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WWE via Getty Images

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Dos acordos com a Netflix aos muitos milhões de lucro, como é que o wrestling profissional voltou a ser popular?

Talvez longe dos tempos áureos, a luta-livre atravessa um novo 'boom', à boleia do streaming, das redes sociais e de novos players. Em Portugal, a febre do wrestling também tem vindo a aumentar.

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Em março deste ano, o impensável aconteceu — John Cena virou mau da fita. O lendário wrestler, que se tornou num ator de sucesso, tinha anunciado que voltaria às lides do wrestling profissional na WWE (World Wrestling Entertainment) em 2025 para uma última dança antes de se reformar para sempre. Sendo um dos lutadores mais adorados e populares da história da modalidade, um exemplo que bateu recordes do Guinness ao realizar desejos de crianças da Make a Wish, esperar-se-ia que o derradeiro retorno fosse uma volta olímpica para celebrar a sua carreira — quiçá, vencendo o 17º título de campeão mundial e batendo o recorde da promotora. Cena conseguiu-o na WrestleMania — o maior evento anual da WWE —, mas não sem antes chocar o mundo da luta-livre americana ao tornar-se vilão pela primeira vez em mais de 20 anos.

Cena não protagonizou este momento de viragem sozinho. Ao seu lado tinha The Rock — o arquétipo da estrela de cinema que veio dos ringues — e Travis Scott — um dos maiores rappers do mundo —, quando atacou o campeão da WWE, Cody Rhodes, à traição, tornando-se um “heel” [ver glossário]. Mais do que a espetacularidade ou o inusitado, o momento  singulariza uma estratégia que a WWE tem vindo a seguir para voltar a estar nas bocas do mundo e recuperar relevância: momentos virais — os vídeos do momento têm dezenas de milhões de visualizações nos canais oficiais da promotora —, presença de celebridades e uma renovada atitude em relação à forma de fazer wrestling.

A empresa vive hoje um momento de popularidade que lhe escapava há décadas, e se nos últimos tempos o leitor tem voltado a ver mais atletas suados e empenhados em complicadas coreografias, não é por acaso. Desde o início do ano que a Netflix começou a transmitir os conteúdos da WWE à escala mundial, tornando-os mais acessíveis que nunca. Ao mesmo tempo, novos concorrentes e players revigorados começaram a pôr em causa o domínio dessa promotora e a levantar ondas à sua maneira, dando mais opções de escolha a fãs de diferentes sensibilidades. Além disso, o wrestling feminino, durante décadas menosprezado ou focado exclusivamente no sex-appeal das lutadoras, passou a ser encarado com seriedade, promovendo-se atletas tão talentosas quando os colegas masculinos, o que também atraiu mais mulheres a ver combates.

De resto, os reflexos de todo este ambiente também se sentem em Portugal — há cada vez mais espetáculos locais a ser organizados e escolas de wrestling a abrir. “Estamos outra vez a entrar num ‘boom’, mas é um ‘boom’ um bocado diferente, porque estamos também numa altura diferente”, afirma Nelson Pereira em conversa ao Observador. Wrestler de 31 anos, começou na WP – Wrestling Portugal, lutou “nos EUA, no Canadá, no Japão e em alguns países da Europa”, e em 2023 fundou a promotora WrestleFest, que organiza shows de forma itinerante em Lisboa e no Porto. Onde antes se viam algumas dezenas de pessoas, esse número sobe agora às centenas, compostas por um público entusiasta e evangelizador, que não se cansa de tentar chamar mais gente para esta comunidade.

