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Suzane Pires, Mónica Mendes e Dolores Silva, jogadoras da seleção nacional feminina

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

Suzane Pires, Mónica Mendes e Dolores Silva, jogadoras da seleção nacional feminina

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

Entrevista às craques da seleção feminina: "Lembro-me de jogar à bola na rua"

O futebol feminino conseguiu um feito inédito: apurar-se para o Europeu. O Observador entrevistou três jogadoras que esta semana rumam à Holanda e dizem: "O futebol faz-me feliz".

Dolores Silva, de 25 anos, jogou durante seis anos na Bundesliga alemã. Quando foi convidada para treinar no Duisburgo — na altura era jogadora do 1.º de Dezembro –, pagou o bilhete do seu bolso para chegar até a Alemanha. Foi contratada após dois treinos com a equipa. Tinha 19 anos.

Suzane Pires veio de mais longe jogar pela seleção portuguesa. Nascida em São Paulo (Brasil) e com um passaporte comunitário graças ao avô português, joga atualmente no Santos, mas a vinda para Portugal poderá não estar assim tão longe, já que o marido, que é guarda-redes, acabou de assinar pelo Nacional da Madeira. Com 24 anos, é a única jogadora da seleção que é casada.

Já Mónica Mendes, também de 24 anos, joga no campeonato suíço, mas já passou pelos Estados Unidos e pela Noruega. Ex-campeã nacional de karaté, ganhou uma bolsa para estudar na Universidade de Brownsville, no Texas, onde tirou o curso de ‘Human and Health Performance – Kinesiology’.

Estas três jogadoras são apenas algumas das que compõem a equipa da Seleção Nacional A feminina, que se apurou pela primeira vez para um Europeu. Um feito inédito, que as jogadoras esperam ser o início de uma mudança radical no futebol feminino. O primeiro jogo da competição é no dia 19 contra Espanha.

Dolores, Mónica e Suzane denunciam a falta de formação e até o preconceito face ao futebol feminino. Uma realidade, contudo, que está a mudar e para a qual a conquista do campeonato europeu, que começa no próximo dia 16 na Holanda, pode fazer toda a diferença.

Portugal acaba de se qualificar pela primeira para um campeonato europeu feminino. Este apuramento histórico pode ser também o início de uma história de sucesso e finalmente a afirmação do futebol feminino em Portugal?
Dolores Silva (DS): Este apuramento era algo que já procurávamos há muitos anos. Muitas gerações já sonhavam com este momento e o facto de termos conseguido este feito inédito no futebol feminino acaba por ter um peso muito grande. Esperemos que cada vez se abram mais portas para que se comece a ver o futebol feminino com mais respeito e com mais seriedade, porque acho que também merecemos.

Todas vocês já jogaram no estrangeiro — no seu caso [Dolores], vem agora para Portugal. Acham que jogar lá fora, tal como acontece com a grande maioria dos jogadores portugueses, vos traz também outra experiência para Portugal?
DS: Para mim, foi sem dúvida uma experiência que adorei e que me tornou uma melhor pessoa em muitos aspetos. Aprendi imenso, quer dentro, quer fora do campo. Tentamos trazer sempre um pouco dessa experiência, de cada vez que jogamos pela seleção nacional, também para ajudar as nossas colegas com o melhor que retirámos de lá.

Dolores Silva a festejar o golo que marcou contra a Irlanda do Norte (Fotografia: Miguel A. Lopes/Lusa)

Suzane, no Brasil o futebol feminino é quase tão bem visto quanto o futebol masculino — a Marta [futebolista brasileira] é uma estrela no país. Os clubes portugueses já estão a apostar o suficiente no futebol feminino? Como é que vê as diferenças entre Portugal e o Brasil?

Suzane Pires (SP): Ainda há algumas diferenças. No Brasil, talvez haja uma maior tendência para as pessoas irem aos jogos e verem pela televisão. Numa semi-final [no Santos], tivemos 25 mil adeptos, e noutro jogo sete mil, portanto é um desporto que está a crescer bastante. Acho que em Portugal também está a crescer e acredito que também vai alcançar estes números.

