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O elenco da peça é composto por Alice Azevedo, Ana Valentim, Anabela Ribeiro, Anna Leppänen, Cleo Diára, Júlia Valente, Leonardo Garibaldi, Lúcia Moniz, Mariana Gomes, Matilde Jalles, Pedro Baptista e Rita Rocha Silva
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▲O elenco da peça é composto por Alice Azevedo, Ana Valentim, Anabela Ribeiro, Anna Leppänen, Cleo Diára, Júlia Valente, Leonardo Garibaldi, Lúcia Moniz, Mariana Gomes, Matilde Jalles, Pedro Baptista e Rita Rocha Silva

Ana Viotti

▲O elenco da peça é composto por Alice Azevedo, Ana Valentim, Anabela Ribeiro, Anna Leppänen, Cleo Diára, Júlia Valente, Leonardo Garibaldi, Lúcia Moniz, Mariana Gomes, Matilde Jalles, Pedro Baptista e Rita Rocha Silva

Ana Viotti

Como se cria a inquietação do terror no teatro? Mário Coelho encena os seus fantasmas e continua à procura da resposta

"Quando Eu Morrer, Vou Fazer Filmes No Inferno" é uma peça sobre uma maldição de família em que se denunciam outros "assombramentos": os da indústria audiovisual. Até sábado na Culturgest, em Lisboa.

“23h33. Estamos num apartamento, como qualquer outro, habitado por uma jovem rapariga. 23h36. Uma porta abre-se. 10 corpos entram repentinamente na sala. Começam a dançar. Habitam aquele espaço como se fosse seu. 23h37. A jovem rapariga dirige-se à sala, chocada e em pânico. Não percebe o que fazem aqueles estranhos na sua casa. Como entraram? O que querem? Tenta expulsá-los, mas é ignorada. 00h00. Inicia-se um pesadelo que perdurará.”

Eis os quinze primeiros minutos de Quando Eu Morrer, Vou Fazer Filmes no Inferno!, o espetáculo que sobe esta quinta-feira ao palco da Culturgest, em Lisboa, onde fica até sábado. Esta é a sucinta sinopse da peça, aprovada por Mário Coelho, autor e encenador que sabe que, como nos melhores filmes de terror, o mistério é fundamental.

Por isso mesmo, o criador, distinguido em 2020 com o Prémio Revelação do Teatro Nacional D. Maria II, admite alguma resistência em falar sobre o espetáculo. É cauteloso no que revela, confiando na imprensa para o ajudar a levantar o véu sem estragar o efeito surpresa. O momento descrito no texto que anuncia a sua mais recente criação é, descobrirá o público em menos de nada, afinal uma cena em si mesma, gravada num set de rodagem, para o próximo filme de Odília Coelho (Lúcia Moniz), uma realizadora aclamada como “mãe do cinema de terror português” caída no esquecimento.

Ouve-se o “corta” e a cena seguinte, igualmente realista, coloca Odília a participar numa masterclass no festival de cinema MOTELx, que antecede a exibição de uma cópia restaurada de A Noite das Valquírias, um longínquo filme de estreia com estatuto de obra-prima que deixou todas as películas que se seguiram na sombra da primeira. Perante a audiência, a realizadora acusa o público e a crítica em Portugal (“Na altura em que ainda havia”, escuta-se) de a terem ignorado até ter chamado a atenção da prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma. “Sinto que os meus filmes têm sido um pouco esquecidos”, lamenta a cineasta, numa conversa conduzida pela moderadora do festival (interpretada pela atriz Alice Azevedo), que interpela Odília com todos os lugares-comuns deste género de encontros e certames.

▲ Mário Coelho é encenador, dramaturgo e ator. Em 2021, venceu o Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, que reconhece talentos emergentes até aos 30 anos cujo trabalho se tenha destacado

“Queria que fosse uma personagem feminina com bastantes contradições, com bastante complexidade, quase uma ideia de uma anti-heroína”, diz Mário Coelho ao Observador após um ensaio. Há muitas camadas na construção de Odília, uma famosa realizadora consumida pela frustração de não ser capaz de repetir o sucesso do primeiro filme, e hoje subjugada à lógica comercial de uma produtora (que herdou a empresa do pai, também produtor) que lhe exige mudanças artísticas sob a ameaça de lhe retirar o financiamento para o novo projeto (“Este novo filme é para mim. Quis fazer um filme para mim”, ouvimo-la).

Quando Eu Morrer, Vou Fazer Filmes no Inferno! é, além do título da peça, o nome da longa-metragem de Odília Coelho. É mais uma camada da matrioska que compõe o espetáculo que demanda do espectador alguma atenção para identificar pistas para construir o grande puzzle que se vai revelando ao longo do tempo — três horas ao todo, com uma pausa de 15 minutos para recuperar o fôlego. A peça é a 10.ª do percurso de Mário Coelho, ator que se estreou como encenador em 2015 com É possível respirar debaixo de água.

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Curiosamente, não foi muito depois disso que o autor começou a imaginar este espetáculo, o primeiro que dedica explicitamente à mãe, Odília Coelho, que dá nome à personagem de Lúcia Moniz. “O ponto de partida foi a descoberta de um diário da minha mãe depois de ela morrer”, recorda. Encontrou o diário entre caixas e fotografias de família, durante uma mudança de casa. “Durante muito tempo decidi que não o queria ler, achava que era intrusivo”, confessa, notando ter semelhantes reticências na publicação de diários de artistas. Aceder ao foro íntimo de alguém sem um consentimento explícito causava-lhe — ainda causa — desconforto. Mas cedeu.

