Nos primeiros meses de 2025, a oferta nos palcos portugueses é ampla e diversa, do teatro à dança. É no mês de março que se concentram algumas das mais aguardadas estreias da temporada — como o mergulho de Bob Wilson na obra pessoana ou um popular musical da Broadway que toma de assalto o Parque Mayer. Mas ao longo de todo o ano, não faltarão espetáculos (e muitos monólogos) para disputar atenções.
Num 2025 de “redefinição estratégica” para o Teatro Nacional São João, que encerra em maio para obras, e com o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro Nacional São Carlos de portas fechadas, a agenda teatral deve fazer-se, mais do que nunca, por todo o país.
Durarei por Paz e Nunca por Mal, de Mélanie Ferreira e Daniel Matos
Teatro Viriato, Viseu (22 de janeiro)
Por terras de Viriato o ano arranca com dança, com o novíssimo espetáculo de Mélanie Ferreira. A bailarina e performer desafiou Daniel Matos, artista com quem já colaborou anteriormente, a criar uma peça sobre como ocupamos o tempo de espera. Em Durarei por Paz e Nunca por Mal, o público é convidado a estar perto, a esperar e a contemplar. O desenho de luz — que, a julgar pelas imagens de divulgação, não é um detalhe — é de Ana Carocinho.
Construção, de Gertrude Stein
Teatro do Bairro, Lisboa (22 de janeiro a 22 de fevereiro), Theatro Circo, Braga (13 e 14 de março)
António Pires e Luísa Costa Gomes regressam a Gertrude Stein (1874-1946), três anos depois de Um Alfabeto de Aniversários. Desta vez, o encenador e a escritora (responsável pela tradução e adaptação do texto) escolhem fazer um espetáculo com base na obra Três Dramas Históricos, uma trilogia escrita pela autora norte-americana em 1930 e publicada no livro Last Operas and Plays.
Quando eu morrer, vou fazer filmes no Inferno!, de Mário Coelho
Culturgest, Lisboa (23 a 25 de janeiro), Braga e Torres Vedras (fevereiro), Matosinhos e Lagos (julho)
Depois da delirante Se te Portares Bem, Vamos ao McDonald’s! — que o Observador considerou uma das peças de 2024 — Mário Coelho regressa ao género que o acompanha, o terror. Invocando códigos do cinema, o encenador e dramaturgo concebeu uma peça sobre uma maldição familiar, que é também uma crítica à indústria cinematográfica portuguesa, revelando, com a dose certa de humor e ironia, a precarização do setor e os abusos que nele persistem. Lúcia Moniz é a protagonista.
Ana Viotti
Menopausa, de Anna Toledo
Teatro Tivoli, Lisboa (29 de janeiro a 2 de março), Coliseu do Porto, Porto (6 a 8 de fevereiro), Teatro Aveirense, Aveiro (13 a 16 de fevereiro) e Teatro Lúcio da Silva, Leiria (20 e 21 de fevereiro).
Será um dos blockbusters da temporada esta peça com a atriz brasileira Cláudia Raia à cabeça. Menopausa é, como o título revela, sobre uma das fases menos discutidas da vida das mulheres e sobre a qual é imperativo falar sem tabus. Produzida pela Plano 6, a peça de teatro tem encenação e também interpretação de Jarbas Homem de Mello, ator e marido de Cláudia Raia. O texto é de Anna Toledo.
Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee
Teatro Nacional São João, Porto (6 a 16 de fevereiro)
Anabela Moreira e João Reis interpretam uma nova versão de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, peça que se estreou na Broadway em 1962 e posicionou Edward Albee como um dos grandes dramaturgos norte-americanos do século XX. Trata-se de uma comédia negra passada numa sala de estar, com dois casais, durante uma longa madrugada. O que pode correr mal? Como observou Albee: “Às vezes, é preciso derramar sangue”.
