Jennifer Teege: “Para muitos, o meu avô é a personificação do nazismo”

19 Fevereiro 2018149

Aos 38 anos, uma mulher negra conheceu um “tóxico segredo de família”: Amon Göth, o nazi que matava judeus da varanda retratado na Lista de Schindler, era seu avô. A descoberta resultou num livro.

Tudo começou por mero acaso. A publicitária Jennifer Teege, de 38 anos, estava na Biblioteca Central de Hamburgo, rodeada de milhares de livros. Procurava informações sobre a depressão que, de tempos a tempos, a assolava, havia já alguns anos. Irrefletidamente, puxou um livro de capa avermelhada que lhe chamou a atenção. Chamava-se: “Tenho de amar o meu pai, não tenho?” Quando Jennifer viu o nome da protagonista, não queria acreditar no que estava à sua frente: era Monika Göth, a sua mãe biológica, que não via há mais de 20 anos.

Ao mergulhar no livro — no qual Monika não menciona a filha uma única vez –, Jennifer ficou a saber num par de horas toda a história da sua família biológica que até aí não conhecia. Entregue num orfanato com duas semanas de vida, a alemã manteve o contacto com a mãe e a avó nos primeiros anos de vida. Mas, depois de ser formalmente adotada pela sua família de acolhimento, esse contacto perdeu-se. Pelo meio, ficou por contar a breve história de amor dos seus pais (Monika teve um caso com um estudante nigeriano), as razões pelas quais Jennifer foi entregue para a adoção e o facto de o seu avô ser Amon Göth, o oficial das SS conhecido como “o carniceiro de Płaszów”, o campo de concentração que dirigiu na Polónia onde morreram cerca de oito mil pessoas.

O livro de Monika Goth, que deu origem a tudo (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Esse acaso que foi o livro de capa avermelhada abanou a vida de Jennifer. “A descoberta” — é assim que a própria autora classifica o acontecimento, iniciou um processo que resultou no livro “Amon: O Meu Avô Podia Ter-me Matado”, publicado agora em Portugal e chegado às livrarias esta segunda-feira. “O livro está cheio de perguntas e esta entrevista também vai estar cheia de perguntas”, avisa a autora, que conversou com o Observador numa passagem por Lisboa para promoção do livro. “De certa forma ajudou-me a sarar, mas também agravou por vezes a minha depressão, o que acentuou problemas de saúde…”, reflete Jennifer Teege em voz alta. “Não é uma coisa que se experiencie e depois se ultrapasse e se encontre um ‘felizes para sempre’ a seguir. É uma metamorfose.”

Crescer sem a mãe e redescobri-la como a filha de um comandante nazi

A “metamorfose” deu-se nas viagens que fez depois da revelação: a Płaszów, a Auschwitz e a Israel, onde regressou. Na juventude, já lá tinha vivido e estudado, aprendido a falar hebraico e convivido com sobreviventes do Holocausto, sem fazer ideia da sua história familiar. Ao conhecê-la, a publicitária de profissão mergulhou em livros e documentários, contactou a mãe Monika, conheceu o seu pai biológico e processou todas estas informações num livro que apelida de “crónica familiar”.  “Queríamos incluir muitas vozes, não queria apenas um tom de terapia emocional, apenas comigo a dizer ‘sinto que…’”, explica. Por essa razão, o livro foi escrito a quatro mãos, com a jornalista Nikola Sellmair a espreitar a cada par de páginas para dar a perspectiva das outras pessoas envolvidas e para dar contexto histórico a cada descrição.

“É uma crónica familiar, mas contada pelos meus olhos, o que a torna pessoal. E isso ajuda nesta arte de contar histórias”, resume a autora, revelando que muitos leitores a contactam, tocados por diferentes temas que são abordados no livro. Um deles, explica, relaciona-se muitas vezes com a sua reflexão sobre a infância que teve e os efeitos psicológicos que sofreu por ter sido uma criança adotada — um tema fulcral para a identidade da autora e que atravessa todo o livro, cruzando-se com a história familiar.

Um dos psicólogos que acompanhou Jennifer, Peter Bründl, definiu a vida desta alemã que cresceu em Munique como afetada por um “duplo trauma”: a quebra na auto-estima e na identidade pessoal provocadas pela adoção — a que se soma a sensação de ser “diferente” dos irmãos e das outras crianças pela sua cor de pele –, seguida da descoberta das suas terríveis origens já na idade adulta.

Jennifer Teege (à direita) e o irmão adotivo Matthias, enquanto crianças (D.R. Jennifer Teege)

“As pessoas pensam sempre que o grande choque foi saber quem era o meu avô. E sim, isso acrescentou uma segunda camada, mas já lá havia outra camada prévia”, afirma a autora. “Por um lado, ser-se adotado quando se é tão pequeno, não ter contacto com a família biológica durante tantos anos e encontrar a nossa mãe tantos anos depois já é algo traumatizante; encontrá-la nestas circunstâncias então…”  No dia seguinte a ter encontrado o livro, Jennifer deparou-se com um novo acaso brutal: na televisão passou o documentário “Inheritance”, que aborda nada mais nada menos do que a história de Monika Göth. “Ler o livro, absorver toda aquela informação histórica e depois ver o filme onde aparece a minha mãe como ela está hoje em dia, 20 anos depois… Foi uma acumulação de muitas emoções num período de tempo muito curto.”

