De cachimbo vigilante, o coronel reformado acena aos jornalistas e brinca: “Fizeram ali uma pequena infração”. Ex-diretor da Polícia Judiciária Militar de Évora e eterno capitão de Abril, rira-se dias antes quando ouviu a proposta de entrevista e mantém a boa-disposição ao longo da manhã de chuva, numa urbanização da Costa de Caparica decorada a fundo de mar (“é a minha cara-metade, que cresceu em Benguela”), casa que alterna com a de Vendas Novas, onde se instalou para o tirocínio e de onde nunca mais saiu.
Já foi tudo há tanto tempo, comentará. A infância e adolescência na Avenida de Roma, a entrada na Academia Militar, as festas com amigos como Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, o 25 de Abril e as terríveis noites em que temeu que, chegada a hora da revolução, tivesse de dar ordens aos seus homens para dispararem. “Inimigo não é qualquer um”, dirá, “é quem manda que esse indivíduo seja meu inimigo”. Quanto aos quatro festivais da canção, eram uma atividade “quase clandestina”. Do primeiro depois da revolução, saiu vencedor e levou “Madrugada” à Eurovisão, para ficar em 16.º. A música acabou aí e Duarte Mendes nunca mais pensou voltar.
[Duarte Mendes em 1975 na Eurovisão com “Madrugada”:]
Como é que começa a cantar?
Em miúdo, a ouvir os êxitos dos anos 60. Ricky Nelson, Neil Sedaka, Cliff Richards. Havia uns programas de discos pedidos na rádio. Sei lá, lembro-me de pôr uns fios numa tábua dos bifes da minha mãe e andar assim a cantar. Teria uns 10, 12 anos, talvez.
Como se fosse uma guitarra.
Como se estivesse a cantar por símbolos fonéticos uma coisa em inglês. Ainda tive um grupito e tal.
Um conjunto, como se dizia na altura.
Era um conjunto, claro. Eu morava na Avenida de Roma, outro morava na Avenida dos Estados Unidos da América e outros dois na [Avenida] Rio de Janeiro.
Ah, mas isso nos anos 60 era o sítio certo para estar. As Avenidas Novas, o Vává…
Era, mas eu entrei no regime de internato na Academia Militar. A minha vida não dava para estar à tarde a beber cafés no Vavá. A dada altura comprei uma viola e um livrinho com acordes na [Avenida] João XXI a um professor que ali havia, o Duarte Costa. Ia ouvindo as músicas, fixava-as. Ainda hoje sei umas cifras, identifico umas notas, mas não sei ler.
Algum jeito teria. Basta olhar para os discos que lançou.
Isto foi o privilégio de ter conhecido pessoas importantes que concorriam a coisas. Era amigo de adolescência do [músico e compositor] Jaime Queimado. Ele fazia anos a 6 de agosto e eu a 7. Na noite de 6 encontrava-se um grupo em casa do Jaime e depois apareciam o Paulo [de Carvalho], o Fernando [Tordo], o Carlos Mendes. Petiscávamos umas coisas, cantávamos Beatles, Cliff Richards e os Shadows, Credence Clearwater Revival.
Em 1970 participa pela primeira vez no Festival da Canção. Como é que isso acontece?
O Fernando concorre com duas canções. Para uma delas, ele e o Jaime pensam: “Este gajo também canta. Vamos ver se ele quer”.
Alguma vez tinha cantado em público?
Uma vez. Com esse grupinho que tinha, com umas violas e uns rádios — que na altura se usavam como amplificadores — tínhamos tocado na cripta da Igreja de São João de Brito, no fim da Avenida da Igreja. Para uns miúdos de uma escola.
Com toda essa experiência, o que sente quando lhe propõem ir ao festival?
Fez-me um bocado de confusão, não estava preparado. Mas não sei se foram eles que foram convincentes ou se fui eu que fui muito sôfrego. E realmente aquilo de estar em cima de um palco com uma orquestra atrás de nós, aquilo era um privilégio. Lembro-me de me darem uns calmantes antes de eu ir cantar. Nunca me senti um virtuoso.
Como é que se concilia este mundo com o da carreira militar? Em 1970, já era alferes.