Para a Mónica, uma pergunta mais direta: em Portugal, temos condições de criar uma ‘Ronalda’?
Mónica Mendes (MM): Temos. Acho que a jogadora portuguesa tem muita qualidade. Este feito foi conseguido agora finalmente a nível sénior, mas mesmo nas camadas jovens já tínhamos conseguido grandes feitos e com muito poucas condições nos clubes. O que demonstra que as jogadoras portuguesas têm muito talento. Agora, de facto precisam de mais condições. É preciso chamar mais jovens, é preciso que as novas gerações gostem de jogar, que se inscrevam nos clubes e que se envolvam. Em comparação com o estrangeiro, isso ainda não acontece, mas talvez daqui a 15 ou 20 anos. Por que não?

Quais são as diferenças entre o futebol feminino em Portugal e lá fora, em termos de remuneração, de valorização do vosso esforço, de condições de trabalho?
MM: Quando joguei em Portugal foi a nível amador, portanto o termo de comparação é abismal. Neste momento, sou jogadora profissional. Em termos de carga horária de treino, a diferença é muito grande. Três vezes por semana temos dois treinos por dia, temos um treino diário nos restantes dias, mais o jogo — a carga física é logo uma grande diferença.

"As jogadoras portuguesas têm muito talento. Agora, de facto precisam de mais condições."
Mónica Mendes, defesa, 24 anos

Depois há as condições do clube. Na minha equipa, temos um preparador físico, um treinador só para a parte tática e outro só para a parte técnica. Depois temos o treinador, que junta todas as peças e torna a equipa num todo. E ainda temos o massagista.

Há toda uma estrutura que aqui, no futebol feminino, ainda não existe. Mas, no futuro, se continuarem a apostar fortemente, de certeza que as coisas vão surgir e a diferença de nível que existe entre as jogadoras portuguesas que jogam em Portugal e as que jogam no estrangeiro deixará de ser tão grande.

Há pouco tempo saiu uma notícia que dizia que a Marta [jogadora brasileira] lutava para ganhar entre 400 mil e um milhão de euros. A Suzane atualmente joga no Brasil. Sabe quanto é que uma jogadora em Portugal de futebol feminino pode sonhar alcançar, em termos de remuneração?
SP: Relativamente a isso não sei muito bem, porque nunca joguei em Portugal, mas acho que está bem melhor do que era antes. Pelo que sei, antigamente não se pagava nada e as jogadoras tinham de pagar do seu próprio bolso para ir e voltar dos treinos — como a Dolores fez para ir para a Alemanha [treinar no Duisburgo].

Mas a Dolores, que acaba de trocar a Alemanha por Portugal, é capaz de saber…
DS: De facto, em Portugal, nem todos os clubes conseguem dar o tipo de remuneração que alguns clubes lá fora conseguem. Muitas vezes, as pessoas pensam que, por se jogar na Alemanha ou na Suíça ou em Inglaterra, automaticamente os nossos salários vão ser muito altos e vamos ter condições de trabalho muito boas. Mas a realidade não é essa, mesmo lá fora. Por exemplo, em diferentes ligas de topo, como a Bundesliga ou uma liga sueca ou inglesa, ainda há uma discrepância muito grande. Há equipas em que as jogadoras são muito bem remuneradas, mas há equipas em que ainda se faz um sacrifício para se obter um certo tipo de salário.

Ganhar muito bem é ganhar quanto?
DS: Na Alemanha, se estivermos a falar de um clube como o Wolfsburg — que já foi várias vezes campeão europeu –, penso que uma jogadora lá não ganha, no mínimo, menos de três mil euros por mês.

"Muitas vezes, as pessoas pensam que, por se jogar na Alemanha ou na Suíça ou em Inglaterra, automaticamente os nossos salários vão ser muito altos e vamos ter condições de trabalho muito boas. Mas a realidade não é essa."
Dolores Silva, média, 25 anos

E em Portugal, quanto é que se ganha no máximo?
DS: Não sei, porque não sei quanto ganham as minhas colegas. Mas neste momento acredito que, tanto o Sporting como o Sporting de Braga, estão a investir nesse aspeto e estão a dar às jogadoras condições que estes clubes grandes lá fora dão também. Isso, só por si, é um passo gigante no futebol feminino e Deus queira que isso faça com que outros clubes vejam o futebol feminino com outros olhos.

