A época de 2025 não tinha começado particularmente mal, teve depois uma passagem pela Europa que não podia ter corrido pior, terminou da melhor forma com dois pódios incluindo um inédito segundo lugar em São Paulo nas derradeiras quatro provas. Depois de 24 fins de semana exigentes e com desafios que até aí não enfrentara, qualquer pessoa só queria “desligar”. Aproveitar as coisas mais simples que durante largos meses não teve. Relaxar. Kimi Antonelli, que tirara a carta de condução há menos de um ano, podia fazer o que quisesse sem que ninguém o chateasse muito em caso de excessos. Afinal, tinha uma outra ideia.
Com a ironia de quem parece sempre tímido quando tem de andar entre os pesos pesados do paddock, quase como se fosse um mundo que sabe que ganhou por mérito próprio mas onde só quer andar pelo mérito que os outros lhe reconhecem, mas não perde uma oportunidade para fazer uma piada ou deixar uma graçola (e com um abraço no final, ou não fosse ele um italiano cheio de afeto para dar), escreveu num papel o nome de Henry Shovlin pelo apelido do engenheiro de pista da Mercedes e inscreveu-se de forma secreta numa corrida de karts em Daytona Milton Keynes, perto da sede da equipa, em Silverstone. O que deitou a tentativa de anonimato por terra? Os tempos. Era impossível alguém ser tão rápido sem um qualquer rasto de experiência a conduzir. Acabou a dar autógrafos e a tirar selfies com os presentes mas essa não foi a única derrota nesse dia – recebeu duas penalizações por pressionar em demasia os adversários e falhou o pódio…
Kimi nasceu no meio dos carros, fez toda a vida nos carros, não consegue estar sem carros. É assim agora, na antecâmara da época em que esmagou vários recordes de precocidade a começar pelo título de campeão de Fórmula 1 (o único que lhe faltava em todos os campeonatos por onde passou), foi assim desde miúdo. Aliás, há uma história quando tinha apenas dez anos que define a sua maneira de ser nas pistas.
▲ Depois de uma primeira temporada na Fórmula 1 em que terminou na sétima posição do Mundial, Kimi Antonelli sagrou-se o campeão mais novo de sempre
NurPhoto via Getty Images
Aí, num fim de semana onde pai e filho tiveram provas no circuito de Adria, no norte de Itália (o mais velho nos carros desportivos da Lamborghini, o mais novo nos karts), um ex-piloto passou por Marco e levantou a possibilidade de Kimi poder conduzir um Lamborghini. Nem teve resposta, ele já estava lá dentro. O pai ia no banco por baixo para controlar o acelerador e o travão, o filho ficava com o volante – e um capacete que era tão grande que tirava quase toda a visão ao progenitor. “Não conseguia ver nada, só me apercebia das placas de sinalização ao lado a 100 ou 50 metros”, contou à BBC Sport. “Começou devagar, ficou cada vez mais rápido, cheguei a um ponto de travagem num final de reta a 320 km/h. Foi a fundo, no limite. O Kimi fez um controlo perfeito da sobreviragem, mudou de velocidade e acelerou. Foi aí que disse que estava bom porque era perigoso. Depois vi o vídeo e percebi que talvez tivesse algo de especial”, acrescentou. E tinha.
Afinal, como destacou sempre Marco Antonelli, “Kimi nasceu numa garagem”. “Com 15 dias de vida já estava por lá, com aquele cheiro do escape, a ouvir motores”, recordou sobre os tempos em que trabalhava com a mãe do piloto, Veronica, na equipa de corridas da família. Aos três anos, apesar do fascínio que sempre teve pelo futebol, recebeu algo que o atraiu mais do que uma bola: um simulador que o pai comprara antes para todos os convidados no Salão Automóvel de Bolonha, “Lembro-me de uma noite em que fui adormecendo porque tinha ido cedo para o trabalho e batemos com o carro porque não travei no final da reta. O Kimi começou a dizer: ‘Papá, papá, nada de dormir. Preciso de conduzir”. Foi até hoje, sendo que o colo do pai agora é apenas para celebrar vitórias e ficar quando precisa do “aconchego” da família mais próxima.
