Índice
Índice
Se os antecessores de Paula Ferreira e Luís Menezes no cargo foram pessoas ligadas à cultura, com percursos marcantes nesse domínio e currículos sempre alinhados com o mundo intelectual, os novos representantes do Estado na administração de Serralves estão mais em sintonia com uma agenda política, económica e empresarial do que com qualquer outro ramo de ação.
Paula Ferreira, juíza, é socialmente conhecida por ser casada com o empresário Mário Ferreira, considerado pela revista Forbes o 28.º português mais rico em 2024, e cujo património empresarial inclui a Media Capital, a Pluris Investments, a MysticInvest Holding e a DouroAzul, onde a própria exerce funções de administradora. E Luís Menezes é “um ilustre desconhecido no mundo cultural” que lidera o Grupo Ageas em Portugal, uma seguradora de renome internacional e o segundo maior grupo segurador em Portugal — politicamente é identificado com o PSD, do qual foi vice-presidente do grupo parlamentar entre 2009 e 2014. É filho de Luís Filipe Menezes, histórico do mesmo partido.
A decisão de escolher os dois representantes que faltavam no conselho de administração da Fundação de Serralves estava do lado do primeiro-ministro, Luís Montenegro, como confirmou o Observador a 3 de abril junto de uma fonte do gabinete do Ministério da Cultura, contrariando aquilo que vinha sendo hábito no que toca no processo de nomeações para a instituição. No entanto, o comunicado emitido a 9 de abril indicava que a decisão última partiu da ministra, mesmo que em pleno “período de gestão”, citando um “pedido expresso e urgente” da presidente do conselho de administração, de Serralves, Isabel Pires de Lima, para “garantir o regular funcionamento da Fundação”.
“Uma juíza que cumpriu os seus deveres”
Paula Ferreira, 52 anos, é mestre em Direito pela Universidade do Porto e frequentou o doutoramento em Direito na Universidad de Santiago de Compostela. Da sua formação académica destaque ainda para o curso intensivo de Gestão concluído na Católica Porto Business School e ainda para a frequência de um curso de História da Arte na Faculdade de Letras, também na Universidade do Porto.
[Paula Ferreira com o marido, Mário Ferreira, acionista maioritário da Media Capital:]
Foi ao Direito que Paula Ferreira começou por se dedicar, tendo enveredado pela carreira de juíza durante 17 anos, função que exerceu em diversos tribunais cíveis e criminais no distrito do Porto, nomeadamente no Círculo Judicial de Santo Tirso, o 1º Juízo Misto de Vila Nova de Gaia e o 7º Juízo Cível do Porto, entre outros. Ainda nesta área, Paula Ferreira foi juíza formadora no Centro de Estudos Judiciários, tomando parte ativa na formação de novos profissionais no campo jurídico. “Foi uma pessoa que desempenhou com afinco o serviço, uma juíza que cumpriu os seus deveres. Mas esteve muito pouco tempo na magistratura, de qualquer modo nunca pôs em causa o exercício das suas funções”, diz ao Observador Ausenda Gonçalves, presidente do Tribunal Judicial da Comarca do Porto.
Casada com Mário Ferreira desde 2006 — o casal tem duas filhas, Carlota, de 17 anos, e Catarina, de 14 —, foi ao lado do marido que Paula Ferreira conquistou uma imagem social e pública. Os dois são presença assídua na imprensa cor de rosa, para a qual dão entrevistas e fazem publicidade aos seus projetos empresariais, do turismo ao imobiliário. Paula Ferreira já chegou inclusive a ser eleita a mulher mais elegante do ano pela revista VIP. Os sonhos e ambições pessoais do casal, a viagem ao espaço de Mário Ferreira, as férias, as galas, os passeios, são temas recorrentes nas revistas do social.
Profissionalmente, Paula Ferreira — juíza em licença sem vencimento — resolveu aliar-se também a ao marido a partir de 2017, passando a colaborar com Mário Ferreira na administração de quase todas as empresas do grupo Pluris Invest. Aqui estão concentrados 60% da Mystic Invest Holding, onde estão agrupados os investimentos da Douro Azul, companhia de cruzeiros no Douro fundada pelo marido em 1993, e que já explora mais de 50 navios cruzeiro, tendo os restantes 40% sido vendidos em 2019 ao fundo norte-americano Certares, por 250 milhões de euros. A mesma holding explora o negócio das viagens de helicóptero, através da Helitours Douro, e o negócio das viagens de comboio, através da Mystic Tua e hotéis, cuja jóia da coroa, o The Lodge Hotel, um hotel de cinco estrelas construído sobre os antigos armazéns da real companhia Velha, numa zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, foi vendida em 2022.
