Desde a sua média-metragem de estreia, Motu Maeva, todos os filmes da franco-portuguesa Maureen Fazendeiro até à data relacionam-se com o tempo sempre que investigam espaços, pessoas e histórias. As Estações, a representação portuguesa no concurso principal deste Locarno 2025, não difere desta linha e de uma pesquisa no terreno que se vai descobrindo ser permeável à ficção. Locarno descreveu-o como uma “reflexão poética sobre a história.”
“Este filme começou a ser desejado logo a seguir a Motu Maeva e acho que acompanhou tudo o que fiz, entretanto, nestes últimos dez anos”, contou Maureen Fazendeiro em Locarno. “Um artigo do jornal Público apresentou-me à história de um casal de arqueólogos alemães, Vera e Georg Leisner, que inventariaram os monumentos megalíticos do Alentejo. Trabalharam e viveram naquela região, onde eu nunca tinha estado antes de querer fazer este filme. Pareceu-me uma porta aberta para uma investigação. O arquivo dos cadernos de campo dos Leisner serviu-me acima de tudo para descobrir o território e cartografar os sítios em que eles tinham trabalhado. Pelo seu acervo epistolar, aprendi que, nos anos 40 do século XX, durante a II Guerra Mundial, eles iam recebendo notícias da destruição das cidades alemãs enquanto trabalhavam sobre as antas, monumentos funerários com 10 mil anos, desenterrando segredos sobre esse passado.” Neste percurso, durante as andanças de Maureen, a realizadora conheceu pessoas novas, arqueólogos, pastores, apicultores, também crianças que vemos em brincadeiras com coelhos. “Todos eles me foram ensinando a ‘ler’ um espaço que fui aprendendo a reconhecer e a filmar. E com isto, foi-se formando o arco que me interessava, entre presente e passado, entre o hoje e um tempo muito longínquo.”
▲ Maureen Fazendeiro no festival de Locarno
Luca Chiandoni
As Estações é um filme delicado e amplo, com vontade de habitar o espaço que visita e a história que o constitui. Não é uma ficção nem se fixa a um modelo narrativo convencional do documentário. Recorre antes a uma fusão de vários elementos, depoimentos e camadas de conhecimento. O ritmo sugere-nos que essas etapas foram ponderadas e amadurecidas. “O filme tem este título porque foi por estações que eu comecei por organizar a rodagem. Imaginei quatro capítulos. Só que a passagem das estações no Alentejo nem sempre é clara, há dias de Dezembro que parecem Primavera. E ao longo destes anos, a minha relação com aquele território foi-se tornando cada vez menos linear. Decidi assumir isso na montagem.”
Franco-portuguesa, filha de emigrantes lusos nos arredores de Paris, Maureen foi parar ao Alentejo levada pela curiosidade. Não fazia ideia que uma “saia” também é, naquele lugar, sinónimo de canção e de dança tradicional. A realizadora seguiu simplesmente o rasto de um casal de estrangeiros e o método deles, que quando chegaram “também andaram pelo campo a perguntar às pessoas onde se encontravam certos monumentos. Ora, a minha relação com Portugal também é assim, um pouco estranha, sou e não sou do país, sinto-me e não me sinto portuguesa, é uma coisa meio-inventada, meio-real. Decidi, então, que o filme se aproximaria desse sentimento, de um “Alentejo inventado”, mas não inventado por mim. No meu imaginário não há cabras com coroas douradas. Aquilo que inventa o Alentejo de As Estações são as histórias que as pessoas me foram contando. Os poemas que eles sabem de cor. Integrei as suas palavras, as histórias deles e a maneira como as interpretaram.”
▲ “As Estações”, de Maureen Fazendeiro
Marianne Andrea Borowiec
Como antes se disse, o tempo não é um compartimento estanque aqui. Parte do encanto de As Estações vem disso mesmo, das suas ramificações, como os ramos do gigantesco sobreiro escolhido para encerrar o filme. Aliás, surge às tantas, a meio de uma história, uma figura mítica que dá pelo nome de Charro, um acossado a que o filme resolve dar corpo, recorrendo desta vez à interpretação de um actor profissional (Cláudio da Silva). E não é claro o tempo que ele habita nem de que era vem. “Pode ser uma figura do tempo dos cartagineses”, acrescenta Maureen. “Ou um resistente à ditadura do Estado Novo. Vestimo-lo como um bandoleiro do século XIX, assumindo aquele tempo incerto.”
Por outro lado, é provável que os encontros da cineasta com certos intérpretes do filme também tenham estimulado o seu interesse por um passado recente, mais concreto, daquele Alentejo central — o filme foi rodado em vários locais entre Montemor-o-Novo e Redondo. Maureen sentiu a necessidade dessa inscripção, à qual também está associada a escolha de ter rodado o filme em película 16mm.
▲ “As Estações”, de Maureen Fazendeiro
Marianne Andrea Borowiec
Noutro momento, surgem planos de alentejanos do pós-25 de Abril, numa nova camada de imagens que propõe outra leitura. “Esses arquivos são os momentos mais incríveis do filme. São de 1975-1976, foram filmados por um senhor de Mora que estava nessa altura a estudar em Lisboa. São imagens do pós-Revolução, de pessoas na aldeia dele, a preto e branco. Só que ele nunca as revelou. Nem sabia como. Eu andava à procura de arquivos amadores. Não encontrava nada. Até que esta pessoa me disse que ainda tinha aquelas latas de película no sótão. São imagens com uma textura muito estranha — parecem pinturas — porque passaram quase 50 anos até serem reveladas. Tivemos que mandar o material para um laboratório especializado em filmes antigos [Rescue Film International], nos Países Baixos. Hoje, está depositado no acervo da Cinemateca Portuguesa.”
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia