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TOMAS SILVA/

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Do buzinão inesperado ao homem que se refugiou no interior do McDonald’s. Um dia de protesto que tinha tudo para ser tranquilo

A concentração da Acampada no Rossio começou ordeira, mas multas, buzinões, petardos e um homem sitiado no interior do McDonald's abalaram domingo em Lisboa.

A 25 de outubro realizou-se, na praça do Rossio, uma concentração de protesto contra a carga policial que tinha ocorrido na madrugada desse domingo, fruto das tentativas do movimento Acampada de Lisboa de pernoitar no local com tendas. Entre palavras de ordem, mais ou menos exaltadas, deu-se um ajuntamento que foi do enfurecido ao festivo, mas sem episódio de maior a registar. Passada uma semana, após a segunda ação da PSP ter tido lugar no coração de Lisboa (pelo mesmo motivo), esperava-se igual desfecho. Mas uma série de acontecimentos fez deste 1 de novembro um feriado pouco descansado.

Negociar com a PSP não evitou segunda noite de carga policial no Rossio. Tendas e manifestantes foram “varridos” da praça lisboeta

O que começou por ser uma manifestação ordeira acabou por ter momentos de tensão: num primeiro, entre manifestantes e autoridades, quando a polícia multou dois condutores intercetados por buzinarem em solidariedade com o protesto; num segundo, devido à explosão de um petardo que obrigou o suposto autor a refugiar-se dentro de um restaurante para fugir de uma multidão em fúria.

Por volta da meia-noite, grande parte dos milhares que tinham ocupado a praça ao longo da tarde e noite já tinha dispersado e, com eles, qualquer vestígio de que horas antes tinha havido o real temor de que uma nova carga policial poderia ter voltado a acontecer. No entanto, para a memória futura regista-se um clima de acrimónia e desconfiança cada vez mais agudo entre manifestantes e autoridades.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
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Um protesto ordeiro de quem “mais ordena”

Os incidentes que ocorreram na madrugada deste domingo levaram a nova atuação musculada por parte das autoridades — e novas acusações de violência policial e de restrição do direito de manifestação por parte do Acampada. Foi por essa razão que, tal como a 25 de outubro, foi convocada uma iniciativa para o dia seguinte na praça D. Pedro IV. As comunicações do movimento sugeriam que ia haver apenas uma concentração, um momento musical e uma cantina popular.

No entanto, por volta das 17h30, quando o Rossio já tinha começado a ficar bem mais composto, dá-se a primeira surpresa do dia: afinal, ia haver uma Assembleia Popular — a 16.ª desde que os protestos começaram, como um dos membros da organização frisou — e em registo open-mic. Antes do arranque, a Acampada fez um balanço da madrugada: “30 pessoas feridas, 10 hospitalizadas e seis detidas”.

Sucederam-se as intervenções com as já repetidas reivindicações pela mudança da política para a habitação do Governo AD e as contínuas críticas ao “regime dos Luíses” — o primeiro-ministro Montenegro e o ministro da Administração Interna Neves — e ao que se entende como a inação do Presidente da República, António José Seguro. “Senhor Presidente, não seja com Luís Montenegro o que Américo Tomás foi com o doutor Salazar”, ironizou um dos discursantes.

▲ O início da noite começou com milhares de pessoas reunidas na Praça D. Pedro IV

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Entre as intervenções constaram um apelo para que os manifestantes fossem para as galerias da Assembleia da República esta segunda-feira para assistir ao debate na especialidade do Orçamento do Estado (o ministro da Habitação será ouvido) e outro para uma vigília silenciosa junto ao Palácio de Belém. Além da repetição de que o Acampada vai participar criminalmente contra Luís Neves e o diretor nacional da PSP, destacou-se o testemunho de uma mulher que disse ter sido “agredida, insultada e assediada” por dois agentes após ser detida e levada para a esquadra do Martim Moniz. A visada garantiu que ia apresentar queixa, mas sem saber ao certo quem foram os responsáveis, já que não estavam identificados.

“Esta é uma batalha pelo futuro da sociedade portuguesa”, afirmou outro dos participantes, que apelou a uma greve geral e traçou uma linha vermelha: “Todas as forças políticas têm de decidir se estão do nosso lado ou contra nós”, apontou, frisando que “não vale a pena estar só de cravo ao peito se não defendem Abril”.