The joy. The elation.
Kimi Antonelli, you have made history today ????????#F1 #MexicoGP pic.twitter.com/wl85T05JF9
— Formula 1 (@F1) November 1, 2026
E agora, com os 20 anos que ainda não parece ter, do que falava na antecâmara do fim de semana que lhe podia dar o título? De carros, claro. “Uma coisa que adoro fazer é estar a lavar o meu carro. É a forma que tenho de relaxar, de ficar a pensar noutra coisa. As pessoas quando vou lavar o carro ficam sempre muito surpreendidas porque dizem sempre que não imaginavam que pudesse estar ali. Mas é o que gosto de fazer, é assim. Adoro carros, adoro cuidar bem do meu carro, adoro vê-lo limpo. É uma rotina que tenho, antes de cada fim de semana, no dia anterior à viagem, vou sempre lavar o carro”, contou o transalpino numa mesa redonda onde participou também o The Athletic antes do início dos treinos livres em Austin, no Texas, onde conseguiria a nona vitória em 18 corridas no ano de 2026 ficando apenas a dois pontos do título.
Carros quando nasceu, carros quando era criança, carros durante toda a vida, carros para chegar ao topo. Dos karts à Fórmula 1, passando por aquele primeiro simulador que entrou em casa ou pelo Mercedes GT63 que conduz fora das pistas (e que faz questão de lavar fugindo a qualquer máquina automática), Kimi Antonelli nasceu como um presdestinado para tomar conta de um mundo que sempre foi seu. Agora, conseguiu.
Mas este não é apenas mais um título na Fórmula 1, longe disso. O piloto de 20 anos tornou-se o mais novo de sempre a conquistar um Campeonato do Mundo, superando por três anos o recorde que pertencia ainda a Sebastian Vettel. Em paralelo, quebrou um longo jejum de mais de sete décadas sem vitórias de italianos, que perdurava desde 1953 quando Alberto Ascari levou o seu Ferrari ao topo. Muitos tentaram, só mesmo Kimi conseguiu. “Vários pilotos chegam à Fórmula 1 com um grande hype mas muito poucos conseguem depois viver com isso”, comentou Lee Mackenzie, analista de F1. Esse foi grande segredo de Antonelli – e aquele para o qual mais trabalhou. Superando todas as críticas à Mercedes por apostar num piloto que teve uma saída de pista na primeira vez em que rodou em treinos livres na Fórmula 1, em Monza-2024, conseguiu aliviar o peso de substituir Lewis Hamilton e mostrou todos os traços de semelhança com Ayrton Senna.
Na apresentação, ainda em 2025, Kimi Antonelli disse que queria ser conhecido por Kimi Antonelli e não como substituto de Lewis Hamilton. Acabou o Mundial de 2025 ganho por Lando Norris no sétimo lugar, com 150 pontos, três pódios e o melhor registo na segunda posição em São Paulo. Apenas um ano depois, e no ano em que George Russell parecia ter o carro para sair da sombra e tornar-se o novo britânico campeão, tudo mudou: nove vitórias, das quais cinco consecutivas entre China, Japão, Miami, Canadá e Mónaco, 15 pódios e apenas duas desistências nas primeiras 18 corridas de 2026. Ele avisou que queria ser conhecido como Kimi Antonelli – o que poucos conseguiram perceber era o que significava ser Kimi Antonelli.
▲ Kimi Antonelli conseguiu no Mónaco a quinta vitória consecutiva nas primeiras seis corridas do Mundial de 2026
SEBASTIEN NOGIER/EPA
A nega da Ferrari, o avanço da Mercedes e as memórias de quem nunca viu: Ayrton Senna
Nascido e criado em Bolonha, no norte de Itália, Andrea Kimi Antonelli, que fez 20 anos em agosto, é filho do antigo piloto Marco Antonelli, que além da ligação nas pistas ao desporto motorizado criou também a sua equipa de corridas, a AKM Motorsport, já depois de fundar há mais de três décadas a Antonelli Motorsport, que venceu vários campeonatos de GT. A mãe, Veronica Pomaro, trabalhou alguns anos nos Correios de Itália mas acabou por “render-se” também à paixão pelos motores, juntando-se ao marido na gestão da marca que criou em 1993. O casal tem também uma filha mais nova, Maggie, a única da família que conseguiu fugir aos carros… a vários níveis – atleta de ginástica rítmica, acompanha o irmão em algumas provas do Mundial mas, para evitar qualquer tipo de pressão mediática, disse um dia à imprensa que… era filha única.
