1230,8kWh poupados 1230,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Da cultura visual à criação têxtil. Cinco dias e 10 jovens a descobrir tudo o que a Moda pode ser

Durante uma semana em julho, uma residência intensiva culminou com uma bolsa de estudo de 15 mil euros. Subimos ao primeiro piso da Associação ModaLisboa, para ver o que acontece entre desfiles.

É como se Pedro estivesse já um passo mais adiante. Fã da cultura visual e da ilustração, gostava de desenvolver uma coleção baseada em heróis de BD que admira, com a sua linguagem muito própria. “Como o pai trabalha na indústria têxtil já se imagina a fazer T’shirts!”, comentam os orientadores desta tarde. Do ensino especial, em Guimarães, para as instalações da ModaLisboa, em Lisboa, onde ao longo da primeira semana de julho 10 jovens, finalistas do 12.º ano, completaram um programa de iniciação e formação traçado pela associação, que refletem a diversidade de proveniências e estudos. A agenda de atividades passa por deitar as mãos na massa com tutores, visitar museus, participar em conversas, e para quem inclui a (aparente) diferença um workshop desta natureza “é muito interessante para ele porque vai quebrar rotinas.”, confia o professor Miguel Oliveira, que acompanhou Pedro nesta “pequena aventura” que é vir do norte do país para a capital. “Com algum esforço conseguimos introduzir novas técnicas de recorte, montagem e ele aceitou com muito agrado. Correu bem.”

Foi com o apoio continuado da PVH Foundation que a Associação ModaLisboa concluiu a segunda edição do programa amanhã, iniciativa de impacto social que reforça o compromisso estratégico da instituição com a inclusão, a capacitação jovem e a construção de um ecossistema de Moda. Durante cinco dias, os participantes integraram uma residência intensiva com um plano formativo multidisciplinar, orientado por diferentes nomes. No atelier BÉHEN, com Joana Duarte, refletiram sobre o papel do design enquanto prática consciente e responsável, com impacto direto no território, na sustentabilidade ambiental e na justiça social. Com paatiff, numa sessão liderada por José Sobral e Matilde Mariano e realizada na ETIC, trabalharam a criação de narrativas visuais com recurso a Inteligência Artificial, debatendo os seus limites e potencialidades no futuro da Moda. Com Sónia Jesus, aprofundaram os fundamentos da cultura visual como linguagem estruturante da identidade individual e coletiva, num exercício final de apresentação do seu ponto de vista e percurso na residência. E foi com Constança Entrudo que exploraram processos de criação têxtil a partir da pesquisa visual e conceptual, num exercício de articulação entre sensibilidade artística e método.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O dia começou no MUDE, a ver a exposição “Vivienne Westwood: O Salto da Tigresa”, e com um briefing mais teórico com Entrudo. A curta distância, o piso superior dos escritórios na rua do Arsenal, sede da ModaLisboa, transforma-se num atelier improvisado, entre mesas que se enchem de materiais e acessórios de forma a produzir uma estampagem e a desenvolver uma linguagem própria.

Nervosismo e timidez dominam o primeiro contacto, mas a curiosidade ajuda a quebrar o gelo. Alguns já conheciam o trabalho da designer, para outros é uma novidade absoluta. É raro falar destes temas fora de calendário, ou mesmo conhecer o que acontece entre desfiles, mas uma coisa é certa: os dedos vão ficar sujos de tinta. “Eu até na Louis Vuitton sujo as mãos”, ri-se a designer. “E esta tinta é tinta de tecido”.

Nesta jornada, cabe-lhe orientar o grupo de finalistas do secundário que se inscreveu na experiência. Para a maioria, é uma estreia absoluta com este contexto, o que de alguma forma também permite alargar a visão sobre o campo da moda — e neste particular explorar as potencialidades do têxtil, área por excelência de Entrudo, que começou por fazer a introdução sobre o que se pretendia, incentivando-os a partir de imagens de referência, registadas com os seus smartphones, rua fora.

