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Chris Haston/NBC

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Depois de Harvey (e não só): como vai o ouro dos Globos brilhar?

É a primeira grande celebração de Hollywood depois da erupção do #metoo. O showbiz tem de continuar ou nunca mais poderá ser o mesmo?

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Talvez pareça ter aqui estado desde sempre porque diz respeito a histórias que aconteceram desde sempre, mas o escândalo não rebentou há mais de três meses. Eram os primeiros dias de Outubro quando o New York Times publicava a primeira peça: Harvey Weinstein teria molestado sexualmente dezenas de mulheres ao longo de 30 anos e havia uma longa lista de actrizes proeminentes a testemunhá-lo. O produtor todo-poderoso começou por negar, mas, no decurso dos dias seguintes, o coro de vozes que se juntava às originais para dizer “também eu fui vítima de Harvey Weinstein” tornou-se de tal modo ensurdecedor que, a Harvey, não se lhe ouviu mais um pio. A mulher deixou-o, foi despedido da sua própria companhia – e estranhamente permanece membro da Academia de Artes e Ciências.

A questão, porém, não era ele; era Hollywood – inteira. Harvey fora apenas o (enorme) detonador. De que se falava quando falava de assédio e abuso sexual no showbiz norte-americano até aqui? De Bill Cosby, de R. Kelly – pouco mais. Agora, subitamente, estalara uma fresta no pacto de silêncio — e ela ainda não parou de aumentar.

A 15 do mesmo mês, Alyssa Milano, que a maioria recordará como a adolescente de “Chefe, Mas Pouco”, mas que é há anos tida por uma das personalidades mais influentes do mundo no Twitter, escrevia na rede dos 140 caracteres: “Se foi assediado ou abusado sexualmente, escreva ‘eu também’ (‘me too’) em reply a este tweet”. O hashtag (que, ainda que Milano não soubesse, repetia o mantra lançado dez anos antes pela activista Tarana Burke) seria retweetado quase meio milhão de vezes nas primeiras 24 horas. Ao fim de uma semana, estava espalhado por 1,7 milhões de tweets, publicados a partir de 85 países. O problema não era Harvey; o problema não era sequer Hollywood; o problema estava por toda a parte. Mas a moralista Hollywood, que adora servir de grilo falante, nunca mais seria a mesma. Não pode mais a ser a mesma.

#youtoo?!

Corria pela internet um meme aos primeiros dias do “#metoo” que mostrava uma foto do Kodak Theatre vazio e dizia qualquer coisa como: “panorama da plateia na próxima cerimónia dos Óscares”. É uma hipótese; outra seria uma paisagem glaciar, com um ambiente mais gelado do que o Pólo. Em todo o caso, quando lá chegarmos, a Academia já terá tido toda a temporada de prémios para preparar ataques e defesas; o primeiro grande embate é agora, na 75ª cerimónia de entrega dos prémios da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood, a.k.a., Globos de Ouro.

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Seth Meyers, o apresentador da cerimónia, e a passadeira vermelha: dois dos protagonistas dos Globos de Ouro

Getty Images

Rose McGowan, Asia Argento, Mira Sorvino, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Rosana Arquette, Cara Delevingne, Léa Seydoux, Heather Graham e Ashley Judd são algumas das quase 100 mulheres que acusam Harvey Weinstein de assédio, agressão sexual ou violação. Que ele não estará na Internacional Ballroom do Beverly Hilton este domingo, é garantido – tão garantido como pairar sobre toda a cerimónia – mas não será a única ausência provável. Será James Toback, realizador e argumentista acusado por Rachel McAdams e Selma Blair (também acusadora no caso Weinstein); Roy Price, director de programação da Amazon; ou Chris Savino, da Nickelodeon. Será Kevin Spacey, Globo de Ouro para melhor actor em 2015 por “House of Cards” e nomeado mais sete vezes desde 1996. Será Louie CK (duas nomeações, em 2013 e 2015).

Serão, provavelmente, James Woods (um globo e oito nomeações), acusado por Amber Tamblyn; Oliver Stone (5-globos-5 e três nomeações), acusado por Patricia Arquette; e Dustin Hoffmann (6-globos-6 e sete nomeações), acusado por Kathryn Rossetter de comportamento impróprio repetido durante uma produção de “Morte de um Caixeiro Viajante”, na Broadway, em 1983. E deverão ser ainda John Lasseter, Brett Ratner, Steven Seagal, Jeremy Piven, Richard Dreyfuss, Sylvester Stallone, John Travolta, Charlie Sheen, Tom Sizemore ou Ben Affleck, entre muitos outros, todos apontados, algures por alguém, na longa lista de “#metoos”.

