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▲A ginasta romena Nadia Comaneci durante os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976

Gamma-Rapho via Getty Images

▲A ginasta romena Nadia Comaneci durante os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976

Gamma-Rapho via Getty Images

Do dez perfeito às cicatrizes invisíveis, a vida de Nadia Comăneci é também a história do controlo do corpo feminino

Em "A Pequena Comunista que Nunca Sorria", Lola Lafon reconstitui a história da ginasta romena para contar uma maior: a da "guerra sobre o corpo das mulheres e a sexualização de meninas".

1976, Jogos Olímpicos de Montreal, Canadá. Uma menina romena, de maillot imaculado, lança o corpo tenso com toda a força. O resultado? Um dez perfeito, a nota máxima alguma vez atribuída em ginástica.

Mas por trás da “pequena comunista que nunca sorria” há mais do que a lenda de uma ginasta prodígio. Convertida em heroína nacional, o corpo desta tornou-se assunto de Estado, símbolo de propaganda do regime e, mais tarde, símbolo do anti-comunismo nos Estados Unidos da América, país que viria a acolher a atleta um mês antes da queda do regime comunista romeno.

É esse percurso que Lola Lafon começa por retratar em A Pequena Comunista Que Nunca Sorria, livro publicado há uma década e que ganhou em maio uma edição portuguesa pela mão da Antígona. Nele, a escritora francesa que cresceu em Sófia e Bucareste revela o mito e a queda de Nadia Comăneci, ginasta que aos 14 anos teve o mundo a seus pés. “A rapariguinha transformou-se numa mulher, a magia desapareceu”, titulou um diário francês, anos depois. “De grande menina a mulher. Veredicto: o encanto quebrou-se”.

Numa narrativa intercalada por um diálogo imaginário entre a falsa biógrafa e a sua personagem, Lola Lafon faz de Comăneci um estudo de caso e torna-a porta-voz de uma narrativa mais alargada: a da forma como o corpo das mulheres é controlado, explorado e descartado. Em entrevista ao Observador na sua passagem por Lisboa para promover aquele que é o seu quarto romance, mas o primeiro editado em português, Lafon fala do confronto com a verdadeira história do livro, de soft power, do estado do mundo, de feminismo e de revoluções.

▲ Capa do livro "A Pequena Comunista que nunca Sorria", de Lola Lafon, editado pela Antígona e com tradução de Luís Leitão

Mais do que tentar contar-nos a história de Nadia Comăneci, o livro debruça-se na forma como esta foi transformada num símbolo nacional, sendo o seu corpo moldado, controlado e monitorado. Quando é que percebeu que era essa a história que queria contar?
Cresci na Roménia, passei oito anos lá, dos quatro aos doze, e ela era uma figura muito importante, especialmente quando fui para França. Percebi que a Roménia era desconhecida, na melhor das hipóteses, e na pior era vista com imensos clichês. Mas havia a Nadia Comăneci, que era muito famosa.

Andava a ler muita coisa, em inglês, em francês, em romeno, fui a Montreal, a Nova Iorque, a Bucareste, a fazer muita pesquisa e a dada altura encontrei uma primeira página de um jornal francês dos anos 1980 sobre os jogos em Moscovo, em que ela ganhou. Ela estava de volta, estava a ganhar, mas a página era: “a menina tornou-se mulher, veredicto, a magia acabou”. Essa frase foi o grande gatilho para escrever [este livro]. Porque o jornal disse mesmo: “veredicto”, como se fosse um julgamento. Um julgamento sobre o quê? Sobre o corpo? Depois li 10 anos do L’Équipe, o jornal francês desportivo, e tudo o que escreviam sobre ginástica. As palavras, a forma como falavam do corpo dela quando era uma criança terrível, sempre sexualizada. Percebi rapidamente que isso seria o tema do livro, que o que tinha de trabalhar era sobre ela, mas não é só sobre ela. É sobre a forma como o corpo das mulheres é propriedade do Estado, da indústria. É sobre uma guerra sobre o corpo das mulheres e a sexualização de meninas.