“Começamos por fazer pesquisa em momentos em que a sombra e a superfície se encontravam. Eles foram andar por aí à procura disso. Daí partiram para fazer algumas colagens dentro desse briefing.” Inês mostra a sua imagem orientadora no telefone, em que se vê a sombra de um tuk tuk. A superfície que à primeira vista era lisa afinal não era assim tanto, aproximando-se de um padrão cheio de potencial. “Com os tecidos foi buscar a napa para referenciar a imagem original, e criou esta espécie de colagem. Agora estamos a passar isto para uma amostra têxtil. O objetivo de hoje é explorar ao máximo os limites do têxtil. O trabalho da Inês pode incluir estampagem, tecelagem, quilting, patchwork, vários métodos. Ver a exposição da Vivienne Westwood de manhã também nos inspirou: devemos acreditar no processo mais do que num produto final.”, recomenda Entrudo, que nos últimos anos tem explorado o design têxtil e que nesta edição da ModaLisboa mostrará o resultado da intervenção sobre stock das lojas Humana, reforçando os níveis de circularidade e expandindo horizontes. “Até porque o produto final é diverso. Pode ser roupa, sim, mas também um banco da Mercedes, muito coisa envolve têxtil… Estás pronta para irmos estampar isso?”, pergunta à sua formanda.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Com Maria, do Barreiro, assistimos à introdução do plissado. “Não sei se não tentava fazer mais uma amostra. Esta está feita mas ainda tens tempo para mais uma. Podemos levar esta ideia ainda mais além”, incentiva Entrudo, para que os formandos se desdobrem em novos ensaios. Já Diana, de Lisboa, ensaiou um contraste entre a sombra e o relevo quando estava a passar na calçada e observou esse encontro entre um simples poste e umas flores. Do campo das Artes, Rodrigo não esconde que deseja ser designer de moda. “Penso mais em roupa feminina, vestidos, etc. A minha avó tem um atelier e desde pequeno que estava sempre lá. Gosto muito de McQueen, Galliano, Alessandro Michele, e Sabato de Sarno.”, descreve o jovem, natural da margem sul. Para responder a este desafio, partiu da imagem de uma janela de rua. “Usei uma rede a fazer o listado, um bocadinho de pele.”, detalha.

Nem todos, como Cátia, seguiram a via artística durante os três anos de ensino secundário que agora chegam ao fim. Jessica dedicou-se às línguas mas rapidamente apanhou o idioma nevrálgico nesta jornada de experimentação. Entre o amontoado de material disperso, linhas coloridas e afins, lê-se algures “Estou a adorar este processo de padrões e estampas.” É mais do que um bom começo para um ecossistema em que nem sempre é fácil unir todos os pontos no sentido de criar um efeito consistente. “Apesar de termos uma indústria a questão do têxtil nem sempre é explorada na escola e faculdades”, lamenta Constança Entrudo, que no evento apresentado em março na ModaLisboa, na sala estúdio do CAM, teimou na ideia de que o triunfo está para lá de uma posição confortável no pódio.

Mas, bom, não é menos verdade que no final desta semana, apenas um eleito entre esta dezena de aspirantes pode agarrar o lugar cimeiro. “Tentei fazer o contraste entre duas madeiras, porque há uma sobreposição, tentei unir a sombra da cadeira com a de um candelabro. Usei a ganga e o xadrez, talvez pelas linhas retas que lembram o chão de madeira.”, mostra-nos à medida que nos aproximamos de cada um dos projetos em cima das mesas. Por esta altura, Celizia ainda não sabe que será a grande vencedora da bolsa de estudo amanhã, no valor de 15 mil euros, que lhe permitirá frequentar um curso de 18 meses no Modatex Porto, numa área de formação em Moda à sua escolha.

Celizia Tavares, a grande vencedora da residência © ModaLisboa

Este apoio cobre integralmente propinas, alojamento e alimentação, permitindo a continuação de um percurso de especialização com impacto potencial no mercado nacional. “A bolsa terá um grande impacto em tudo aquilo que eu represento, e em tudo aquilo que os meus pais representam para mim. Eu quero seguir Design de Moda, e com isso trazer a cultura perdida de Cabo Verde para o quotidiano. Há muita cultura que a juventude está a esquecer. Eu queria trazê-la para a Moda atual, e mostrar ao público que Cabo Verde tem muita riqueza.”, admite no rescaldo do triunfo.