Esse é um dos mitos que rodeia a vida do italiano, com Maggie a ser tratada ainda hoje nos círculos internos da Fórmula 1 como a “suposta irmã de Kimi”, pela forma como um dia tentou fintar a questão. Outro, talvez o maior, tem a ver com o nome do meio do transalpino e a possível ligação a Kimi Räikkönen, piloto finlandês que se tornou campeão mundial em 2007, apenas um ano depois de nascer. Têm pontos em comum no seu trajeto, como o facto de terem saltado algumas etapas intermédias no caminho até à Fórmula 1, mas o nome foi apenas uma questão de gosto por influência de outro antigo piloto amigo de Marco, Enrico Bertaggia, perante a procura do casal de algo que fosse curto, estrangeiro e ficasse bem com o apelido. Quando surgiu como hipótese, ficou de imediato. O que ninguém imaginava era o peso que teria no futuro.
▲ Kimi foi tomando pulso ao mundo dos motores através do pai, Marco, ex-piloto e dono de uma equipa (onde trabalha também a mãe)
D.R.
Andou pela primeira vez num kart com apenas dois anos, começou a competir aos cinco, teve a sua primeira grande “vitória” aos sete. Título? Nenhum. Com essa ideia, aproveitando a ligação que o pai tinha ao desporto motorizado, implorou para que o levasse a uma corrida de Fórmula 1. “Leva-me, leva-me, leva-me”, pediu. “Leva-me, leva-me, leva-me”, continuava a pedir. “Leva-me, leva-me, leva-me”, pediu mais uma vez. Aconteceu finalmente em Hockenheim, num fim de semana em que o pai tinha a equipa na Porsche Supercup. Não foi fácil, com Kimi a ter de entrar numa pilha de pneus com um guarda-chuva por cima, mas aconteceu. Nesse dia teve o primeiro contacto com o paddock, nesse dia ganhou um objetivo de vida.
Antonelli não deixava de ser um miúdo “normal”, aplicado nos estudos e com uma paixão paralela pelo futebol e pelo clube da terra onde nasceu, o Bolonha. Se fosse por Marco, apesar de todos os sinais que tinha quando o filho agarrava num volante ou entrava num kart, teria seguido esse gosto pelos relvados para jogar no clube de toda a família. Kimi tinha outro ideia. Sempre teve. O pai e a mãe foram tentando passar alguns dos ensinamentos mais importantes para vingar no automobilismo, como a preparação, a disciplina ou a resistência à pressão. Com tudo isso, foram multiplicando a paixão pelos carros. Ainda hoje cada vitória de Kimi é festejada como um golo nas ruas de Bolonha mas futebol só mesmo no estádio ou na TV.
▲ Kimi Antonelli habituou-se desde muito novo a estar nas boxes da Mercedes com Toto Wolff
D.R.
Aos 12 anos, antes dos primeiros grandes títulos, a carreira de Kimi Antonelli teve um turning point daqueles que acabam por marcar a história do desporto e de uma modalidade. Nesse ano, Massimo Rivola, então responsável pela Ferrari Driver Academy, convocou-o para uma sessão de testes. O sonho de integrar uma das equipas mais conhecidas do mundo e correr com o Cavallino Rampante estava perto. Esteve perto. Ficou perto. Na hora da verdade, tudo acabou por ser adiado porque era demasiado pequeno. Não foi bem um “chumbo”, ficou na história como tal. A Mercedes aproveitou esse erro de visão dos responsáveis da equipa italiana, abordou Marco Antonelli e Kimi assinou contrato com a marca alemã. Até hoje.