Glossário de termos de wrestling

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  • Angle: É um enredo que envolve vários wrestlers, de duração variável — pode ser algo que dura um par de meses ou que se estende durante anos, depende do quão bem recebido é pelos fãs. As suas motivações podem desde a disputa por um título a uma história de vingança ou a uma simples narrativa do “bem” contra o “mal”. Regra geral, os “angles” são resolvidos narrativamente em combates.
  • Babyface ou Face: É uma personagem boa, pela qual o público deve torcer. É semelhante aos heróis ou aos protagonistas de peças, filmes ou séries televisivas.
  • Blading: Consiste no ato de um lutador cortar-se com uma lâmina e começar a sangrar durante um combate. Normalmente é feito com o propósito de tornar a disputa mais dramática e “vender” um ataque particularmente violento, com recurso a uma lâmina ocultada por um dos lutadores. Este tipo de cortes costuma ser feito na testa, porque é uma zona do corpo que sangra muito mas onde as feridas saram rápido, além do sangue misturar-se com o suor para fazer parecer o ferimento pior do que realmente é. É uma prática historicamente controversa e ainda hoje proibida por algumas promoções.
  • Booker: É um misto de programador com guionista. Os “bookers” são quem escreve os enredos a envolver os diferentes lutadores e decide quem ganha, quem perde e como é que os combates devem desenrolar-se e terminar. Além disso, são também quem estrutura os programas televisivos e os espetáculos ao vivo, como que tipo de combates devem acontecer e qual a sua ordem de ocorrência.
  • Championship Title: Como o nome indica, são os títulos de campeão disputados pelos lutadores em combates. No entanto, ao contrário do que acontece em modalidades desportivas, não são ganhos ou perdidos em competição desportiva, mas por decisão dos “bookers” por motivos narrativos ou porque entenderam que determinado lutador vencer determinado título irá gerar interesse dos fãs.
  • Gimmick: É a personagem ficcional dos wrestlers. Uma “gimmick” determina não só a sua personalidade, como também os seus dados biográficos e até o seu nome. As “gimmicks” podem ser mais realistas — o filho de um lutador que quer seguir as pisadas do pai — ou mais caricaturadas — um coveiro com poderes sobrenaturais. Um lutador pode manter a mesma “gimmick” tornando-se vilão ou herói, depende se as novas motivações fazem sentido consoante a sua personagem. “Gimmick” também se refere a um combate com determinadas estipulações — um combate numa jaula de ferro, por exemplo, é um combate com uma “gimmick”.
  • Heel: É o mau da fita, semelhante aos vilões ficcionais. A sua vilania normalmente não se manifesta apenas no caráter, mas também na conduta durante os combates: os “heels” normalmente são mais violentos e/ou fazem “batota”, como recorrer a golpes baixos quando o árbitro não está a ver.
  • Kayfabe: É não só o universo narrativo do wrestling, mas também o princípio da ilusão em que os lutadores e outras figuras atuam como se não estivessem a interpretar personagens e que o que está a acontecer não é parte de um guião. Manter “kayfabe” significa, por exemplo, um wrestler continuar a encarnar a personagem quando vai a um evento público, como um talk show. Até meados dos anos 90, o princípio do “kayfabe” era sagrado e inviolável — deixar cair a personagem podia resultar em despedimento — e estendia-se à vida privada dos lutadores. A chegada da internet e uma série de incidentes precipitaram a entrada numa era onde, regra geral, o “kayfabe” é mantido apenas durante os programas e os espetáculos — vários wrestlers, por exemplo, têm contas nas redes sociais com o seu nome civil.
  • Mark: É o fã elementar de wrestling, que encara o que vê como se não fosse encenado ou que genuinamente não tem consciência de que é encenado. O termo é por vezes utilizado de forma pejorativa para descrever fãs crédulos ou sem capacidade crítica. “To mark out” significa reagir a alguma coisa como se fosse verdade, suspendendo a descrença.
  • Over: É a popularidade junto do público. Estar “over” com os fãs significa que se é uma personagem capaz de produzir a reação pretendida, o que não se cinge às personagens “boas”. Se com os “faces” significa receber aplausos e entusiasmo, com os “heels” trata-se da capacidade de gerar apupos e repúdio — se bem que alguns “maus da fita” são também capazes de gerar aplausos, tudo depende das particularidades de cada personagem e da sua relação com o público.
  • Put over: É o que acontece quando um wrestler aceita perder para que outro se torne mais popular. O ato normalmente acontece quando um lutador mais conceituado deixa-se derrotar por outro de nível inferior para que essa vitória o consagre.
  • Promo: Uma abreviação de promocional, em si mesmo uma referência a uma entrevista ou a um momento em que um lutador interage com o público e/ou com outros lutadores por meio de uma conversa ou de uma declaração para avançar uma história ou rivalidade. No fundo, são os momentos nos programas e nos espetáculos em que não há combates. Saber fazer boas “promos” requer dons de oratória e carisma, já que implica encarnar uma personagem ao vivo de forma convincente e em tempo real.
  • Push: O ato de promover determinado wrestler, dando-lhe tratamento preferencial. Quando um lutador recebe um “push” (ou seja, um “empurrão”), significa que vai passar a ter mais tempo televisivo, vai passar a ganhar mais combates e, inclusive, pode vencer um título. Normalmente as promotoras de wrestling dão “pushes” a atletas vistos como promissores, populares com os fãs (estão “over”) e/ou que demonstrem rentabilidade (ou seja, a sua presença em programas e espetáculos resulta em maiores audiências e vendas de bilhetes, respetivamente). O contrário de receber um “push”, ou seja, de ser promovido, é ser “buried” (ou seja, ser “enterrado”).
  • Selling: É o ato de “vender” a ofensiva do adversário. O melhor “selling” é aquele que faz parecer os ataques e as ocorrências do combate parecerem o mais realistas possível.
  • Shoot: Quando alguém foge ao guião e menciona algo real, ou seja, que é referente à vida real dos intérpretes e não ao universo narrativo da história — o chamado “kayfabe”. Um “shoot” pode também acontecer quando alguém quebra a ilusão narrativa e aborda diretamente o processo criativo dos bookers ou à realidade dos bastidores no wrestling profissional. “Shoot” pode ser ainda uma referência a um wrestler usar uma manobra de combate real, ou seja, deliberamente empregue para magoar o adversário — chama-se a isto “shoot fighting”.
  • Smark: É a palavra composta de “smark mark”, utilizada para descrever os fãs que gostam de wrestling sabendo que é encenado. No entanto, também é utilizado para os fãs muito ativos online, que estão interessados no funcionamento da indústria — por exemplo, gostam de saber da situação contratual dos lutadores — e tentam prever que decisões criativas é que os “bookers” vão tomar. É também utilizado de forma pejorativa para o tipo de fã incapaz de suspender a descrença e apreciar o produto.
  • Spot: Qualquer ação ou série de ações planeadas num combate. Pode ir desde uma sequência de manobras específicas até à utilização de armas ou à intervenção externa de outros lutadores. Por exemplo, atirar alguém para cima de uma mesa e parti-la é um “spot”. Porém, nem tudo o que acontece num combate é um “spot”, há muito que é improvisado no local pelos lutadores, dependendo da química que têm a lutar.
  • Turn: É o momento em que uma personagem boa se torna má (“heelturn”) ou uma personagem má se torna boa (“faceturn”). Pode ser um “hardturn”, quando se trata de uma reviravolta súbita, ou ou “softturn”, quando vai acontecendo ao longo do tempo, com essa viragem a ser subtilmente prenunciada.
  • Work: É o contrário de um “shoot”, ou seja, é tudo o que faz parte do universo narrativo do que está a acontecer e já estava planeado. Por outras palavras, acontece em “kayfabe”. Vem do termo “work the crowd”, ou seja, “trabalhar o público”, fazê-lo crer que o que está a acontecer é real.
  • Worked Shoot: Está nas linhas cinzentas do que é real e do que é ficcional no wrestling. Um “worked shoot” normalmente é um evento ou uma ação em que alguém revela ou menciona aspetos da vida privada dos lutadores e/ou do funcionamento da indústria, parecendo que está a fazê-lo à revelia da chefia e dos bookers quando, na verdade, é algo planeado. A sua natureza dúbia faz desta uma ferramenta utilizada para gerar interesse dos fãs.

