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Momento do processo contínuo de restauro e preservação de um breviário romano de 1697, que faz parte da coleção da Joanina
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▲Momento do processo contínuo de restauro e preservação de um breviário romano de 1697, que faz parte da coleção da Joanina

▲Momento do processo contínuo de restauro e preservação de um breviário romano de 1697, que faz parte da coleção da Joanina

Joanina: como a biblioteca que guarda "livros que são joias raras" se tornou digital

A Biblioteca Joanina, joia barroca da mais antiga universidade portuguesa, vai disponibilizar online, gratuitamente, os seus 30 mil volumes históricos. Um emirado árabe patrocina, com 8 milhões.

A Biblioteca Joanina, considerada a joia da coroa da Universidade de Coimbra (UC), já estava aberta a quem a quisesse visitar — bastava adquirir um bilhete. Pessoas de todo o globo, 500 mil a cada ano, percorriam o piso nobre com os olhos abertos de espanto perante aquele exemplar da arquitetura barroca ricamente decorado, as pinturas dos tetos, os milhares de livros antigos distribuídos por estantes imponentes e, claro, as histórias do lugar. Uma das preferidas diz respeito às colónias de morcegos residentes, que ajudam à preservação de tão raros e delicados volumes. Cada inseto que comam é menos uma potencial aflição com que lidar adiante. Para proteger as mesas de danos causados pelos dejetos dos animais, ao fim de cada dia, tapa-se esse valioso mobiliário com capas de couro.

A convivência é pacífica, os morcegos fazem parte do cenário, têm as suas formas de entrar e sair do edifício. Diz quem ali trabalha que esses mamíferos, muito pequenos, chegavam a sobrevoar as cabeças de quem assistia a concertos ou sessões de leitura, ao anoitecer. Atualmente, resguardam-se nas horas de movimento e só tomam conta do espaço no silêncio da noite. Ora, a partir desta sexta-feira, 3 de outubro, quem desejar conhecer esta sua casa continua a ter de agendar visita; porém, se o objetivo for aceder aos livros, basta ter ligação à Internet para os consultar em qualquer parte do globo. Para já, de forma limitada, é certo: até ao momento, pouco mais de 300 volumes foram digitalizados, num universo de aproximadamente 30 mil.

A meta é disponibilizar o acervo na íntegra até 2030, de forma progressiva, numa plataforma online multifuncional, construindo “um repositório estruturado” e disponibilizando todo o conteúdo gratuitamente, “sob a forma de imagens fac-similadas e de texto”, lê-se em comunicado de imprensa. Joanina Digital é o nome do projeto, que nasce de uma parceria entre a UC e a Autoridade Literária de Sharjah (Sharjah Book Authority – SBA). Tem o alto patrocínio do chefe de Estado de Sharjah, o Xeque Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, a quem a Academia atribuiu, em 2018, o título de Doutor Honoris Causa.

“O Xeque tem um genuíno interesse pelo estudo da presença dos Portugueses no Golfo, matéria a que se dedica há muitos anos e sobre a qual tem produzido ampla investigação direcionada sobretudo para as fontes primárias, como o livro de Duarte Barbosa (de 1565), que editou e traduziu para árabe, inglês e português. De resto, ofereceu à UC o raro manuscrito original de Duarte Barbosa que está na base daqueles estudos.” Eis o que esteve na base daquela distinção com o grau de Doutor Honoris Causa, segundo informações da Reitoria.

O financiamento de Sharjah corresponde a 8 milhões de euros, o custo previsível da iniciativa, segundo o diretor da Biblioteca Geral da UC, Manuel Portela. “Uma coleção de livros antigos digitalizada nesta escala é algo novo”, acredita. E envolve um trabalho bastante minucioso, complexo.

“Foi precisamente nessa altura que o Xeque, profundamente impressionado pela beleza da Biblioteca Joanina, exprimiu à UC a vontade de ajudar a desenvolver um projeto conjunto que permitisse a digitalização daquele precioso acervo bibliográfico”, esclareceu a Reitoria, por escrito, ao Observador. De acordo com a mesma fonte, o projeto decorre “da partilha de um propósito comum: preservar este património para as gerações futuras e torná-lo acessível a toda a Humanidade”.