Quando entrou no programa de desenvolvimento da Mercedes, em abril de 2019, não demorou a dar nas vistas e a galgar patamares até à inevitável chegada à Fórmula 1. O sonho do futebol que o pai tinha para Kimi acabara de vez. “Para ser sincero, para ser justo, no início o meu pai não queria que corresse. Ele sabe como o mundo dos motores pode ser fantástico mas ao mesmo tempo difícil. Ele também enfrentou isso, o lado mais brutal do desporto, e não queria que isso me afetasse. Não queria que ficasse desapontado com alguns momentos mais complicados que iria passar, era quase como se me quisesse proteger. Mas foi vendo como estava ligado a tudo. Não foi ele que me empurrou para isso, fui eu que me empurrei”, contou.
O italiano nunca deixou os estudos, seguindo Relações Internacionais e Marketing no Instituto Técnico Comercial e Estatal Gaetano Salvemini, em Casalecchio di Reno, ao mesmo tempo que foi melhorando o seu inglês durante os fins de semana de corrida e o alemão desde que entrou no programa da Mercedes. A partir de certo ponto, não conseguiu dar continuidade a outras apostas académicas por falta de tempo apesar de ter seguido os estudos online. Não deixou de estudar, mas outras coisas. Cada passagem pela fábrica da equipa era uma oportunidade de olhar para tudo de forma atenta e ir apreendendo, cada passagem por casa servia para ver DVD daquela que foi sempre a principal inspiração, do 12 à forma de conduzir: Ayrton Senna.
“É o meu ídolo. Não tive oportunidade de vê-lo a correr pessoalmente mas vi vídeos e, com isso, consegui compreender o quão especial ele era. É o meu modelo. Dava o melhor de si em tudo o que fazia, procurando aprender o máximo possível. Tornou-se a minha inspiração. Em 1993 ganhou uma corrida à chuva a dar quase uma volta de avanço a todos… Além disso, não tinha medo de mostrar as suas origens. O Brasil estava numa situação difícil naqueles anos mas ele orgulhava-se de mostrar de onde vinha. Além de um grande piloto, era uma pessoa excecional, empática. Sonho conseguir chegar à Fórmula 1 e conquistar algum dia parte de tudo o que conseguiu na sua carreira”, referiu numa entrevista Kimi Antonelli, que ainda corre com o número 12 que utilizou ao longo de todo o trajeto no automobilismo. Mais: uma das melhores prendas que alguma vez recebeu de um amigo foi um autógrafo original de Ayrton Senna de 1984.
▲ Kimi Antonelli com Bruno Senna, sobrinho do antigo piloto brasileiro, numa homenagem feita em Ímola no ano de 2024, 30 anos depois da morte do antigo campeão
Massimiliano Donati
A aposta depois da saída de pista em Monza e o trabalho “invisível” após o ano de rookie
O início de tudo foi no Galliano Park, em Forlì, onde Kimi Antonelli começou a andar de kart antes de fazer competições a partir dos sete anos. Ganhou várias competições e títulos nesses escalões, deu nas vistas no Automobile Club d’Italia em 2014 e assinou pela Minardi Management, fazendo depois competições como o Trofeo Easykart Italia, a Easykart International Grand Final (venceu ambas), a Taça de Itália ou o Trofeo delle Industrie. “Fique logo com a sensação que tinha algo mais do que todos os outros quando, só em duas voltas, sem conhecer a pista, fez um novo recorde de tempo. Tinha oito anos, parecia que corria há anos”, contou Giovanni Minardi, responsável pela contratação para a Minardi Management em 2014.
Ninguém tinha dúvidas do talento de Kimi Antonelli, o mundo especializado começou a olhar de uma outra forma quando venceu o Campeonato da Europa de Karting da FIFA em anos consecutivos (2020 e 2021), tendo já contrato com o programa de desenvolvimento e equipa júnior da Mercedes. Estava apresentado, não ficou por aí: depois de começar a ter as primeiras experiências em monolugares na Fórmula 4 no final de 2021, sagrou-se campeão no Campeonato de Itália e da Alemanha na categoria pela Prema Racing, com mais de 20 triunfos entre ambas as provas. Esse ano permitiu-lhe saltar um patamar intercalar, passando em 2023 pela categoria de transição com mais títulos no Médio Oriente e na Europa antes de chegar à Fórmula 2. Foi um passo invulgar mas acertado: acabou na sexta posição no ano de estreia, em 2024, com triunfos em Silverstone e na Hungria e mais um pódio em Baku, atrás de nomes como Gabriel Bortoleto ou Isack Hadjar.