“Em 2025, conseguimos fazer eventos todos os meses, o que é fantástico para o wrestling português — pelo menos para a evolução que tenho visto. Antigamente não se sabia quando se ia fazer eventos, e quando se faziam, não tinham muita gente. Agora acontecem todos os meses, alguns chegam a esgotar. Estamos numa boa altura”, afirma Nelson. Um dos seus concorrentes, o Centro de Treinos de Wrestling (CTW) — liderado por Red Eagle — tem tido um ótimo ano também, com uma agenda repleta de datas esgotadas de norte a sul do país

Quando Nelson, porém, se refere a “booms diferentes” e “alturas diferentes”, fá-lo na perspetiva de um espectador de wrestling desde os 9 anos de idade, quando ainda morava na Suíça com os pais emigrados. Regressado a Portugal com 15 anos, apanhou a fase em que os programas da WWE passavam em diferido na SIC Radical em meados dos anos 2000 e captaram a atenção de uma geração de crianças e adolescentes. Antes, os portugueses já sido expostos pela primeira vez a este universo no início dos anos 90, quando Tarzan Taborda e António Macedo comentavam os espetáculos transmitidos na RTP, numa fase em que Bret Hart, Shawn Michaels e The Undertaker constavam entre as estrelas da WWF (devido a uma disputa com a associação de defesa ambiental com a mesma sigla, a empresa mudou de nome em 2002, substituindo o “F” de “Federation” para “E” de “Entertainment”).

Em termos genéricos, fora o atual período que atravessamos, houve dois momentos de explosão da popularidade do wrestling a nível internacional: entre meados dos anos 80 e início dos anos 90 e entre a segunda metade dessa década e o começo dos anos 2000. Quer isso dizer que, apesar do ligeiro atraso temporal, o nível de entusiasmo por wrestling em Portugal coincide com o crescimento ou definhar da sua adesão pública a nível global. Para compreendê-lo, é preciso perceber de onde veio e para onde foi — e falar de wrestling internacional é, invariavelmente, falar da WWE.

Quando o wrestling reinou na televisão

O wrestling profissional tem como origem as feiras itinerantes que percorriam os EUA no final do século XIX e início do século XX acompanhadas de espetáculos de variedades. Entre eles constavam desportos de combate, mas se o boxe atraía multidões pela emoção vertiginosa dos seus embates, a luta-livre de tradição greco romana aborrecia ao arrastar-se em minutos, às vezes horas, intermináveis de concorrentes a tentar fazer manobras e chaves um ao outro no chão. A solução? Torná-las não uma competição, mas uma simulação planeada para maravilhar, contando histórias por meio da contenda física. O desporto passou a entretenimento: desta forma, o espectador ficava satisfeito, o lutador evitava lesões e era possível realizar mais exibições, arrecadando assim mais dinheiro.

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▲ Macho Man Randy Savage enfrenta Hulk Hogan nos bastidores durante o Saturday Night's Main Event em 3 de fevereiro de 1989

WWE via Getty Images

Esta pré-história da modalidade foi quando o wrestling assumiu a sua identidade como fenómeno de massas, mas o ‘boom’ à escala nacional nos Estados Unidos aconteceu apenas em meados dos anos 80. Até então, desde o pós-guerra que vigorara um modelo de territórios, onde diferentes estados ou regiões tinham as suas promotoras, cujos combates passavam nas estações televisivas locais. Foi apenas aí que o empresário Vince McMahon, herdando a WWF do pai, Vincent J. McMahon, quebrou com este sistema e começou a comprar empresas da concorrência e a expandir-se. Ao mesmo tempo, começou a negociar contratos televisivos com canais como o USA ou a NBC, transmitindo os seus programas para todo o país. Este foi o período em que a luta-livre saiu do nicho e tornou-se mainstream, um espetáculo que enchia estádios e batia recordes de audiências, assente em elevados valores de produção e estrelas caricaturais, como Hulk Hogan, The Ultimate Warrior ou “Macho Man” Randy Savage, envolvidas em histórias simples mas emocionantes.

Ao mesmo tempo em que a WWF ia dominando as atenções do globo, um outro concorrente foi crescendo à sua sombra, a World Championship Wrestling (WCW). Fundada em 1988 no sul do país, juntou as tradições do wrestling territorial aos bolsos cheios de Ted Turner, magnata responsável por criar canais como a CNN, a TBS e a TNT. Foi nestes dois últimos que a WCW encontrou a sua casa e começou a desafiar o monopólio da WWF, inclusive aliciando o seu talento com melhores condições e salários, e aproveitando a torrente de escândalos que começou a afetar a concorrência — inclusive a famosa investigação federal a McMahon por suspeitas de fornecer esteróides anabólicos aos seus atletas.