O livro ganhou agora uma edição portuguesa, mas foi escrito e publicado há 10 anos. Ainda assim, ressoa de muitas formas…
Ainda mais! Quando fiz a digressão em França e por outros países estávamos no início do movimento MeToo, parecia haver uma mudança… Mas a violência das redes sociais tem tornado a imagem da mulher num novo objeto de guerra e creio que é ainda pior agora. Há um enorme backlash contra o feminismo e todos estes assuntos. Esse backlash é óbvio, as coisas estão diferentes.

"As palavras, a forma como [nos jornais desportivos] falavam do corpo dela quando ela era uma criança era terrível, sempre sexualizada. Percebi rapidamente que isso seria o tema do livro, a forma como o corpo das mulheres é propriedade do Estado, da indústria. É sobre uma guerra sobre o corpo das mulheres e a sexualização de meninas"

Falou no MeToo, motor para ações de denúncia de casos de assédio, mas há outros exemplos, como o movimento body positivity. As modelos plus size entraram tão rápido como desapareceram das capas de revista, a febre com medicamentos como o Ozempic voltou colocar a magreza como um objetivo — um que é amplamente escrutinado no livro, de resto. Vivemos um período de ilusão de progresso ou regredimos, de facto?
É uma questão de mercado, como sempre. Vivemos num sistema capitalista e temos de ter dinheiro. O sistema trabalha sobre a infelicidade das mulheres: se não estivermos a comprar uma série de cremes não há mercado. Encontra-se sempre uma forma de capitalizar as inseguranças das mulheres, seja a idade, o corpo, o que é preciso é vender o produto. Hoje vivemos um tempo diferente, mais violento. As redes sociais tornaram-no mais violento. Basta ver quando uma atriz faz Botox ou outra coisa qualquer, é isto e aquilo. E quando não faz é horrível, está velha. Não é possível ser-se apenas, estar tranquila, sermos da forma que somos. Escrever sobre uma atleta de exceção foi também uma forma de mostrar que mesmo quando se faz uma revolução no seu desporto, nada disso importa, o corpo continua a ser escrutinado. Mesmo que se seja excecional, não faz diferença.

Algo que deixa evidente no livro é como Comăneci foi celebrada pelos seus feitos, mas apagada enquanto sujeito. Aliás, dá-lhe uma voz que nunca teve, com um diálogo ficcionado, procurando reescrever a história com palavras da ginasta em discurso direto.
Um dos meus livros mais recentes é sobre a Anne Frank (Quand tu Écouteras Cette Chanson, 2022), também já trabalhei sobre a Patricia Hearst (Mercy, Mary, Patty, 2017). São todas mulheres muito diferentes, mas a ligação é: de cada vez que falam — quer dizer, a Anne Frank escreveu —, os adultos em jornais, presidentes, o que seja, dizem-lhes que eles é que lhes vão dizer o que elas realmente pensam. Em todo o lado ela [Nadia Comăneci] é dobrada. É como se fosse um filme. É algo que vejo muito quando escrevo sobre jovens mulheres, as suas vozes nunca são o que as pessoas querem ouvir. Quando surge algo sobre assédio sexual ou violação, pelo menos em França, todas as vozes a que se levantam dizem: porque é que falou tão tarde? Porquê agora? E porque é que usou estas palavras? É sempre sobre o discurso da mulher. Como se tivesse de ser sempre rescrito. A Nadia é o produto de um sistema, um produto do comunismo e fez o mundo apaixonar-se por este sistema, o que é irónico. Isso foi interessante descobrir. Era um soft power da Roménia.

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O livro mostra como regimes autoritários usam os corpos femininos para propaganda política. Nadia teria escapado dessa instrumentalização sob outro sistema ou, como parecia dizer há pouco, a lógica não é distinta do que acontece hoje em democracias capitalistas?
Exato. Ia dizer-lhe isso. Fico sempre irritada quando dizem: ah, as nadadoras na Alemanha eram instrumentalizadas. Sim, eram, e na Roménia também. E em França e em todos os outros países, quando se é campeão. Vai-se conhecer o presidente, tem-se a bandeira… A competição está sempre muito perto do soft power, é uma imagem, e tem de ser atrativa… Não acho que seja em nada diferente.