O “carniceiro de Płaszów” na varanda de Spielberg

Amon Göth, o “carniceiro de Płaszów”, poderia ter permanecido uma negra nota de rodapé da História, um entre tantos outros oficiais nazis que cometeram crimes desumanos, foram condenados à morte e desapareceram como fardas anónimas, entre tantas outras. Mas Amon Göth ficou cravado na memória coletiva graças ao filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg: é ele o homem interpretado pelo ator Ralph Fiennes, que dispara contra os trabalhadores do campo, em tronco nu, da sua varanda.

“É um filme que educou uma geração e que despertou muitas emoções. Para mim é muito fácil ligar-me às pessoas por causa do filme, porque não é um documento com factos e números, é uma coisa que faz as pessoas sentirem algo”, resume Jennifer . “Ou melhor, as pessoas é que se ligam logo a mim e também por isso é que o livro tem um grande impacto. O nome Göring pode ser mais conhecido, mas para muitos Amon Göth é a personificação da História nazi.”

A ficção não terá exagerado o sadismo deste oficial das SS. Com dois cães treinados para arrancar braços e pernas, Rolf e Ralf, aterrorizava os judeus de Płaszów com assassínios quase aleatórios por “crimes” como salgar demasiado a sopa. Um dia, conta Jennifer no livro, o seu avô terá apanhado uma mulher esfomeada a comer uma das batatas que estava na gamela dos porcos — alvejou-a e mandou-a atirar ainda viva para a água a ferver onde coziam as batatas. “Não sei se esta história é mesmo verdadeira, mas vejo esta mulher moribunda à minha frente a debater-se dentro do caldo a ferver”, conta a autora, atormentada.

Outro ponto onde a ficção também foi fiel à realidade foi na relação entre Amon Göth e Oskar Schindler, que Jennifer descreve no livro como “frutos da mesma cepa”, amantes de “álcool, festas e mulheres”, mas cujas ações “não poderiam ter sido mais diferentes”. Os atos de Schindler foram fulcrais para as centenas de judeus que salvou, mas até as suas ações mais banais tiveram ecos que se sentem ainda hoje: afinal de contas, foi o industrial que apresentou Göth à sua secretária, Ruth Irene Kalder, avó de Jennifer Teege.

“A culpa não se herda”. A responsabilidade, sim

Se a relação entre Jennifer e a mãe sempre foi complicada, o mesmo não pode ser dito das memórias que a autora guarda da avó Ruth. Em criança, Jennifer recorda os momentos que partilhou com Ruth Irene Kalder como marcados por atenção, carinho e segurança. Ao descobrir a história da sua família, foi confrontada com a conivência da avó nos crimes de Amon, que sempre menorizou e ignorou propositadamente. “Queria tanto que as recordações que tenho dela não tivessem sido maculadas. Porque é que ela não foi, simplesmente, uma avó normal, uma senhora simpática, que a dada altura faleceu?”, desabafa a autora no livro.

Ruth Irene Kalder nos últimos anos de vida (D.R. Jennifer Teege)

Em vez disso, Ruth declarou frequentemente o seu amor por Amon e chegou a adotar o seu apelido já no final da guerra, embora nunca tenham sido formalmente casados. “Ele não era nenhum assassino atroz. Era como todos os outros nas SS: matou alguns judeus, sim, mas não muitos. O campo não era um parque de diversões, é claro”, declarou a antiga secretária de Schindler na última entrevista que concedeu sobre o assunto, ao cineasta Jon Blair. À altura, no final dos anos 80, sofria de enfisema pulmonar, mas aceitou falar sobre o passado nazi. Negou, mais uma vez, que Amon fosse culpado dos crimes de genocídio e homicídio por que foi condenado. No dia seguinte à entrevista, Ruth suicidou-se com comprimidos.

“Queria tanto que as recordações que tenho dela não tivessem sido maculadas. Porque é que ela não foi, simplesmente, uma avó normal, uma senhora simpática que a dada altura faleceu?”
Jennifer Teege sobre a avó

No livro, Jennifer debate-se com a memória feliz que guarda da avó e a impossibilidade de a desculpar. A ideia de que é possível amar alguém que fez coisas terríveis plantou-se firmemente na sua cabeça, mas a autora ainda hoje se debate com dúvidas e incertezas sobre a recordação de Ruth Irene Kalder: “Não há uma conclusão. É um processo e eu decidi partilhá-lo”, diz ao Observador. “E o que sinto sobre isto não é sempre igual, vai e vem, como se fosse em ondas. É parte de mim, é parte da minha História, mas há sempre sombras.”