Na máquina de costura, Margarida (chefe de estúdio, modelagem, costura), Raquel e Mafalda (duas estagiárias, alunas de Design de Moda) compõem a equipa de Constança Entrudo e ajudam a concretizar todo este processo ao longo da tarde. “Estamos a fazer um quilting“, apresenta Margarida, sem perder o norte da máquina. “Está melhor do que eu imaginava”, diz Jéssica, satisfeita com o desenvolvimento da sua peça. Enquanto isso, a equipa vai fotografando os resultados com polaroids.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“O resto de equipa teve que ficar a trabalhar noutras coisas”, explica Entrudo sobre os elementos presentes da sua entourage. “No ano passado os alunos diziam-me que isto tinha sido o desafio mais difícil que fizeram, porque nunca tinham partido de uma imagem. O ensino está muito feito para replicar, para desenhar bem, o melhor aluno é quem desenha melhor a maçã, não é quem desenvolve sentido crítico ou cria as próprias referências.”, elabora. “Uma imagem semelhante pode dar origem a todo outro resultado, espelhando várias interpretações. Alguns trabalharam com a sua própria sombra, trabalhando depois pintura, colagem, mais simples ou complexas. Muitas vezes a inspiração não precisa de ser uma viagem ao México. Pode vir de coisas bem simples. Isto também ajuda a desbloquear desde idade jovem.”

O que acontece entre semanas da Moda?

É provavelmente uma das questões que persiste no ar, quando falamos de todos aqueles meses entre apresentação de coleções de designers ao vivo e a cores. Esta será uma pequena gota mas ainda assim testemunho de uma face menos visível do setor e dos respetivos entretantos. “As pessoas sabem que fazemos as semanas da moda e fica sempre esta dúvida sobre o que fazemos entre edições. Interessa-nos falar para um público profissional mas também generalista, e criar oportunidades. Para lá do Sangue Novo, tínhamos esta vontade de trabalhar com uma classe mais jovem”, explica Joana Jorge, gestora de projeto da ModaLisboa e mestre de cerimónias desta iniciativa, que nos guia pelo andar superior. “Temos procurado parceiros para reforçar a nossa missão e este projeto surge com o apoio da americana PVH Foundation para tornar a indústria da moda mais inclusiva, envolver o consumidor num processo de mudança. Sentimos ser importante criar oportunidades diferentes em escolas e alunos do 12.º ano. Na primeira fase, vamos a escolas nas zonas mais densas de Lisboa e Porto, talvez com um contexto até socioeconómico desfavorável, desmistificar esta ideia de que a indústria da moda é só para criativos e designers”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Com um elenco de 10 jovens envolvido, a grande maioria oriundos da capital e da margem sul, mas também de outros pontos mais a norte do país, falamos de backgrounds muito distintos, e não necessariamente ligados à Moda. No ano passado, lembra Joana, a bolsa de um ano e meio da ModaTex Porto foi atribuída a um aluno de Economia, que acabou por escolher Design. “Aqui explicamos que falar sobre Moda não é só falar sobre roupa, ecossistema, negócio, é olhar para o mundo, pensar o futuro em sociedade. A bolsa premeia a criatividade mas também quer muito dar uma oportunidade e vem de um contexto em que essa oportunidade pode fazer a diferença.”, descreve a responsável, notando que nem sempre é fácil captar o interesse das escolas e a vontade para agarrarem esta experiência. É preciso bater à porta, partir alguma pedra e aliciar os potenciais candidatos, nem sempre despertos para as potencialidades do segmento.

“Vamos pôr isto a secar?” Constança abana uma imagem. Uma vez levantada a mancha de stencil sobra um maravilhoso azul que mais parece um “Rothko lindo”. O pior é a mesa, mas o esforço compensa todas as manchas.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.