King Kong Fran, de Rafaela Azevedo
Passos Manuel, Porto (6 de fevereiro), Capitólio, Lisboa (15 de fevereiro)
É um monólogo provocativo que desafia o machismo em forma de comédia. O espetáculo-show-performance de King Kong Fran, da atriz e palhaça brasileira Rafaela Azevedo, mistura cabaré, circo e performance. Depois de esgotar salas no Brasil, Azevedo traz a sua reflexão e ironia sobre patriarcado, assédio e consentimento ao Porto e a Lisboa, em dois dias apenas. Depois de ambas as datas terem esgotado, foram abertas outras sessões para o mesmo dia.
No Iogurt for the Dead, de Tiago Rodrigues
Culturgest, Lisboa (19 a 23 de fevereiro), Theatro Circo, Braga (27 a 28 de fevereiro)
Tiago Rodrigues, atual diretor do Festival d’Avignon, em França, será presença regular nos palcos portugueses este ano. Logo no início de janeiro mostra Hécuba, não Hécuba, ao Centro Cultural de Belém (Lisboa). Pouco depois, circula com a aclamada Catarina e a Beleza de Matar Fascistas (Penafiel, Viseu). Mas é para fevereiro que está guardada a a estreia nacional de um novo espetáculo, o mais pessoal até à data, inspirado nas últimas semanas de vida do pai do encenador, o jornalista Rogério Rodrigues.
O Fim Foi Visto, de Teresa Coutinho
TBA – Teatro do Bairro Alto, Lisboa (25 fevereiro a 1 de março)
A partir de Cassandra, de Christa Wolf (cuja edição em português foi editada pela extinta editora Cotovia), e de uma extensa investigação em torno do tema da caça às bruxas, Teresa Coutinho ensaia uma ditadura futura em que as mulheres, acusadas de bruxaria, voltam a ver os seus direitos restringidos. Cruzando pesquisa e ficção, a atriz e criadora cria uma fábula sobre o medo, a passividade e a repetição cíclica dos mecanismos de opressão.
Skatepark, de Mette Ingvartsen
Teatro Municipal Rivoli, Porto (28 de fev a 1 de março), Culturgest, Lisboa (7 a 8 de março)
A coreógrafa dinamarquesa Mette Ingvartsen quis explorar o potencial coreográfico e dramático da velocidade e a energia do movimento sobre rodas. Assim chegou a Skatepark, que, com um elenco formado por skaters profissionais e bailarinos que também são skaters, tem um objetivo claro: trazer visibilidade a esta comunidade.
A Família Addams, de Ricardo Neves-Neves
Teatro Maria Matos, Lisboa (5 de março a 4 de maio)
O encenador e dramaturgo Ricardo Neves-Neves (Mães, Noite de Reis, Livro de Pantagruel) encena esta adaptação portuguesa do musical A Família Addams, baseado nas personagens criadas por Charles Addams. Um elenco de nove atores dá vida à excêntrica família, que em palco é acompanhada por um ensemble de músicos e cantores.
Pessoa — Since I’ve Been Me, de Robert Wilson, com textos de Fernando Pessoa
Teatro São Luiz, Lisboa (7 a 8 de março)
Um dos maiores mestres do teatro contemporâneo inspirou-se no universo de Fernando Pessoa para a sua mais recente criação. Falamos de Robert Wilson, encenador e dramaturgo norte-americano, com 83 anos, que se encantou pela figura de Pessoa e seus múltiplos heterónimos. Tem tudo para ser um espetáculo de tirar o fôlego esta peça que nasce a partir de textos do escritor português e tem dramaturgia de Darryl Pinckney. É falado em português, italiano, francês e inglês, idiomas que se refletem também nas diferentes origens do elenco, do qual faz parte a portuguesa Maria de Medeiros. Será um dos acontecimentos da temporada.
