O livro tem duas partes. A primeira é a Havana vista pelos olhos de Leonardo Padura, um ensaio que retrata o seu próprio percurso da cidade – física, histórica, humana – e que tem como ponto de partida a sua infância e o bairro periférico chamado Mantilla, onde fica a casa onde nasceu e vive até hoje. Aqui, Padura dá a ver o processo de apropriação do escritor daquela que é a matéria que serve de inspiração para os seus romances, e que inclui fragmentos dos seus livros a descrever alguns desses lugares.
A segunda metade de Ir a Havana (Porto Editora) reúne um conjunto de trabalhos jornalísticos de variados géneros – desde reportagens dos anos 80 a crónicas de há um ano –, que o autor cubano galardoado com o Prémio Princesa das Astúrias das Letras escreveu e que representam outros tantos olhares sobre os diferentes momentos por que a capital de Cuba tem passado. No meio do livro, existe um conjunto de fotografias da autoria de Carlos T. Cairo. Esta é uma proposta de Havana, uma Havana possível, de entre muitas outras. Entrevistámos o cubano sobre a cidade, os livros e a vida que acontece entre — e no meio — dos dois.
Antes de começarmos a gravar esta conversa, falávamos de Pepe Mujica [antigo presidente do Uruguai, que morreu a 13 de maio aos 89 anos], que morreu há umas semanas…
A morte de Mujica é muito triste. Já sabíamos que podia acontecer a qualquer momento, ele estava muito doente. Até tinha decidido não receber mais tratamentos. Acreditava que tinha chegado o momento, o que demonstra que foi sempre um homem de grande lucidez, até ao fim. Alguém que sofreu, como sabemos, momentos muito difíceis. Há um filme chamado A Noite de 12 Anos no qual é terrível ver o período em que ele esteve preso, em confinamento absoluto, e saber que não saiu doente de ódio. Saiu com um desejo de construir alguma coisa, de que a convivência fosse possível, de que o mundo melhorasse, com uma confiança tremenda na humanidade. É quase invejável, porque poucas pessoas seriam capazes, depois de experiências como aquela, de se recomporem de tal forma e de terem a atitude que ele teve até ao fim: um exemplo do que pode ser um militante de esquerda, coerente em todos os sentidos e amante da liberdade. Como ele próprio sofreu a perda da liberdade durante anos, sabia o que significava a liberdade e defendeu-a de todas as formas possíveis.
Mencionou “militância de esquerda”: a descrição arquitetónica que faz de Havana, neste livro, poderia ser uma metáfora do socialismo de hoje?
Nunca a vi dessa forma. A descrição arquitetónica da cidade no livro tenta ser o mais objetiva possível, mas é também uma visão íntima, uma visão particular, porque vemos os lugares com uma perspetiva que tem a ver com os nossos próprios juízos e os nossos preconceitos, com o nosso próprio conhecimento e com a nossa própria ignorância. Acontece muitas vezes passar-se em frente de um edifício, olhar para ele e não o ver, porque não se tem a capacidade de ver mais do que uma fachada de pedra. Há outros momentos em que, graças a certos conhecimentos, a certas leituras, a certas revelações, se vê uma coisa completamente diferente e que faz muito mais sentido. Isso acontece com muitas coisas na vida, mas muitas vezes não somos capazes de as ouvir por causa da nossa pressa, da nossa ignorância – que é infinita –, por causa da nossa incapacidade de estabelecer um diálogo com essas outras coisas. Este livro tenta estabelecer esse diálogo com a cidade. É um pouco a demonstração de até que ponto esta cidade me perseguiu, até que ponto tentei dialogar com ela, tentei conhecê-la e tentei escrever sobre ela. Não há uma ordem cronológica.
O livro tem uma série de artigos jornalísticos que fez ao longo dos anos. Por que os incluiu?
Penso que no jornalismo se pode aprender a escrever de duas maneiras. Ou se escreve de uma forma diacrónica, em que os acontecimentos ocorrem de uma forma organizada cronologicamente, ou se escreve com uma estrutura dramática. Prefiro as estruturas dramáticas, porque me permitem não só violar a ordem temporal dos acontecimentos, mas estabelecer sobretudo uma melhor ligação com o leitor. Há recursos que organizam a informação de uma forma que possa ser mais atrativa para o leitor, que o ajude a continuar a ler. Isto é algo que aprendi no jornalismo e que apliquei mais tarde na minha literatura, porque muitos dos meus trabalhos jornalísticos, sobretudo nos anos 80, tinham estruturas muito diferentes das tradicionais. Eram montagens em que havia esse desenvolvimento dramático. Mas há uma coisa muito importante: a realidade acontece diacronicamente. Na realidade tem de haver um acontecimento para depois acontecer outro, que é uma consequência do anterior. Na literatura, essa sucessão de acontecimentos não tem de responder ao momento em que eles aconteceram, mas ao momento em que é preciso que eles apareçam no texto para terem a sua função dramática.
