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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Entre um almoço de mão de vaca e citações de Einstein, Élvio Sousa tem uma premonição: é desta que o JPP vai governar a Madeira

Líder do JPP almoçou com o Observador e explicou que é alvo principal do PSD. Planeia fazer sondagem no dia a seguir às eleições para saber o que eleitores querem. Na base de tudo está a "intuição".

“Há uma força motriz mais poderosa do que o vapor, a eletricidade e a energia atómica: a vontade”. Originalmente, a frase é atribuída a Albert Einstein. Mas agora é citada por Élvio Sousa, líder do JPP, enquanto se prepara para saborear um prato generoso de mão de vaca. Pelo meio de um ruidoso almoço com uma das suas equipas de campanha, num restaurante castiço nas zonas altas do Funchal, Élvio Sousa lembra-se de Einstein para explicar ao Observador o crescimento fulgurante do JPP, que lhe permite sonhar com governar a Madeira. Até porque Élvio é dado a premonições e intuições — e acredita que desta vez, a dias de mais umas eleições antecipadas, anda “qualquer coisa” diferente no ar.

As intuições de Élvio Sousa aparecem na conversa ainda antes da chegada ao restaurante, quando dá boleia ao Observador até lá e, depois de estacionar, tem dificuldades em fechar o carro porque a chave não lhe obedece. “Anda qualquer coisa no ar… São os astros a mudar”, regista, em tom de brincadeira. Passou, de resto, a campanha a garantir que os astros lhe dão indicações diferentes das sondagens — uma mostra o JPP a crescer, outra a perder terreno, mas Élvio Sousa está confiante na conquista de mais deputados para somar aos nove que já tem — e que viu “nas estrelas” que vai governar a Madeira. Chegados ao restaurante, conta ao Observador mais uma espécie de ocorrência cósmica que diz ilustrar a história do partido — e a tal força motriz que foi necessária para levar o JPP para a frente e transformar o movimento de cidadãos em partido, ainda no rescaldo no jardinismo.

A poucas cadeiras de distância encontra-se Paulo Alves, deputado e presidente da junta de Santa Cruz pelo JPP, que também tem uma porção generosa de mão de vaca à frente e pelo meio da degustação vai ajudando a contar a história. Em outubro de 2014, ambos voaram para Lisboa, segurando com cuidado uma pasta onde levavam nove mil assinaturas para pedir a constituição do partido. Estiveram em risco de não entrar no voo, porque estava em overbooking, mas lá seguiram viagem, contam.

Chegaram ao hotel lisboeta onde iam ficar, na zona do Saldanha, e avisaram: tinham uma “preciosidade” em mãos. Mas quando voltaram para irem buscar a pasta antes de se dirigirem ao Tribunal Constitucional, “o andar estava todo bloqueado”. Nenhuma das portas dos quartos abria, “não se podia entrar”. “Não há coincidências”, comenta Élvio Sousa, enquanto explicam que foi preciso “desaparafusar as fechaduras dos quartos todos” para que conseguissem entrar e ir buscar os papéis de que precisavam para oficializar a criação do partido. “Acredito que energeticamente houve um bloqueio para ninguém entrar”, atira o líder, antes de fazer uma ressalva: “Não sou feiticeiro nem bruxo!”. Ainda assim, prepara sempre a mensagem política que vai transmitir a jornalistas ou eleitores “na hora”, com base em “intuição” pura.

O que lhe chamam por brincadeira não é feiticeiro nem bruxo, mas “druida”, na referência aos irmãos gauleses — o irmão, Filipe Sousa, dirige a segunda maior câmara da Madeira, Santa Cruz — que lançaram um movimento na freguesia de Gaula e agora ambicionam rivalizar com PS como principal figura da oposição na Madeira. E, a partir de domingo, possivelmente força de governo, espera o JPP. Não sozinho, mas numa coligação com os socialistas que retire, pela primeira vez, o PSD do poder.