No final de 2017, a Time elegeu as “quebradoras do silêncio” como “pessoa do ano”. Na foto de capa, estavam seis mulheres: Ashley Judd; a activista Adama Iwu; a imigrante mexicana Isabel Pascual; a mega-estrela da música Taylor Swift, que denunciou o animador de rádio David Mueller; Susan Fowler, ex-engenheira da Uber que apontou o dedo ao antigo CEO e ex-rising star em Sillicon Valley e Washington Travis Kalanick; e uma funcionária de um hospital do Texas também vítima de assédio e cujos rosto e nome permanecem incógnitos, simbolizando todas as vítimas anónimas pelo mundo.

As críticas não tardaram a cair. Primeiro, porque o apresentador será um homem – o comediante SethMeyers – e, depois, porque as listas de nomeações, pelo menos no que ao cinema diz respeito, continuam dominadas pelo sexo do costume.

A questão agora é: isto chega? A denúncia destes casos será suficiente para terminar com a ideia de inimputabilidade a coberto da qual aconteceram, tantos anos, estes comportamentos? Não, pois não? E o que é que Hollywood, onde começou o “efeito Weinstein”, pode fazer com isto e por isto agora?

É pró menino / é prà menina oh oh?

“A Forma da Água”, filme de Guillermo del Toro que só estreará entre nós a 1 de Fevereiro, lidera com sete nomeações a corrida aos globos do cinema. Seguem-se “The Post”, de Steven Spielberg (estreia a 25 de Janeiro), e “Três Cartazes à Beira da Estrada” (estreia a 11 de Janeiro), de Martin McDonagh, com seis. Na televisão, reina “Big Little Lies” (série da HBO, visível entre nós na TV Séries), citada para seis categorias. Depois, há “Feud: Bette and Joan” (FX), com quatro nomeações, e “Fargo” (também da FX; em Portugal, na AMC) e “The Handmaid’s Tale” (um original do Hulu, visível por cá através do serviço NOS Play), com três.

As críticas não tardaram a cair. Primeiro, porque o apresentador será um homem – o comediante Seth Meyers – e, depois, porque as listas de nomeações, pelo menos no que ao cinema diz respeito, continuam dominadas pelo sexo do costume. Afinal, à parte as categorias destinadas a actrizes, só uma mulher consegue uma referência para um dos prémios principais: Greta Gerwig, que vê o seu “Lady Bird” (só estreará por cá a 18 de Março) nomeado para melhor filme em comédia ou musical, mas preterida na hora de escolher os candidatos a melhor realizador. E que ambiente se instalará na sala quando se falar de “Três Cartazes à Beira da Estrada”, em que a personagem de Frances McDormand, que chora a violação e o assassinato da filha, acusa toda a igreja católica de cumplicidade nos crimes sucedidos debaixo do seu silêncio?

“The Shape of Water” e “Big Little Lies” na frente nas nomeações para os Globo de Ouro

Já na televisão, o panorama parece um pouco mais interessante para os defensores da igualdade de género. “The Handmaid’s Tale” trata directamente do tema da opressão das mulheres e “Feud: Bette and Joan” do sexismo de Hollywood. “Big Little Lies” é amplamente dominado por um elenco feminino, com Nicole Kidman, Reese Witherspoon e Shailene Woodley, e até “A Guerra dos Tronos”, ainda que ambientada numa espécie de Idade Média paralela, tem os seus statements “girl power” bem vincados, com duas rainhas a encabeçarem as principais candidaturas ao trono de ferro quando tudo aquilo acabar: Cersei Lannister (Lena Headey) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke).

Mas quantos grandes filmes dirigidos por mulheres houve em 2017 que poderiam estar aqui e não estão? Vejamos: há “The Beguiled”, de Sofia Coppola, distinguido com o prémio de melhor realização em Cannes. Há “Detroit”, que está longe do melhor de Kathryn Bigelow, mas que tem méritos inegáveis. Há, noutro campeonato, o brilharete que Patty Jenkins fez com “Wonder Woman”… Mas haverá mais? A verdade é que só uma mulher foi distinguida até hoje com o Globo de Ouro para melhor realização: uma surpreendente Barbra Streisand, por “Yentl”, em 1983. Óscares? A mesma coisa: só uma, a supracitada Bigelow, por “Estado de Guerra”, em 2008. Todavia, segundo o Guardian e tomando 2016 como amostra, veremos que apenas 7% dos 250 filmes mais bem-sucedidos do ano foram dirigidos por mulheres. Isto é, a base de recrutamento é pouco mais do que residual.