No seu corpo de trabalho há temas recorrentes como o anti-capitalismo ou o feminismo. Diz que vê os livros como “uma forma de militância”. Que poder têm os livros?
Depende dos dias. Em alguns penso: estou a fazer um trabalho do passado, ninguém está a ler, as pessoas no metro estão todas nos telefones, ninguém quer saber. Mas depois acho o oposto, acho que precisamos da ficção mais do que nunca. Podem ser séries, filmes, teatro, mas precisamos de outro meio para ver a realidade, para ver a realidade de outra forma. Não acho que os livros podem mudar o mundo, esse seria um grande peso para colocar sobre a literatura, mas sem dúvida podem mudar-nos o horizonte, mudar a forma como vemos as coisas. Quando editei este livro, lembro-me bem, fiz uma digressão gigante, interminável, e fui a todo o lado. Comecei a ver mulheres que eram não obviamente feministas da forma como as sei reconhecer, isto é, mulheres jovens, que são woke ou o que seja, mas sim mulheres mais velhas, de sítios mais pequenos. E era tão comovente porque falavam comigo sobre como eram quando tinham 14 anos, sobre a primeira vez que tiveram medo, sobre liberdade de movimentos… O mais importante para mim não é falar para pessoas com quem concordo, não quero saber disso. Para mim o interessante é quando a literatura consegue estabelecer um diálogo quando menos se espera. Isso é muito importante.

Fiquei surpreendida por ter usado o termo “woke” sem hesitação.
(risos)

Tornou-se uma palavra com outro significado.
Absolutamente.

Enquanto escritora, quais são os desafios na hora de estabelecer esse diálogo com quem não se concorda? Num momento em que o mundo está tão polarizado, ter um posicionamento assumidamente feminista, por exemplo, assegura leitores, mas compromete outros?
Acho que mudou muito em França. No início, quando estava a publicar, os jornalistas perguntavam-me: importa-se se eu lhe chamar feminista? E eu dizia: não (risos). Mas éramos poucas escritoras a falar sobre estes assuntos. Agora noto diferenças. Com o romance que publiquei depois deste, que se chama Reeling, o primeiro jornalista com quem falei era um homem e estava totalmente desperto para estes temas. Estávamos em 2020. Alguma coisa mudou, é óbvio. Além disso, já não tenho o rótulo de escritora feminista em França, tornou-se mais abrangente do que isso. O Pequena Comunista, por exemplo, e fiz muitas piadas com isso, foi premiado por um jornal de direita muito famoso. É um prémio ótimo de literatura. Disse: ok, fiz o meu trabalho. Não quero estar nos meus romances, não quero pôr neles a minha opinião, não é esse o trabalho que quero fazer. Gosto de palavras, quero ter perguntas e não necessariamente dar respostas. Por isso fiquei muito orgulhosa de ter este prémio de um jornal mais conservador.

Que prémio era esse?
Da Madame Figaro (Le Grand Prix de l’Héroïne)

Tem uma coluna de opinião regular no jornal Libération (jornal francês assumidamente de esquerda).
Sim, aí as pessoas sabem [o que penso]. Mas acho que nas minhas colunas tento estar num lugar mais de colocar perguntas e de perceber como podemos olhar para as coisas políticas de outra forma. O importante é ter diálogo e não ter dois monólogos de pessoas que falam sozinhas e que nunca poderão mudar de opinião. Penso muitas vezes: como pode o mundo mudar a nossa forma de pensar? Uso a linguagem, o meu trabalho é sobre a linguagem. Mas é difícil… Assistimos a um backlash. O movimento MeToo mal tinha começado e as pessoas começaram logo preocupadas em manter as estruturas. Em França há um backlash enorme, conseguimos senti-lo. Temos a ascensão da extrema-direita, pessoas muito conservadoras em jornais, nos media… Mas é em toda a Europa, não é só em França.