Seria importante até para aumentar a competitividade. O nível competitivo lá fora é muito grande, mas eles começaram a investir no futebol feminino desde muito cedo. A Alemanha, por exemplo, é uma potência muito grande. Se elas ganharem o Campeonato da Europa este ano, será a sétima vez consecutiva.

Em termos concretos, em que é que se deveria investir para se seja mais fácil ser uma futebolista profissional em Portugal? Em formação? Recentemente foi implementada, para os clubes que criassem equipas femininas, a obrigatoriedade de ter também equipas sub-19, sub-17 e uma academia de formação.
DS: A formação é muito muito importante. O meu clube na Alemanha tinha camadas de sub-12 e de sub-13. Competiam com rapazes, porque era o que as fazia ‘crescer’. Também tinham sub-15, sub-17, sub-21 e ainda uma terceira equipa. Há muitos anos que existe essa parte da formação na Alemanha e penso que também os EUA e a Suécia têm o mesmo sistema.

Por exemplo, no meu antigo clube elas tinham a possibilidade de estar num internato para desportistas. Tinha várias modalidades, quer para raparigas quer para rapazes, mas elas vinham de outras cidades para ficar ali, e tinham acesso a tudo. Ficavam lá, faziam os estudos até ao 12.º ano, dormiam lá, comiam lá, e depois à tarde tinham os treinos. Estamos a falar de uma coisa que acontecia a partir dos 12 anos. Se todos os clubes fizerem isto, nota-se a diferença.

Além disso, o interesse de clubes de nome, como o Sporting, Sporting de Braga, Benfica, FC Porto, puxa muito mais pelo futebol feminino. Se um pai, apaixonado por um destes clubes, tiver uma filha a querer jogar, muito mais depressa é ele próprio a incentivar e a ter orgulho em dizer “A minha filha joga no meu clube de coração”. Nesse aspeto, tanto o Sporting de Braga como o Sporting fizeram uma aposta muito boa e isso é fundamental — senão, eu também não estaria a voltar e não teria aceite este projeto tão gratificante do Sporting de Braga.

Como e com que idade descobriram que tinham algum talento para o futebol? Como foi esse processo? Integraram escolas de formação? Qual foi a reação das vossas famílias quando disseram que queriam ser jogadoras profissionais?
SP: A minha família sempre foi apaixonada por futebol. Tenho um irmão quatro anos mais velho que me fez andar muito cedo. Logo com oito meses deu-me uma bola e eu comecei a chutar. Como não tinha equipa feminina perto do sítio onde moro, comecei a jogar numa equipa de rapazes. Nessa altura, o meu irmão fez uma equipa de rapazes onde eu pudesse jogar porque, em alguns lugares, eu podia treinar mas não podia disputar os campeonatos, e eu ficava triste. Comecei a jogar nessa equipa e, com cerca de 15 anos, consegui jogar numa equipa de raparigas.

Suzane Pires (Fotografia: Diogo Pinto / FPF)

MM: Eu comecei a jogar desde muito pequena — com três, quatro anos. O meu pai era (e ainda é) professor de futebol. Eu fazia tudo com o meu pai, e assim cresceu o gosto. Sempre joguei com rapazes, desde essa idade até por volta dos 12 anos — idade em que não podia jogar mais com eles. Como não havia equipas de futebol de onze nem de sete de raparigas, tive de jogar futsal com rapazes, num período de transição, até que fui jogar na liga sénior [feminina]. Não havia as camadas jovens que há hoje em dia — nós, com 12 anos, já estávamos a treinar e a jogar com senhoras que tinham idade para ser nossas mães. Dos 12 aos 18 anos, estive no campeonato português. Em seguida fui para os Estados Unidos. Estive lá quatro anos, depois fui para o Chipre, Noruega e agora estou na Suíça. Como a minha família é muito ligada ao desporto, eles sabem perfeitamente qual é a minha grande paixão. E é por isso mesmo que continuo no estrangeiro: porque sou uma apaixonada por aquilo que faço. Nunca tive nenhum entrave da parte deles.