Essa é que era a minha vida. A carreira militar é bonita até se chegar a capitão. Aquilo que me enriquecia e que me motivava era lidar com pessoas, conhecer os problemas delas, o dia a dia. Na altura, com o serviço militar obrigatório, havia muitas complicações. Aqueles que metiam dispensa e que eu só depois percebia que não era para se irem divertir, mas para irem ajudar os pais no campo, em Trás-os-Montes, por exemplo. Nesse contacto fui conhecendo o que seria a juventude do meu país.
O país real, fora da Avenida de Roma.
Já conhecia o país real porque passava férias em Albergaria dos Doze, não muito longe de Fátima. Quando ia a essas terras, via as pessoas vestidas de preto, com as mãos calejadas. Eram todos primos: “Oh prima, como está a prima?”. É uma realidade que reencontro em Vendas Novas.
Mundos muito contrastantes, o do dito país real e o dos conjuntos de música.
E sempre separei muito as coisas. Nunca me pus a tocar no quartel. Não seria bem visto. Houve superiores que nunca me perdoaram essa ocupação. Por outro lado, houve até um momento difícil em que recebi uma guia de marcha para integrar um programa chamado Alerta Está, em que atuavam artistas a fazer o serviço militar. Era uma ação de bem-estar. A muito custo consegui convencer os meus superiores a não ir.
Não queria ser visto como um artista?
Do ponto de vista da música, a minha atividade era quase clandestina. Era um gosto pessoal. A outra era a profissional. E era muito séria. Nunca fui militarista, mas sempre fui exigente.
▲ "Do ponto de vista da música, a minha atividade era quase clandestina. Era um gosto pessoal. A outra era a profissional. E era muito séria. Nunca fui militarista, mas sempre fui exigente"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Não sendo militarista, como explica seguir a carreira militar numa altura em que o país está em guerra? O que representava o exército para si?
Uma experiência pessoal única, que preparava as pessoas para trabalhar em grupo, para enfrentar situações extremas e para termos a sensação de que havia uma dissuasão possível. Comecei em miúdo nos aviõezinhos. O meu avô trabalhava na TWA e o meu pai nas comunicações do aeroporto. Havia uma pista de voo circular lá perto, com aviõezinhos a andar à volta. O meu avô levava-me até lá. Depois, comecei a fazer uns de cartão em casa. Mais tarde uns kits. Se calhar tinha jeito para engenheiro, mas não sei se o meu pai teria capacidade económica. Fiz os sete anos do Liceu Camões e depois fui para a Academia Militar, em 1966. Na altura, não havia consciência política de que havia alguém a enfrentar-nos porque tinha direito à sua terra ou à sua independência. Os meus 17 anos não são comparáveis com os 15 de hoje.
E como é que as suas escolhas eram vistas pelos seus amigos da Avenida de Roma?
Muito bem. Tenho a sensação de que durante muito tempo não houve essa consciência política. Só depois é que aconteceu e acelerou rapidamente. Percebeu-se que aquilo [a Guerra Colonial] não era nada. Que só estava a consumir recursos e a fazer mortos. Que tinha de ter um fim. Não íamos ganhar. Estávamos preparados para uma guerra de subversão. Não era uma guerra da teoria das guerras; era uma guerra de guerrilha, de emboscadas, de conquista de população.
Uma coisa interminável.
Interminável.
[Duarte Mendes no festival de 1971 com “Adolescente”:]
Quando é que ganha essa consciência?
É difícil precisar. Lembro-me de estar em casa a ouvir aquelas conversas do Marcelo Caetano [Conversas em Família] e de reagir mal. Uma vez – e essa foi decisiva – ouvi-o contar a história de uma velhinha, uma senhora do campo, do Norte, que já tinha perdido o filho na guerra, estava orgulhosa e estava pronta a mandar o seu filho outra vez. O meu pai, que não era da situação, começa a dizer: “Tu andas a ficar envenenado. Vê lá o que andas a fazer, que conversas são essas”. Lembro-me de ter beijado o meu pai na testa, a chorar, porque sabia que ele não pensava assim. O amor e o medo de me perder eram tamanhos que até parecia que não concordava com o que eu estava a dizer.