▲ A capa de "Ir a Havana". de Leonardo Padura, publicado em Portugal pela Porto Editora
E como ordenou os textos?
Seguindo a ordem necessária para montar o meu discurso. Parto de um princípio, que é o meu princípio, mas não é o princípio da cidade, claro, a cidade é um bocadinho mais velha do que eu. Eu tenho 70 anos e a cidade tem 500. Começo com um início que tem a ver comigo e depois vou para um início que tem a ver com a cidade. E vejo que é como uma espécie de círculo concêntrico que se abre e se expande no tempo e no espaço para dar uma imagem mais abrangente da cidade.
Também precisou de contar as histórias da sua própria infância.
Não é um guia de viagem, não é um guia turístico, não é uma história da cidade. É uma reflexão sobre a minha relação pessoal com Havana, em que a história deste lugar tem de aparecer, claro, mas é sobretudo um olhar sobre o processo de apropriação da cidade, que é tão importante no caso de um escritor que escreveu os seus livros fundamentalmente com a cidade como cenário. Há dias dizia à minha mulher “acho que faltou uma coisa a este livro, um pequeno mapa de Havana para localizar os pontos de que estou a falar, aqueles a que me refiro, porque alguém que não tem muito conhecimento da cidade pode ficar um pouco desorientado. Quando colocarmos num mapa da cidade, verás que tem uma lógica”. Penso que, sim, vou fazê-lo.
Como um percurso?
Sim, partindo de Mantilla, no meu caso pessoal, e partindo de Havana Velha, no caso da história da cidade, de como a cidade se expandiu e como eu também, a partir de Mantilla, me integrei na cidade. Há um grande contraste entre o que é uma Havana velha que foi recuperada e o resto da cidade.
Recuperada para o turismo?
Talvez para o turismo. O que criou uma espécie de barreira, uma espécie de muro, com tudo o resto. Esta parte histórica da cidade, a parte da Havana colonial, teve felizmente alguns fundos que permitiram o resgate de alguns edifícios históricos que estavam em muito mau estado e que corriam o risco de se perderem. E esses investimentos não foram os mesmos no resto da cidade. Sei que um dos objetivos da recuperação desses edifícios em Havana velha tem a ver com o turismo, mas também estou grato porque tem a ver com a própria cidade, com a recuperação para nós, cidadãos de Havana. Houve mesmo uma altura em que se falou em demolir muitos edifícios em Havana velha para construir grandes armazéns para o porto.
Não foi avante.
Felizmente, por falta de dinheiro e porque nunca houve necessidade desses grandes armazéns, não havia mercadoria suficiente para tal. Isso fez com que esses lugares ficassem parados no tempo até que apareceram estes investimentos que permitiram resgatar esses velhos palácios, casas particulares, negócios que existiam nessa parte da cidade que é a maior cidade colonial das Caraíbas. Havana já era muito maior nos seus primórdios do que San Juan [a capital de Porto Rico] ou do que a própria Cartagena das Índias [Colômbia], que é uma cidade lindíssima com as suas muralhas preservadas. Havana não preservou as muralhas, mas preservou uma quantidade enorme de edifícios coloniais da maior importância histórica, arquitetónica e social. A vida em Havana tem uma dinâmica muito complicada neste momento, porque é a dinâmica muito complicada que o país está a viver. Por exemplo, numa cidade que sempre sofreu, nos últimos 60 anos, de falta de casas, neste momento, pode ver-se nos sites de compra e venda de casas que há muita gente a vender casas e ninguém as compra.
Quanto desvalorizaram?
Casas que estavam previstas para serem vendidas a um preço X estão agora a ser oferecidas a um preço cinco vezes mais baixo. Por outras palavras, os preços foram muito reduzidos, mas ninguém as compra, porque em Cuba há um processo acelerado, crescente e sustentado de pessoas que abandonam o país em busca de uma vida melhor, que acreditam que nunca vão encontrar em Cuba. É realmente difícil imaginar que as condições do país vão melhorar a curto prazo. As pessoas têm apenas uma vida e têm de encontrar a melhor forma de a viver. Especialmente os jovens. Sinto que não encontram uma resposta para as suas exigências, as suas necessidades, os seus desejos, e vão procurá-la onde quer que possam. É também por isso que a maioria dos jovens está a emigrar, o que significa uma perda demográfica, cultural e económica para o país.