“Acho que acabou por ser a minha vontade de tentar aceder um pouco mais ao mundo interior dela, na tentativa de resgatar um pouco de uma identidade que para mim é muito incompleta”, diz o artista. Ao folhear o diário, descobriu uma mulher que, nas suas palavras, não conheceu realmente. Aquela mulher com uma profunda paixão pelo cinema, descobriu, lutava com uma ansiedade permanente.

▲ O encenador escolheu Lúcia Moniz para interpretar uma realizadora aclamada que luta para fazer o próximo filme. O nome da personagem, Odília, é uma homenagem à mãe do autor

“A minha mãe trabalhava com o meu pai numa peixaria em Moscavide. Como o meu pai descansava durante a tarde, porque à noite tinha que ir buscar o peixe e preparar a banca para a manhã seguinte, a minha mãe ia-me buscar à escola e passava o resto do dia comigo a ver filmes. Acho que a minha paixão pelo cinema nasce muito também daí, de ver filmes com a minha mãe…”

Qual amuleto, Mário tem levado o pequeno diário castanho de letras douradas para os espetáculos, como adereço cénico, colocando-o dentro de gavetas ou expondo-o no décor. “A dada altura, comecei a pensar de que forma é que poderia aproximar-me um pouco destas temáticas, do espaço psicológico da minha mãe”, conta, lembrando o tempo em que a mãe deixou de conseguir ir ao cinema. “Quando se fechava numa sala sentia-se observada, sentia um desconforto, uma sensação de que podia ser atacada. Deixou de conseguir estar em locais públicos em que estivesse fechada”, recorda sobre o estado psicológico que verteu na personagem de “alguém que vive assombrado por um grupo de estranhos, que onde quer que essa pessoa esteja lhe assombram a vida”.

Mário Coelho diz que “tragédia hereditária” é “quase o subtítulo do espetáculo”. Mas, na verdade, a “maldição familiar” é apenas uma das dimensões deste Quando Eu Morrer, Vou Fazer Filmes no Inferno!, aquela que serve como pretexto para apontar a câmara a outros fantasmas. Como o dos que assombram a comunidade artística, da indústria do cinema em particular: “Os abusos, a violência, as hierarquias, os excessos de poder em que muitas vezes as coisas são fundadas e moldadas”.

No fundo, a peça é “sobre assombramentos”, sumariza. A maldição começa com um homem de chapéu, que aparece diante das mulheres desta família. “Para mim essa figura representa o patriarcado”, elucida. De forma mais literal, há uma rapariga (Rita Rocha Silva) que é assombrada por um grupo de estranhos. Há também um “assombro hereditário”, que passa de geração em geração.

▲ Há cerca de seis anos que Mário Coelho tentava erguer este espetáculo, confrontado com a dificuldade em obter um financiamento que lhe permitisse ter um elenco com 12 elementos

Tal como havia feito em Se te portartes bem vamos ao Mc Donald’s, Mário Coelho volta a abraçar despudoradamente o género do terror, baseando-se nos códigos cinematográficos — afinal, foi o cinema que o levou à Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), e não é de somenos a carreira paralela que mantém enquanto ator. Sobre o terror, diz: “é o género que me acompanhou mais ao longo da minha vida”. “O terror foi o género que esteve sempre à frente do seu tempo. Através de metáforas fala sobre o mundo, sobre o que se passa, mas são fantasmas, assassinos ou assombrações. Mas isso tudo é reflexo, exatamente, da nossa sociedade”. Cita Night of the Living Dead (1968), “um filme sobre zombies, mas que mostra uma América profundamente racista, no pós-Segunda da Guerra Mundial”, ou Buffy — A Caçadora de Vampiros (1997), “uma série muito importante para mim, onde, de repente, os monstros, na verdade, são todas as problemáticas de um adolescente na secundária”.

Heranças culturais que o assombram enquanto criador empenhado em continuar debruçado sobre o género — e dando seguimento ao lastro deixado de Se te portares bem, vamos ao McDonald’s, projeto sobre o qual voltaremos a ouvir no futuro noutro formato. Mas “fazer terror em teatro é difícil”, admite. “É difícil trabalhá-lo sem ser de forma gratuita”. Se no cinema a mise-en-scene ou o posicionamento da câmara podem ser aliados para criar o suspense, no teatro há desafios acrescidos. “No teatro estamos sempre a ver o plano geral, os artifícios todos. Como é que se cria esta inquietação, esta incerteza, este desconforto?”, lança. Uma pergunta sem resposta que o motiva a continuar à procura, nota. “É isso que me entusiasma”.

Depois da estreia em Lisboa, a peça mostra-se em fevereiro em Torres Vedras e Braga. Em julho, viaja até Matosinhos e Lagos.

Auditório Emílio Rui Vilar, Culturgest, Lisboa, 23 a 25 de janeiro. Teatro-Cine de Torres Vedras, 8 de fevereiro. Theatro Circo, Braga, 23 a 14 de fevereiro. 

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