De volta à música, continua a participar no festival: 1971, 1972, em 1973 fica em terceiro, com Gente. Para quem diz que não tinha carreira musical, como é que isto acontece?
Porque os malandros do costume continuaram a desafiar-me. Não havia a proliferação de autores que há agora e havia a tentativa de fugir aos intérpretes do costume. E eu era o tal bichinho raro que aparecia às vezes. As canções mais comerciais e mais competitivas eram entregues aos profissionais. Eu ficava com as letras intelectuais, as coisas da Yvette Centeno, do Pedro Tamen. Não ia para ganhar. Em 1973, provavelmente por ter o Carlos Cruz a promover-me, fiquei nessa posição. O marketing lá dentro era muito agressivo. E nisso o Carlos Cruz era um jeitoso. Com o Carlos Mendes, até nas casas de banho apareceram fotografias dele, assim de barbas.
É também convidado para participar em Fala do Homem Nascido, com poemas de António Gedeão, um álbum já com engajamento ideológico [de 1972].
… [canta] “Todo o tempo é de poesia desde a névoa da manhã à névoa do outro dia entre a quentura do ventre…” Mas isto é o senhor Gedeão a escrever. “Qualquer manhã um qualquer ser vindo de qualquer pai acorde e vai, vai, vai…” Havia umas canções assim em grupo. Isto é na altura em que o Carlos Cruz é o responsável pela música na Orfeu, do Arnaldo Trindade, uma joia de pessoa. Eu ia só lá cantar.
Para o 25 de Abril, e enquanto membro do Movimento dos Capitães, olha, seguramente, de outra forma. Em que consistiu a sua participação?
Comandei uma bateria com quatro obuses — obuses são canhões — na estrada que vem de Évora, a caminho de Vendas Novas, e na estrada que vem de Lavre e que se vai cruzar com essa à entrada para Vendas Novas. Em Évora havia um batalhão da GNR. Sobre Estremoz havia umas certas dúvidas. Podia haver alguma unidade que viesse em reforço do regime. Não chegou a acontecer.
Como é que passa a fazer parte do movimento dos Capitães?
Estávamos determinados a mudar o regime, porque o regime não acabava com a guerra. Não havia alternativa. As mulheres terem de pedir licença aos maridos para irem comprar rebuçados a Badajoz, as licenças de porte de isqueiros, o não se poder falar. Como diria o Salgueiro Maia, havia os Estados comunistas, os Estados democráticos, e o estado a que isto chegou. A unidade de Vendas Novas era das mais empenhadas. Eu não era o delegado da unidade, mas ainda estive em algumas reuniões importantes, como a de Cascais [a 5 de março de 1974, no atelier do arquiteto Braula Reis], em que o Melo Antunes apresenta o esboço do programa político. A primeira de todas foi a 9 de setembro, em Alcáçovas. Aí é que é o princípio da junção física de um efetivo significativo vindo de todas as partes do país.
Com o Vasco Lourenço?
O Vasco Lourenço e outros. Na altura, eu ainda nem era capitão. Foi a primeira reunião com algum risco e peripécias. Aquilo era num monte [Monte do Sobral]. Tinha de se sair da estrada. Depois a reunião foi num telheiro. Os oradores falaram em cima de uma carroça. Há pormenores que entrego à memória dos meus camaradas, porque realmente não me lembro. Mas era muita gente [136 oficiais].
Nunca teve medo?
Eu não era muito aventureiro. Aliás, era filho único, não tive uma vida de rambóia, fui um menino mais ou menos bem-comportado, muito próximo dos pais, de casa para o liceu, do liceu para casa, depois passeava com os amigos ali na Avenida de Roma. Tem de haver um certo grau de ansiedade. Até porque falar em contendas entre fações armadas raramente corre bem. A coisa que mais me fez dormir mal nos últimos dias [antes da revolução] foi a sensação de que podia ter de dar uma ordem a um concidadão para disparar sobre outro concidadão. Havia um indivíduo com um lança-granadas metido numa valeta, os obuses estavam cá em cima. Ao longo da minha vida, fui repassando a minha noção de inimigo. O inimigo não é qualquer um; alguém manda que esse indivíduo seja meu inimigo ou que eu o identifique como tal. Porque se ele gostasse de aviõezinhos como eu, éramos companheiros de fim de semana. E, no entanto, alguém decidiu que éramos inimigos. Tive muitas aprendizagens na vida militar. Felizmente, já tinha tido a escola das virtudes em casa com os meus pais.