Por esta altura, apesar de alguns possíveis excessos de linguagem, o espírito que imperava era o de calma, com a Assembleia Popular a terminar à hora certa e a Orquestra da Acampada & Primavera de Coros a reunir centenas para a ouvir tocar no centro da praça. “A violência de ontem é da única e exclusiva responsabilidade do Governo”, reiterou uma das organizadoras, à medida que pedia aos presentes que comparecessem esta segunda-feira no Campus de Justiça, no Parque das Nações, onde os manifestantes detidos este fim de semana em Lisboa vão ser presentes a tribunal.

Quando o concerto terminou, pelas 20 horas, com o Grândola Vila Morena cantado de forma solene, poucos presentes arredaram pé, retomando cânticos de protesto e cantando temas como o hino da resistência italiana Bella Ciao ao ritmo de batuques. Não se sabia quando é que este momento ia terminar, mas a sensação era de que ia decorrer sem mácula. No entanto, um incidente numa das pontas da praça acabou por mudar completamente o ambiente.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

As multas que levaram os manifestantes a autuar a polícia

Durante a tarde, foi noticiado que a PSP tinha encontrado três cocktails molotov no Rossio, no decorrer de uma vistoria de segurança no local. Apesar de recordar os embates da noite anterior, a descoberta não se repercutiu numa maior presença policial ou num agravamento das tensões. Isso só aconteceu quando as autoridades mandaram parar dois carros junto ao Teatro D. Maria II.

Ao longo da concentração, foram vários os condutores a buzinar em solidariedade quando passavam pela praça, algo que já tinha acontecido a 25 de outubro, sem qualquer incidente registado. No entanto, pelas 21 horas deste domingo, alguns agentes mandaram duas viaturas encostar, passando multas de 60 euros devido ao uso de buzina sem motivo de perigo iminente — algo que é proibido pelo artigo 22.º do Código da Estrada.

A aparente aleatoriedade da medida levou a Acampada a fazer uma denúncia nas redes sociais e, mais significativo, arrastou boa parte da multidão no centro da praça a protestar contra o ato, enquanto uma das pessoas intercetadas pela polícia, uma mulher, recebia a coima. A calma e a ordem que vinham imperando ao longo da concentração foram abaladas, com os manifestantes a gritar “vergonha”, “apitem”, “cheira a ditadura” e “somos todos antifascistas” contra a polícia.

A situação foi entretanto agravada quando duas carrinhas da Equipa de Intervenção Rápida (EIR) da PSP estacionaram junto ao local. Vários manifestantes começaram a ocupar a estrada e a rodear os veículos. Os agentes, equipados da mesma forma que os colegas que tinham carregado sobre os manifestantes durante a madrugada, viram-se forçados a regressar às viaturas para evitar nova situação de violência. Os ânimos, no entanto, não serenaram. Quando uma das carrinhas tentou arrancar, vários manifestantes colocaram-se à sua frente e outros começaram a empurrá-la pelas laterais. Foram os próprios membros da Acampada a tirá-los e, assim, evitar, também aqui, nova escalada.

  • TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
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As viaturas da EIR estacionaram na praça do Rossio, mas viradas para a rua do Ouro, com vários manifestantes a segui-las e a manter a pressão. O clima entrou em erupção, com várias vozes audíveis por megafone a apelar aos carros que passassem para apitarem. “A PIDE mandou parar outro carro”, ouviu-se uma ativista declarar, antes de virar a sua atenção para dois agentes de mota parados junto ao Café Gelo: “Vão arranjar um trabalho a sério, bater em pessoas não é trabalho”. Também estes polícias abandonaram o local, o que gerou aplausos e gritos de alegria.

A meia hora seguinte voltou a ser de festa entre a multidão presente, celebrando cada vez que um carro passava a buzinar — com condutores e pedestres a desafiar o contingente policial que se ia tornando cada vez mais diminuto no Rossio. A experiência de manifestações passadas começou, todavia, a refletir-se junto de alguns membros da organização. “Não fiquem aqui expostos, a polícia vai regressar com mais carros”, ouviu o Observador da boca de um homem a lançar apelos ao público.