© Lucie Jansch
Deseja-se Fernanda!, de Ana Lázaro
Teatro São Luiz, Lisboa (15 a 23 de março)
Há 30 anos, um conjunto de mulheres decidiram rejeitar o papel de subalternidade a que o género feminino era reduzido no teatro português. Nascia a Escola de Mulheres, companhia que quis, desde sempre, privilegiar a criação e o trabalho feminino no teatro. Numa altura em que se assinalam cinco anos sobre a morte de Fernanda Lapa, uma das fundadoras da companhia, as suas cúmplices artísticas fazem-lhe um espetáculo em sua homenagem. Deseja-se Fernanda evoca Deseja-se Mulher, de Almada Negreiros, a primeira encenação profissional da Fernanda Lapa. O texto original é de Ana Lázaro, a encenação de Cucha Carvalheiro.
Arus Femia, de Zia Soares
Campo Alegre, Porto (21 e 22 de março)
A encenadora e atriz Zia Soares convida-nos a uma viagem pela história das mulheres africanas e guineenses a partir de rituais relacionados com o cabelo. Arus Femia (cuja tradução do crioulo guineense para português é “arroz fêmea”) inspira-se nas mulheres guineenses cujos cabelos viriam a tornar-se celeiros de sabedoria ancestral. A peça tem música de Xullaji.
Rent, de Jonathan Larson
Teatro Variedades, Lisboa (26 de março a 27 de abril)
Num ano com fartura de musicais chega ao Teatro Variedades, no Parque Mayer, uma adaptação de Rent, sucesso da Broadway sobre um grupo de amigos na Nova Iorque boémia dos anos 1990. A peça, que revolucionou o género do teatro musical, inclui músicas que se tornaram êxitos como Seasons of Love ou Take me or Leave me. Na versão portuguesa desta adaptação colaborou o encenador original, Michael Greif.
O Eutanasiador, de Paula Guimarães
Teatro da Trindade, Lisboa (8 de maio a 29 de junho)
Enquanto o Governo não toma iniciativas para a regulamentação da lei da morte medicamente assistida, o Teatro da Trindade leva à cena o monólogo Eutanasiador, um texto de Paula Guimarães encenado por Diogo Infante. A peça, interpretada pelo ator Sérgio Praia (Variações, Crime do Padre Amaro, Gabriel), tem lugar durante um interrogatório policial. Espera-nos um confronto com dilemas em torno do direito à escolha e à dignidade na hora da morte.
EXIT ABOVE – after the tempest, de Anne Teresa De Keersmaeker, Meskerem Mees, Jean-Marie Aerts, Carlos Garbin / Rosas
Culturgest, Lisboa (3 e 4 de junho), Rivoli, Porto (6 e 7 de junho)
A nova criação de Anne Teresa De Keersmaeker é um dos destaques da programação de duas das mais importantes salas de espetáculos do país num altura em que a influente coreógrafa belga é alvo de acusações de bullying na sua companhia — numa auditoria interna, De Keersmaeker prometeu fazer melhor e diferente doravante. Neste novo espetáculo, a coreógrafa volta-se para a música pop, explorando a relação entre a música, a dança e o corpo. O ponto de partida é a canção Walking Blues, de Robert Johnson.
Babel, a partir de Os Lusíadas, de Luís de Camões
Teatro Carlos Alberto, Porto (10 a 14 de junho)
Alguns detalhes das produções desta temporada ainda estão por revelar, mas é certo que em junho o encenador Nuno Cardoso encena Babel a partir de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Cardoso, ex-diretor do Teatro Nacional São João, vai mostrar um espetáculo construído com base na obra incontornável da língua portuguesa. O elenco ainda está por conhecer.
As mulheres que celebram as Tesmofórias, de Odete, a partir de Aristófanes
Teatro Variedades, Lisboa (11 a 15 de junho)
Odete, artista multidisciplinar, revisita um dos textos menos conhecidos de Aristófanes, Thesmophoriazusae. Escrito em 411 A.C., reconta um episódio em que mulheres atenienses se reunem no templo de Deméter e Perséfone para celebrar o festival das Tesmofórias, ocasião em que a presença masculina é proibida. Nesse espaço sagrado planeiam vingar-se de Eurípides pela forma como são retratadas nas suas tragédias.
