Nas ruas íngremes de Castro Daire reina o silêncio. O único burburinho vem de dentro dos cafés, onde entre copos e chávenas se discute o tema único dos últimos tempos: o suicídio de dois jovens estudantes da escola secundária — e as outras tentativas de que se vai falando, muitas vezes também sem grandes certezas sobre o que realmente aconteceu. “Queremos respostas”, ouve-se repetidamente por entre as conversas. A família de André, a mais recente vítima, também não se conforma: “Há vários fatores que nos levam a crer que foi um suicídio provocado.” Também eles procuram explicações para a tragédia que os apanhou sem avisar.
À porta de casa, estranhando todos os movimentos da aldeia ligada ao centro da vila por estradas estreitas e sinuosas, recordam o filho e irmão e lembram os planos que André fazia para o seu futuro e de que falava com frequência. Uma das irmãs do estudante interrompe a conversa com o Observador para ouvir uma mensagem de áudio que acabam de lhe enviar. De olhos arregalados, grita: “Está na televisão, está na televisão.”
A família entra de rompante na casa, numa pressa que não é correspondida pelo ligar da box. Quando finalmente aparecem no ecrã os comentadores de um dos programas da manhã a falar sobre o caso que assola o município castrense, ouvem atentamente. Estão mais do que a par do que se fala, mas também eles têm mais perguntas do que respostas e também eles tecem muitas críticas à escola.
De olhos vidrados no ecrã, enquanto aquecem o almoço no forno e se ouve a máquina de lavar, escutam o repórter dizer que, nos dois casos, foi deixada uma carta de despedida à família. Quase numa coreografia, olham sincronizadamente e abanam a cabeça: “É mentira, o André não deixou carta nenhuma.” As dúvidas continuam a sobrepôr-se às certezas sobre o que realmente aconteceu na sexta-feira anterior, a 19 de setembro.
A terra tinha acabado de passar por uma tragédia de que ainda não se tinha recomposto. E, quatro meses depois, uma segunda morte voltou a lembrar os acontecimentos de maio — uma outra tragédia que, apesar de nunca esquecida, já ia estando menos presente na cabeça dos habitantes das várias aldeias do município: essa primeira morte, no final do último ano letivo, de Carlos, colega de turma, e de vida, de André.
Foi aos colegas dessa mesma turma (e à própria diretora de turma) que André terá enviado um e-mail de despedida, no qual agradeceu pelos momentos que tinha passado na escola. A mensagem só chegou à caixa de correio eletrónico da professora dias depois de o jovem ter posto fim à vida. Inconformados, os pais acreditam que o email não pode ter sido uma iniciativa do seu filho, alegando que as referências às recordações referidas pelo menor, “mesmo quando chamavam alcunhas”, como se lia no texto, não faziam sentido.
“Não corresponde à realidade atual do miúdo, onde dizia que desculpava chamarem-lhe nomes e que até era o que mais gostava… Toda a gente sabe que nenhuma criança [gosta disso], incluindo ele, que se queixava de lhe chamarem nomes na escola. Todos nós fomos alunos. Todos nós sabemos que ninguém gosta que nos ponham nomes nas escolas. Não concordo numa parte do e-mail que vi onde diz que ultimamente não tem sido fácil para ele”, explica o pai, que fala com o Observador na própria casa, onde tem passado pouco tempo, fruto de idas constantes à Guarda Nacional Republicana, à escola, à Câmara Municipal e à Igreja.
“Era o momento em que ele estava mais motivado, mais alegre. A mensagem não corresponde à realidade dele”, manifesta. os pais admitem que, tal como grande parte da comunidade escolar, André sofreu com a morte do amigo, quatro meses antes, e apontam o dedo, tal como muitos outros pais, ao apoio dado pela escola — ou à falta dele.
“Somos uma escola onde o ambiente é efetivamente muito bom, os alunos sentem-se muito bem, são muito felizes, mas têm sofrido demasiado nos últimos tempos”, explica António Luís Ferreira, diretor do Agrupamento de Escolas de Castro Daire, a partir do seu gabinete na escola secundária.
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Apesar das críticas de que tem sido alvo, com algumas alusões às suas pretensões políticas, a poucos dias das autárquicas — é o membro mais antigo da Assembleia Municipal e novamente candidato a um lugar, pelo PSD —, António Luís Ferreira diz que “não há nenhum indício, nenhum sinal de qualquer mal estar, que se tenha passado na escola”.
