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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Entre refeições gratuitas e voluntários de limpeza, a logística "orgânica e autónoma" que alimenta os manifestantes no Rossio

Com o início da semana, alguns dos manifestantes abandonaram o Rossio para ir trabalhar, mas prometem uma desmobilização apenas temporária. "Vamos ficar até sermos ouvidos", garantem ao Observador.

“Não queres um pistachio?”, oferece uma pessoa em condição de sem-abrigo, alheia à manifestação, mas que abraça a causa. No Rossio, cada um faz o que pode. Numa mesa, à volta da qual se reúnem vários dos participantes na acampada, existem bolachas, fruta fresca e todo o tipo de alimentos para os manifestantes irem comendo. “No domingo, houve uma senhora que trouxe imensas fatias de bolo que sobraram do aniversário do filho”, relata Joana, enquanto dá uns retoques num cartaz a sinalizar o lixo do acampado.

Ninguém pediu a Joana para colorir de vermelho os contornos da palavra escrito a preto num pedaço de cartão. “Faço o que me apetece fazer”, acrescenta a jovem, que se juntou ao protesto no primeiro dia. Os cartazes não são apenas reivindicativos, também servem para dar indicações sobre onde se pode arranjar uma garrafa de água ou simplesmente obter mais informações sobre a manifestação. “Lava a tua loiça”, lê-se na cobertura que cobre parte da comida oferecida por participante ou simples solidários.

É assim que funciona a logística no acampado do Rossio, instalado desde sábado numa das praças mais emblemáticas de Lisboa. Entre as dezenas de tendas afixadas em plena calçada, estão centenas de manifestantes que se disponibilizam para contribuir para a organização e o bom funcionamento da iniciativa. “Todas as horas há um turno de limpeza de oito pessoas”, conta Feijó, que tem feito rondas a comunicar com a imprensa no local. “Está mais limpo agora do que estava antes”, acrescenta, apontando para a ausência de beatas de cigarro no chão.

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A logística de limpeza é “simples”. Há um cartaz que circula, pelas várias tendas, à procura de voluntários para manter o local “em condições”. E não há falta de mãos para as diferentes tarefas necessárias para manter a operação a correr. Para os afazeres que necessitam de maior organização, existem “grupos de mensagens” e outros fóruns geridos por “coletivos” ou “grupos de trabalho” definidos para responder às necessidades.

Os almoços e jantares são gratuitos e para todos os que passam. O menu, esta segunda-feira, é uma mistura de grão, vegetais e couscous, preparados numa cozinha solidária na zona da Penha de França — cuja localização exata ninguém por ali sabe indicar. Quando chegam os tachos, forma-se uma fila entre manifestantes e outros simpatizantes para receberem o almoço. “Há muitas cantinas que se têm disponibilizado para ajudar. Uma das coisas bonitas que se têm visto neste movimento é a capacidade de articulação orgânica e autónoma”, descreve ainda Feijó, que garante não estar em nenhum destes grupos, e sem conseguir dizer ao Observador quem está encarregue das refeições. Essa é uma nota recorrente por ali: a falta de informações (ou de disponibilidade para dar informações) sobre a estrutura que garante a organização do protesto.

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Existem vários manifestantes atrás da mesa onde se podem recolher mais informações sobre a causa. Nenhum revela — ou sabe — quem está a tratar do almoço desta segunda-feira. “Se calhar, ela é uma pessoa mais indicada para falar convosco”, sugere Joana, apontado para uma manifestante que está a organizar a comida (da qual não conhece o nome). “Não sei quem é que está a tratar disso”, irá garantir, logo a seguir, a interpelada que se ocupa da alimentação e que não se quis identificar.

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Uma noite “calma” e “tranquila” e uma manifestação que não tem impacto no comércio local

Se, às 6h30 da passada quinta-feira, os protestos no Porto viram cargas policiais e levaram mais de 30 manifestantes a serem hospitalizados, a segunda madrugada no Rossio foi “calma” e “tranquila”. Com as tendas iluminadas apenas pelos candeeiros municipais, já que se mantinha, por aquela hora, a escuridão da noite, só se ouve o ruído do 736. Na lenta transcrição entre a noite e o dia, aparecem pares de manifestantes que rondam o acampado embrulhados em mantas, depois de terem pernoitado naquela praça.

O movimento crescente da manhã no Rossio obrigava quem cruza a praça para se deslocar até ao metro, para trabalhar, a contornar as várias tendas. Quando o Sol se começou a impor sobre a calçada portuguesa, os manifestantes começaram a abandonar as tendas e a reunir-se junto da estátua de D. Pedro IV. Do lado oposto do Teatro Nacional D. Maria II, três elementos da Polícia Municipal de Lisboa observavam ao longe as (poucas) movimentações da manhã desta segunda-feira.