Falámos em 2022 a propósito do lançamento de Como Poeira ao Vento, que se foca nesses êxodos, por parte de várias gerações. Volto a perguntar-lhe: porque é que nunca saiu de Cuba? Tem a ver com este amor por Havana?
É uma mistura bastante complicada de razões. Uma delas, fundamental, é que pertenço a esse lugar e, como escritor, preciso de praticar esse sentimento de pertença. É muito comum que os escritores cubanos que saíram de Cuba se tornem tudo menos escritores. Alguns deles, o próprio facto de estarem fora de Cuba encheu-os de ressentimento, de um ódio que manifestam por tudo o que tem a ver com Cuba, o que é bastante doentio. Em primeiro lugar, não quero sofrer dessa doença. Em segundo lugar, é importante para mim manter-me próximo dos conflitos que são o alimento da minha literatura. Tenho também razões pessoais para continuar a viver lá: a minha família, a minha mãe, que tenho a sorte de ter comigo, aos 97 anos. Cuba é o lugar… não sei. No outro, dia estava a falar aqui em Lisboa com uma amiga que está cá a viver que me dizia “Lisboa é uma cidade magnífica para se viver neste momento. O único senão é que faz frio durante seis meses”. Não sei se seria capaz de viver numa cidade onde faz frio durante seis meses. Em Cuba, há seis dias de frio por ano. E a diferença entre seis meses e seis dias… isso também pesa na minha decisão de ficar em Cuba.
Viveu sempre na casa onde nasceu, no bairro periférico de Mantilla. Nunca lhe interessou experimentar viver numa outra zona da cidade, para poder perspetivá-la de maneira diferente?
Percorri a cidade a partir da minha casa. Estudei no bairro onde nasci, depois fui para um bairro vizinho fazer os estudos secundários, depois fui para a universidade. Trabalhei a dada altura num bairro chamado El Vedado, numa outra na zona antiga da cidade. Tudo isto permitiu-me estar perto de todos estes lugares, ter uma ideia melhor, integrar-me. Como já referi, houve uma altura em que era muito fácil comprar uma casa em qualquer parte de Havana. Estamos a falar de comprar uma casa de alvenaria, ou seja, de tijolo e laje, de betão, com três ou quatro quartos, num sítio bastante bom, por 60 mil ou 70 mil dólares. E, numa localização menos central, a mesma casa por 20 mil dólares, o que é quase ridículo comparado com o preço de algo numa cidade como Lisboa ou qualquer outra cidade da Europa. Houve uma época em que isso não era possível, só havia a possibilidade de trocar de casa, de fazer permutas, porque era proibido comprar e vender casas. Em Cuba, dizemos que o que não era ilegal era proibido. Não se podia vender o carro, não se podia vender a casa, não se podia ter um computador, um telemóvel, não se podia ficar em hotéis turísticos, não se podia viajar para o estrangeiro sem uma autorização de saída. Por outras palavras, vivíamos rodeados de um número infinito de proibições. Algumas delas foram atenuadas, sobretudo depois de Fidel ter deixado o poder. Comprei o meu primeiro computador em 1991. Como tinha feito um trabalho em Espanha, poupei o dinheiro que me tinham dado para a mesada e falei com um estrangeiro que vivia em Havana – um escritor uruguaio – para que ele me comprasse o computador numa loja em Cuba, porque eu não podia. Mesmo os dólares que levei para Cuba, para que esse homem pudesse comprar o computador, tive de os levar escondidos porque era ilegal possuir moeda estrangeira. Durante muitos anos, tive um telemóvel porque uma amiga, que era casada com um estrangeiro, tinha dois e deu-me um deles.
Como foi viver no meio de tantas proibições e restrições?
No caso dos escritores, isso teve um elemento adicional, a falta de liberdade de expressão. Ninguém nos proíbe de escrever o que quer que seja, mas o que nos tem sido impossível é publicar e ser promovidos por aquilo que escrevemos… Tive a sorte, desde os 30 anos, de trabalhar com uma editora em Espanha, e os meus livros passam diretamente do meu computador para o computador da minha editora. Esta manhã, acabei de fazer a revisão final do meu romance e enviei-o para os meus editores em Barcelona. Não passou por nenhum filtro institucional cubano.
Foi sempre assim?