Quando Lewis Hamilton deixou cair a “bomba” e anunciou à Mercedes que iria sair para a Ferrari, todos os olhos se centraram em Toto Wolff, chefe de equipa e diretor executivo da Mercedes. A formação germânica tinha conquistado seis campeonatos consecutivos até 2020 (cinco do britânico, um de Nico Rosberg), viu a série quebrada com o inesquecível Grande Prémio de Abu Dhabi de 2021 onde Max Verstappen se sagrou pela primeira vez campeão mundial, foi ficando depois atrás da Red Bull percebendo que também a McLaren estava a fazer um trabalho que ameaçava chegar à liderança. Agora, perdia aquela que foi a grande bandeira da ascensão da Mercedes, que antes não vencia um Mundial de Construtores desde 1955 quando tinha na equipa outro dos maiores de todos os tempos, Juan Manuel Fangio. Qual seria o próximo passo?
▲ Italiano foi o eleito para suceder a Lewis Hamilton depois da saída do britânico para a Ferrari
D.R.
A primeira opção, quase institintiva, passava pela tentativa de resgate de Max Verstappen à Red Bull numa fase em que as relações entre equipa e piloto. Wolff ainda tentou, Wolff depressa percebeu que seria uma hipótese demasiado remota. Depois, os cenários mais seguros: Carlos Sainz tinha saído da Ferrari ainda não tinha equipa fechada, Alexander Albon continuava a mostrar bons desempenhos na Williams, Fernando Alonso era também um nome apontado numa ideia a breve prazo de segurar o “impacto” da saída de Lewis Hamilton. O alemão tinha outra ideia bem mais arriscada e nem mesmo o início com pé esquerdo no ano de 2024 foi capaz de inverter a convicção de que Kimi Antonelli seria a melhor escolha para a sucessão.
A imagem do italiano não era a melhor. O currículo não deixava dúvidas em relação à capacidade que teria de ser um grande piloto até de Fórmula 1 mas a estreia em treinos livres pela Mercedes, logo no mítico circuito de Monza, não correu bem, fazendo o melhor tempo no arranque antes de ter uma saída de pista e bater nas proteções na Curva Alboreto. Kimi ainda entraria nos treinos na Cidade de México, terminando em 12.º mas com necessidade de interromper mais cedo o teste depois de ter passado por uma zona de detritos que afetou o carro, antes de mais testes depois do final da época em Yas Mariana e em Jerez de la Frontera. Registos como ter sido o primeiro a ganhar mais do que um campeonato no nível F3 num só ano desde Alain Prost, em 1979, estavam a contar menos do que deveriam. Wolff, esse, ignorou as críticas e arriscou.
Em resumo, houve uma aposta naquilo que é o projeto de desenvolvimento de pilotos da Mercedes, sempre à procura da next big thing dos motores. No final daquela saída de pista em Ímola, Wolff relativizou a ação junto do piloto, os responsáveis germânicos ficaram impressionados com a velocidade com que abordou a curva mesmo tendo um erro de julgamento na abordagem, Kimi Antonelli não mais esqueceu o impacto que aquela sensação de frustração provocou. Em 2025, começou a redenção; em 2026, fechou-a em grande.
▲ Kimi Antonelli com o pai, Marco, também ele um antigo piloto e principal apoio do jovem italiano
Jakub Porzycki
Quando fez a estreia oficial em março de 2025 pela Austrália, sendo o primeiro piloto transalpino na Fórmula 1 desde Antonio Giovinazzi (2021), Kimi foi também o primeiro rookie da Mercedes desde 1954 e o terceiro mais novo de sempre no patamar mais alto do desporto motorizado. Com o passar das provas, alcançou vários outros feitos: o segundo mais novo a conseguir pontos na F1, o terceiro na história a fazer três top 6 consecutivos na estreia depois de Jackie Stewart (1965) e Lewis Hamilton (2007), o terceiro mais novo a fechar no pódio quando ficou em terceiro no Canadá numa corrida ganha pelo companheiro George Russell, o mais novo de sempre a liderar uma corrida e a estabelecer uma volta mais rápida. A temporada acabou com uma sexta posição com 150 pontos, entre três pódios e 12 corridas no top 6, e com a Mercedes sem hipóteses de competir com a McLaren nos construtores mas “ganhando” à Red Bull. Tudo “previsto”.