DS: No meu caso, lembro-me de jogar à bola na rua, na escola jogava sempre nos intervalos com os meus colegas. Jogava também com o meu pai, foi ele sempre quem me incentivou. Ele queria pôr-me a jogar e surgiu a oportunidade de ir para o Real Massamá, o clube mais perto de minha casa. Houve uma altura em que fizeram as captações e ele insistiu muito para irmos. Eu tinha algum receio por os outros serem rapazes, mas acabei por ficar. Joguei até aos 13 anos, idade permitida para competir, mesmo federada, com rapazes. A partir daí, entrei no 1º de Dezembro. Estive lá dois anos no campeonato de júniores, até aos 15 anos, quando fui chamada para competir com as séniores. Estive lá até aos 19 anos, quando fui para a Alemanha.

Num meio tão masculino como é o do futebol, foram alguma vez vítimas de algum tipo de preconceito?
DS: Infelizmente ainda existem algumas mentalidades que acham que o futebol é só para homens. Hoje em dia, porém, isso tem vindo a mudar. Primeiro, Portugal foi campeão da Europa; agora, qualifica-se no feminino para um campeonato europeu. Acho que isso dá uma certa ajuda.

Lembro-me de, quando era mais nova, estar a jogar na equipa dos rapazes e de me confundirem com um deles. Houve uma mãe que começou a insultar-me para dentro do campo, foi mesmo mau.

MM: Eu tive bastantes episódios. Como sempre estive ligada ao mundo do desporto, convivi e treinei com muitos rapazes. Na escola, por exemplo, não me deixavam jogar em determinados campeonatos porque já sabiam que lhes ia fazer frente. Começavam a chamar-me ‘Maria Rapaz’, entravam-me mais duro, ou diziam ‘Vocês têm essa miúda, comecem lá com a bola’.

Também já ouvi muitas vezes ‘Mulher é para estar atrás do fogão, não é para jogar futebol’ e já me perguntaram ‘Quando é que começas realmente a trabalhar?’. Acho que todos temos de trabalhar naquilo que nos faz feliz e o futebol faz-me feliz. Tenho a sorte de poder trabalhar naquilo que eu realmente gosto.

Desde que fui para os EUA, tive outras experiências e sinto que a mentalidade portuguesa está a mudar. Até os próprios pais já estão a ver o futebol não como um desporto masculino, mas sim como um desporto em que a criança pode ser feliz. Não interessa se é futebol ou ballet.

"Já ouvi muitas vezes 'Mulher é para estar atrás do fogão, não é para jogar futebol' e já me perguntaram 'Quando é que começas realmente a trabalhar?'. Acho que todos temos de trabalhar naquilo que nos faz feliz e o futebol faz-me feliz."
Mónica Mendes, defesa, 24 anos

Suzane, no Brasil é diferente?
SP: Não, também existe esse preconceito. Eu ficava muito nervosa, porque se eu fazia uma finta ou fazia uma ‘cueca’ a um rapaz, eles diziam coisas como “Eu não estou a defender como deve ser porque ela é rapariga e vou magoá-la”. Ficava chateada.

Há diferenças entre as equipas masculinas e femininas? No campo, por exemplo? Há mais força de um lado, mais técnica do outro? Mais bom senso e inteligência?
[risos]
DS: Não se pode comparar um homem com uma mulher porque, geneticamente, o homem nasce com mais força e mais velocidade, mas acho que as mulheres são mais inteligentes e não tanto de fitas. Podemos levar cacetadas e levantamo-nos mais depressa do que eles quando levam um toquezinho. Aquilo é um teatro [risos]. Mas são duas realidades diferentes, o homem é mais forte, é muito mais rápido. É um futebol diferente.