A relação entre a Academia conimbricense e Sharjah – um dos sete Emirados Árabes Unidos – resulta, segundo a primeira, do valor dado à esfera cultural: “O Emirado de Sharjah distingue-se pela forte oferta na área da Cultura. Entre outras iniciativas culturais, pode salientar-se, por exemplo, a organização de uma Feira Internacional do Livro considerada uma das mais importantes no mundo, juntamente com a de Frankfurt e a de Guadalajara”.

Questionada pelo Observador sobre as questões que se têm levantado quanto ao incumprimento de direitos humanos nos Emirados Árabes Unidos, a Reitoria respondeu: “A UC entende que a Cultura, o conhecimento e respeito mútuos constituem o melhor caminho para fortalecer o cultivo dos valores humanistas”.

Oito milhões para garantir acesso a livros com séculos

O financiamento de Sharjah corresponde a 8 milhões de euros, o custo previsível da iniciativa, segundo o diretor da Biblioteca Geral da UC, Manuel Portela. “Uma coleção de livros antigos digitalizada nesta escala é algo novo”, acredita. E envolve um trabalho bastante minucioso, complexo, levado a cabo por pessoas com diferentes saberes técnicos, sendo que as obras, algumas com 500 anos, exigem cuidados especiais.

A plataforma UC Digitalis, que acomoda a Joanina Digital, foi apresentada na manhã desta sexta-feira, na universidade mais antiga do país — e uma das mais antigas à escala mundial. Foi também inaugurada uma exposição com uma amostra dos primeiros livros (físicos) digitalizados na fase piloto do projeto, que dura há cerca de ano e meio e tem uma face menos visível. É que, antes de mais, foi preciso definir o fluxo de trabalho; os processos de controlo da qualidade e de controlo da digitalização; a estrutura da plataforma; e encontrar soluções para problemas que possam surgir. “Foi um teste de cerca de 300 obras – isso dá mais ou menos 160 mil páginas. Mas, como o nosso objetivo é chegar a 18 milhões de páginas em 2030, ainda estamos muito longe”, afirma Manuel Portela.

São diversas as vantagens associadas à Joanina Digital. Há a democratização do acesso à distância a um conjunto de livros históricos de difícil acesso, impressos entre os séculos XV e XVIII. E o conforto que implica para estudiosos e público em geral. “Muitos investigadores veem isso como um grande benefício, até porque quem trabalha com obras que só existem aqui [Coimbra] tem de cá vir. Temos muitas vezes pedidos de digitalização de obras e nem sempre é possível fazê-lo”, refere Manuel Portela.

▲ A Biblioteca Joanina, considerada a joia da coroa da Universidade de Coimbra (UC), já estava aberta a quem a quisesse visitar — bastava adquirir um bilhete.

Paulo Mendes

O projeto também contribui para a preservação dos livros, evitando o seu manuseamento, com o consequente desgaste do papel. Se já eram alvo de conservação preventiva, agora, no processo de digitalização, são preparados um a um e encaminhados para restauro, se necessário – nem que seja para fixar uma lombada. “Felizmente, os livros estão bem conservados, há muita atenção”, observa, por seu lado, o vice-reitor para a Cultura e Ciência Aberta da UC, Delfim Leão.

Delfim Leão realça ainda que “a Biblioteca ficará acessível sem limites”, não sendo necessário sequer registo na plataforma online. Se acontecer, será mais adiante, e em casos específicos, por exemplo, de elementos da comunidade académica e científica que precisem de imagens com alta qualidade ou de outros recursos, ressalva Manuel Portela. “Pensámos na possibilidade de haver também uma componente colaborativa na plataforma, que permita a utilizadores, quando encontram erros, ou quando é necessário colaborarem na transcrição de certo tipo de texto, poderem colaborar.” Tal componente, por enquanto indisponível, já implicaria registo.