Face à repetição dos casos, avançou ao Observador que fez questão de participar o caso ao Ministério Público, que confirma a “existência de inquérito” para tentar apurar os contornos daquelas mortes. Depois da participação inicial da GNR, através do Núcleo de Investigação Criminal, o caso também está a ser investigado pela Polícia Judiciária (através da Diretoria do Norte) — as autoridades analisam, entre outras coisas, os telemóveis e computadores das duas vítimas para perceber se há alguma ligação entre as mortes e as tentativas de suicídio recentes. Apesar dos rumores, as autoridades não têm dados fortes que apontem para qualquer “pacto de morte” a envolver vários jovens, mas admitem os fortes laços de amizade entre os envolvidos nos casos.
André fazia planos de futuro: queria ir para a Academia Militar. Vizinhas lembram proximidade de Carlos com o avô
Apesar de a residência de ambos distar dez quilómetros, o caminho parece mais longo, fruto da dificuldade de acessos. Contudo, os primeiros contactos entre os dois menores surgiram numa escola primária de uma das pequenas freguesias dos arredores de Castro Daire.
Quem se cruzou com as crianças na primária lembra dois meninos “educados” e com comportamentos normais para a idade. “Já eram muito amigos desde a escola. Eram meninos espetaculares ninguém tinha nada a dizer de mal deles”, recorda uma vizinha, que prefere, como a maioria das pessoas que falou com o Observador, manter o anonimato.
A família de André atesta a amizade. “Eles são grandes amigos, os melhores. O Carlos frequentava a nossa casa e o nosso filho frequentava a casa do Carlos”. Além do convívio nas salas de aula, nos corredores e nos recreios, a amizade entre André e Carlos foi crescendo e manteve-se quando os dois seguiram o percurso escolar para a secundária de Castro Daire.
Sentadas na pequena sombra que conseguem ter no pátio de casa, com a porta entreaberta para permitir a saída e a entrada de Lua, a cadela rafeira, as vizinhas de Carlos lamentam a morte da criança e associam uma fase mais triste do menor ao falecimento do avô, de quem era muito próximo. “Ele passava sempre aqui à porta quando ia lanchar a casa dos avós. O avô pouco falava, mas ele gostava muito de estar com ele”, desabafa Soledade.
Sentada no banco onde costuma estar, no centro da aldeia que ainda tem as decorações das festas de agosto — e que só saem em agosto do próximo ano, quando instalarem as novas —, outra mulher recorda Carlos como um menino muito educado que via sempre, a poucos metros daquele lugar, a apanhar o autocarro para a escola.
Era no transporte que os dois amigos seguiam juntos a caminho da secundária para as aulas do curso profissional de informática em que estavam inscritos. Estavam ambos no 11.º ano quando, em maio, se soube da morte de Carlos.
“A primeira semana depois da morte do amigo foi mais complicada, estava muito triste”, recordam os pais. Apesar de a escola disponibilizar apoio psicológico aos alunos, os pais de André optaram por assegurar consultas fora do espaço escolar. “O Carlos tinha acompanhamento e o meu filho, após a morte do Carlos, passou a ter também. Nos primeiros dias pagámos uma clínica privada para ter lá consultas. Ajudava? Falava muito do colega na primeira semana, mas depois ficou tudo normal… ou aparentemente”.
Os pais não sabem dizer se foi pela ausência de aulas ou pela distância geográfica, mas dizem que durante as férias o filho estava a passar uma das melhores fases dos últimos tempos. Na Suíça, onde vive Sofia, uma das irmãs, esteve ocupado: “Foi para Genebra comigo. Trabalhou na empresa do meu namorado, ganhou o dinheiro dele, comprou a bicicleta elétrica dele”, diz, recordando o irmão com um sorriso.
Os rumores que circulam a velocidade vertiginosa pela vila situada num cume de um monte acidentado dizem que André bebia muito álcool, como outros amigos da mesma idade. Mas a família desmente-o categoricamente e justifica: “Ele recusava sempre essas bebidas, dizia ‘não, não quero, porque o álcool atrapalha-me a síntese da proteína’”.
