Passou a fazer parte da história de Lisboa há pouco tempo, quando desenhou o novo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e a pala japonesa que emprestou ao edifício se tornou motivo de conversa e admiração. E fará parte da narrativa portuense assim que o antigo Matadouro da cidade abrir as portas ao novo bairro das artes que ali projeta neste momento. Ao mesmo, tempo, em Osaka, no próximo ano, um edifício que desenhou dará as boas vindas ao público que quiser conhecer Portugal.
O arquiteto japonês aceitou falar com o Observador a partir de Tóquio e falou da paixão pelo nosso país, cuja cultura, arquitetura e gastronomia se “unem em símbolo de simplicidade e naturalidade”, afirma. A sustentabilidade enquanto objetivo máximo da sua prática desafia-lhe os limites e a imaginação. O que procura é criar sombras e quanto mais bonitas, melhor, diz-nos.
▲ Kengo Kuma fotografado em Tóquio, no Japão, no ano passado: "Outra meta tão importante como a sustentabilidade é a relação entre o verde, a natureza e o edifício"
Bloomberg via Getty Images
Tem dois grandes projetos a acontecer em Portugal neste momento. A renovação do Centro de Arte Moderna [CAM] da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, acabou de abrir as portas ao público e os trabalhos de reabilitação do antigo Matadouro do Porto estão a começar. Além destes, é o autor do Pavilhão de Portugal em Osaka 2025. Como é que tudo isto aconteceu?
Tenho um grande interesse e uma equipa dedicada a projetos internacionais. Tenho uma colaboradora portuguesa, Rita Topa, e uma enorme simpatia por Portugal. Estou muito contente com todos estes trabalhos. A Gulbenkian foi um projeto muito importante e o Matadouro também o é. Para mim, para nós, enquanto equipa, e também para as cidades onde estes projetos se desenvolvem. Isto é algo muito emocionante. Trabalhámos muito e com muito empenho para ganhar estes concursos.
Mas porquê este interesse por Portugal e pelas duas cidades mais importantes do país? Estará também relacionado com a arquitetura?
Sempre me senti atraído pela cultura portuguesa. Há muito tempo que me impressiona. A comida em Portugal é muito boa, assim como o vinho, o vinho verde é um desafio para o meu paladar. Tenho viajado várias vezes para o país, onde a arquitetura também é muito, muito forte. Álvaro Siza Vieira é um dos meus mentores. Penso que a ligação entre Portugal e o Japão também é muito grande. Em 2012 estive no Porto para um workshop com estudantes na Universidade. Em 2018 decorreu o concurso para o Matadouro no Porto e eu e a minha equipa encontrámos um parceiro na cidade para concorrer. E, em meados de 2019, aconteceu ganharmos o projeto para o CAM. Foi um processo muito orgânico. Desde 2012 que passámos a colaborar e a falar regularmente com Portugal e a oportunidade para desenhar o Pavilhão em Osaka acabou por aparecer. Já estávamos tão envolvidos com o país que pensámos imediatamente porque não?
Há algum tipo de ligação entre estes projetos para Portugal? Como pensa reabilitar o Matadouro, por exemplo?
Sempre tentei manter uma conversa com aquele espaço. Historicamente, o Matadouro é um espaço abandonado na cidade do Porto. O meu objetivo é reativar aquele sítio, preservando os edifícios que ali existem. Não quero destruir a história. Tenho em mente mostrar a história do local, deixar ficar ambientes e materiais possíveis. É sobretudo isso que me atrai.
Será que a arquitetura tem nacionalidade?
Sim. A arquitetura tem nacionalidade e reveste-se de um caráter local também. Portugal não tem uma única nacionalidade, como o Japão, cada local tem as suas características. Lisboa e o Porto têm características muito diferentes, bem como Osaka e Tóquio têm. E a relação entre Tóquio e Osaka é muito parecida com a que existe entre Lisboa e o Porto.
No novo CAM, a pala que marca a entrada no edifício tem origem na arquitetura japonesa, esse traço tradicional é importante no seu trabalho?