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Para Núria, o “maior sonho é ter uma casa”. “Isto não é normal”, considera. Núria tem estado no Rossio, de forma intermitente, desde sábado. “Vamo-nos revezando no nosso grupo de amigos”, explica. A manifestante conta que, apesar de ter passado esta última noite a dormir numa tenda, tem-se organizado para conseguir ir trabalhar, nos horários habituais e continuar a participar nos protestos. Durante as primeiras horas da manhã, o grupo que partilhou uma tenda no círculo exterior da acampada desmontou o material com planos de voltar mais tarde. E, como Núria, vários outros desmobilizaram com a promessa de que voltariam para passar mais uma noite.

Os que abandonavam o protesto de forma provisória foram rapidamente substituídos por dezenas e dezenas de grupos de turistas que se amontoaram nas imediações da acampada. Em círculos, em torno de um guia, ou a passar de tuk-tuk, a manifestação passou a ser um tema central das visitas guiadas. Isaac, um animador turístico que conduz um destes veículos pela cidade, acredita que a visão das dezenas de tendas plantadas no meio do Rossio pode demover os turistas de recorrer àquele serviço. “Tenho pena de que não consigam ver a beleza da praça. Está bem diferente”, brinca. O guia afirma que nestes últimos dias tem recebido mais abordagens a questionar a presença das tendas do que a pedir uma visita pela cidade. De resto, não sente que a manifestação tenha afetado o comércio na área.

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Uma funcionária de um dos cafés mais movimentados da área considera que a manifestação, no coração de uma das praças mais procuradas pelos visitantes estrangeiros, “não chateia” e que, tendo acompanhado o progresso dos protestos desde a manhã de domingo, não nota qualquer diferença na movimentação. Maria Irene partilha a mesma opinião. A vendedora de castanhas assadas presenciou a manifestação da CGTP e o início da acampada, no sábado, mas sublinha que se trata de eventos “pacíficos” que não alteram a dinâmica da praça.

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“As coisas sobrevivem da solidariedade popular”

“Convidamos toda a gente a vir comer, mesmo que não estejam a participar na acampada. A comida está boa”, exclama Feijó. O manifestante foi um de vários destacados pela organização para servir de porta-voz para a imprensa. Os restantes, ainda nas tendas ou a comer, mostram-se mais relutantes a partilhar o seu testemunho com a comunicação social, referindo que foram aconselhados a não falar publicamente.

Esta tem sido a realidade desde a génese do movimento em Lisboa. No sábado, uma das jovens que fazem parte do movimento, e que não se quis identificar, disse ao Observador que não estava autorizada a dar entrevistas e que só três pessoas da organização faziam a comunicação com os jornalistas. João, um outro membro da equipa de comunicação da acampada, disse que as pessoas “simplesmente se juntaram de forma orgânica” e que nada tinha sido organizado por ninguém. Sobre o jantar, disse que não conhecia toda a gente do movimento e não sabia quem o tinha fornecido. Relutante, acabou por confessar que não sabia se podia revelar essas informações, por considerar que podia ser “perigoso” para os responsáveis pela organização.

E ainda que existe esta incógnita em torno da coordenação da manifestação, Feijó, o jovem que conversou com o Observador no terceiro dia da acampada considera que os grupos de trabalho estabelecidos voluntariamente têm corrido “super bem”.

“Uma pessoa tem sempre a expectativa de que haja atritos ou outras dificuldades”, acrescenta, elogiando novamente a capacidade de organização dos diferentes coletivos ou pessoas indivíduais que ali se juntam desde sábado. Estando em plena praça do Rossio, onde a grande maioria dos estabelecimentos comerciais exigem um pagamento para se poder usufruir das casas de banho, o manifestante volta a destacar a “solidariedade muito grande” da população nas imediações. “Às duas da manhã, precisei de ir à casa de banho e o único sítio aberto aqui perto era um sítio de comida turca, onde já nem estavam a vender nada, mas foram simpáticos e abriram-nos as portas”, conta.

Nesta ideia de que “as coisas sobrevivem da solidariedade popular”, Joana preparou um quadro com os itens necessários e aqueles que já não são precisos no acampado. Entre powerbanks — já que não existem fichas entre as pedras da calçada —, utensílios e agasalhos, lançam o apelo à população. Com um novo concerto marcado para o início da noite e jogos para entreter os que escolheram ficar o dia todo, os manifestantes prometem ficar “até serem ouvidos”.

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[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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