O diretor da Biblioteca Geral da UC explica que se procurou “integrar as ferramentas de inteligência artificial e muitas das ferramentas atuais que permitem, por exemplo, fazer indexação automática de imagens, análise de textos em larga escala ou tradução automática”. Conclusão: “A plataforma irá ter integradas ferramentas de inteligência artificial, quer no lado do controlo da qualidade, quando estamos a preparar os ficheiros; quer no lado do utilizador, quando pretender fazer pesquisas e análise do material publicado.”

De acordo com o mesmo responsável, “a UC Digitalis, que começa por ter a Joanina Digital como uma das suas principais coleções, tem como objetivo, a médio prazo, integrar todas as coleções digitais da Universidade. Existem outras, na área da Medicina, da Astronomia, da Botânica, etc. E pensar de uma forma integrada as coleções é uma das mais-valias deste projeto”. Para já, ficam acessíveis as plataformas de livros e revistas em acesso aberto da instituição. Nos planos está ainda a integração da Joanina Digital no portal do património Europeana.

Muito mais do que uma “biblioteca-museu”

Alguns dos primeiros livros digitalizados estão, pois, em exibição no piso inferior da Biblioteca Joanina, entretanto incluído no percurso turístico. É aí que trabalha a equipa encarregue da digitalização dos milhares de volumes que compõem o acervo, até por questões de preservação e segurança. A experiência de quem visita a Biblioteca Joanina sai enriquecida: é possível observar alguns exemplares e ver os técnicos em ação, antes de subir ao piso principal. E assim se mostra que a Joanina “não é apenas uma biblioteca-museu, mas está em atividade”, defende Delfim Leão.

Na seleção daqueles volumes pesaram dois critérios. Por um lado, foram escolhidos títulos ligados à histórica presença dos portugueses no Golfo Pérsico e na Península Arábica, pondo ênfase nos laços que unem, presentemente, a UC e o emirado de Sharjah. A este propósito, garante a Reitoria, em resposta escrita: “O apoio da Sharjah Book Authority [Autoridade Literária de Sharjah] foi atribuído sem qualquer tipo de condições, a não ser cumprir o desígnio essencial de ajudar a preservar e dar a conhecer ao mundo o acervo da Joanina, em pleno acesso aberto. A decisão de começar por este núcleo de livros na fase-piloto foi tomada pela UC”. É convicção da Academia que “a futura Coleção Digital do Oriente Médio, Coleção Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, proporcionará um recurso de investigação para diversos campos disciplinares”.

“Às vezes, as pessoas julgam que digitalizar é só pôr na máquina. Não é. Então nestas obras não é, de todo. Temos de garantir que todas as imagens ficam bem feitas. Hoje em dia, a qualidade técnica é muito boa. E mesmo assim temos de ir validando. No caso do projeto-piloto, as obras foram todas vistas. E algumas tiveram de ser novamente digitalizadas, porque, ou havia páginas que tinham falhado e era mais fácil digitalizar de novo."

Outro critério de seleção teve a ver com as características materiais das obras, esclarece, por seu turno, o diretor da Biblioteca Geral da UC. De acordo com Manuel Portela, foram escolhidos livros de diversos formatos, que pusessem problemas na digitalização, na descrição e no tratamento, para ter, no futuro, “um caminho para a sua rápida solução”.

Se uns volumes são de grandes dimensões e englobam mapas que, desdobrados, atingem perto de dois metros; outros têm um tamanho bastante reduzido e impressões quase até à lombada, com margens bastante curtas. A descrição é de Ana Miguéis, que trabalha na Biblioteca Geral da UC, é bibliotecária de formação e responsável pela área dos Sistemas e Serviços de Gestão Integrada.

“Às vezes, as pessoas julgam que digitalizar é só pôr na máquina. Não é. Então nestas obras não é, de todo. Temos de garantir que todas as imagens ficam bem feitas. Hoje em dia, a qualidade técnica é muito boa. E mesmo assim temos de ir validando. No caso do projeto-piloto, as obras foram todas vistas. E algumas tiveram de ser novamente digitalizadas, porque, ou havia páginas que tinham falhado e era mais fácil digitalizar de novo, ou algumas não estavam em condições, não se via tudo e não correspondia ao original”, concretiza Ana Miguéis.

