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Julieta Rueff, FlamAid
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▲A portuguesa Julieta Rueff, de 24 anos, começou a desenvolver o projeto da FlamAid sozinha

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▲A portuguesa Julieta Rueff, de 24 anos, começou a desenvolver o projeto da FlamAid sozinha

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FlamAid. A "granada pacífica" criada por uma portuguesa para que todos cheguem a casa em segurança

Julieta Rueff foi perseguida e decidiu desenvolver uma "granada pacífica" para defesa pessoal. A FlamAid nasceu no final de 2022 e em breve vai expandir-se, mantendo o mesmo propósito, para as joias.

Julieta Rueff vive em Barcelona desde os 10 anos, uma mudança motivada pelo trabalho dos pais. Já na idade adulta, quando chegou a altura de ir para a faculdade, manteve-se na cidade espanhola e optou por estudar Marketing e Negócios Internacionais, embora sem saber em que área é que “encaixava”. “Não sabia bem qual era o meu propósito, mas gosto de criar soluções, gosto de inventar”, conta. A descoberta de um propósito, o de zelar pela segurança, chega com uma experiência pessoal particular: ser perseguida.

“Havia um homem que me seguia todos os dias, quando ia à universidade, quando estava a voltar a casa. Tinha muito medo, mesmo tendo um spray de pimenta comigo. Dei-me conta de que o tempo de reação não é suficiente para conseguires procurar na mala esses mecanismos de defesa. Então, tendo este problema, comecei a investigar a arma de mais fácil ativação do mundo. E aí cheguei à granada de mão”, conta a jovem, agora com 24 anos. A ideia de criar uma “granada pacífica”, para ajudar sobretudo “mulheres e coletivos vulneráveis, mas em geral toda a gente” a chegar a casa em segurança, surge no final de 2022.

Numa primeira fase, Julieta desenvolve o projeto sozinha, como um trabalho para a universidade, e para uso próprio. Começa por comprar “todos os dispositivos que encontrou online”, em plataformas como Amazon ou Alibaba, “abri-los ao meio, ver o que tinham por dentro e o que se podia fazer melhor”. Só depois de toda essa pesquisa é que recorre à ajuda de “um amigo de um amigo” para imprimir numa impressora 3D um primeiro protótipo para apresentar a possíveis investidores. “É aí que começa a FlamAid”, explica, indicando que a empresa foi constituída em julho de 2023.

Desde então, os estudos ficaram para trás. Julieta Rueff deixou a universidade e concentra-se a 100% na FlamAid. O negócio, que começa com a granada pacífica, que está no mercado com um preço desde 59,99 euros, vai expandir-se para o mundo das joias no outono, revela a fundadora em conversa com o Observador.

FlamAid

▲ A granada pacífica criada por Julieta Rueff

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Um nome com a ajuda do ChatGPT e a forma como funciona a granada

Para dar um nome à empresa, Julieta Rueff tinha uma lista de palavras com as quais sabia que queria “jogar” como flame (chama), femme (mulher) e aid (ajuda). Deu-as todas ao ChatGPT e o chatbot desenvolvido pela norte-americana OpenAI apresentou várias sugestões. “Lembro-me de testar os nomes, com diferentes pessoas, até ver qual é que ‘pegava’. E percebi que FlamAid ficava mais na cabeça das pessoas do que outras opções parecidas”, recorda, salientando que a combinação de palavras é “um bocadinho genérica”, mas permite “não só fazer granadas como incorporar outros produtos de segurança” no futuro.

Como existem várias formas de ativar uma granada, bem como diferentes modelos, a startup precisou de 20 protótipos para chegar à versão final do dispositivo de segurança pessoal que chegou ao mercado. “Tivemos de testar ao nível da posição, se a anilha [espoleta de ativação] deveria estar em baixo, de lado, em cima… fizemos provas tanto em laboratório, de resistência e ativação, como com pessoas. E finalmente chegámos a este desenho, que é bastante ergonómico, cabe numa mão, e que era o mais fácil de ativar”, conta a fundadora.

A granada que chega às mãos do público tem uma espoleta, que é preciso puxar para cima em caso de perigo e que ativa um alarme, enviando um alerta para os “contactos de emergência”. Após realizar a compra, o utilizador tem de instalar a aplicação da FlamAid e conectar o bluetooth do telemóvel ao dispositivo, bem como escolher três contactos de emergência. Cada vez que a granada for ativada, começa a soar um alarme e essas pessoas — que também têm de ter a aplicação instalada — vão receber uma notificação com a localização GPS da vítima. Nas redes sociais, por exemplo no TikTok, Julieta mostra como funciona.