Jogam melhor?
DS: Jogam melhor…

Onde é que há mais técnica?
DS: Acho que o português, tanto o jogador como a jogadora, tecnicamente é mais dotado que outros jogadores estrangeiros. Partilhamos isso com o espanhol, por exemplo. Acho que o jogador ou a jogadora latinos têm mais aquele toque, aquele refinamento técnico, que outros países nórdicos não têm. Mas ganham com outras coisas. A genética das alemãs… Grandes, ‘cavalonas’. Mas lá está, temos de usar outras armas que elas não têm. Usar a parte técnica do jogo acaba por ser o nosso ponto forte. É assim que vamos tentando ultrapassar.

E onde é que há mais educação?
MM: Para já, uma árbitra mete muito respeito. Acho que era preciso haver mais mulheres a arbitrar jogos de homens. De certeza que não havia tanta falta de educação dentro de campo. As mulheres realmente metem muito respeito, é um facto, é só ver os jogos. Se uma árbitra num jogo nos levanta a voz, nós se calhar lembramo-nos da nossa mãe… As grandes árbitras, que estão ao mais alto nível, sabem meter respeito. E não há faltas de educação. Quer dizer, às vezes pode haver uma asneira ou outra, mas a árbitra está sempre em cima do lance e está sempre a tentar que as coisas sejam pacíficas. Há muito fair play no futebol feminino e acima de tudo há muita educação.

É desejável que venham a existir equipas mistas de futebol? E quantas equipas masculinas já humilharam?
SP: Acho que não. Acho que é bom manter a separação entre futebol masculino e feminino. Até aos 14 anos ainda dá para jogar misto, mas o físico de um homem e o físico de uma mulher muda muito. Por mais técnica que a mulher tenha, o homem vai conseguir sobressair por causa da força física.

"Acho que é bom manter a separação entre futebol masculino e feminino. Por mais técnica que a mulher tenha, o homem vai conseguir sobressair por causa da força física."
Suzane Pires, avançada, 24 anos,

E as humilhações?
DS: Ui, quando fazemos alguma ‘cueca’ num jogador, aquilo é… Eles até se começam a rir uns para os outros. “Fogo, ela meteu-te uma grande ‘cueca’!”. Mas esse tipo de reação é engraçada.

Vocês treinam com rapazes?
DS: Nesta fase, temos tido alguns jogos de treino contra rapazes. Como eles são mais fortes e mais rápidos, obriga-nos a ter outra predisposição e acaba por nos preparar para aquilo que vamos encontrar. Acho que é sempre importante ter essa experiência contra rapazes, mas nós não jogamos contra equipas séniores. Se nos pusessem a jogar contra equipas séniores… A força deles é três vezes maior que a nossa, a velocidade é três vezes maior que a nossa. Tem de haver um equilíbrio. Os técnicos nacionais acabam por escolher equipas que eles sabem que nos vão criar dificuldades, mas dentro de um limite que nos ajuda a desenvolver as nossas capacidades.

Para quando um jogo entre a seleção masculina e a seleção feminina? E quem ganharia?
MM: Se houver esse jogo, é mais numa situação de interação, mas tem de haver mistura das duas equipas, como é óbvio. Não seria realista estarmos a dizer que, se houvesse um jogo oficial, nós íamos ganhar aos homens. O futebol feminino e o futebol masculino, especialmente a nível sénior, não são comparáveis em nenhum aspeto. É quase como se fosse um desporto diferente.

Mas, se houvesse esse encontro, seria muito bom. Na Alemanha faz-se isso, na Suíça faz-se isso, na Noruega também. Os homens da Seleção dão-se muito bem com a equipa feminina: convivem, partilham experiências, ajudam-se uns aos outros. É uma mentalidade muito diferente, mas que ajuda ambas as partes. Se uma Seleção que tem tanto sucesso como a nossa nos vier dar feedback sobre como ter a chave do sucesso seria uma grande honra.

Mónica Mendes durante um jogo entre Portugal e Nova Zelândia (Fotografia: Luís Forra/EPA)

Para quem está fora, foi gratificante ver uma final da Taça transmitida em direto na RTP com mais de 12 mil pessoas no Jamor? Ao mesmo tempo, começa a abrir-se caminho para um regresso das jogadoras que estão lá fora ao nosso campeonato.
SP: Foi muito gratificante ter visto a final da Taça, foi uma festa muito linda. Dá até vontade de vir jogar para aqui, porque o futebol feminino está a crescer cada vez mais.