Em meados dos anos 90, os níveis da competição escalaram entre as duas rivais quando a WCW estreou o seu programa semanal Nitro na segunda-feira à noite — no mesmo dia e à mesma hora que o Raw, da WWF. Tal disputa ficou conhecida como “Monday Night Wars”, e depois de um início taco-a-taco, foi a nova concorrente que começou por levar a dianteira. Tal deveu-se a uma aposta em histórias menos fantasiosas e mais realistas, resultando num produto mais adulto, acompanhando um público que tinha amadurecido. Em comparação, a WWF mantinha um formato mais familiar e menos apelativo à cultura dos anos 90, além de sofrer sangrias de talento — como as saídas de Hulk Hogan ou Bret Hart para a WCW.

Perante uma degradação evidente das suas audiências e a cada vez pior reputação de Vince McMahon como empresário sem escrúpulos, a WWF fez uma fuga para a frente, não só igualando a parada da WCW, mas elevando-a com um produto ainda mais provocante, violento, sexualizado e a desafiar tabus, não obstante as muitas críticas de dissolução moral e de se ter tornado “trash tv”. Ao mesmo tempo, McMahon tomou uma decisão genial: juntou o proveito à má fama e deixou de ser uma figura de bastidores, tornando-se numa personagem televisiva, o patrão tirano e desonesto a comandar os seus lacaios contra wrestlers anti-autoridade, gérmen de histórias que colavam os espectadores todas as semanas à televisão. Esta fase, de 1997 até 2001, ficou conhecida como a “Atitude Era”, e foi daqui que nasceram lendas como “Stone Cold” Steve Austin, The Rock, Triple H, Kane e Kurt Angle. Foi também o período histórico em que mais gente viu wrestling em simultâneo — a média de espectadores dos programas semanais da WWF e da WCW era de 9 a 10 milhões.

Na corrida para se ultrapassarem uma à outra em matéria de escândalo, a WCW aproximou-se demasiado do sol e as suas asas derreteram. A viragem para o novo milénio não foi simpática: más escolhas criativas alienaram os fãs, o que significou menor retorno financeiro, ao passo que mudanças na estrutura corporativa deixaram a promotora à deriva e de futuro incerto. Em 2001, num volte-face trágico, foi a WWF a comprá-la e absorvê-la — facto que o próprio Vince McMahon anunciou triunfalmente na última transmissão televisiva do seu rival. A guerra das segundas-feiras tinha por fim um vencedor.

Concorrência de Elite

Com a morte da WCW, a agora WWE passou a reinar sozinha durante boa parte dos anos 2000 e 2010, tendo apenas como concorrência promoções independentes sem capacidade financeira para contrariá-la. A única exceção é a Total Nonstop Action Wrestling (TNA), promotora que granjeou de algum sucesso e ousou desafiar o gigante, mas soçobrou sob o peso das próprias ambições e quase acabou — hoje é pouco mais que um satélite da WWE.

Durante este período, a WWE passou por novas fases, contrariando paulatinamente a sordidez do final dos anos 90 e voltando a tornar a sua programação mais acessível e familiar. Foi, porém, assim que voltou a entrar um período de estagnação, com cada vez piores audiências. “Os produtos dos anos 80 e dos anos 2000 não têm nada a ver. Mas se compararmos 2005 e 2015, é tudo muito parecido, a evolução não foi assim tanta. Acho que houve uma altura onde basicamente a WWE disse ‘fazemos as coisas assim, como sempre temos feito, tem resultado’ e não estavam à procura de puxar [pelo público]. Então as pessoas cansaram-se”, afirma Nelson Pereira.

Fora uma minoria dedicada que foi cada vez mais virando-se para o que acontecia no Japão ou para o México — os dois países onde o wrestling tem mais tradição e qualidade, a par dos EUA e do Canadá —, este torpor foi-se mantendo. Em Portugal, a situação tornou-se ainda pior, já que passou a ser muito mais difícil seguir o wrestling internacional, pelo menos pela televisão. Fora uma experiência mal sucedida na TVI, os programas da WWE migraram para os canais da Sport TV, ou seja, disponíveis apenas para quem paga a subscrição e transmitidos a horários menos concorridos para não colidir com o acompanhamento de desportos em direto.

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▲ Tony Khan, presidente e cara da AEW

Anadolu via Getty Images

A situação só mudou definitivamente em 2019, ano em que foi formada a All Elite Wrestling (AEW). Fundada por wrestlers celebrados da cena independente e por ex-talentos da WWE, a empresa tem em Tony Khan a sua figura nevrálgica. Filho do magnata Shahid Khan (dono do Fulham e dos Jacksonville Jaguars), o CEO e “booker” da promotora tornou-se numa espécie de paladino na disputa por quebrar o monopólio da WWE, apresentando-se como a alternativa a quem estava cansado do império McMahon.

A AEW “decidiu trazer um produto diferente, talvez mais como se fazia antigamente, para tentar distinguir-se da WWE”, conta Nelson. Além de apresentar um estilo de wrestling mais atlético, mais veloz, mais espetacular e também mais violento, as suas histórias também direcionam-se para um público adulto — sem o sexismo e o mau gosto da “Atitude Era”, mas também sem ter medo de pisar o risco — ao mesmo tempo que não se leva tão a sério e satiriza algumas tradições do wrestling. Além disso, não só chegou oferecendo salários acima da média da indústria, como deu liberdade aos seus lutadores para aparecer noutras promoções independentes — em claro contraste com a WWE, que fingia que a concorrência não existia.