O ginásio era a principal ocupação do adolescente, que já tinha trocado os transportes públicos pela bicicleta que tinha trazido da Suíça e tinha um plano traçado para o futuro: treinava o corpo para ser capaz de entrar na Academia Militar. “Chegou aqui dois dias antes de falecer a dizer que tinha estado a ver como ingressar na Academia Militar após terminar os estudos. Tinha planos para o futuro”, lembra o pai.
“Disse-lhe que achava que a ida para a Academia Militar iria fazer-lhe bem para crescer e ganhar alguma maturidade. E como tem a ver tudo com o corpo, ele estava muito concentrado nos músculos e estava agradado com isso”, acrescenta a irmã.
As imagens que a família guarda com carinho mostram isso mesmo: o jovem tinha evoluído muito a nível físico nos últimos tempos, e gravava vídeos de publicidade para o ginásio. “Sinto-me muito bem em fazer exercício físico. Ajuda-me bastante, tanto física como mentalmente. E é fantástico. Simplesmente fantástico. Não há mais que se diga”, dizia um André sorridente, em frente às câmaras, na véspera da noite da sua morte.
Nos intervalos dos treinos, questionava quando iria voltar a pescar, outra das suas paixões. “Ele sempre jogou online, mas durante as férias nem jogou porque estava em nossa casa e entre o trabalho, o ginásio e outras coisas que ele fazia, não tinha tempo para jogar”, lembra a irmã, no mesmo local onde o irmão mais novo da família tinha estado a brincar, dias antes, com a mãe e o sobrinho.
Pais de André lembram bullying antigo. Comunidade em apreensão com registo de várias tentativas de suicídio — investigadas pela PJ
As tantas questões que a família de André guarda e que a impedem de fazer um luto mais sereno são refletidas nas críticas à escola, com o dedo apontado ao diretor, com quem já têm contacto há muito tempo — desde que o próprio André foi vítima de bullying, ainda na escola primária, como relatado pela irmã num e-mail enviado ao ainda diretor do agrupamento, em 2017.
“Venho escrever este e-mail porque infelizmente a situação que se passa e tem passado ao longo dos últimos dois anos não pode continuar. Para mim é inadmissível que quer professores, quer funcionários não façam rigorosamente nada. (…) Os últimos dois anos têm sido um tremendo inferno para o meu irmão que dia após dia chega a casa a queixar-se de dores de barriga porque A, B e C lhe deram pontapés. Já veio a meio do dia com dores e vómitos resultantes dos atos físicos descritos (…) ou dores de cabeça porque lhe deram murros (…), um dia veio para casa vermelho, aflito com falta de ar porque um aluno lhe apertou o pescoço”, escreveu Sofia a partir da Suíça.
O diretor respondeu dois dias depois, pedindo a identificação tanto dos agressores como dos funcionários que supostamente teriam visto agressões “à saída da escola e nada fizeram”, e assumindo a instauração de um “processo de inquérito para averiguar o que efetivamente terá ocorrido”. “Faremos tudo para que este tipo de situações sejam erradicadas da escola, escreveu António Luís Ferreira.
Pouco depois, o diretor enviou nova mensagem, desta vez indignado com o facto de Sofia ter denunciado este caso no Facebook, sem identificar docentes. “Acabaram de me contactar para me informar que o assunto que me relatou sobre o seu irmão está a ser divulgado no Facebook. Como não considero que assuntos oficiais e, sobretudo, com este caráter devam ser tratados de forma pública, através das redes sociais”.
A preferência pelas soluções discretas e sem dar atenção mediática ao assunto repetem-se agora, com os casos de suicídio e as várias tentativas que terão verificado nos últimos dias. Desde que André morreu, foram revelados pelo Diário de Viseu mais casos de tentativas de suicídio. “Não posso garantir que tenham sido três casos, porque porventura, como é algo que vem de trás, até poderá haver mais e nem todos foram assistidos pelos Bombeiros Voluntários de Castro Daire”, disse o comandante Paulo Matos, também professor de Educação Física da escola, ao jornal regional.
Ao Observador, nem os bombeiros nem a GNR confirmam quantas foram as tentativas de suicídio entre os jovens daquela comunidade. Os moradores garantem que terão sido mais do que três (todos amigos das vítimas mortais, alguns da mesma turma). Fonte da GNR confirma ao Observador que foram várias e que os militares estiveram presentes “nessas situações de acautelamento” dos jovens que foram levados para o hospital. Apesar de o caso estar a ser investigado, a família de uma das vítimas diz que ainda não foi possível analisar o telemóvel levado pelas autoridades por não ter sido dada autorização pelo Tribunal de Castro Daire.