Atualmente, o casal Ferreira é, contudo, indissociável do seu ativo mais mediático, a Media Capital S.A., dona do canal televisivo TVI, empresa da qual detém 37,5%, sendo os maiores acionistas e sendo Mário Ferreira o presidente do conselho de administração. Em bolsa, a Media Capital (que também detém a licença da marca CNN em Portugal) é avaliada em cerca de 169 milhões de euros, estimam as contas da Imprensa especializada.
A somar a todos estes ativos de monta, Paula e Mário Ferreira contam no seu portefólio de investimentos com uma aposta forte no imobiliário, traduzida nas empresas Mystic Real Estate e Mystic New Avenue, nas quais a nova representante do Estado no Conselho de Administração da Fundação de Serralves assume funções de liderança como Membro Executivo do CA.
A ligação e as pontes possíveis entre o Direito e a economia do mundo empresarial destacam-se nos interesses de Paula Paz Ferreira. Daí ter começado por exercer, em 2017, os cargos de Chief Legal Officer e Chief Human Resources Officer na DouroAzul, SA. Das suas responsabilidades fazem parte áreas como a Gestão e Desenvolvimento de Pessoas, os Assuntos Jurídicos e a Governação Corporativa.
Em nome próprio, Paula Paz Dias Ferreira fundou a empresa Out of the Wall, na qual ocupa o cargo de presidente. Trata-se de um sociedade anónima que realiza exposições de arte, ciência e história natural, bem como outros eventos que a empresa descreve como culturalmente relevantes. Leonardo da Vinci – As Invenções do Génio, uma exposição interativa itinerante sobre a vida e obra do homem do Renascimento, que esteve patente na Alfândega do Porto em 2017, e Extinção – O Fim ou o Início?, outra mostra também interativa e tecnológica, levada em 2018 também à Alfândega do Porto, desta feita numa pareceria com o Museu de História Natural de Londres, foram promovidos pela empresa de Paula Ferreira no âmbito da Cultura, êxitos de bilheteira para uma cultura de massas muito popular.
A simpatia é a característica pessoal que mais é atribuída a Paula Ferreira por quem a conhece da vida social e profissional. Mas a competência surge na boca dos mais próximos. E até dos colaboradores de Serralves que com ela já privaram. É que Paula Ferreira, através da empresa Douro Azul, é também fundadora e patrona de Serralves. É esta a denominação técnica para aqueles que contribuem financeiramente para o fundo anual, um meio que assegura a estabilidade financeira da instituição e o seu planeamento de médio e longo prazo, e que concede ao financiador regalias e benefícios. Essa proximidade com Serralves que vinha detrás, uma estratégia comercial, ou ambas, levaram, de resto, a nova representante do Estado ainda antes de o ser a negociar com a Fundação de Serralves, neste mesmo ano, estabelecer a TVI/CNN como Media Partner dos três grandes eventos públicos da instituição para o ano de 2025, o BioBlitz, que decorreu na semana passada, o Serralves em Festa, e a Festa de Outono.
▲ Os cargos dos representantes do Estado no conselho de administração da Fundação de Serralves não são remunerados. O prestígio tem sido até hoje a moeda de troca
© Divulgação
O acordo com a TVI/CNN permite à estação de televisão contar com o apoio da estrutura da instituição caso queira transmitir um programa ou telejornal a partir de Serralves, mas não impede nenhum outro canal de televisão ou órgão de comunicação social de fazer a cobertura dos eventos. De resto, tanto a RTP como a SIC já foram parceiras de Serralves nestes eventos. “O acordo já tinha sido celebrado antes da nomeação de Paula Ferreira para representante do Estado no CA da fundação. E está a estabelecer-se uma ótima relação entre nós, o trabalho tem sido muito bom”, esclarece ao Observador Cláudia Borges, na direção da comunicação de Serralves. “Não fazíamos ideia de que viria a ser ela uma das nomeadas”, adianta.
