombeiros estão do lado da polícia”. Ana Casado, do movimento, manteve-se a tentar acalmar os ânimos junto do quartel, assegurando que se tratava de pessoas que não são da organização. Os bombeiros permaneceram, porém, em alerta porque um deles viu uma lata de tinta preta no casaco, com medo de vandalismo num dos seus carros.
David Oliveira/Observador
A noite já ia longa e poucos eram os manifestantes que dormiam nas tendas. A equipa de alimentação e limpeza seria a primeira a acordar, mas madrugada adentro ainda circulavam a recolher lixo no chão e a pedir às pessoas que usassem cinzeiros. É também esta equipa que está responsável por assegurar a limpeza da casa de banho do parque de estacionamento privado por baixo da praça.
E enquanto a polícia não veio, a única ameaça às tendas foi mesmo o vento. Quando soprou com mais força, ouviu-se na praça: “São os fascistas.”