Em 2024, quando a Madeira foi a votos depois de terem sido conhecidos os casos judiciais que envolvem Miguel Albuquerque, PS e JPP ensaiaram uma tentativa de coligação pós-eleitoral. Sem sucesso: o representante da República, Ireneu Barreto, ouviu os partidos — que ainda não se tinham organizado no pós-eleições — e indigitou rapidamente Miguel Albuquerque, que tinha ficado em primeiro lugar sem maioria absoluta. Desta vez garante que será diferente: na altura “ninguém se lembrou da possibilidade de não aparecer” nas reuniões com Ireneu Barreto, mas desta vez já avisou que precisa de tempo e já pediu “quatro dias” para que os partidos se organizem e negoceiem após as eleições de domingo, conta.

O plano está traçado: após as eleições, se o PSD voltar a falhar a maioria absoluta e a oposição crescer e vir uma hipótese de formar uma coligação alternativa, Élvio Sousa conversará com os partidos e ouvirá os órgãos do JPP. Depois, tem um plano: vai fazer a sua própria sondagem para perceber o que é que o eleitorado quer. Como? Seja nos diretos que faz nas suas redes sociais ou nos diretos televisivos que se fizerem nesses dias, vai pedir a quem o ouve que se manifeste sobre a solução que deseja para a Madeira. Depois, vai “preparar uma equipa para recolher essas opiniões”, recebendo-as por telefone ou mensagem. E assim perceberá o que é que o povo — assegura que tem um modo de proceder “popular”, os adversários chamam-lhe “populista” — quer.

Parece uma forma pouco ortodoxa de decidir, mas enquanto admira as paredes do restaurante, uma espécie de museu excêntrico — encontram-se vinis, uma televisão antiga, uma máquina para fazer gelados dos anos 1940, uma espécie de pónei de peluche, um oratório, cada centímetro de parede está coberto de artigos que fariam inveja a qualquer feira de antiguidades — Élvio explica: “Ninguém está preparado para estes cenários. Temos de fazer uma aprendizagem, é tudo novo”. Na Madeira, não há experiência prévia que explique o que acontece se o PSD não conseguir governar. O objetivo do JPP é inaugurar essa experiência.

▲ Élvio Sousa almoçou mão de vaca com uma das suas equipas de campanha num restaurante castiço nas zonas altas do Funchal.

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O “partido dos papelinhos” que é alvo do PSD

Quando chega ao “Bar Gama”, por onde se entra através de umas portas vermelhas de madeira ao estilo saloon, Élvio Sousa brinca: “Bem vindos ao faoreste!”. À entrada, o grupo — que também inclui Lina Pereira, presidente do JPP, e Ricardo Pontes, presidente do Conselho de Fiscalização Económica e Financeira — é bem recebido pelo dono, que tinha pedido para conhecer o líder do JPP. Élvio é imediatamente desafiado para passar para trás do balcão, para servir bebidas se quiser — bebe uma cerveja preta com raspa de limão, receita madeirense.

Por ali tudo é simpatia, o momento que destoa é aquele em que Élvio Sousa se senta e cumprimenta um grupo de militantes do PSD que decidiram almoçar no mesmo restaurante — e que retribuem o cumprimento de forma menos do que entusiástica. Podia ser só um encontro pouco natural entre elementos de dois partidos diferentes, mas a corrida tem aquecido entre JPP e PSD, que tem feito dos “gauleses” um alvo preferencial.

▲ O Observador acompanhou uma ação de campanha do JPP e o almoço de equipa que se seguiu. Na primeira imagem Élvio Sousa surge ao lado do irmão Filipe.

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No Instagram de Miguel Albuquerque, a tendência é notória: fazendo notar que uma das principais promessas do JPP é construir 500 casas por ano, mas que o partido não construiu “nenhuma” na autarquia de Santa Cruz, que lidera há doze anos, o presidente do governo regional vai fazendo pouco do JPP, filmando-se com uns binóculos à procura das casas que o partido já construiu, por exemplo.

No comício final do PSD, Albuquerque dizia que foi tentar procurar as casas novas de Santa Cruz e constatou que o partido nem consegue “tirar as ervas do caminho”. Em entrevistas, vai frisando que existe o risco de o JPP liderar uma coligação com o PS, um “experimentalismo” perigoso para a Madeira.