Em resposta ao Observador, Cláudia Borges confirma que a nomeação dos representantes do Estado foi acelerada através de “um pedido expresso e urgente” de Isabel Pires de Lima, presidente da administração de Serralves, como dava conta a nota do gabinete da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, mas que se prendia apenas com questões estatutárias da fundação. “Não podíamos esperar mais. Os representantes do Estado são elementos fundamentais no conselho de administração para que se possam assumir todo o tipo de decisões. Estávamos há três meses à espera e a presidente da Fundação deu o alerta para que fosse resolvida a situação”, conta ao Observador, ressalvando que “houve sempre um diálogo simpático e normal com o gabinete” da ministra da Cultura. “Compreendemos o relaxamento normal em relação a um conselho de administração quando um governo entra em funções e tem mil prioridades pela frente e muitos fogos para apagar. No entanto, como surgiu inesperadamente esta crise e partimos para eleições, percebemos que não podíamos esperar pela tomada de posse de um novo governo para saber quem representaria o Estado em Serralves”, conclui.
Trocar a Medicina pela Gestão
Luís Menezes, 44 anos, é filho de Luís Filipe Menezes, histórico do PSD, e antigo presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, e, como o pai, militante do partido de Luís Montenegro, cujo governo o nomeia agora, e em período de gestão, como representante do Estado na Fundação de Serralves. Apelidada de “nomeação política” e pouco mais, a chegada a Serralves de Luís Menezes, atualmente CEO do Grupo Ageas, não é muito “bem recebida”.
Luís Menezes tem também ligações à ex-presidente da casa, Ana Pinho, já que exerceu funções de Senior Advisor na Fundação Ilídio Pinho, pertencente ao tio da antiga presidente da Fundação de Serralves e atual presidente do Conselho de Fundadores.
Licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa, Luís Menezes conta também com formação no International Directors Program e no Advanced Management Program na INSEAD, e uma pós-graduação em Artificial Intelligence for Business pela Saïd Business School da Universidade de Oxford.
Em 2009, foi eleito deputado à Assembleia da República pelo Partido Social Democrata e aí exerceu o cargo durante XI e XII legislaturas, tendo pertencido à Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas, à Comissão Parlamentar da Saúde, à Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e à Comissão Parlamentar Eventual de Acompanhamento das Medidas do Programa de Assistência Financeira a Portugal. Durante os cinco anos que esteve na AR, Luís Menezes foi 1.º vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, cabendo-lhe a coordenação da Comissão de Assuntos Económicos. É também conhecida a amizade entre Menezes e o presidente do PSD, Luís Montenegro.
No mundo empresarial, esteve ligado profissionalmente à Unilabs, empresa líder no mercado nacional no diagnóstico clínico com uma rede de análises médicas com três mil funcionários, à qual dedicou grande parte do seu trabalho. Em 18 anos, Luís Menezes proporcionou a expansão da empresa em território nacional, mantendo a sua atuação também em mercados como os Emirados Árabes Unidos, Peru e Reino Unido. Antes disso, ocupou o cargo de Senior Advisor na Explorer Investments, na Fundação Ilídio Pinho, como já citámos, e ainda esteve na JP Morgan Chase, em Londres.
Contrariando a tradição familiar associada profissionalmente à Medicina — na família há médicos há mais de três gerações — Luís Menezes escolheu a Gestão como caminho, embora tenha sempre tido na Saúde o seu fio condutor, até nas áreas de especialidade das empresas que liderou. Assim foi na Unilabs e assim é no Grupo Ageas, onde chegou em maio de 2024, tornando-se CEO seis meses depois. A seguradora belga tem na Saúde uma parte do seu negócio, sendo o grupo ainda essencialmente segurador no ramo Vida através das Ocidental e Ageas Vida e, nos ramos Não Vida, através da Ageas Seguros, Médis e Seguro Directo. À frente do Grupo Ageas, Luís Menezes gere também a holding Millennium bcp Ageas, em que o banco detém 49% e o grupo a maioria do capital. Esta holding usa a marca Ocidental Vida e detém o exclusivo de venda de seguros aos clientes Millennium. Segundo a imprensa especializada na área da economia, o volume de negócios do Grupo Ageas ronda os dois mil milhões de euros, a que corresponde uma quota no mercado nacional de 15%. Tem 1,8 milhões de clientes, 1.335 empregados, gerindo ativos de muitos mil milhões. As ligações da Ageas ao Grupo José Mello, à Médis, à Associação Nacional de Farmácias e à Ordem dos Médicos são uma realidade conhecida.
Fora do ambiente profissional, Luís Menezes dedica o tempo que lhe sobra à família, ao desporto e às viagens. O currículo apresentado na página da Internet do Grupo Ageas faz referência à leitura de biografias e livros históricos. “Acredita firmemente na perseverança, na justiça e na importância de nunca desistir, valores refletidos na sua admiração pelo livro Endurance, do escritor Alfred Lansing, e pelo filme Os Condenados de Shawshank, do realizador Frank Darabont”, lê-se na mesma página, sendo estas as únicas referências ao campo cultural.