Se pudessem escolher um jogador qualquer do mundo para integrar as vossas equipas, qual seria? E onde vão buscar a vossa inspiração?
MM: Sou um bocado suspeita, porque para mim o melhor do mundo é o Cristiano Ronaldo, portanto se eu pudesse escolher vinha o Cristiano. Também está em Portugal, não ia custar muito (risos).

SP: Eu tenho de escolher o meu marido! (risos) Ele é muito bom guarda-redes. Como a minha posição é diferente da do meu marido, a minha inspiração vem do Cristiano Ronaldo. Ele não tem só um dom, ele trabalhou muito para chegar onde está. É isso que me motiva, porque há muitos que às vezes têm o dom, mas não trabalham tanto, ou estão sempre a divertir-se em festas.

DS: Sem dúvida que para nós, portugueses, o nosso maior ídolo será o Ronaldo. Por tudo o que ele já conquistou e sobretudo pela personalidade dele. Falando da minha posição, gosto muito de olhar também para jogadores do meio-campo. Gosto muito do Moutinho, do Modrić.

Normalmente, os homens costumam jogar até aos 35, 36 anos. Vocês tencionam jogar até que idade? E querem ter filhos?
SP: Acho que depende muito de cada jogadora. Eu acho que simplesmente vou pensar “Acho que já está bom, já conquistei aquilo que queria dentro do futebol, e agora posso parar”. Esse momento ainda não chegou, acho que ainda não está perto. Em relação a ter filhos, sim, quero ter, mas também não sei quando. Seja quando Deus quiser (risos). A jogadora Sydney Leroux, por exemplo, foi mãe e voltou agora. O marido dela joga nos EUA também, e ela leva sempre o filho com ela e a equipa toda adora isso. Parece muito giro (risos).

MM: No meu caso, também não tenho nenhuma idade em que saiba que quero parar. Acho que é mais como a Suzane disse. Nós sentimos quando está na altura e simplesmente depois temos de parar ou mudar de capítulo. No meu caso, eu também quero constituir família, mas ainda não chegou o momento. Se calhar um pouquinho mais à frente, que ainda sou muito nova. Ainda assim, acho que é possível conciliar. Tenho colegas nos EUA que já foram mães, continuam a jogar, e as crianças têm três meses, seis meses, e vão aos jogos. Há toda esta parte mais bonita a que não estamos habituados no futebol masculino, e que é possível. É tudo uma questão de conciliar.

"Tenho colegas nos EUA que já foram mães, continuam a jogar, e as crianças têm três meses, seis meses, e vão aos jogos. Há toda esta parte mais bonita a que não estamos habituados no futebol masculino, e que é possível."
Mónica Mendes, defesa, 24 anos

DS: Também penso o mesmo. Quando chegar a altura de parar, chegou. Acho que vamos sentir, pelo corpo. Vai chegar o momento em que vamos dizer “Ups, se calhar tens de abrandar um bocadinho ou parar”. E depois, ao nível da maternidade, como elas já referiram, há muitas jogadoras que optam por, num determinado momento, parar e serem mães. Também tive uma colega na Alemanha que o fez e depois regressou.

MM: Nós até costumamos brincar: é quase como se tivéssemos uma lesão [risos].

DS: Eu tive uma colega que jogou até aos três meses de gravidez.

Como é que é o vosso dia a dia? Os vossos treinadores obrigam-vos a terem muitas regras em termos de alimentação e lazer?
DS: Na Alemanha, a carga de treinos é muito grande. Tinha duas vezes por semana treinos bi-diários, treinava todos os dias à exceção de um, a segunda-feira a seguir ao dia de jogo. A nível da alimentação, tínhamos sempre uma pessoa responsável por, no início da época, nos dar uma palestra nutricional.