O CAM, na Gulbenkian, também é um edifício já existente, mas os jardins que o envolvem são muito parecidos com os jardins japoneses. Penso que o edifício e os jardins podem funcionar como um todo. O edifício também tem texturas naturais. Sinto algo do Japão na antiga Gulbenkian. Não foi minha intenção levar o Japão para o novo edifício, mas sim pegar na filosofia do que já existia na Gulbenkian e aplicá-la na nova entrada do edifício. E foi o que fiz. Parece japonês, mas não foi levado do Japão. Há ali um sentido de diálogo. Há a experiência de um viajante tal como a dos portugueses pelo mundo, que sempre levaram impressões e coisas novas dos sítios por onde passaram para o país. É por isso que a gastronomia também é tão singular. E este é o poder da arquitetura. Na Gulbenkian inscrevemos também a memória da nossa experiência no Japão que agora pertence àquele espaço.
E qual é a memória da arquitetura portuguesa?
A gastronomia e a arquitetura portuguesas têm um caráter comum. É um caráter natural e simples. É muito diferente de França. A gastronomia francesa tem sabores muito fortes, é demasiado artificial para o gosto japonês. Há muitos traços de comida portuguesa no Japão, muitos japoneses gostam de comida portuguesa. As sardinhas têm um gosto extraordinário, por exemplo. Encantam-nos a simplicidade e a naturalidade também no artesanato.
E qual a importância do equilíbrio entre construção e natureza?
No CAM, por exemplo, usámos material natural e tentamos sempre ir buscar elementos naturais, desenvolvemos esses detalhes com muito cuidado. São detalhes que dão ênfase à beleza da natureza. Essa é a minha estratégia. A arquitetura é uma espécie de artefacto, cujo objetivo é mostrar a beleza e a pureza da natureza. É nisto que reside o equilíbrio no meu trabalho.
▲ Assim será o futuro Matadouro: "Temos tido um desafio diferente em cada dia no projeto. O edifício já existente não é simples, antes pelo contrário, é muitíssimo complicado"
A sustentabilidade preocupa-o?
A sustentabilidade é a meta mais importante da minha prática de arquitetura. Uso o mais possível materiais locais e naturais para criar uma espécie de sombra ou teto. Que essa sombra proteja o ambiente interior da luz natural, que essa sombra crie ventilação natural. A estratégia para cada edifício é baseada na sustentabilidade e no clima. No Japão conseguimos encontrar muitas formas e dicas para levar a construir edifícios sustentáveis e nos edifícios tradicionais portugueses também.
Porto: o que vai acontecer no Matadouro?
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O projeto chama-se atualmente M-ODU e pertence à Emerge/Mota-Engil, empresa que o constrói e que virá a explorar o espaço concessionado pela Câmara Municipal do Porto, através de contrato de longo prazo.
A autarquia, através da empresa municipal Ágora – Cultura e Desporto do Porto, irá gerir no local vários espaços, nomeadamente Museu das Convergências, destinado a acolher a Coleção Távora Sequeira Pinto; uma extensão da Galeria Municipal do Porto, programada pela Direção de Arte Contemporânea (DAC) da Ágora – Cultura e Desporto do Porto; e vários espaços para reserva museológica e tratamento de obras de arte associados aos equipamentos acima mencionados; bem como um outro espaço dedicado, sobretudo, a práticas artísticas comunitárias. Ainda sob gestão camarária, funcionará no novo Matadouro um espaço para investigação e práticas educativas.
Para tudo isto a Câmara Municipal do Porto conta com um investimento superior a sete milhões de euros.
Já no que respeita às áreas de exploração a cargo da Emerge/Mota-Engil aí funcionarão espaços empresariais diversificados, escritórios e espaços de co-working, e zonas comerciais como lojas e restaurantes.
Entre a Rua de São Roque da Lameira e o estádio do Dragão, o projeto estabelece um percurso pedonal público, através da construção de uma nova passagem superior que atravessa a VCI e irá permitir uma ligação direta à estação de metro do Dragão.
Ao todo são 22,000 m2 de área de construção e o investimento total ascende a mais de 50 milhões de euros.
O objetivo é o de reanimar a zona oriental do Porto, considerada a mais desfavorecida da cidade.
Que outros desafios encontra na prática arquitetónica hoje em dia, as alterações climáticas, com certeza, problemas éticos também?