▲ "Nunca pensei em voltar à música, mas agora afaria estes discos muito melhor", confessa-nos Duarte Mendes
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
E como é que fica a saber o que faria no 25 de Abril?
Há uma ordem de operações distribuída numa mala a um indivíduo no Parque Eduardo VII. Depois vai parar às mãos do mais graduado da unidade. Dentro da unidade, já tínhamos as missões atribuídas. A confirmação dava-nos as senhas e os detalhes. O meu efetivo ficou em Torres Novas, outro foi para o Cristo Rei e outro foi libertar os prisioneiros do Forte da Trafaria. Eu tinha casado há pouco e estava a viver numa pensão defronte do quartel. Na véspera, à noite, vêm buscar-me e ficámos estacionados numa avenida de Vendas Novas, à espera das dez. Aí é que foi um bocado esquisito o que senti. O locutor diz as palavras que se esperava e arranca o Paulo [de Carvalho] a cantar. Senti muito orgulho nisso, em ter sido o Paulo a dar-me a ordem para avançar. Mas também foi a certeza de que ou era naquele momento ou corria tudo mal. Voltei ao quarto, fui buscar uma pistola de 9mm, uma Walther. A minha cara-metade a olhar para mim com um ar preocupado.
E depois?
Instalámo-nos durante a noite. O dia começa a raiar, começam a aparecer as primeiras notícias na rádio. Havia ali as fábricas que faziam componentes da Fiat e da BMW e começam a aparecer as pessoas para trabalhar. E ficavam a olhar para nós, com o pinhal por trás. Viam aquele estardalhaço, os dois obuses. Mas também não vinham ter connosco. Tenho ideia de uma limusine preta passar por nós, já mais à tarde, a fugir. Senti que estava a correr bem e que a sociedade ia ser melhorzita. Mais liberdade, menos desigualdade, menos pobreza, menos ostentação. Havia muita esperança e muita ingenuidade também. E agora, passados estes anos todos, estou a ver que não se resolveu nada.
[Em 1972, com “Cidade Alheia”:]
Nesse 1974 não participa no festival…
…havia alertas de fim de semana constantes no quartel de Vendas Novas, convulsões de toda a ordem em todo país…
…mas em 1975 volta a participar e ganha, já como capitão.
Aí já é José Luís Tinoco, autor da letra e da música de Madrugada, que me convida. Vamos lá ver se consigo fazer o enquadramento disto. Foi tudo tão intenso nessa altura. Portanto: já tinha sido 25 de Abril, eu já estava bem longe da música, já era capitão, meti uns dias de licença…
Teve de meter licença.
Se vai abrir esse parêntesis, eu colaboro. Já na Eurovisão, na conferência de imprensa, que durou uns 45 minutos, tão raro era o bicho, um jornalista irlandês queria saber se eu tinha levado guia de marcha. O Pedro Osório teve de se chatear. E tudo em inglês, claro. “Este gajo que está aqui, ele canta. Já cantou várias vezes, já participou não sei quantas vezes no Festival da Canção, e, por acaso, é militar. Mas não lhe entregaram uma canção para vir aqui nem lhe deram uma guia de marcha para vir representar o que quer que seja.”
Diz que o festival de 1975 foi um “pseudo-festival”. Porquê?
Eu chamar-lhe-ia um concurso de canções. As canções gravadas em estúdio, filmadas e depois apresentadas em tela, em vídeo, no Teatro Maria Matos, pelo José Nuno Martins e pela Maria Elisa. Até interpretei uma versão mais complicada do que a que levei à Eurovisão. Depois lá conseguimos convencer o José Luís Tinoco, que é um geniozinho, a mudá-la, para ser mais comercial. Nesse ano quem votava eram os autores. Como o José Luís não gostava de sair de casa, fui eu substituí-lo. Foi um ano em que se queria fazer tudo diferente: “Não há galas, smokings a cheirar a mofo, nada.” Mal eles sabiam o que aí vinha.