E isto talvez nos leve ao verdadeiro ponto: o pior não é haver um preconceito sexista na hora de atribuir os prémios; o pior é o desequilíbrio colossal e de base na distribuição dos lugares de chefia. Sobretudo quando percebemos que, casos como o de Weinstein e o silêncio que durou até Outubro passado, só foram possíveis porque Hollywood estava (está) demasiado cheia de homens sentados nas cadeiras de realizadores, produtores, directores de estação, estúdio e casting, e de mulheres à procura de um lugar, com medo de perderem a carreira ou nunca chegarem sequer a ter uma caso abrissem a boca.

O vermelho e o negro

Que esperar, então, da cerimónia deste domingo? O tema vai, obviamente, estar presente. A igualdade de género, os direitos das mulheres, o “efeito Weinstein”, o “#metoo”, mas quão velado ou explícito? Quão crítico para quem se mantém em silêncio? Orientado para fazer a plateia levantar-se e aplaudir ou tossir e remexer-se na cadeira?

Reese Witherspoon e Laura Dern, por exemplo, de “Big Little Lies”, já se expressaram publicamente e reportaram a episódios pessoais de assédio. Viola Davis é presença habitual nestas ocasiões e conta-se entre o tal milhão-vírgula-sete que replicou o “#metoo” de Alyssa Milano.

Segundo a imprensa americana, mais de 30 actrizes, entre as quais Jessica Chastain e Emma Stone, deverão surgir de preto na passadeira vermelha como forma de protesto. Alguns actores, como Dwayne Johnson, também estarão a planear juntar-se ao manifesto silencioso. Mas a parte do silêncio é justamente o que irrita as vítimas. Rose McGowan, uma das vozes que mais se tem feito ouvir desde o início do caso e que acusa Weinstein de violação, denunciou a intenção como “hipocrisia”: “Vão sem fôlego receber um prémio falso”, escreveu no Twitter, “e contribuir zero para qualquer mudança real”.

É difícil imaginar que alguma actriz suba ao palco e não toque no assunto. Reese Witherspoon e Laura Dern, por exemplo, de “Big Little Lies”, já se expressaram publicamente e reportaram a episódios pessoais de assédio. Viola Davis é presença habitual nestas ocasiões e conta-se entre o tal milhão-vírgula-sete que replicou o “#metoo” de Alyssa Milano. Tal como Lady Gaga, Evan Rachel Wood, Rosario Dawson, Anna Paquin ou Björk, esta última com uma referência demasiado explícita a um realizador dinamarquês para não se ver nela Lars von Trier.

Quem não falar será acusado de não falar, como já tem acontecido a Meryl Streep. E isso inclui os homens: não têm faltado dedos apontados a Quentin Tarantino, George Clooney, Matt Damon, e outras super-estrelas que trabalharam, em alguns casos, longamente, com Harvey Weinstein, e nunca notaram ou denunciaram qualquer comportamento impróprio por parte do (para citar McGowan) “Pig Monster”. Mas então falarão todos para não serem acusados de não falar? E a partir de que momento da cerimónia isso começará a parecer um pró-forma e perderá todo o impacto? Ou haverá dedos espetados na sala e, nesse caso, Hollywood terá uma noite para não esquecer por muuuitos anos?

O meu Globo de Ouro é melhor que o teu Óscar

E poderá haver ainda outro momento muito desconfortável: o da entrega do prémio para melhor actor num telefilme ou série limitada. É que a notável lista de nomeados – Robert de Niro, Jude Law, Kyle MacLachlan, Ewan McGregor – termina com Geoffrey Rush. O australiano, já vencedor de dois Globos e que agora, pelo seu trabalho em “Genius”, alcança a sexta nomeação, viu, há pouco mais de um mês, o seu nome envolvido num caso de alegado comportamento impróprio, mas de que faltam conhecer quase todos os dados. A acusação partiu da Sidney Theatre Company, que diz ter recebido uma queixa relativa à época em que o actor estava em cena com “Rei Lear”, dois anos atrás. Rush, provavelmente um dos maiores actores vivos do cinema mundial, demitiu-se do lugar de Presidente da Academia Australiana de Televisão e Cinema por considerar que a dignidade do cargo tinha de ser poupada a qualquer suspeita e acusou a Sydney Theatre Company de manchar o seu bom nome, mas, no clima de caça às bruxas que se instalou, isso bastará?

A festa começa daqui a pouco. Só ainda não sabemos o que estaremos a celebrar.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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