Terá sido depois de um dos estudantes assumir à psicóloga o momento difícil por que passava, por lidar com a morte dos colegas, que a profissional terá alertado a mãe do menor. Esse estudante terá assumido a intenção de suicidar-se e revelou que havia outro jovem a pensar fazer o mesmo. As autoridades deslocaram-se a casa deste outro aluno e impediram qualquer tentativa.
A mãe de um destes jovens denunciou nas redes sociais a falta de ação do diretor da escola, que já teria sido confrontado com este problema. Questionado pelo Observador, António Luís Ferreira disse apenas que não conhecia essa mãe, apesar de a sua identidade ser confirmada por vários vizinhos.
Diretor decidiu não realizar homenagem a aluno, mas manteve sardinhada com professores na escola
As ruas vão ganhando movimento com o aproximar da hora em que os alunos terminam mais um dia de aulas. Acumulam-se os carros estacionados pelos pais, ao lado de uma das muitas ciclovias de Castro Daire. Ao telemóvel, ou a olhar para o portão, refletem a sua preocupação com os casos recentes.
“Antigamente, isto não acontecia”, diz uma mãe que já tem filhos na escola há algum tempo. Ninguém aponta culpados ou razões para o que aconteceu, absolvendo o diretor de uma gestão menos cuidada dos casos, mas há quem condene, mais uma vez, a preferência pelo silêncio face a um drama desta dimensão.
“Sabemos que os pais perguntam e ele não tem nada para dizer. As coisas estão mal conduzidas porque o diretor devia ter reunido os diretores de turma. Fecha-se em copas. Os pais dizem que não são recebidos”, descreve um membro com forte ligação à comunidade escolar, que prefere manter o anonimato com medo de represálias.
“Sei que muita gente diz mal de mim, mas paciência. Nas redes sociais associam à escola aquilo que não é da escola, mas é a vida. Não, não vou andar a esgrimir argumentos. Fiz o tal comunicado aos encarregados de educação para dar a informação possível. Está lá bem claro que a escola está, como sempre esteve, de portas abertas”, defende-se o diretor.
António Luís Ferreira recorda como tudo se desenrolou desde que se soube do primeiro suicídio — quando a escola já enfrentava momentos sensíveis, depois de várias mortes de jovens (algunas em acidentes de mota) — até que a instituição decidiu responder.
Reuniu de imediato com o psicólogo da escola e com outra psicóloga contratada, a fim de delinear uma resposta para a comunidade escolar. “Falámos com os alunos no sentido de dar algum conforto, perceber se eles sabiam quais eram as razões, mas nenhum nos avançou com nenhuma razão. Também quisemos dar indicações para que eles estivessem atentos com os colegas e nos alertassem sempre que sentissem que alguém estava a precisar de ajuda”.
Lamenta, no entanto, que, tendo sido encontrada uma resposta com o apoio da Câmara Municipal, com a contratação de uma equipa de especialistas de Saúde Mental que veio desde Coimbra para a escola, “nenhum encarregado tenha aparecido nessa formação”.
“Essa convocatória foi feita, os técnicos deslocaram-se precisamente para os despertar para o problema e para eles também sentirem ou estarem em alerta para alguns sinais que muitas vezes nós, os leigos, desprezamos”. Depois das férias escolares, quando a vida na escola se preparava para regressar, dentro do possível, ao normal, “aconteceu este segundo caso”. “Obviamente que o alarme soou mais alto. Tivemos que nos fazer rodear de todas as entidades possíveis”.
O próprio diretor tomou a iniciativa de comunicar o caso ao MP, que, entretanto, abriu o inquérito. António Luís Ferreira escuda-se na investigação que decorre para justificar a alegada pouca comunicação sobre o caso com os pais, que, insiste, podem sempre ir dirigir-se à escola para falar com a direção.
No centro de Castro Daire, onde um hino de campanha não deixa esquecer a situação política que se vive, há quem associe essa corrida à Câmara Municipal com o silêncio do diretor, que é também membro de relevo nos órgãos locais do PSD, assumindo há vários anos lugar na Assembleia Municipal.
