Joana Santos ficou “assustada” quando viu pela primeira vez o guião de On Falling. “De repente, quando cheguei ao final, dei conta que entrava em todas as cenas.” Não é um exagero: a atriz está presente em todos os momentos da longa-metragem de estreia da realizadora Laura Carreira, que chega esta quinta-feira às salas portuguesas depois de uma longa e premiada viagem pelo circuito de festivais internacionais. É, na verdade, quase um filme de uma atriz só, em torno da qual todo o projeto orbitou.
“Senti uma grande responsabilidade de tentar fazer o melhor trabalho possível”, refere ao Observador a protagonista da obra, que aos 39 anos tem este primeiríssimo plano no cinema, depois de um percurso profissional de quase duas décadas ligado sobretudo a projetos televisivos. Ainda que a preponderância do pequeno ecrã na sua carreira até agora seja inegável, a atriz reconhece que o salto recente para o cinema (antes de On Falling, protagonizou em 2023 o filme Vadio, realizado pelo seu marido, Simão Cayatte) representa uma valorização do trabalho que tem feito. “Não quero fazer só televisão, só cinema ou só teatro. Quero ser uma atriz de corpo inteiro.”
Naquele que terá sido o papel mais exigente que desempenhou até hoje, Joana dá corpo a Aurora, trabalhadora portuguesa num armazém de e-commerce na Escócia, responsável por catalogar encomendas e registá-las para saída. Presa numa existência solitária, dividida entre o armazém labiríntico onde trabalha e um apartamento dividido com estranhos de várias nacionalidades, companheiros de circunstância com os quais não partilha verdadeira ligação, sonha escapar, para algum lado que não aquele, para longe da sua própria alienação.
[o trailer de “On Falling”:]
É uma obra de um realismo duro, com ecos de Nomadland (2021, vencedor do Óscar de Melhor Filme) e do “cinema social” do britânico Ken Loach, que ajudou a produzir o filme. Tanto mais quanto retrata as realidades do trabalho precário moderno, comuns a tanta gente, mas que raramente chegam ao cinema. “É raro ver as pessoas a trabalhar nos filmes”, reflete a atriz sobre a narrativa de On Falling. “Atrás do clique que fazemos para fazer compras online, há muitas coisas sobre as quais as pessoas não têm noção, é quase uma escravatura moderna que ninguém conhece”, acrescenta.
A narrativa tem na repetição de movimentos a sua força: ao longo de mais de hora e meia, vemos Aurora a trabalhar, nas breves pausas para comer ou beber café, na casa que partilha com estranhos e quase constantemente ao telemóvel, paradoxalmente o seu único elo de ligação com o mundo exterior. A protagonista do filme reconhece o risco de que esta estrutura possa vir a alienar parte do público. “Espero que as pessoas percebam. (…) É um filme onde há muita repetição, ações repetitivas. Mas esta é a realidade destas pessoas”.
A mulher invisível
On Falling pode ser entendido como uma história “de fantasmas”, centrada numa personagem indefinida, subjugada ao capitalismo contemporâneo e que tenta escapar da sua existência cinzenta. Aos pequenos e insignificantes atos de rebeldia — trocar etiquetas de produtos no armazém, roubar comida dos colegas de casa, comer chocolates na casa de banho — junta-se o desejo de sair dali, daquela vida e daquele trabalho. A luz ao fundo do túnel surge, espectral, com a perspetiva de uma mudança de emprego para um trabalho de prestadora de cuidados de saúde. Quando na entrevista lhe pedem que fale mais sobre si, Aurora não sabe o que dizer; é invisível até para si mesma, é essa a sua tragédia.
“No fundo, ela tenta procurar a felicidade no meio do caos e do labirinto que é aquele trabalho. É isso que ela quer, amor, carinho”, defende Joana Santos. O momento paradigmático que ajuda a contextualizar Aurora surge perto do final do filme: ao final do dia, vemo-la deitada num parque, aparentemente tendo perdido os sentidos. Um vigilante, homem mais velho a fazer a ronda, aproxima-se dela e, preocupado, liga a pedir ajuda tapando-a com um casaco para a proteger do frio escocês. Ela abre os olhos; ele pergunta-lhe se está bem e Aurora abraça-o por alguns momentos, antes de se levantar e ir embora, regressando à rotina diária que acompanhámos na hora e meia anterior.
Terá ela fingido um desmaio, à procura de um momento de compaixão? A resposta é deixada em aberto, mas a atriz que dá vida a Aurora sugere uma outra interpretação. “Acho que ela está num momento de descanso em que acaba por adormecer, e em que há já uma alienação tão grande que ela se deixa ficar. E quando vê que aquele senhor está realmente preocupado com ela, agarra-se àquela sensação de conforto, ao carinho de um desconhecido. É uma imigrante, está afastada da família, não tem tempo para criar relações, não tem grandes amigos… e acaba por agarrar aquele momento, é suficiente”.
Para se preparar para o papel, a atriz tornou-se ela própria “emigrante”, mudando-se para a Escócia por dois meses, a fim de trabalhar com a realizadora e o restante elenco antes da rodagem. “Tive de fazer escolhas — pensar ‘eu tenho dois filhos, vou estar dois meses longe deles, como é que vou gerir isto?’. Acabei por chegar à conclusão de que não era o fim do mundo, e era um trabalho tão exigente e uma responsabilidade tão grande que tinha em mãos, que precisava de estar sozinha a fazê-lo.”