Ganhei um prémio em Espanha em 1995, em 1996 comecei a trabalhar com esta editora. Tem sido assim com todo o meu trabalho desde então. O que tem sido muito importante para mim, em termos do exercício da minha liberdade e do meu trabalho como escritor. Lembrem-se que num país socialista, estritamente socialista como Cuba tem sido, tudo, exceto pequenas áreas muito elementares, pertence ao Estado, ao governo, ao partido, que é a mesma coisa. Aliás, lembrem-se que o primeiro secretário do partido é o presidente da República, o presidente do Conselho de Estado. Portanto, é tudo a mesma coisa, e tudo isto aparece sob a capa do processo – ou do fenómeno – que é a revolução, que também se identifica com a pátria. Portanto, o que aconteceu durante o chamado Período Especial em Tempos de Paz foi sobretudo o aumento das carências materiais. E esse aumento das carências materiais envolveu não só os cidadãos, mas também o Estado cubano. E isso, curiosamente, no caso da literatura, abriu um espaço de liberdade.
▲ Leonardo Padura: "Não tenho tempo suficiente nas 24 horas do dia para fazer as coisas que tenho de fazer, porque tenho sempre alguma coisa para fazer"
Porquê?
Porque é a primeira vez que não há resposta das instituições do Estado às criações artísticas. Não havia papel, por exemplo, para imprimir livros. E esse espaço abriu a possibilidade de contratar livros fora de Cuba, como editoras estrangeiras, o que não existia antes. Antes, era preciso fazê-lo através de uma agência literária do Ministério da Cultura cubano. Com as coisas tão terríveis como a crise económica, em que tudo faltava, houve algo benéfico. Ganhámos um espaço de liberdade enquanto criadores. As pessoas adaptam o meio às necessidades, ao tempo, às possibilidades. Nos anos 70, por exemplo, surgiu uma solução habitacional, digo-o aqui no livro, que se chamava a “barbacoa”. Nas casas que tinham um pé-direito muito alto, aquelas casas dos anos 20, 30, como muitas aqui em Lisboa, as pessoas construíam uma mezzanine e transformavam um quarto em dois. Depois houve outras necessidades, com o aumento das carências nos anos 90. Se se deixasse de fora de casa uma cadeira velha, a cadeira velha desaparecia. Então, as pessoas puseram grades nas casas. Nas construções mais recentes, vê-se que nalguns casos houve possibilidade de pagar por um desenho arquitetónico mais ou menos harmonioso, mas noutros casos são fruto da solução possível. Depois do meu bairro, há um bairro que é muito mais antigo, chama-se Calvario, como o monte, que tinha casas do final do século XVIII. A maior parte dessas casas foram transformadas com as melhorias que esses vizinhos puderam fazer, sem quaisquer restrições urbanísticas para preservar este lugar que ainda tinha a aura de uma pequena aldeia do final do século XVIII. Resta um pouco, duas ou três casas e uma igreja como vestígio do que aquela zona foi outrora, mas tudo o resto foi completamente transformado pelas necessidades das pessoas.
Fala também da necessidade de comer como uma obsessão nacional. Faltam ainda hoje muitos alimentos?
É uma obsessão para toda a gente, mas torna-se muito visível quando há falta de comida. Não estamos a falar da fome trágica de África, estamos a falar de um país onde as pessoas tinham um acesso muito normal a comida suficiente que nunca era a que queriam. Às vezes, queríamos comer algo e não tínhamos, não tínhamos carne de vaca, mas tínhamos carne de porco. E tudo isto criou uma paranoia em relação à comida, coisa que eu trabalho nos meus livros, em que faço alguns exercícios hiperbólicos de exagero alimentar, como é o caso dos meus romances sobre a personagem de Mário Conde. Por exemplo, os cheiros da cidade, os cheiros na rua que desapareceram, que estavam lá antes e já não existem, ou que, pelo contrário, passaram a existir.
Que cheiros são esses da cidade?
Havana está muito perto do mar e, quando o mar bate, inunda uma parte da cidade com o cheiro a maresia. Há uma parte da zona mais antiga, a zona colonial, onde o gás circula através de tubos muito antigos e se respira sempre gás. Agora, há um cheiro que se está a espalhar pela cidade, que é o cheiro do lixo em decomposição, porque há muitos problemas com a recolha de resíduos sólidos. Encontramos esquinas cheias de lixo. Há caixotes, mas há muito mais lixo, o que causa um cheiro desagradável em muitos sítios de Havana, neste momento.