Algo fulcral, segundo aquela responsável, é “manter a integridade das obras”, “reproduzir o mais possível a publicação original”. Isso implica digitalizar as capas, as lombadas e as folhas iniciais, antes da folha de rosto (que é, por norma, a que tem mais elementos, a começar pelo título). As chamadas guardas, ou seja, as páginas em branco, também são digitalizadas, frente e verso. Tal permite conhecer melhor as obras. E se, inicialmente foram escolhidos títulos relacionados com o Médio Oriente, a partir de agora, vão ser digitalizados a eito: “Vamos começar a retirar as obras na sala um, na estante um, na prateleira um… E registando”.

Novos velhos tesouros, numa biblioteca para ler como um todo

O projeto Joanina Digital oferece ainda outra mais-valia, sublinha o vice-reitor Delfim Leão: “permite que se estude uma biblioteca de uma vez só”; isto é, transmite uma visão global dos tesouros que o edifício guarda, alguns dos quais vinham passando despercebidos e foram (re)descobertos agora. Aconteceu com uma obra do século XV, um incunábulo. “Um dos trabalhos que estamos a fazer é uma catalogação sistemática. Há livros que não estão catalogados. Este incunábulo, que não sabíamos que tínhamos, foi uma ótima surpresa”, destaca. É de Direito Civil, data de 1495, conserva as três partes originais, algo pouco frequente em livros daquela época, e constitui o único exemplar conhecido em Portugal (no mundo, só se sabe da existência de outros exemplares em 38 instituições).

Ana Miguéis também nota o preenchimento de uma lacuna. “Tinha-se um breve inventário, mas ainda não havia um aprofundamento daquilo que são as obras da Joanina. Isso é algo que se está a fazer, com a equipa que está a trabalhar. Está a catalogar. E na catalogação é preciso identificar os títulos, os autores, os possuidores. Há elementos que hoje em dia não são importantes, mas na altura eram: quem fazia a obra, quem editava a obra, a tipografia. Há elementos muito particulares que são importantes, porque nos ajudam a compreender a origem, o percurso de cada livro, e o destino de cada um deles, também”.

“Raramente pensamos nos livros à escala de uma biblioteca como um todo”, refere, por sua vez, Manuel Portela. “Uma das coisas que, para mim, tem sido mais importante perceber é o modo como a digitalização vai permitindo construir uma visão agregada da coleção.” Quando os livros, aos milhares, estão arrumados em estantes, “é impossível”. Estão organizados por tamanhos e por temáticas. A Biblioteca tem três grandes salas, que refletem a estrutura do conhecimento à época, enquadra. Há uma sala dedicada à Medicina e às Ciências; outra à Matemática; e uma terceira à Arqueologia e às Artes Liberais. “Acho que ninguém tem uma noção completa da coleção, nem mesmo alguns dos bibliotecários que durante muitos anos trabalharam na Joanina.”

Com este projeto, vai ser possível ter uma perspetiva mais ampla, saber, por exemplo, a origem dos livros, onde foram publicados e, em alguns casos, como chegaram ali. Muitos foram doados por professores da Academia já falecidos. De outros retira-se informação através de marcas de posse. Exemplo? “Um dos livros que está na exposição preparada para o lançamento [da plataforma] é da família Torriani, e vemos nesse livro que tinha pertencido ao pai, que foi legado ao filho. Eles foram arquitetos, trabalharam na construção de alguns conventos em Coimbra.”

Se habitualmente se aponta o mundo digital como ameaça ao mundo do papel, neste caso, as duas esferas não colidem, antes se complementam, conclui o vice-reitor para a Cultura, Delfim Leão: “O suporte digital não vai pôr em causa a preservação do livro impresso; pelo contrário, vai dar-lhe visibilidade”.

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