▲ A escritora Lola Lafon, fotografada em Lisboa, onde esteve para participar em vários encontros com leitores promovidos pela editora Antígona

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

No início do ano Jeff Bezos decidiu que os textos de opinião do The Washington Post tinham de passar a defender o “mercado livre” e que os artigos em sentido contrário deixariam de ser aceites no jornal — o que levou até à demissão do editor de opinião do diário.
O que é mais surpreendente para mim sobre o Bezos é que durante anos vimos incontáveis documentários sobre a Amazon e ainda assim as pessoas dizem: “sim, mas”. Isto é um projeto, não é só sobre comprar coisas baratas. Temos de nos focar nas pequenas coisas do nosso dia a dia também. É político. Em Paris há muitos estafetas, isso significa alguma coisa. Há um ser humano que te vai trazer a comida, o rapaz está a tomar riscos. Vivemos com a ilusão de uma vida desconectada, em que o que fazemos não tem conexão com a realidade, com pessoas. Só que tem.

A visibilidade de um filme como L’Histoire de Souleymane (2025)…
Exatamente, não sabia se o tinha visto!

Em vez da literatura, falamos do cinema. Um filme como este — sobre um jovem guineense que trabalha como estafeta da Uber em Paris — pode ter um impacto real?
Sim. Quer dizer, se calhar sou uma sonhadora, mas acho que sim. Acho que a arte tem um impacto. Voltamos à sua pergunta. Acho que ver um filme sobre uma realidade sob outro ponto de vista tem um impacto, acho que sim.

Houve pelo menos impacto a uma pequena escala na medida em que o protagonista do filme conseguiu autorização de residência em França.
Sim, sim.

Voltando ao livro, fala na obsessão pela juventude feminina especificamente no cinema. Evoca Jodie Foster em Taxi Driver (1976) ou Brooke Shields em Pretty Baby (1978). Como vê o papel do cinema hoje na sexualização e objetificação das jovens mulheres?
Está pior. É mais violento. 1976 é incrível porque é o ano em que temos a Jodie Foster, a Brooke Shields e a Nadia Comaneci. E de uma forma é novo, é fresco. Não é novo ter crianças exploradas e sexualizadas, mas de repente é uma coisa pop. Para ser franca acho que não mudou nada. Em França, a publicidade continua a ser feita por mulheres muito jovens com maquilhagem para parecer que têm 30 anos, para ter um impacto nas mulheres que têm 40. É insano. Vejo uma diferença enorme. Há uns anos na ELLE francesa lia-se sobre “o melhor creme que se pode usar para não envelhecer”. Agora é sobre a melhor cirurgia. Quando é que isto aconteceu? Quando é que uma cirurgia se tornou normal?

"Em França, a publicidade continua a ser feita por mulheres muito jovens com maquilhagem para parecer que têm 30 anos, para ter um impacto nas mulheres que têm 40. É insano. Há uns anos na ELLE francesa lia-se sobre "o melhor creme que se pode usar para não envelhecer". Agora é sobre a melhor cirurgia. Quando é que isto aconteceu? Quando é que uma cirurgia se tornou normal?"

Estudos mostram que durante a pandemia também aumentou a procura por procedimentos estéticos.
Sim, sim. É difícil dizer que somos intocáveis pela propaganda. É muito difícil.

Disse que é sonhadora. Como olha para o futuro?
Não entro na onda do escapismo. Acho que há ondas, mas nunca conseguimos prever nada. Volto sempre a um exemplo da minha infância muito importante para mim que é o caso da África do Sul. Lembro-me de os meus pais, de ser muito pequenina, mas lembro-me… Vimos revoluções em muitos países, mas quem podia prever que na África do Sul o apartheid ia terminar nos anos 70? Acho que não temos o luxo de poder estar no desespero. Não sou uma sonhadora, não se pode fazer isso, os tempos são assustadores, as pessoas vão sofrer, temos de ser claros. Não é ser sonhadora, é não pensar que tudo o que acontece é invencível. Não acho.