E os sons? A música? A personagem Mario Conde leva-nos ao jazz, mas fala também de reggaeton, no livro. O reggaeton está a contaminar tudo?
Recebemos uma invasão impiedosa de reggaeton. O reggaeton impôs-se nas Caraíbas como a música da moda, na República Dominicana, em Porto Rico, em Cuba, em muitos lugares das Caraíbas. No caso de Cuba, vê-se muitas pessoas com pequenas motas, sobretudo motas elétricas – que apareceram muito recentemente –, a empunhar um telemóvel e um pequeno altifalante ligado por bluetooth. Andam pelas ruas a ouvir reggaeton com o volume no máximo.
As pessoas continuam a ter sentido de comunidade?
Sim, sim, as pessoas visitam-se com muita frequência. Vão de uma casa para a outra, encontram-se nas esquinas para conversar. Mas, neste momento, com o fenómeno do reggaeton, há uma falta de respeito absoluta pela privacidade sonora das pessoas, por aquilo que se quer ouvir e não por aquilo que os outros nos obrigam a ouvir. De qualquer modo, os cubanos sempre foram muito barulhentos, tal como os espanhóis e os italianos. Vemos aqueles filmes italianos em que alguém olha pela janela e diz “ei, fulano!” Isso acontece muito em Cuba, mas estamos numa altura em que a perda de urbanidade das pessoas também se manifesta na invasão do som na cidade.
As pessoas continuam a ser comunitárias?
Perderam uma coisa muito importante, que é a noção do valor do tempo. Não tenho tempo suficiente nas 24 horas do dia para fazer as coisas que tenho de fazer, porque tenho sempre alguma coisa para fazer. E, quando aparentemente não estou a fazer nada, estou sentado a ler, nem que seja o comentário de alguém no Facebook, que em muitos casos não me interessa muito. Isso levou a uma falta de consideração no uso do tempo que é muito lamentável.
Não incluiu um mapa no livro, mas colocou uma secção de fotografias no centro. Porquê?
Há dois livros anteriores, publicados por uma editora que publica livros para Cuba, que não é uma editora institucional. Com ela, publicámos um livro para os 500 anos de Havana, em 2019. Havana foi fundada em 1519 e o livro chama-se La Habana Nuestra de Cada Día, que tinha fotografias deste mesmo fotógrafo, Carlos T. Cairo, mas com um conceito fotográfico diferente. E publicámos também um pequeno volume que era uma longa entrevista que tinham feito comigo sobre a cidade, um livro de cerca de 100 páginas e que também tinha uma fotografia. Como tudo isto já tinha sido feito antes, a ideia era que o livro fosse ilustrado com fotografias, acompanhado de fotografias.
O seu epílogo está dotado de uma certa tristeza, de um certo desalento. Porquê?
Escrevi esse epílogo muito recentemente, publiquei-o no El País. Não sei se a data de publicação está aí, mas saiu no ano passado. É um pouco um olhar sobre o que está a acontecer em Havana neste momento, um olhar um pouco triste, um pouco apocalíptico, em relação ao que a cidade é hoje e ao que poderia ser a cidade do futuro. É um pouco a minha maneira de olhar para esse longo processo da minha relação com a cidade, neste momento.
A cidade continua igual ou mudou, nos últimos anos?
As cidades evoluem. Não posso dizer se evoluiu muito ou não, porque não se pode comparar com outra. Lisboa mudou muito, mas não mudou assim tanto, porque continua a ter a mesma estrutura. O que tem acontecido muitas vezes é que aquele edifício que estava escondido atrás de camadas de esquecimento foi limpo. E, de repente, dizem “porra!” Acontece-me isso na Baixa. Edifícios que eu não tinha visto e que, de repente, passo por eles… Sempre estiveram ali, mas não os via porque estavam cobertos de merda, literalmente. Isto também está a acontecer em Havana. Mas há também um processo de deterioração que não teve a resposta que Lisboa, Madrid ou Barcelona tiveram, de poder resgatar a cidade de uma forma mais ampla, mais abrangente. As estradas estão cheias de buracos, as esquinas estão cheias de lixo, as casas estão por pintar. Uma pessoa que ganha um salário médio cubano de 40 euros não pode comprar uma lata de tinta que custa 15. Tudo isto é uma teia de condições e realidades que também têm a ver com a forma como vemos a cidade e como a cidade se está a comportar ao longo do tempo. Aplico isto sobretudo à minha opinião sobre a realidade cubana. Não há mentiras nos meus livros, porque as mentiras são absolutas. As verdades que digo são verdades, embora possam existir outras.