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O Esplendor e a Infâmia com Pedro Jorge Castro, aquele olhar acutilante sobre a atualidade. Olá, Pedro, bem-vindo.
Olá, e o olhar de quem não caiu a 32 mil pés por minuto hoje no avião.
Exatamente. Nem queremos pensar bem o que será. É isso mesmo, bolas. Bom, no esplendor, colocas a decisão de José Luís Carneiro. O líder do PS merece nota positiva?
Na verdade, o que merece nota positiva é o facto de não haver novela. Não vamos ter novela do orçamento, vamos seguir em frente com isto.
Tu diz isso com ar de alívio.
Na verdade, isto é tudo muito pragmático. Não vai haver novela porque não interessa a nenhum dos intervenientes. José Luís Carneiro, mesmo estando à frente nas sondagens, sabe que isto é tudo muito pouco consistente. A realidade pode mudar de um momento para o outro. Se houvesse eleições, se calhar os números não seriam estes, sabe-se para que lado é que os indecisos iriam cair. Mas sobretudo, eu acho que ele sabe que não está pronto. Sabe que ele não está pronto, que o partido não está pronto, nem o país está pronto para ponderar um regresso a uma governação socialista, nem sequer os astros se alinham, por aquilo que é de haver, para uma eventual nova coligação à esquerda, uma eventual nova geringonça com o LIVRE, sem o LIVRE. Nada dessa aritmética bate certo e, portanto, para quê estar a prolongar a novela? E ele até faz mais, que é pôr as condições, que até me parecem pouquinhas, já foram aceites. Ele assim desvincula-se de qualquer resultado deste orçamento. Espero que ainda tenha uma postura construtiva e que proponha melhorias ao orçamento. É isso que se espera de um partido da oposição, mesmo sendo o terceiro maior partido, mas sendo uma alternativa de poder, é isso que se espera. Mas não vai forçar a barra. Não tem que forçar qualquer resultado e pode dizer que o resultado da crise de vida, o resultado de tudo aquilo que correr mal durante este ano é culpa exclusiva do governo, porque o PS até garante a estabilidade, abriu a porta a que o governo definisse o seu próprio orçamento, violizando assim essa política. Portanto, sim, essencialmente é o fim da novela, o fim antecipado da novela e o facto de não virmos a ter este suspense. Deixe-me só dizer que ponderei até ontem, neste esplendor, colocar o Chega pela forma como as suas acusações relacionadas a denúncias e a insistência por uma comissão de inquérito no caso das gémeas tinham dado origem a esta acusação. E depois o meu entusiasmo com essa escolha caiu quando vi que inventaram este recorte de uma notícia sobre as reparações históricas. Qual é a necessidade? Não há necessidade nenhuma daquilo. Isto mostra que é um partido que apesar de ter esta força toda que tem, não é de confiança numa coisa tão básica. E não precisava daquilo. Podia ter perfeitamente posto a questão sem estar a inventar um recorte, mas um partido que inventa um recorte, um líder partidário que inventa um recorte de uma notícia para fazer um ponto, merece pouca credibilidade e não vê que assim, mesmo que segure o seu forte, mesmo que segure o seu eleitorado base, tem mais dificuldades em aliciar mais facilmente outras pessoas que possam estar indecisas e que ainda valorizem um bocadinho esta coisa da credibilidade.
Ainda não estamos na infâmia, mas já vamos à infâmia. Primeiro paramos no baú.
No baú, a propósito da discussão sobre a habitação, foste recuperar o congelamento de rendas em Lisboa e Porto decidido por Salazar em 1948. Que detalhe é que te chamou a atenção?