O alarme, inspirado naqueles que são utilizados para proteger casas e carros, está pensado para “ser ouvido na rua”, em “zonas metropolitanas”. São 110 decibéis, o limite legal na Europa, o que equivale a “duas ruas metropolitanas numa área como Lisboa”. O objetivo do som é não só que o agressor saiba que a vítima está a pedir ajuda, como alertar as pessoas que estão por perto.

@esflamaid

#duo amb @Julieta Rueff #parati no flamaids were harmed in this video

♬ Monkeys Spinning Monkeys – Kevin MacLeod & Kevin The Monkey

Questionada sobre a possibilidade de o agressor desativar a granada, Julieta Rueff diz que é “muito difícil” porque só é possível “calar” o som a partir da aplicação, com a vítima a ter de utilizar o Face ID ou um código para esse efeito. O cancelamento da ativação também teria de ser feito em 30 segundos, caso contrário o GPS já teria sido partilhado com os contactos de emergência.

A possibilidade de as autoridades serem um desses contactos já é oferecida em alguns países, nomeadamente da América Latina, mediante uma subscrição mensal cujo valor varia entre os 6,99€ e os 7,99€. A chegada à Europa está para “muito breve” e vai arrancar na Península Ibérica.

FlamAid FlamAid

▲ As granadas são brancas, mas podem ser "vestidas" com capas de várias cores

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Joias, uma opção “mais discreta” que chega em outubro

A “grande inovação” da FlamAid está, no entender de Julieta Rueff, na ativação de dois métodos de proteção, o som e a geolocalização, com um só movimento, ao puxar a anilha da granada. Tudo isto num dispositivo que “pode molhar-se, pode ser atirado ao chão, pode saltar-se em cima dele e vai continuar a soar durante 15 minutos, que é o seu tempo de resposta”. Desde que criou a startup, que agora conta com uma equipa de seis pessoas, a jovem leva em consideração o feedback dos utilizadores. Foi esse feedback que fez com que criasse capas de diferentes cores para a granada e que levou à expansão para as joias, mais especificamente colares e pulseiras, que serão lançadas em outubro.

Vão funcionar de forma muito parecida à FlamAid original, esticando-se como se fosse uma granada, mas serão mais discretas e, em vez de soarem, vibram”, enviando na mesma um sinal de GPS.

Julieta Rueff revela que os colares e as pulseiras eram um pedido expresso do público, que queria “algo mais discreto e mais portátil”. Como “esticam” da mesma forma que a granada, para serem ativadas, as joias estão protegidas pela patente da FlamAid e seguem “todos os requisitos de segurança da União Europeia”. A opção de deixar cair o som teve em mente as pessoas que “vivem situações de perigo, por exemplo de violência doméstica dentro de uma casa, que não querem alertar o marido ou a pessoa que as agride, mas querem alertar os contactos de emergência”. “Pensámos que fazia sentido optar por uma opção que não fizesse barulho e que fosse mais discreta.”

Enquanto as joias não chegam ao mercado, o foco principal permanece nas granadas, que são produzidas entre a Espanha e a China. Ainda assim, Julieta Rueff não esconde que, se pudesse escolher, produziria tudo na Europa. “A verdade é que agora não é sustentável. Se eu quisesse produzir tudo na Europa teria de subir o preço para aproximadamente 100 euros por unidade. Às vezes temos de escolher a nossa missão, não é? Se queremos que seja um produto acessível para toda a gente, de todos os níveis económicos, ou se queremos ser super sustentáveis e produzir de uma maneira muito europeia. São decisões difíceis, mas preferimos sempre sacrificar, de certa maneira, a produção totalmente europeia para podermos oferecer um preço mais justo”, justifica.

Neste momento, a FlamAid vende entre 500 e 600 granadas por mês, mas tem uma capacidade diária de produção em fábrica de até cinco mil unidades. O dispositivo de segurança pessoal é “tanto para homens, como para mulheres, crianças ou pessoas mais velhas”, sendo que atualmente 60% dos clientes são do sexo masculino.