E implica também dar no duro no ginásio?
MM: Claro que sim. A este nível, uma jogadora que seja profissional — e profissional não é só ganhar dinheiro, é ter um compromisso profissional com algo — tem de estar a 100%. Tanto a alimentação como o descanso fazem parte do treino. Isto está tudo ligado. Um atleta pode treinar muito bem, mas se depois não descansa não faz a recuperação muscular. Acho que nós todas temos essa consciência e estamos bem alerta, através das palestras que nos são dadas frequentemente, e também dos conhecimentos que nós próprias vamos adquirindo. Somos todas muito cuidadosas. É para descansar, é para descansar.

SP: Lá no Santos, nós podemos comer no clube. Eu moro no meu apartamento, faço sempre a minha comida. Mas em dias de jogos é obrigatório tomarmos o pequeno-almoço no clube, almoçar e ficar lá concentradas até à hora do jogo.

Vocês são licenciadas, o que é muito raro no futebol masculino. Porque é que isto acontece? Tem a ver com a necessidade de ter um plano B?
DS: Eu ainda não sou licenciada, mas entrei na universidade na Alemanha. Quando fui para lá não percebia patavina do que eles diziam, felizmente, consegui adaptar-me bem. Agora quero continuar até terminar. Enquanto jogadora de futebol feminino, temos de ter um plano B. Não somos remuneradas como os homens. Embora eu também ache que é sempre importante, mesmo para os homens, ter uma outra formação.

"Enquanto jogadora de futebol feminino, temos de ter um plano B. Não somos remuneradas como os homens. Embora eu também ache que é sempre importante, mesmo para os homens, ter uma outra formação."
Dolores Silva, média, 25 anos

SP: E também porque um homem, quando acaba a escola aos 17 anos, já tem um contrato de não sei quantos milhares, até milhões. No futebol feminino não é assim. Há estas oportunidades de ganhar, por exemplo, nos Estados Unidos, uma bolsa de estudos para poder jogar pela faculdade.

MM: No meu caso, antigamente nós seguíamos muito o modelo masculino. Eu dizia aos meus pais “Eu só quero jogar futebol!”, apesar de gostar muito da escola. Mas eles sempre me disseram: “Só quando te licenciares é que podes jogar futebol como tu quiseres”. E, de facto, estou-lhes muito agradecida, porque o facto de ser licenciada abriu-me muito mais portas.

O apuramento para o Euro foi bastante sofrido, com um golo no prolongamento. Como é que se sentiram nesse momento?
MM: Tive uma pequena infelicidade. Nesse momento, estava em casa a recuperar de uma lesão. Quando nos apurámos, eram elas a chorar no campo e eu a chorar em casa. Como fui operada ao nariz e tinha pontos, estava a ver que rebentava aquilo tudo. Foi mesmo um momento sofrido, até de casa. É preciso realmente estar por dentro para perceber a paixão que nós metemos no futebol e os sacrifícios que fazemos para chegar àquele lugar tão merecido.

DS: Acho que, sobretudo, quem lá esteve, tanto jogadoras como staff, sabe que foi uma emoção muito grande. Só quando realmente aconteceu é que tivemos mesmo a noção de que conseguimos algo por que tantas jogadoras como nós batalharam. Nós, de facto, é que fomos as privilegiadas, nós é que conseguimos. Conseguimos para nós, mas conseguimos sobretudo para o futebol feminino. Fizemos algo pelo futebol feminino português, pela jogadora portuguesa.

SP: Para mim, foi o momento mais feliz da minha carreira até hoje.

DS: Nós já só pensávamos “Árbitra, despacha mas é isto”. E quando ela apita, foi a loucura… No dia a seguir estávamos roucas de tanto gritar.

Como acham que vai correr este Europeu?
DS: Acho que devemos estar com os pés assentes na terra, apesar de termos alcançado este feito. Agora, é pensar em dar o melhor em cada jogo e em dignificar a nossa camisola. Acho que é esse o pensamento de cada uma de nós. É um campeonato da Europa, é a primeira vez que vamos estar numa competição com um grau de exigência muito superior ao normal.

Estão surpreendidas com o interesse mediático no futebol feminino após décadas de indiferença?
MM: Surpreendidas não estamos, porque merecemos. Nós, de facto, lutámos muito. Mas é uma boa surpresa tantos jornais e tantas pessoas quererem saber o que é o futebol feminino. Isso é o mais interessante. E que venham mais.

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