Olha, vários, mas eu vou me centrar aqui só num, que eu acho que é o mais interessante para os nossos ouvintes de hoje, e que é a forma como isto foi debatido na Assembleia Nacional e na Câmara Corporativa também, mas na Assembleia Nacional começa logo pelos nomes dos intervenientes. Houve duas pessoas que estão na origem de uma linhagem política, digamos assim, e que davam nas vistas na altura. Um, o pai de Francisco Sá Carneiro, que viria a ser deputado depois e fundador da democracia e líder do PSD mais tarde, morrendo tragicamente em Camarate. E outro, Diogo Pacheco Amorim, avô de Diogo Pacheco Amorim, atual vice-presidente do Chega e deputado do Chega. Ambos, curiosamente, com uma posição muito a favor dos proprietários, não necessariamente a favor dos proprietários, mas contra este congelamento e os efeitos, alertando para os efeitos que este congelamento das rendas viria a ter. A posição de Salazar foi defendida muito longamente no Parlamento por Mário Figueiredo. Mário Figueiredo tinha sido ministro da Educação, viria a ser depois presidente também da Assembleia Nacional mais tarde, e era um dos principais conselheiros de Salazar, um dos principais confidentes, tinha reflexões regulares com ele. Há tiradas extraordinárias do debate, eu vou só citar aqui algumas. Este Mário Figueiredo traduzindo as coisas de forma simples e os raciocínios de um lado e do outro. Dizia ele: "O senhor diz assim: se por esta parte de casa, do lado direito, me pagam três contos e pela parte de casa igual, do lado esquerdo, me pagam um conto, por que este não há de render-me o mesmo que me rende aquele?"
A parte de casa, deixa explicar, se calhar há muita gente que agora já não entende o que isso quer dizer, mas era a possibilidade de alugar, por exemplo, um quarto e uma sala.
Se calhar, infelizmente, há cada vez mais pessoas que entendem outra vez o que isso quer dizer. Também é uma pena. Mas depois dizia ele: "Mas o senhor lhe dirá: por que é que eu, que sou pobre, e o inquilino rico, hei de suportar esta renda de miséria, que não corresponde ao valor da habitação, quando o meu inquilino pode pagar mais, pode pagar aquilo que é justo e razoável, porque isso não faria diferença nenhuma?"
1948.
1948, mas já com muita evidência sobre a forma como estas disposições e o congelamento das rendas tinham, de facto, este efeito nefasto na diminuição da construção. Por exemplo, Diogo Pacheco Amorim a dizer: "É preciso e é urgente que a construção de moradias volte a ser forma tentadora de colocação de capitais, como era antes da Primeira Grande Guerra, e para tanto necessário se torna que as rendas das casas sejam regradas pelas leis naturais do mercado livre." Já na altura havia esta noção de que o congelamento teria um efeito muito negativo no lado da oferta e na falta de casas para as pessoas.
E na recuperação das casas.
Em condições condignas, sim, na recuperação também.
E se não houve novela no esplendor, vamos ter novela na infâmia. Pedro, ainda dizem que já não se ouve a palavra de Jesus. Ora, esta tarde esteve tudo concentrado nas palavras de Jesus.
Ouviu-se muito, é verdade. Com muita atenção. Nós também transmitimos aqui em direto, e bem. Achei muito interessante as palavras de Jorge Jesus sobre isto. Há aqui vários problemas. No entanto, para começar, limitação absurda às perguntas, porque aquilo de abrir a conferência e dizer: "Só admito duas perguntas", depois teve que admitir umas quantas mais. Para quê? Ainda por cima, desautorizou-se ele próprio, mas não faz sentido numa conferência de imprensa em que tem que estar a responder a perguntas, limitar à partida e tentar ditatorialmente restringir o direito de fazer perguntas sobre o tema que todos quereríamos saber. Esta tentativa de pressionar os jornalistas para não fazerem mais perguntas sobre isto, que aliás se viu que foi infrutífera, e ainda bem que os jornalistas depois acabaram por desrespeitar isso e que ele anuiu a dar mais alguns esclarecimentos. Mesmo assim, creio que destratou alguns jornalistas e não precisava de o fazer. Não há necessidade de se dirigir aos jornalistas da forma como ele se dirigiu, menorizando-os, reduzindo-os, apoucando-os. Não é suposto, sobretudo porque quem está numa situação difícil é o selecionador, é Cristiano Ronaldo e é Pedro Proença. Este triângulo tinha de facto explicações a dar, e muitas, sobre aquilo que todos estamos a ver. Precisamente por se tratar da seleção nacional, por se tratar de Cristiano Ronaldo, mas também por tratar de questões que têm a ver com a forma como isto impacta a relação do selecionador e a autoridade do selecionador perante os outros jogadores que estão convocados ou que podem vir a ser convocados. E também a questão do exemplo que Cristiano Ronaldo dá ao resto do país. Não há nada que belisque, quer dizer, belisca e está a acontecer, mas não há nada que vá reduzir drasticamente o esplendor da carreira de Cristiano Ronaldo, plasmada em números e na emoção que todos nós sentimos quando ele marcou gols decisivos e na ânsia que ainda sentimos quando ele entra em campo e precisamos que ele faça um gol. Apesar de todas as coisas que ele tem, e tem bastantes, que são discutíveis fora do campo. Teve algumas ao longo do seu percurso também, com mais de 40 e tal anos. É normal que isso tenha acontecido. Algumas se calhar nem foram bem explicadas, mas ele foi ultrapassando isso tudo. O facto de os adeptos também ultrapassarem isso tudo quando ele marca um gol, e ainda ansiarem e esperarem por esse gol, mostra a forma como todos nos fomos rendendo à importância que ele tem ou à dimensão que atingiu a sua glória a nível global. Já todos tivemos a experiência no estrangeiro de assim dizermos.