As várias modalidades em que a granada da FlamAid está disponível

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A granada é branca, mas pode ser “vestida” com capas de várias cores que são vendidas à parte. O produto, em si e sem cabo de carregamento, está disponível por 59,99€ no site da FlamAid e em algumas lojas físicas em Espanha e na América Latina. Se a pessoa quiser comprar a granada já com o cabo e com uma capa, de cor à escolha, o preço sobe para os 87,97€.

As capas estão disponíveis em vermelho, rosa e preto por 14,99€ (cada). Já o cabo de carregamento (USB-C) também pode ser adquirido diretamente nas plataformas da FlamAid por 12,99€. Há ainda um pacote de família que permite a compra de três granadas, com três capas e um cabo de carregamento, por 237,93€.

Entre os objetivos futuros da empresa está a “otimização de custos”, nomeadamente a ambição de “conseguir as granadas mais baratas”. “Queremos baixar o preço na Europa inteira nos próximos meses, para poder chegar a mais pessoas, que agora não conseguem adquirir o produto”, revela Julieta Rueff.

“Em vez de falarmos do unicórnio, falamos de um modelo que é o camelo”

Quando começou a desenvolver a FlamAid, sozinha, Julieta Rueff tinha “muito poucos recursos económicos”, incluindo mil euros que pediu emprestados a uma amiga para conseguir desenvolver os primeiros protótipos. Agora, vários anos depois, recorda a falta de dinheiro como um dos principais desafios que teve de ultrapassar. O negócio, segundo a fundadora, é lucrativo desde o segundo mês, o que faz com que a procura de investidores não seja feita com “pressa”. “Não dependemos desse dinheiro para sobreviver e também temos sorte de poder ser mais seletivos. Porque o dinheiro que entrar é para escalar, para crescer, não é para sustentar a operação.”

No ano passado, a empresa fechou o primeiro financiamento, de 500 mil euros. No final deste ano pretende fechar a próxima ronda, de cerca de um milhão e meio de euros. O objetivo é contar com “parceiros de viagem”, investidores que acreditem na FlamAid e que “possam contribuir para o projeto, não só economicamente”. “Somos bastante restritivos ou seletivos com o tipo de investidor que aceitamos, também temos a sorte de o poder ser hoje em dia. Preferimos trabalhar só com pessoas que acreditam na nossa missão e têm valores parecidos”, detalha.

No leque de investidores não há, para já, portugueses. A startup conta somente com parceiros espanhóis, mas Julieta não esconde que gostaria “mesmo muito de na nova ronda poder contar ou com um órgão governamental português ou com um investidor português”. “É algo que, a nível pessoal, me faria muito feliz”, afirma, antes de acrescentar que a empresa não pretende seguir uma estratégia “unicórnio”, de perseguir uma avaliação superior a mil milhões de dólares.

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▲ O negócio da FlamAid é lucrativo desde o segundo mês

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Por norma, em vez de pensar no estatuto de unicórnio, a equipa da FlamAid fala “de um modelo que é o camelo”. Julieta Rueff explica: “O camelo tem as duas bossas, que são as suas reservas internas, e tenta crescer por meios próprios. Isso também permite muita liberdade de decisão. Por exemplo, poder tomar a decisão de lançar uma joia é uma sorte que nem todas as empresas têm. Se dependes só de recursos externos, às vezes não é possível inovar tanto como queres. E nós gostamos de preservar bastante a nossa liberdade.”

As conversações para a próxima ronda de investimento já decorrem, com “bastantes pessoas interessadas” em participar. Foi uma distinção “surpresa” que despertou esse interesse. Desde abril, Julieta Rueff integra a lista 30 Under 30 da revista Forbes na categoria “Impacto Social”. A jovem diz que se tratou de uma “surpresa boa”, mas mostra manter o foco na missão da startup. “Para nós, foi uma celebração de cinco minutos. Brindámos rápido no escritório e depois voltámos todos ao trabalho […] Nós agradecemos sempre os prémios e gostamos que contem connosco, mas, realmente, o nosso propósito é claro e não é esse. É fazer com que mais pessoas estejam seguras.”

Neste momento, as granadas da FlamAid estão disponíveis no site e em alguns pontos de venda físicos tanto em Espanha como na América Latina. A empresa ambiciona entrar no retalho português e as negociações já decorrem, embora ainda não seja possível adiantar mais pormenores. No final da conversa com o Observador, Julieta Rueff quis deixar também a nota de que “se alguém está a passar por uma situação de violência de género ou de violência doméstica” e não pode pagar uma granada, pode entrar em contacto com a empresa para receber uma gratuitamente.

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