“É a primeira empresa com grande apoio financeiro a tentar competir com a WWE em grande escala em quase duas décadas”, declarou a CBS, aquando da sua formação, a começar por ter assinado desde logo um contrato com a WarnerMedia — Warner Bros. Discovery, depois da fusão — para transmitir os programas semanais Dynamite e Collision (que substituiu outro chamado Rampage) nos seus canais. Desde então, só tem consolidado esse papel, desde esgotar o estádio de Wembley em 2023 no evento All In a competir diretamente no aliciamento de novas estrelas, passando pela assinatura de um contrato no valor de 185 milhões de euros por ano para os seus conteúdos passarem a estar disponíveis na HBO Max nos EUA (em Portugal, apenas é possível assistir à sua programação através de plataformas especializadas como a Triller TV ou a PPV.Com).

Finalmente beliscada, a WWE abriu os olhos, como Nelson defende. “Deu-lhes vontade de fazer coisas diferentes, pois claramente o produto da WWE de agora não tem nada a ver com o de há três anos. Mudou imensamente porque eles viram que estava na hora de mudar, as pessoas estavam a interessar-se pelos outros. Se os outros fazem uma coisa bem, então nós também vamos fazer”, atira. Houve, porém, uma confluência de fatores a permitir tudo isto — a começar pela queda de Vince McMahon, cuja reputação, por fim, derrubou-o.

Uma sucessão forçada e um casamento bilionário

Para compreender o atual momento de popularidade da WWE é necessário ter em conta os desenvolvimentos dos últimos anos — algures entre as urdiduras familiares de Succession e uma narrativa novelesca do wrestling. Enquanto que a sua mulher, Linda McMahon, foi feita secretária da Educação da Administração Trump, Vince caiu por fim em desgraça.

Em 2022, o CEO e chairman da promotora demitiu-se quando veio a público que pagou milhões de dólares pelo silêncio de uma mulher com quem alegadamente teve um caso e de várias ex-funcionárias para que não fizessem queixas de conduta sexual imprópria. Pressionado pela própria família a afastar-se, não cedeu e ensaiou ainda assim um regresso, regressando à posição de chairman em 2023. No entanto, um outro caso ainda mais grave gorou as suas perspetivas, quando uma ex-trabalhadora, Janel Grant, acusou-o em 2024 de abuso sexual e de traficá-la sexualmente. Daí arrancou uma investigação federal criminal — entretanto encerrada —, em paralelo com o processo civil, que forçou-o a demitir-se novamente.

Ora, quem aproveitou o ocaso de McMahon foi Paul Levesque, conhecido pelo grande público como Triple H. Ex-wrestler, múltiplas vezes campeão mundial, membro do Hall of Fame da WWE, Levesque entrou na família ao casar-se com Stephanie McMahon, filha de Vince. Após abandonar os ringues, assumiu o cargo de Chief Content Officer na empresa em 2022. Num contexto como o da WWE, isto significa controlar o rumo criativo da promoção: que tipo de produto se vai proporcionar, que wrestlers são contratados, quais são promovidos, etc… Ou melhor, significaria isso, se Vince McMahon não fosse um chefe “à antiga” que moldava a empresa à sua imagem e visão e afastava vozes dissonantes — tanto foi o homem que tornou a sua promotora num dos mais entusiasmantes produtos mediáticos do mundo quanto aquele que o asfixiou em visões antiquadas.

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▲ Paul Levesque, conhecido como Triple H, o novo líder da WWE

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Com a sua saída, Levesque não precisou sequer de subir a chairman da WWE para tornar-se efetivamente a cara e o cérebro da empresa, que durante este processo passou a fazer parte de um dos maiores conglomerados desportivos do mundo. Em abril de 2023, o grupo Endeavor anunciou publicamente que ia adquirir a WWE e fundi-la com a sua própria promotora de combates MMA, a UFC, criando uma nova empresa de capital aberto, a TKO Group Holdings. O acordo efetivou-se em setembro desse ano: com a UFC avaliada em 12,1 mil milhões de dólares e a WWE em 9,3 mil milhões de dólares, juntas passaram a formar uma das maiores empresas desportivas do mundo. Este, diga-se, não foi um tiro no escuro: a WWE está mais lucrativa do que nunca, tendo declarado em 2024 uma receita anual recorde de quase 1,4 mil milhões de dólares, mantendo uma trajetória de crescimento acentuado desde 2014.

O turbilhão na chefia da WWE coincidiu com uma fase onde a própria promotora estava a sair de uma fase de transição, provocada pelos anos da pandemia. A seguir a abril de 2020 e durante grande parte de 2021, a promotora (tal como a AEW, de resto) conseguiu manter os seus programas semanais e os seus eventos, aos quais dá o nome de PLEs, Premium Live Events (Eventos ao Vivo Premium). Numa primeira fase, tudo decorreu sem fãs no local — foram instalados enormes painéis LED onde um grupo reduzido podia “assistir” via webcam —, e depois, com os desconfinamentos, passou a ter um número limitado, atendendo às normas sanitárias. Terminado esse período, foi também quando a WWE entrou numa nova fase. Cody Rhodes, um dos principais wrestlers da promotora e atual campeão da WWE, cunhou-a como sendo a  “Era do Renascimento”.