Seria de esperar que ele já estivesse um bocadinho mais acima de provocações mais terrenas, não é?
Pois é, ele como mais experiente, como capitão, como pessoa que sabe coisas da vida. Ele tem a vida feita. Ele já tem dezenas de empresas a seguir, com as quais pode preocupar-se e entreter-se nos seus tempos depois de deixar de jogar. Pode seguir perfeitamente uma carreira no mundo do futebol, seja como treinador, seja como agente de jogadores, seja como dirigente. Tudo isto lhe será permitido e até incentivado, e será difícil para ele resistir a esta tentação. Mas parece-me que isto também vai ser influenciado pela forma como ele gerir este fim. Atenção, este fim não é uma fatalidade no sentido em que nós temos, por exemplo, LeBron James que começou a carreira exatamente na mesma altura que ele e acaba de ser contratado por outra equipa na NBA, pelos Philadelphia 76ers, para tentar mais um título. São prodígios físicos em termos atléticos, são pessoas que se preparam muito bem. Não é propriamente isso que está em causa, mas estão em causa algumas limitações que a idade vai trazendo e que impõem alguns cuidados na gestão da utilização dos jogadores. Que ele se revolte contra isso, que se irrite desta maneira. Eu percebo que é chato estar a aquecer a bola à frente de toda a gente. Percebo que isso é chato. Jorge Jesus acabou de dizer isso mesmo. Mas com a maturidade que ele tem, com tudo o que já ganhou, se há pessoa que deveria ter alguma distância e encarar isto, apesar de tudo, com alguma maturidade, era ele. Precisamente. Ele não pode ser o problema da seleção nesta fase. É absurdo nós estarmos a ganhar jogos. Atenção, imagina se estivéssemos a perder. Nós estamos a ganhar jogos, temos duas vitórias nesta competição, e estar tudo a discutir estas birras de Ronaldo. Se Ronaldo está a ser prima-dona ou não está a ser prima-dona. Esse assunto já cansa. E acho estranho que ninguém à volta dele lhe tenha feito ver que ele tem que assumir outra atitude pública em relação a estas coisas. Seja convocado, não seja convocado, entre em campo, não entre em campo, esteja a aquecer a bola, não esteja. Eu quero muito vê-lo chegar aos 1000 gols. Acho que isso vai ser-
Já falta pouco
...um momento especial. Eu quero que isso aconteça. E quero que a maior parte desses gols, ou que uma parte significativa desses gols, sejam ao serviço da seleção, em vez de serem ao serviço do Al-Nassr. Os do Al-Nassr também contam, é onde ele está a jogar. Tudo bem com isso. Mas eu creio que a maior parte do país quer ver isso. Quer vê-lo chegar aos 1000 gols, quer vê-lo atingir essa glória e quer contribuir para isso. Mas ele tem que fazer a parte dele. E fazer a parte dele, no caso, é, apesar de tudo, lidar com estas coisas dando o melhor exemplo para todos os miúdos que o idolatram, para começar, para todos os jogadores que estão a ver como é que se decide o fim de uma carreira e como é que se gere isso, e também para o futuro dele, para tudo aquilo que o espera. Numa carreira tão esplendorosa, é uma pena estarmos a assistir a um fim. Está-se mesmo a aproximar do fim. Isto será uma questão de meses. Não sei se ainda haverá mais outra época, mas é o fim. Isto é o fim da carreira de Ronaldo. É uma pena estarmos a assistir a um fim tão infame.
E para a semana há mais Splendor e a Infâmia com Pedro Jorge Castro.