“Eu sei que vivemos tempos complicados, até porque estamos numa campanha eleitoral. Nós somos sempre associados à política. Eu não faço campanha, tenho o direito de ter o meu partido, ou, pelo menos, de ter uma ideologia política, uma ideologia desportiva, religiosa. Ninguém tem nada a ver com essas coisas. E essas coisas separam-se perfeitamente”, explica António Luís Ferreira, mesmo sem ter sequer sido questionado sobre a sua posição política na autarquia.
O responsável pelo agrupamento assume que tomou a difícil, e incompreendida, decisão de cancelar homenagens a André, por entender que podia provocar sentimentos negativos nos colegas. “Coloquei a discussão se as homenagens não deviam ser mais contidas. Sabendo que há pessoas que não compreendem, mas temos que tomar decisões desligadas da emoção”.
“Eu disse que tomava a decisão e arcava com as consequências. (…) Entretanto, estive com o pai no dia do funeral. (…) Eu próprio, nessa altura, disse-lhe que íamos ter alguma contenção nas homenagens que fazíamos. Porque ele demonstrou estar preocupado com os restantes colegas [do André]”.
Dentro da comunidade docente, há quem não concorde com a decisão e aponte um comportamento duvidoso. “No próprio dia não fez luto, mas [dias depois] fez uma sardinhada na escola. Isto não é de uma pessoa normal”, denunciam ao Observador de forma anónima, alegando que neste encontro estiveram presentes outros professores e pessoas “com responsabilidade local”.
Confrontado com este jantar, o diretor do agrupamento não desmentiu, negando qualquer leitura extrapolada desse convívio. Face a esta questão, exigiu que não fossem citadas nenhuma das declarações dadas ao Observador dois dias antes de forma totalmente consentida e antecipada.
Um email a que o Observador teve acesso mostra a convocatória do diretor, enviada aos professores no dia em que se deu a morte de André. “Como devem ter percebido, o jantar de hoje, designado por ‘sardinhada’ mantém-se, porque já estava tudo comprado e pelas razões que passo a descrever. É apenas um jantar, não é nenhuma festa, que qualquer um dos inscritos, e não inscritos, iria fazer em casa ou noutro lugar qualquer. Neste caso, é um jantar em conjunto, em família, para dar energia para mais um duro ano, para criar mais uma oportunidade de integração a quem chegou pela primeira vez ao Agrupamento e, pelos acontecimentos recentes, um momento para podermos, mutuamente, lutar contra circunstâncias que teimam em afundar a nossa moral [sic], o nosso ânimo e a nossa força para continuar”.
Família só quer saber a “verdade” para impedir casos futuros. “Ele ficou a dançar com as empregadas e os colegas”, recordam
Em Castro Daire, ninguém ficou indiferente à partida de dois jovens que marcavam quem se cruzava com eles pela bondade. “Pergunte a quem quiser. Nestas aldeias não há ninguém que visse nele um miúdo triste ou deprimido. Andava sempre alegre, sempre. Já nos chegaram relatos de gente que estava no funeral a dizer que havia mais de 1.000 pessoas no funeral, numa aldeia pequena”, dizem os pais, lembrando que André tocou a vida de muita gente.
“Aqui no município, onde ele esteve a fazer estágio, estava sempre bem disposto, sempre muito cordial, muito, muito alegre”, descreve o diretor. A mãe fala num “menino” já crescido que se “metia, na brincadeira”, com toda a gente, até com os militares da GNR. “Às vezes, eu berrava com ele e ele respondia: ‘Não estou a fazer mal nenhum’, mas sempre na brincadeira”.
A irmã de André recorda um episódio recente do irmão para espelhar a alegria com que vivia no dia a dia. “As empregadas estiveram a contar que no último dia de aulas ele levou uma coluna grande e que chegou ao ginásio e disse para as empregadas ‘os professores estão aí?’. Elas disseram que ‘não’ e ele perguntou ‘posso entrar?’. ‘Mas o que é que tu vais fazer?’. E ele: ‘Vamos dançar’. E foi lá para dentro com as empregadas, meteu música e estiveram a dançar dentro do pavilhão de ginástica e depois desceram os outros alunos — porque já era hora de ir embora, e eles começam-se reunir ao pé do portão para apanhar o autocarro — e então ele passou a coluna para o lado de fora das grades ficou a dançar com as empregadas e com os colegas. E amaram todos. Sei que nada pode ser feito a não ser descobrir a verdade, o que motivou isto. Para que impeça casos futuros”.
Todos os nomes de familiares , vítimas e amigos são fictícios.