A criação de Odete é uma coprodução do D. Maria II, que se estreia no âmbito do projeto STAGES (Sustainable Theatre Alliance for a Green Environmental Shift). O elenco é composto por Ângelo Custódio, Cru Encarnação, Odete, Puta da Silva e Tita Maravilha.
Corre, bebé!, de Ary Zara e Gaya de Medeiros
Jardins do Bombarda, Lisboa (20 a 29 de junho)
Corre, bebé!, espetáculo criado e interpretado por Gaya de Medeiros e de Ary Zara, foi o vencedor da 7.ª edição da Bolsa Amélia Rey-Colaço. Vamos finalmente poder vê-lo, na sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do antigo Hospital Miguel Bombarda, no âmbito de protocolos com a autarquia local e com a Largo Residências, respetivamente, enquanto o edifício-sede no Rossio continuar em obras. A peça cruza as disciplinas de performance e cinema para acompanhar “uma mulher trans e um homem trans em torno das problemáticas de gerarem um bebé”, antecipa a sinopse.
Reparations Baby!, de Marco Mendonça
Teatro Variedades, Lisboa (9 a 27 de julho)
Depois de fazer da sua primeira criação, Blackface, um blockbuster, Marco Mendonça arrisca-se a repetir o feito. Em Reparations, Baby! o ator e criador aborda a questão do pagamento de reparações pelos crimes do colonialismo cometidos por Portugal. Com o mesmo humor incisivo que prestou ao monólogo sobre a prática teatral racista de pintar a cara, Mendonça fá-lo agora sob a voz de um conjunto de atores (Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Danilo da Matta, June João, Márcia Mendonça, Stela, Vera Cruz), que participam num concurso de televisão que promete revolucionar o prime time português.
O Salvado, de Olga Roriz
São Luiz, Lisboa (9 a 12 de julho)
Passaram dez anos desde que Olga Roriz fez um solo, A Sagração da Primavera. Agora, aos 69 anos, a reputada coreógrafa volta a sentir-se impelida a subir a palco. Fá-lo no Teatro São Luiz, em Lisboa, com uma peça a que chama O Salvado. Com direção, interpretação, textos e escolha musical da coreógrafa, este promete ser um dos mais entusiasmantes momentos do ano nos palcos portugueses.
[Já saiu o quarto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
Audição, de Teatro Praga
Jardins do Bombarda, Lisboa (11 a 20 de julho)
Quase duas décadas depois de terem sido obrigados a abandonar o Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, os Praga tornam ao local a convite do Teatro Nacional D. Maria II. Mas nem o espaço nem a companhia é a mesma. Este regresso sem retorno é o mote para a criação de um novo espetáculo: Audição. “E porque audição é também fazer-se ouvir, nesta criação encontra-se o eco das vozes como fantasmas. É que em 30 anos também se esculpem os tímpanos”, consta na sinopse.
Marius, de Joël Pommerat
Teatro Joaquim Benite, Almada (13 e 14 de julho)
Um dos grandes acontecimentos teatrais da 42.ª edição do Festival de Teatro de Almada é esta peça com contornos singulares, que nasce a partir do encontro de Joël Pommerat, uma das mais destacada figuras do teatro francês atual, e Jean Ruimi, um recluso numa prisão de alta segurança, em Arles, na Provença francesa. Ano e meio depois de sessões de improvisação desenvolvidas pelo encenador com o ator-recluso, Marius, espectáculo da Compagnie Louis Brouillard, mostra-se por fim ao público português.
Elogio do Riso, de Maria Rueff e Rodrigo Francisco
Teatro Joaquim Benite, Almada (31 de outubro a 30 de novembro)
Quase a fechar o ano, a atriz Maria Rueff mostra na margem Sul do Tejo um monólogo sobre as origens do riso, depois de uma investigação a quatro mãos com Rodrigo Francisco, diretor artístico da Companhia de Teatro de Almada, que assina a encenação. O figurino é de Dino Alves, designer de Moda português que há vários anos colabora com a atriz.