Do lado do JPP, justifica-se a falta de habitação nova em Santa Cruz com a aposta na recuperação das casas que já existem, na obra na Saúde e também na recuperação financeira que o partido teve de fazer, tendo herdado mais de 50 milhões de euros de dívida na autarquia. Mas, para Élvio Sousa, tudo são sinais de que o PSD sente o perigo da aproximação do JPP, o partido que veio “abanar com o sistema” hegemónico dos sociais democratas desde que apareceu na reta final do jardinismo, e que faz dele alvo principal.

Para o JPP, isso justifica-se por ser o “partido dos papelinhos”, ou seja, apostar numa “fiscalização” que diz não ter feito até aqui parte da cultura da Madeira. Esta quinta-feira, antes do almoço com o Observador, Élvio Sousa levava as acusações que tem lançado ao PSD mais longe, garantindo que existe o perigo de haver roubo de envelopes, para trocar boletins de voto, nas secções de voto e que recebeu relatos de funcionários públicos — a Madeira tem mais de 30 mil — que estão a receber ordens das suas chefias para que fotografem ou filmem o seu boletim de voto, garantindo que votaram PSD.

A “intimidação” que denuncia não é feita apenas aos funcionários públicos, garante, mas também ao próprio JPP — em 2023, o deputado social democrata Carlos Rodrigues chegou a ameaçar, em plena sessão da Assembleia Legislativa Regional: “Vai acabar mal. Vai acabar muito mal. Porque aqueles que se julgam melhores do que os outros acabam no fundo do mar.” E prevê que, se o JPP conseguir chegar a governar, conte com muita “sabotagem” dos atuais diretores de serviços que têm cartão do PSD.

A propósito disto, o líder do JPP lembra entre risos a famosa frase de Alberto João Madeira, na altura dirigida à JSD-Madeira: “Temos de ser uma máfia no bom sentido”. Entre as queixas que faz sobre o tratamento que recebe, nos corredores do JPP também se comenta que existe um tratamento “hostil” da comunicação social madeirense.

É por isso que a grande aposta do partido passa pelas redes sociais: o JPP desiste da intermediação, tenta falar diretamente com o eleitorado. Élvio vai perguntando à equipa se o gravaram a passar a mensagem X ou Y: “Essa era importante que estivesse em vídeo”. De resto, a ligação ao eleitorado vai-se fazendo durante todo o ano e não só em período de campanha eleitoral, garante: quando sai dos plenários do parlamento regional, o líder da JPP (assim como o resto dos deputados do partido) pega num computador, numa impressora e vai fazer “atendimento” a casa das pessoas que o chamam para pedir ajuda com todo o tipo de problemas, seja com bancos, segurança social ou marcação de consultas.

A aposta do JPP passa por mostrar que traz à política madeirense esse “humanismo” e se preocupa com as pessoas, sempre abdicando de rótulos “ideológicos” — o que lhe vale o rótulo de partido populista — e garantindo que está preparado para governar. A ideia de que o seu adversário é apenas o PSD, e não o PS, tem vindo a ser reforçada cada vez que Élvio Sousa fala em público e garante que, com a campanha “negativa” que os sociais democratas fazem, até parece que “estão na oposição e o JPP no poder”.

Para trás o JPP quer deixar os tempos em que era um partido novo, encarado quase como uma curiosidade ou uma excentricidade da política madeirense, e em que a relação entre os dois irmãos “druidas” — que chegou a azedar — era motivo de interesse jornalístico. Antes de deixar o Observador na próxima paragem, já de barriga cheia e ainda segurando o volante do carro, Élvio Sousa garante que a luta interna não teve diretamente a ver com uma discussão entre os dois irmãos — embora essa ideia se tenha espalhado e Élvio tenha acabado por carregar “a cruz do inferno” — e que, de qualquer forma, esse tempo já passou. “Havia alguma imaturidade”, admite. A ideia é ultrapassá-la — daqui em diante, o JPP quer ser visto como um partido pronto para governar.

▲ Élvio Sousa à saída do bar onde almoçou com uma das suas equipas.

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