Reigns, um caso de estudo

Uma pista para entender este “comeback” da WWE está na figura de Roman Reigns. Membro da família Anoaʻi — uma das mais antigas e prestigiadas na história da indústria —, foi desde cedo apontado como o futuro da promotora, o próximo a suceder-se na esteira de “babyfaces” como Hulk Hogan ou John Cena. Essa, pelo menos, era a visão de Vince McMahon. Mas o projeto falhou.

Um fator que é necessário entender no wrestling é que, apesar de ter um cariz novelesco e exagerado, os fãs mantêm os mesmos princípios de suspensão de descrença presentes noutras artes narrativas. Ou seja, se uma personagem boa subitamente se torna má sem qualquer motivo aparente ou se age de forma incongruente com aquele que deve ser o seu código moral, esse tipo de decisões narrativas são alvo de críticas tal e qual como quando algo semelhante ocorre numa série de televisão. Para lá disso, o público  também não gosta quando entende que a chefia de uma promotora está a impingir-lhe um determinado lutador. Foi o que aconteceu com Reigns.

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▲ Roman Reigns, uma das caras modernas da WWE

WWE via Getty Images

Apesar de vencer vários títulos de campeão mundial e de figurar sistematicamente nos combates principais dos grandes eventos da WWE durante boa parte dos anos 2010, o lutador foi sendo sistematicamente apupado, apesar de ser um bom da fita. Um re-diagnóstico de leucemia em 2018 afastou-o dos ringues durante cinco meses, ao mesmo tempo que granjeou-lhe alguma simpatia pública. A viragem definitiva, porém, ocorreu durante a pandemia: afastado durante alguns meses devido a riscos de saúde tendo em conta o seu quadro clínico, regressou enquanto vilão e, dessa forma, transfigurou toda a sua personagem e, com ela, a perceção do público.

Como “heel”, Reigns foi beber inspiração às origens da sua família samoana para começar a autodenominar-se como “The Tribal Chief” (“O Chefe Tribal”). Onde antes parecia um boneco sem personalidade, passara agora a ter uma postura impositiva e uma arrogância hipnotizante, alicerçada por uma sequência de vitórias imparável, iniciando um reino de terror que durou entre 2020 e 2023. É o tipo de traste que se adora odiar, e por isso foi um sucesso monumental. McMahon cedeu e deu-lhe liberdade para mudar, mas foi com a ascensão de Levesque que Reigns realmente singrou.

Foi sob a nova batuta criativa que surgiu a “Bloodline” (“Linha de sangue”), uma saga familiar a envolver Reigns e outros lutadores membros da sua família — os gémeos Jimmy e Jey Uso e o seu irmão Solo Sikoa,  primos de Reigns — na sua supremacia sobre todos os adversários. Em 2022, o grande ano da “renascença”, a programação da WWE foi dominada por esta história, considerada por muitos como uma das melhores — se não a melhor — jamais concebida pela promotora, devido às suas nuances narrativas e à forma como ia acrescentando novos elementos e personagens, entre “promos” e combates. A prova do seu sucesso é que continua três anos depois, se bem que já sem o mesmo fulgor.

“Tinhas, por exemplo, uma pessoa a dar uma entrevista e estavam dois wrestlers no plano lá atrás a conversar. Eles podiam passar despercebidos, mas depois esses mesmos dois apareciam na história no futuro. Era algo que acontecia em todo o lado ao mesmo tempo. Não acontecia só no programa, os wrestlers falavam entre eles nas redes sociais”, explica Nelson. Online, os fãs discutiam fervorosamente sobre o que ia acontecer, como e quando, sendo que o wrestler português acredita que a WWE serviu-se desse entusiasmo para alimentar ainda mais a história: “Eles sabem o que agora vai funcionar, porque as pessoas estão a ver  wrestling no computador. Fazem um screenshot, metem no Twitter e escrevem “olhem lá aqueles dois ali atrás a falar”. O produto passou a ser muito baseado agora na interação na conversa entre os fãs. Antigamente não era assim, era ‘toma aí o produto, vê, volta para a semana’. Agora querem que as pessoas vejam e depois fiquem a semana toda à conversa à espera do próximo episódio. Têm tido —e têm mesmo de ter — um grande foco no Instagram e no TikTok, que é onde estão os jovens hoje, tentar trazer essas pessoas”.

A receita para recuperar o “fator cool”

A forma como a WWE implementou a história da “Bloodline” mostra como leu o ar dos tempos em vez de ficar irremediavelmente para trás. Um artigo da Bleacher Report defende que, sob a liderança de Paul Levesque, a WWE recuperou “o seu fator cool”, e há vários elementos que o explicam, a começar pela sua recente ligação à Netflix.

Em janeiro de 2024, a WWE assinou um contrato com a Netflix de 10 anos no valor de 5 mil milhões de dólares, ficando a plataforma de streaming com os direitos exclusivos para transmitir nos EUA o programa Raw a partir do início de 2025. Além disso, a Netflix ficou também com os direitos internacionais para transmitir este e os outros programas semanais da companhia — a Smackdown e a NXT, que nos Estados Unidos têm transmissão televisiva — e os seus grandes espetáculos ao vivo, como a WrestleMania ou a SummerSlam, juntando-se ainda um catálogo de espetáculos e programas que se estende até aos anos 80. É por isso que, se o espectador português pesquisar na plataforma, consegue ver desde o célebre combate entre André the Giant e Hulk Hogan na WrestleMania III de 1987 até aos programas da semana que passou.

A promotora, porém, deu um passo ainda mais radical com um programa que estreou também na Netflix no final de julho, WWE Unreal. Com cinco episódios, trata-se de uma série onde a WWE mostra como decorre o processo criativo, quem é promovido e de que forma ou como é que os “bookers” supervisionam os combates, tomam decisões em tempo real e avisam os árbitros para darem indicações aos lutadores. Num momento particularmente elucidativo, no terceiro episódio, vemos Levesque em ação, qual realizador de cinema, a direcionar como o volte-face acima descrito de John Cena deveria decorrer.

No mundo tanto do desporto quanto do entretenimento, é normal haver este tipo de viagens aos bastidores, mas tal foi proibido no wrestling durante muitas décadas, com os seus segredos escondidos a sete chaves para preservar a ilusão de que nada é encenado. Tal como foi historicamente um anátema verem-se bons e maus da fita a confraternizarem, como se vê em Unreal, quebrando a noção de “kayfabe”, o universo narrativo do wrestling com as suas regras e lógica internas e onde nunca se sai de personagem, nem mesmo em público.

Foi, portanto, uma decisão destinada a irritar puristas, mas encarada também como natural por outros, numa fase onde todos os segredos da indústria estão plasmados na internet e há wrestlers que têm contas nas redes sociais com o seu nome civil. Nelson Pereira sente alguma ambivalência. “Há algumas pessoas que se tentam agarrar ao ‘kayfabe’, mas acho que a maior parte já percebeu que não vale a pena. Eu prefiro assim, que quando alguém vai ao meu espetáculo, faça parte dele e suspenda a descrença. É como ir ver o Super Homem ao cinema: neste momento, o que eu estou a ver é real”, admite. No entanto, no caso de Unreal, a noção é que escancarou as portas. “Que o wrestling não é completamente real, já se sabia, mas o ‘como’ ainda estava guardado. O Unreal acaba completamente com o sentido de magia. Mostram os escritores, mostram as pessoas a combinar os spots, pronto, mostram tudo”, lamenta.

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▲ Combate entre Iyo Sky, Rhea Ripley e Bianca Belair na WrestleMania 41, um dos claros destaques do ano no mundo do wrestling

Getty Images

Apesar da polémica, a realização desta série mostra uma WWE modernizada. Outro exemplo disso, bem menos controverso, é um papel de destaque que o wrestling feminino começou a ter — não só nesta promotora, mas por toda a indústria. “Antigamente era maioritariamente feito para um público masculino, onde se insistia mais no sex appeal e no físico das lutadoras do que na performance. Hoje em dia o look ainda é muito importante — estamos a falar de show business —, mas já deixam que as mulheres mostrem mais a faceta de lutadoras. Já treinam mais e melhor, o produto que é oferecido é mais parecido ao dos homens”, aponta Nelson.

Basta constatar que o combate entre Iyo Sky, Rhea Ripley e Bianca Belair foi unanimemente considerado como o melhor da WrestleMania deste ano. Ou como, na rival AEW, “Timeless” Toni Storm tornou-se numa das caras da promoção, aliando capacidade técnica a um trabalho de personagem brilhante a satirizar as velhas estrelas de Hollywood, estilo Gloria Swanson em Sunset Boulevard, mas brigona. “Isto mostra às mulheres que o wrestling é para toda a gente, e atraindo um novo público, também aumenta a visibilidade. O wrestling feminino ter sido muito mais respeitado e melhor apresentado nos últimos anos ajudou ao ‘boom’ do wrestling em geral”, aponta o promotor do Wrestlefest.

Por outro lado, não se pode descurar a forma como a WWE começou a chegar e a servir mais públicos internacionais. Nas primeiras décadas dos anos 2000, a WWE limitava-se a fazer digressões de “house shows”, espetáculos ao vivo não televisionados e sem continuidade narrativa com a programação regular — são disso exemplos as vindas a Portugal, desde a primeira em 1993 até à mais recente em 2017. Pelo contrário, os últimos anos foram marcados por uma aposta reiterada em realizar grandes eventos e até parte dos seus programas semanais fora dos EUA. Além de uma muito criticada parceria com a Arábia Saudita, firmada já em 2018, desde 2022 a promoção realizou espetáculos no País de Gales, Inglaterra, Austrália, França, Escócia e Alemanha. O próximo grande evento, aliás, marcado para 31 de agosto, vai acontecer nos arredores da capital francesa, sendo que o seu nome não deixa margem para dúvidas: Clash in Paris. Em menor escala, também a AEW tem tido este papel: além dos eventos em Londres, também já realizou um grande espetáculo em terras australianas.

O corolário de tudo isto é que, quando o wrestling é visto como algo entusiasmante, o número de figuras públicas dispostas a marcar presença e espalhar a sua marca tende a aumentar. Não é por acaso que estratégias similares foram empregues nos anteriores períodos áureos da indústria. A primeira WrestleMania de sempre, em 1985, contou com a presença ativa de Cyndi Lauper, Liberace, Muhammad Ali e Mr.T — Ali atuou como árbitro no mesmo “main event” em que o ator participou como lutador, ao lado de Hulk Hogan. Uma década depois, os basquetebolistas Karl Malone e Dennis Rodman fizeram parte da programação regular da WCW quando estavam no apogeu das suas carreiras, ao passo que Mike Tyson foi um dos chamarizes da WrestleMania XIV em 1998, no pico da sua infâmia.