▲ A realizadora Laura Carreira “foi muito aberta no sentido de deixar que sugeríssemos ideias”, diz Joana Santos
A descoberta da “sua Aurora” resultou desse trabalho de preparação. “Tive ensaios na casa, para conhecer o espaço, ambientar-me aos outros colegas que dividem a casa com a Aurora.” Apesar disso — e também porque, como fez questão de lembrar, On Falling “não é um documentário, é ficção” — o seu processo não foi o de simplesmente copiar a realidade. “Não sei falar do meu ‘método’. Não falei com pickers para tentar imitar, não sei fazer isso. Tentei criar a minha realidade, a minha Aurora. Foi sobretudo uma questão de foco: nas minhas folgas, debruçava-me sobre o texto e tentava descansar, para que quando estivesse a filmar estivesse o mais focada possível”.
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A improvisação da realidade
Para a atriz, a “magia” do cinema está precisamente em transformar a matéria desse trabalho em algo em que as pessoas acreditam. Dando como exemplo as cenas de armazém, onde boa parte do filme é ambientando, Joana Santos revela que a aparente espontaneidade dessas sequências foi altamente trabalhada antes de a câmara começar a rolar. “Quando estávamos a filmar, estava a tentar fazer a coisa da forma mais natural possível, mas os movimentos para a câmara não estavam a correr bem. O resultado final acabou por ser uma coisa mais mecânica, em que construí uma coreografia com o diretor de fotografia. Para mim isso é mágico, pegar numa coisa mecânica e torná-la algo real”.
Esse sentido do “real” acaba por estar presente em todo o filme, quanto mais não seja porque boa parte do elenco é constituído por atores não-profissionais e não-atores para quem aquela é realmente a sua vida. Daí também a importância dos ensaios enquanto ferramenta para “construir uma coisa em conjunto”, de acordo com a atriz, que teceu elogios ao “incrível” trabalho de Laura Carreira com os atores.
“Logo nos ensaios, a Laura estava muito aberta a mudanças no texto, no sentido de tentar limpar um pouco [o argumento] nos ensaios”, recorda. Há vários anos a morar em Edimburgo, a realizadora de 31 anos já tinha abordado as realidades laborais do Reino Unido nos seus projetos de curta-metragem, como Red Hill ou The Shift, e o seu à-vontade com a matéria da obra provou ser fulcral na hora de comunicar com o elenco. “Foi muito aberta no sentido de deixar que sugeríssemos ideias”, diz Joana Santos, fator que destaca como importante até no próprio trabalho com os não-profissionais à frente das câmaras.
“On Falling”: é em San Sebastián que começa a conquista de Laura Carreira e Joana Santos?
“Quando falava com os não-atores, era muito difícil para eles decorar o texto e dizê-lo de forma realista. Uma das coisas que a Laura fez foi perguntar-lhes por uma história da vida deles”. Uma dessas histórias é ouvida logo no início do filme, quando um supervisor mete conversa com Aurora e lhe fala das peripécias que teve no fim-de-semana com o seu novo cachorrinho bebé. “Era uma história verídica que ele contou nos ensaios. (…) “No fundo tentámos fechar esse improviso nos ensaios. Dar liberdade para criar, mas sempre direcionada para as personagens”.
O resultado final, que agora pode ser visto, preserva esse realismo, ao mesmo tempo imprimindo-lhe uma carga dramática notável, num filme de subtilezas que se acumulam até se tornarem insustentáveis. Após a estreia na secção “Descobertas” do prestigiado Festival Internacional de Toronto, o jornal The Guardian elogiou a “impressionante estreia” da realizadora; já o portal Cineuropa caracterizou On Falling como “um admirável filme de protesto, reclamando um modo de vida melhor”.
▲ “Senti uma grande responsabilidade de tentar fazer o melhor trabalho possível”, refere ao Observador a protagonista de "On Falling"
Também Joana Santos não passou despercebida à imprensa internacional, que elogiou a “excelente subtileza” da sua prestação. Aos prémios que o filme recebeu, incluindo Melhor Realização para Carreira em San Sebastian, e Melhor Filme de Estreia no Festival de Cinema de Londres, juntaram-se ainda galardões para a atriz nos certames internacionais de Salónica, na Grécia, e em Angers, França. A atriz reconhece que os prémios “sabem bem” e são “uma valorização de ver o filme feito e que as pessoas gostaram e apreciaram aquilo que fiz”.
Agora que as portas do cinema europeu se começaram a abrir, Joana Santos não esconde que continuar a fazer carreira lá fora poderá estar nos horizontes. “Se calhar agora acabo por pensar mais nisso, como é óbvio”. Apesar de tudo, a atriz diz que não está ativamente à procura, se tiver de acontecer, acontecerá. Foi assim com On Falling. “Não procurei este casting, ele veio ter comigo. Claro que estou aberta, se houver mais oportunidades. Mas não me atiro de cabeça, até porque tenho dois filhos e é outra idade. Há uma ponderação, e se as coisas correrem bem claro que sim, aproveito as oportunidades que me dão.”
Depois dos elogios lá fora, confessa-se ainda “muito curiosa” sobre a receção que o filme terá em Portugal. Ao público português deixa um repto, e ao mesmo tempo uma defesa da “sua” Aurora (e das outras). “Espero que seja uma chamada de atenção, que as pessoas pensem mais no futuro, que deixemos de olhar tanto para o nosso umbigo e sejamos mais cooperativos uns com os outros. Tem de haver mais cooperação, para lutarmos com este capitalismo selvagem. Se calhar é uma ideia utópica, mas não sei”.