Wolff não exigia mais de Antonelli, tendo esperança no carro que estava a construir para 2026 – que podia servir a um novo campeão, fosse George Russell ou o italiano. Antonelli exigia mais de si próprio. Foi por isso que aproveitou o interregno e a pré-temporada para começar a preparar aquilo onde podia melhorar: teve mais sessões com um psicólogo do desporto para refletir sobre os momentos em que falhara em 2025 e estabelecer metas para o ano seguinte, aumentou os treinos de força e análises de telematria, procurou um par de ferramentas que antes não trabalhara como a aclimatização térmica (com treinos na IMG Academy, nos Estados Unidos), o aumento da tolerância respiratória no carro (com trabalho específico na piscina), a resistência neuromuscular acompanhada de sessões num simulador ou a dieta que permitisse manter os níveis de hidratação em corrida com reposição rápida do que era gasto. Estava “feito” um novo piloto.
Como seria de esperar, Toto Wolff manteve George Russell e Kimi Antonelli para colocar na prática aquilo que descrevia de “masterplan” para 2026. Com os novos regulamentos a nível de unidades de potência e de chassis, rapidamente a Mercedes se mostrou superior à McLaren, que era campeã em título, e alguns degraus acima da Ferrari, que surgia como principal adversário acima da Red Bull. Tudo se confirmou tal como era previsto. Ou melhor, houve uma surpresa: quando muitos olharam para o Grande Prémio da Austrália e viram no vencedor George Russell o candidato mais forte ao título, Kimi Antonelli arrancou para uma série de cinco vitórias consecutivas que foram preponderantes para construir uma vantagem no topo do Mundial que precisou apenas de mais três triunfos para chegar ao Texas com o primeiro match point e entrar no fim de semana de provas na Cidade do México a necessitar apenas de somar mais dois pontos.
▲ Kimi Antonelli tornou-se rapidamente um fenómeno entre os adeptos de Fórmula 1, como se voltou a ver o Grande Prémio da Cidade do México
Manuel Velasquez
“Houve várias vozes, incluindo dentro do nosso desporto, que sugeriam que o Kimi deveria ter um primeiro ano de preparação na Williams ou numa equipa similar. No entanto, para nós era muito claro: queríamos que tivesse esse ano em casa para chegar já com experiência quando chegassem as novas regulamentações. Nós estávamos dispostos a correr o risco de que cometesse erros mas agora estamos a ser recompensados pela nossa coragem. Sempre dissemos que haveria contratempos mas tem feito um progresso constante, sem falhas graves. Foi essa rodagem que permitiu que tivesse estes desempenhos. É um miúdo que há dois anos estava ao meu lado na garagem, a olhar de forma atenta, a aprender. Agora, a velocidade que demostra é incrível”, destacou Toto Wolff numa entrevista à ServusTV onde explicou a aposta em Kimi.
Outra peça vital no crescimento do piloto transalpino foi Pete Bonnington, chefe de engenharia da Mercedes e engenheiro de corrida de Kimi Antonelli depois de ter trabalhado vários anos com… Lewis Hamilton. Se a influência do pai Marco foi sempre incontornável, se Toto Wolff quis ser uma figura paterna para o italiano, Bonnington não ficou em nada atrás. “O Bono [Pete Bonnington] aprendeu com os grandes, desde [Michael] Schumacher a [Lewis] Hamilton durante muitos anos. Tem sido um bom mentor para ele, além de um chefe firme”, assumiu Toto Wolff. Se até 2026 só Ayrton Senna e Michael Schumacher tinham conseguido as suas primeiras três pole positions de forma consecutiva e só Damon Hill e Mika Hakkinen tinham ganho as três primeiras corridas de forma consecutiva, Kimi mudou a história também por influência de Bono.