Para mim, outra meta tão importante como a sustentabilidade é a relação entre o verde, a natureza e o edifício. No CAM tentei levar a natureza para dentro do edifício sem criar uma fronteira clara, é uma fronteira assente na interligação entre natureza e edifício. Uma interligação que sempre existiu nos jardins japoneses tradicionais. Mas a arquitetura não deixa de agredir a natureza por si só, no entanto, interessa-me criar com ela um espaço para a comunidade e que permita a sustentabilidade da comunidade. É isso que faz com que os edifícios durem mais tempo. A arquitetura deve ser uma porta para as pessoas. O objetivo é que o desenho da arquitetura permita às pessoas abraçar o projeto e envolverem-se na durabilidade do edifício, fazendo com que perdure por muito tempo. Não tem a ver com modas ou tendências, mas sim com a construção de edifícios que possam ser parte da identidade das cidades. E este é o ponto mais difícil de valorizar muitas vezes perante um cliente.
Como é que lida com a estética e com a funcionalidade?
A estética também está associada à sustentabilidade. E a estética e a funcionalidade caminham juntas. Devem caminhar sempre juntas no século XXI. Um bom exemplo é o da sombra dos edifícios. Tento sempre criar sombras bonitas. E a beleza da sombra está relacionada com a sustentabilidade. Cortar a luz natural significa criar uma sombra. O mais importante hoje é criar um teto e uma sombra.
Como as árvores?
Sim, as árvores são o melhor exemplo para criar sombra. O espaço por baixo das árvores não é quente, sentimo-nos bem debaixo de uma árvore, as condições que encontramos debaixo das árvores são exemplares em termos de sustentabilidade.
O que é que o faz aceitar um projeto ou concorrer para a criação de um edifício?
Certamente não é o dinheiro. Gosto de pensar na filosofia que existe por detrás de cada projeto. No caso do CAM, por exemplo, a relação dos edifícios com o jardim era uma filosofia que me apaixonava.
Qual é o limite da arquitetura, a imaginação?
O limite existe sempre. Alcançar um limite é sempre um momento excitante. Perceber o limite é também um momento feliz. O que podemos fazer é brincar com os limites. E há limites em tudo. O orçamento é um limite, o local ou o sítio onde vai construir-se um edifício é um limite, a própria construção é um limite. Temos que aproveitar os limites, divertir-nos com eles.
Quando desenha tem tudo isso em mente, ou tenta dar liberdade à sua imaginação?
Há uma ligação entre a imaginação e o limite. A imaginação é uma boa parceira do limite. Ambos trabalham juntos. Muitas vezes é o limite que torna especial o projeto. Muitas vezes o limite leva-nos para lá da nossa imaginação e transforma-se num desafio inesperado. E quando o resolvemos é quando encontramos outro limite.
▲ "Quando o CAM abriu, por exemplo, foi mágico vermos as pessoas usar aquilo que tínhamos feito, foi como se sempre lá estivessem estado"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
E qual é o maior desafio do projeto do Matadouro neste momento, manter a traça do que já existia, respeitar o que está à volta, inovar?
Tudo isso. Queremos manter a identidade original, mas também mudar o aspeto do edifício, conter custos, respeitar novos códigos e condições da arquitetura. É a reabilitação de uma estrutura antiga dos anos 30 do século passado construída com materiais muito baratos e estamos a descobrir muitas surpresas por causa disso. Tem sido mesmo um grande desafio. Temos que nos adaptar e temos que ser muito flexíveis na reavaliação do projeto e no seu ajuste à realidade, mantendo a essência daquilo em que pensámos desde o início.
Há uma grande expetativa entre a população para saber o que vai acontecer àquele lugar, tal como havia em Lisboa uma enorme expectativa em relação ao novo CAM que agora está cheio de gente.
Temos tido um desafio diferente em cada dia no que respeita ao projeto do Matadouro no Porto. O edifício já existente não é simples, antes pelo contrário, é muitíssimo complicado. A sua história também não é fácil. É um desafio local que vale a pena o esforço. Temos em mente permanentemente a forma como as pessoas vão usar o espaço. Quando o CAM abriu, por exemplo, foi mágico vermos as pessoas usar aquilo que tínhamos feito, foi como se sempre lá estivessem estado. É a mesma motivação que temos para tornar real o novo Matadouro no Porto.