Como era o ambiente?
Tranquilo, bem-disposto, sem ânimos exaltados. Não era a euforia nem a alegria que se vivia nos outros festivais. Estava ali cada um com a sua gravação.
E depois todas as canções eram políticas.
Aparecem o José Mário Branco com o GAC [Grupo de Acção Cultural] a cantar o Alerta, o Sérgio Godinho com A Boca do Lobo [enquanto compositor], o Jorge Palma com Viagem, o Paulo de Carvalho e o Com Uma Arma Com uma Flor, do José Niza. Algumas canções… não quero dizer que eram panfletárias — eram próprias do tempo. Mas se pensarmos que vão representar Portugal, já faz confusão. Até a minha canção fez confusão. O que é que acontece? Há canções que se vão hostilizando entre si e a minha vai recebendo sempre uns grãozinhos de milho. De tal maneira que ficou à frente.
Fica surpreendido por ganhar?
Muito. No outro dia fiquei passado porque apareceu um especialista em Eurofestivais na RTP2 a dizer que eu até tinha querido ir fardado e já não sei se disse “armado”. E não foi a primeira vez que ouvi isto. Passei a vida toda a tentar separar as duas coisas… Fiquei passado. Eu vinha aos ensaios a Lisboa e à saída esperava-me um táxi para me levar para Vendas Novas para ir à formatura da manhã. Não queria dar abébias.
Uma semana depois está na Suécia.
E ficámos instalados num hotel com as seguintes delegações: turca, espanhola (com a ETA que andava brava na altura), israelita e irlandesa. Como se tivessem pensado: “Os agitados vamos pô-los aqui”. Estava tudo vigiado. O hotel, os quartos, lá fora, tudo. Decidi cantar versões do Madrugada em inglês e em francês e os jornalistas iam-se aproximando, para ouvir melhor, porque aquilo não era uma canção de “I love you”.
E a atuação, como correu?
Alguém pôs um aditivo no café, disse à minha mulher um senhor da Orfeu. Quando entrei, não me lembro de pensar que ia cantar para milhões, que ia ter uma branca. Estava com vontade de entrar. Talvez fosse do aditivo.
Atinge o auge com a Eurovisão e deixa de cantar. Porquê?
Eu entrava com os meus tios num café ou num restaurante ali em Campo de Ourique e, se não visse logo o lugar para onde ia arrancar, saía. Eh pá, olharem para mim, comentarem.
▲ "Havia muitas mamãs que se calhar gostariam de ver em mim um projeto de vida para as filhas, mas a popularidade não era para mim"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Ainda por cima era bonito. Devia ser um galã.
Havia muitas mamãs que se calhar gostariam de ver em mim um projeto de vida para as filhas, mas a popularidade não era para mim. Logo depois vou para Timor e só volto em setembro. Quando se dá o 25 de novembro ainda estava à espera de ser colocado.
Em Timor as coisas não correram muito bem. O que se passou?
Não consegui cumprir a missão e fui preso. Estive duas vezes mobilizado para ir para a Guerra [Colonial] mas nunca se concretizou. Fui para Timor durante o processo de descolonização, para haver eleições que dessem uma liderança política àquele povo. Mas fui apanhado na guerra civil. Tive mais sorte do que os que foram presos do lado da Indonésia e estiveram lá um ano; eu estive preso 20 e tal dias. Saí de lá sem honra nem glória. Claro que não podíamos ter a pretensão de continuar a governá-los, mas quando pensamos que a legitimidade daquele povo estava ameaçada pela Indonésia, que é um gigante e que não queria lá ideias novas, muito menos revolucionárias ou de esquerda. Quem hoje fala do que se passou de uma forma mais ou menos simplista atribui culpas com a maior das facilidades. Na altura, aqui no continente, a política estava agitada, e nós estávamos nos antípodas, entregues a nós mesmos. Não sei se seria possível fazer melhor do que fizemos.
Nunca pensou voltar à música?
Nunca.
E quando olha para estes e para os outros discos que fez, o que é que pensa?
Penso que agora faria muito melhor.