“Perfis bastante diferentes daqueles a que estávamos habituados”
“Não entendo como é que um cargo que se prende com uma das principais instituições artísticas portuguesas e que representa o Estado não seja ocupado por alguém com competência concreta no campo da arte. Um grande colecionador, um historiador de arte, uma pessoa que de algum modo estivesse por dentro das grandes questões culturais. A Paula Ferreira é uma senhora simpática, mas não tem provas dadas na área da cultura. O facto de aparecer muito em sociedade e das pessoas saberem quem ela é, não faz dela uma figura reconhecível no âmbito da cultura”, diz ao Observador Bernardo Pinto de Almeida, historiador de arte do Porto, professor universitário, muito próximo de Serralves.
▲ O Ministério da Cultura citou um “pedido expresso e urgente" da presidente do conselho de administração, de Serralves, Isabel Pires de Lima, para "garantir o regular funcionamento da Fundação”
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“Os administradores de Serralves representam também o seu mecenato, e Serralves sem o mecenato não seria o prodígio em que se tornou, é hoje um exemplo de como a sociedade civil pode contribuir para a existência de instituições importantíssimas de modo muito ativo. Em tese, o Estado, sendo representante de quase metade dos fundos da Fundação, sempre colocou no conselho de administração pessoas com forte vínculo à cultura, grandes professores, ensaístas, com grande nível cultural e com provas dadas na vida pública. E tinha, o Estado, obrigação de continuar a colocar em sua representação figuras com esse currículo”, continua o historiador de arte, que esteve, por exemplo, no conselho de administração do Museu Berardo.
Luís Filipe Castro Mendes, diplomata, poeta e ex-ministro da Cultura, Diogo Pires Aurélio, professor universitário, escritor e filósofo, Manuel Villaverde Cabral, investigador e professor, são exemplos apontados por Bernardo Pinto de Almeida. “Estas pessoas têm uma relação profunda com a cultura, são pessoas que pensam a cultura num plano relacional. Serviriam como conselheiros aos patronos que vêm de um vida económica e empresarial muito forte e a quem falta esse currículo. De resto, foi este modelo que até hoje se mostrou altamente produtivo em Serralves. Penso que é uma tradição que não se devia abandonar, sob pena de se perder a relação de equilíbrio vivo entre os dois polos, o cultural e o económico”, conclui o professor portuense.
Na Fundação de Serralves, “espanto” é a palavra usada para definir a forma como as nomeações dos representantes do Estado para o conselho de administração foram recebidas. Os nomes escolhidos pelo gabinete de Dalila Rodrigues não são conhecidos. Paula Ferreira, até certo ponto e “de forma circunstancial”, é descrita como “uma mulher atenta e viva”. A Luís Menezes nem são atribuídos adjetivos por “grande desconhecimento”. Oficialmente, nem a direção do museu, nem a administração da Fundação, nomeadamente Isabel Pires de Lima, se quiseram pronunciar sobre as escolhas do Estado. Oficiosamente, não deixaram de fazer notar a estranheza. “São perfis bastante diferentes daqueles a que estávamos habituados, pelo menos nos últimos nove anos.” Luís Menezes e Paula Ferreira substituem José Pacheco Pereira e Isabel Pires de Lima, e, note-se, a antiga ministra da Cultura passou de representante do Estado a presidente do conselho de administração da Fundação.
No círculo mais restrito do mundo cultural da cidade do Porto, o termo para definir os novos membros do CA é “desilusão”. “Parece uma nomeação contra a instituição e não em prol da casa e da arte contemporânea”, desabafa em off ao Observador um outro agente cultural da cidade. “O Estado, que até aumentou e muito bem a sua contribuição para Serralves na última legislatura do PS, agora, com estas nomeações, parece que quer estragar o bom trabalho que está ali a ser feito. Nem um, nem outro têm profundidade intelectual”, conclui a mesma fonte. Além disso, Luís Menezes “não é nada inspirador, basta pensar que nunca o vimos em nenhuma galeria de arte da cidade”, expressa desânimo um galerista portuense.
Contactado pelo Observador, o gabinete da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, não quis prestar declarações sobre as nomeações dos representantes do Estado no Conselho de Administração da Fundação de Serralves, nomeadamente naquilo que concerne às razões específicas que levaram à escolha dos nomes de Paula Ferreira e Luís Menezes e dos seus currículos.
Os cargos dos representantes do Estado no conselho de administração da Fundação de Serralves não são remunerados. O prestígio tem sido até hoje a moeda de troca.