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▲ Dennis Rodman e Hulk Hogan durante o evento Bash on the Beach, da WCW, em 1997

WWE via Getty Images

A WWE sempre recorreu a celebridades para ter mais olhos focados no seu produto, mas se ao longo dos anos 2010 a sensação era de que estavam a pedido para tentar conferir relevância, hoje parece ser uma relação em pé de igualdade, onde essas figuras não parecem constrangidas por comparecer. A título de exemplo, o evento SummerSlam, decorrido no início de agosto, teve como anfitriã a rapper Cardi B e um dos combates envolveu o cantor Jelly Roll, que em setembro abre o concerto de Post Malone em Portugal. Outros exemplos particularmente notórios são os do cantor Bad Bunny — fã confesso de wrestling, que participou extensamente numa storyline e chegou mesmo a lutar num evento da WWE no seu país natal de Porto Rico — e do polémico influencer Logan Paul, que neste momento é mesmo um trabalhador a full-time da empresa e cujo perfil duvidoso alimenta as histórias em que participa.

Não obstante o bom momento que atravessa, nem tudo corre bem na WWE. Muitos fãs queixam-se do excesso de anúncios, do aumento drástico do preço dos bilhetes ou da forma como Levesque e a promotora se associam a Donald Trump. Além disso, o ano de 2025 não tem corrido de feição a nível criativo, com várias decisões insatisfatórias — entre elas o próprio arco narrativo de John Cena, que entretanto já voltou a tornar-se um “babyface”. Nelson Pereira, contudo, considera que é normal e faz parte deste mundo novo em que o wrestling entrou. “O wrestling é feito para as pessoas reagirem e o fã faz parte do espetáculo tanto como os lutadores. Com o aumento da popularidade, isto é um bocado a forma de muita gente que não pode estar presente no espetáculo tem de também de fazer parte. As pessoas acham que criticando vão causar mudanças no produto que estão a ver e então sentem-se parte dele. Eu acho que nem há tanta gente que realmente não gosta, criticam ‘storylines’ que não são assim tão más, mas é só para mostrar que a sua opinião tem impacto”, argumenta.

Wrestling na era da dispersão

Perante tudo isto, resta fazer a pergunta: será que o wrestling está mais popular que nunca? A ascensão da internet, das plataformas de streaming e das redes sociais ditaram a morte da televisão como nexo gravitacional da monocultura sobre o qual a maioria da população pairava. Por outras palavras, é praticamente impossível voltar às audiências do período da “Attitude Era” porque já não há gente suficiente a acompanhar programas televisivos em simultâneo, quanto mais de nicho.

É mais acessível do que nunca ver wrestling, mas também é mais difícil do que nunca aferir quem está a ver. Desde que se estreou na Netflix, o número de espectadores dos episódios da Raw tem vindo a decair, mas em contrapartida, a WWE está no top 20 de canais do Youtube com mais visualizações de sempre, contabilizando perto de 96 mil milhões, e de subscritores, com 110 milhões a segui-lo. Para o promotor do Wrestlefest, essa dispersão é um aspeto fulcral, porque mostra como as diferentes formas de acompanhar ou assistir a produtos mediáticos alteraram a definição do que é “ser fã”.

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▲ Passagem de testemunho: John Cena e Cody Rhodes, passado e futuro da WWE

Getty Images

“Há pessoas que veem os programas todos e vão mesmo acompanhando tudo, mas depois há aquelas que talvez só vão ver os TikToks que saem do Raw. Vêem uns 20 TikToks e dizem que seguem o programa. Mas isso também, de certa forma, mostra que têm interesse em acompanhar. Talvez não tenham tempo ou não tenham vontade de ficar a ver o episódio todo, mas querem ver os destaques na net. Eu conto com isto quando digo que o wrestling aumentou de popularidade, porque há interesse em estar a par”, afirma. “Eu até não sei se hoje em dia não há mais gente a ver do que antes, sinceramente. Mas agora há tantas formas de consumir wrestling, sejam legais como também ilegais [com recurso a downloads], que é muito difícil de quantificar mesmo a audiência”, acrescenta.

Pela sua perceção, “há claramente um aumento da popularidade”, alavancado também pela “facilidade de acesso” de ir acompanhando através da Netflix, deixando claro que o atual momento não tem comparação com o que se vivia há uma década.“Quando eu comecei a lutar, há 11 anos, estávamos numa ‘down’, ninguém via wrestling. Aquele período dos anos 2000 já tinha mais ou menos morrido”. Por força disso, a cena nacional também sofreu.

Wrestling à grande e à portuguesa

Após os tempos das exibições de luta-livre no Coliseu dos Recreios ou no Campo Pequeno “entre os anos 30 e os anos 70”, o “boom” do wrestling português surgiu ao mesmo tempo que o wrestling chegou à SIC Radical, nos anos 2000. No entanto, “os lutadores não tinham a formação que há hoje, portanto o produto era mais fraco. Quando o ‘boom’ da WWE da altura desapareceu, o wrestling português também não conseguiu sobreviver. As pessoas não queriam ver aquilo — e muitos dos que o praticavam também perderam o interesse em continuar”, revela o promotor do Wrestlefest.

Essas são armadilhas que a atual geração de lutadores espera e deverá contornar, porque “não só tem mais talento porque tem mais formação — apareceu vinda do estrangeiro nos últimos anos — como também calhou-nos o atual ‘boom’. Tudo está melhor do que alguma vez esteve, mas ainda temos muito para alcançar — estamos a crescer aos poucos, mas eu vejo o futuro do wrestling português com boa esperança”. Desta forma, Nelson Pereira deixa um repto para que as pessoas deixem os preconceitos à porta e divirtam-se: “não conheço ninguém que tenha ido e que não gostou”.

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