O temor de que se estivesse a perder o controlo da situação tinha razão de ser. Logo a seguir rebentaram dois petardos junto ao D. Maria II, sem ficar claro quem tinha sido o(s) autor(es). A organização, contudo, apercebeu-se de que este novo incidente — em conjugação com os atos de pressão junto às carrinhas da PSP — podia ser o gatilho para as autoridades regressarem com um contingente mais musculado. Por essa razão, começaram a pedir a toda a gente que se afastasse da estrada e regressasse ao centro da praça.

A multidão acatou o apelo e o ambiente acalmou, regredindo para o clima festivo que imperava antes do incidente das multas. Mas depois ouviu-se outro estrondo.

O petardo que acabou num impasse

Quando nada fazia prever que o ambiente no Rossio voltasse a aquecer, rebentou um terceiro petardo perto das entradas do Metro junto à rua do Amparo. “Foram os mesmos de há bocado”, ouviu-se gritar. Um rápido vislumbre detetou um homem a fugir de vários manifestantes, sofrendo agressões e insultos de “facho” e “bófia” enquanto abalroava quem encontrava no seu caminho. O presumível autor correu até entrar no McDonald’s a alguns metros, enquanto os seus perseguidores acumulavam-se à entrada do restaurante de fast food a tentar apanhá-lo. A gerência do estabelecimento fechou rapidamente a porta e baixou os gradeamentos — ninguém conseguiria chegar a ele, nem os clientes no interior conseguiriam sair.

Este incidente, decorrido num lampejo, ocorreu sob a premissa que o suposto autor lançou o engenho como forma de incitar ao regresso da polícia, merecendo acusações de ser um “infiltrado” de uma organização externa para instigar a violência ou até mesmo um agente à paisana. Essa insinuação, de resto, foi feita perante os órgãos de comunicação presentes junto ao McDonald’s por um dos membros da Acampada, que adiantou que o suspeito já tinha sido sinalizado pela organização. O movimento divulgou entretanto um vídeo nas suas redes sociais onde o homem que tinha sido acusado de ser o responsável pelo rebentamento é confrontado por um manifestante, sem provar a ligação ao incidente.

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O presumível autor terá negado à polícia as acusações. Uma fonte oficial da PSP adiantou ao Observador, no decurso deste episódio, de que se trata de um gestor de 41 anos que disse ter começado a fugir quando começou a ser acusado de ser um agente à paisana a arremessar um petardo. Segundo o mesmo, foi por medo de represálias que se refugiou no McDonald’s.

Com o suspeito ainda retido nas traseiras do restaurante, a gerência abriu o gradeamento para deixar sair em segurança os clientes presos, ao mesmo tempo que entraram quatro agentes e um dos membros da Acampada. A sua entrada, foi explicado, devia-se ao facto de no interior deste McDonald’s estar também Joana Marques Brás. A advogada de alguns dos detidos do movimento adiantou, já depois de abandonar o estabelecimento, que se encontrava no local por mero acaso.

“A minha intervenção aconteceu meramente porque eu estava a jantar e isto aconteceu e tentei privilegiar a entrada da polícia em segurança, para que houvesse uma identificação e cessasse a confusão. Não tive grande intervenção a não ser tentar que a polícia viesse”, declarou, explicando que assistiu ao que aconteceu e era necessário que a polícia fosse ao local identificar a pessoa que entrou à qual estavam a ser imputadas acusações de ter atirado o petardo.

O que se seguiu foi uma espera de várias horas à entrada deste restaurante, tanto por parte dos jornalistas como dos manifestantes. Começou, então, a avolumar-se um dispositivo da PSP na praça dos Restauradores, o que sugeria uma intervenção para libertar o espaço em frente ao McDonald’s. Depois de repetidos apelos de membros da Acampada para aqueles ainda presentes perto do estabelecimento, uma ativista aproximou-se da zona da esplanada para avisar que tinha recebido “informações lá de dentro” de que a polícia estava na iminência de chegar. “Vamos sair daqui senão vamos levar. Já se abriram muitas cabeças ontem, não é preciso que se abram mais”, alertou, confirmando entretanto ao Observador que essa informação lhe foi passada pelo membro do Acampada que se encontrava no interior do restaurante.

A advertência mais drástica surtiu efeito, ficando a frente do McDonald’s apenas ocupada por alguns jornalistas. O público regressou ao centro do Rossio e pela meia-noite já se contavam menos de duas centenas na praça — 30 minutos depois, a área já estava praticamente vazia e o restaurante reabriu.

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