O conflito interno estende-se às suas impressões sobre o próprio avô, uma sombra tenebrosa do passado, mas de quem herdou coisas como o seu 1,83m de altura. A autora interroga-se no livro sobre como seria um encontro cara a cara entre os dois:

“Ele com o seu uniforme preto e as caveiras; eu, a neta negra. O que teria ele dito a uma neta escura e que, ainda por cima, fala hebraico? Para ele, eu teria sido apenas uma mácula vergonhosa, uma bastarda que conspurca a honra da família. O meu avô ter-me-ia certamente dado um tiro.”

Estas convulsões internas, estes ‘e se?’, são fenómenos que a maioria dos descendentes de membros do Partido Nazi conhece bem. “A parte mais difícil é admitir que eu podia ter gostado dele. Fiquei tão chocada com esta ideia”, declarou numa entrevista Bettina Göring, sobrinha-neta de Hermann Göring, o homem que criou a Gestapo, que foi ministro de Hitler e que comandou as tropas nazis.

Jennifer, no jardim do Whatever B&B (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Nem todos os descendentes, contudo, reagem da mesma forma a essa herança pesada. Niklas Frank, filho do governador-geral nazi da Polónia, traz sempre na carteira a fotografia do cadáver do pai. Bettina foi ainda mais longe nesse carregamento da culpa e decidiu esterilizar-se com receio de “criar outro monstro”. “Não compreendo”, afirma Jennifer sobre essa decisão. “Mas Göring é um nome bem mais conhecido do que Göth e ela cresceu conhecendo a sua história familiar. Provavelmente queria libertar-se.”

A autora de Munique, que vive atualmente em Hamburgo, considera que a Alemanha tem uma saudável cultura de discussão sobre o Holocausto, mas admite que há algum pudor dentro das famílias — como houve na sua, com a ocultação da identidade do seu avô e do papel da sua avó em Płaszów — em falar sobre o que aconteceu nos anos da II Guerra. E persistem ainda medos escondidos, receios murmurados, sobretudo no que toca à possibilidade de replicar o comportamento dos pais e dos avós.

Avô e neta: Amon Goth (à esquerda) e Jennifer Teege (D.R. Jennifer Teege)

A ideia de que alguma forma de crueldade possa ser transmitida pelos genes surge a Jennifer como absurda. “Se acreditasse que eu, pessoalmente, carregaria mais do que os outros [algo de maldade], então pensaria como um nazi e acreditaria no poder do sangue”, escreve a autora em “O Meu Avô Podia Ter-me Matado”. O que não invalida que essa herança familiar não traga um peso e uma responsabilidade: “Há uma diferença entre responsabilidade e culpa”, diz. “Não se pode herdar a culpa, não há aqui culpa — há, sim, responsabilidade.”

Uma pequena faísca e a História pode repetir-se

O que fazer com essa responsabilidade é o principal desafio que Jennifer coloca a si própria, agora. Desde que escreveu o livro, em 2013, tem sido convidada para falar em conferências sobre inúmeros tópicos, desde a adoção de crianças até ao Holocausto. Por vezes, perguntam-lhe: “Odeia o seu avô?”, o que a deixa desconfortável. “Como é que se pode odiar alguém que nunca se conheceu e que nunca nos fez nada de mal? Isto é uma pergunta para se fazer a um sobrevivente, não a mim”, afirma. “Esta tendência de polarização no mundo e na política, de definir as coisas como ‘boas’ ou ‘más’ é algo a que me oponho. O mundo é complexo”, atira.

Por vezes, perguntam a Jennifer Teege “Odeia o seu avô?”, o que a deixa desconfortável. “Como é que se pode odiar alguém que nunca se conheceu e que nunca nos fez nada de mal? Isto é uma pergunta para se fazer a um sobrevivente, não a mim”, diz.
Jennifer Teege

A autora, que se licenciou em Estudos do Médio Oriente em Israel, define a situação mundial como “assustadora”. “Estive recentemente na Jordânia e visitei o campo de refugiados de Zaatari. Quando lá estamos, não dá para perceber como é que há pessoas que acham que aquilo que temos na Europa é uma crise de refugiados… É ridículo. Uma pequena faísca e todo o Médio Oriente pode explodir facilmente. É preciso ter cautela e os líderes mundiais atuais não a têm.” À falta de contenção, diz, tem-se juntado a dramatização: “O mundo está a tornar-se num reality show, tudo gira à volta das emoções.”

Aos 38 anos, a vida de Jennifer ficou virada do avesso à custa de um pequeno livro. Agora, quase 10 anos depois, quer transformar essa herança em ação e garantir que a promessa “Nunca Mais”, que tantos fizeram referindo-se ao Holocausto, se cumpra. Por enquanto, “continuamos a ver os mesmos mecanismos que temos há tantos anos a aparecerem noutras formas”, desabafa a alemã, dando como exemplo a reação à crise dos refugiados.

“É a natureza humana. Não acredito que isto será alguma vez totalmente eliminado. Mas é preciso ensinar e é preciso mostrar.” Como, por exemplo, contando a sua história, de cara destapada na capa de um livro que diz que ninguém está condenado a repetir os crimes dos seus avós.

Texto de Cátia Bruno, fotografia de João Porfírio.
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