Como se vence?
Não sei. Em França, nas últimas eleições dizia-se que Marine Le Pen ia ganhar tudo. O que é que aconteceu? Não foi assim. Cresceu a democracia e ninguém o previu. Não sei se vai durar, não estou certa, de todo, mas acho que há um despertar. Não é uma revolução, porque não acredito em revoluções agora. Mas talvez as pessoas estejam a ver o que o Trump está a fazer e não queiram votar dessa forma.

Porque é incapaz de acreditar em revoluções agora?
Sou incapaz porque vejo as forças… É muito difícil. Em França uma coisa mudou drasticamente: a repressão. Quando ia a manifestações há 15 anos ia sem pensar em nada. Mas durante a crise em França houve muita violência, as pessoas agora têm medo de ir a manifestações. E eu percebo porque também tenho. É muito violento. É difícil estar unido quando se tem medo, quando não se tem dinheiro. Como é que se pode fazer greve quando não se tem dinheiro? Estes são tempos difíceis em França… É difícil pensar numa revolução, no que isso significaria hoje. Não sei, obviamente não acredito no comunismo. Acho que temos de reinventar muitas coisas…

Porquê obviamente?
Porque vivi na Roménia. Se fores otimista dizes que o comunismo como foi escrito nunca aconteceu. É isso que os meus pais diriam, porque eram comunistas, claro. Mas eu prefiro ver a coisa sem os partidos. Não acredito nos partidos políticos, de todo.

Em que é que acredita?
Acredito em nós, na comunidade de pessoas. Acredito em ações locais, no que as pessoas fazem em conjunto. Acredito em mudar a vida de todos os dias, em repensar o amor, a amizade, a forma como vivemos juntos. Acho que isso é muito poderoso. Não é suficiente, mas não é só do topo para a base, está tudo ligado.

"Não esperava que a extrema-direita se fosse focar no género e no feminismo. Sempre achei que o foco seria o racismo. Este foco nos “valores da família” e anti-LGBT está a ser uma surpresa para mim. Talvez tenha sido demasiado otimista... Ao mesmo tempo, mostra-nos que feminismo é de facto revolucionário"

Uma escritora posicionar-se politicamente é um risco?
Sim, há um risco… Estou num lugar de grande sorte em França, estou a vender livros. Mas sim, alguns temas seriam arriscados para uma novata. Eu já aqui estou. O meu risco é… Fazer livros muito maus (risos).

Há um discurso da atual extrema-direita que fala no feminismo como inimigo…
Tenho de confessar. Não esperava que a extrema-direita se fosse focar no género e no feminismo. Sempre achei que o foco seria o racismo. Este foco nos “valores da família” e anti-LGBT está a ser uma surpresa para mim. Talvez tenha sido demasiado otimista… Ao mesmo tempo, mostra-nos que feminismo é de facto revolucionário, não é “nada”.

Acha que Nadia Comăneci era feminista?
(risos) Isso é difícil para mim responder. Não sei. Às vezes as pessoas fazem coisas e nem sabem que as estão a fazer, fazem-no simplesmente. Sei que ao conhecer tantas jovens mulheres durante a digressão do livro ouvi coisas muito bonitas… “Ela inspirou-me a correr rápido”, “ela inspirou-me a vestir calças de ganga”, “a fazer coisas perigosas”. Responderia que sim, pelo efeito que teve. O efeito que Nadia Comăneci teve foi feminista.

Dizia-me há pouco, a propósito de líderes como Marine Le Pen, que não é por se ser mulher que se é feminista…
Claro. É uma ideologia. Não se nasce feminista. Eu não fui sempre feminista.

O que a fez mudar?
Uma violação, na vida real. Vi a vida mudar. Algo assim obriga-nos a ver a história de forma diferente. Não é só a nossa história, é o sistema. Isso, para mim, mudou tudo.

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