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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Luís Franco Bastos: "Se só imitasse as vozes dos outros a minha carreira não tinha durado nem metade" /premium

Em tempos, fazia a imitação mais popular de Cristiano Ronaldo. Mas esse tempo, diz-nos o humorista, já lá vai. Entrevista com Luís Franco Bastos a propósito do espectáculo "Consciente".

Há uma geração de humoristas em Portugal que tem feito estragos. Isto é, têm cortado com a norma. Cresceram, entraram na profissão com uma série de coisas por criar. Ou já criadas, mas sem grande estofo para existir. Insistiram, deram a volta, utilizaram os meios que tinham à disposição, a televisão, a internet, e introduziram-se ao seu público através daquilo que eram melhores, a escrita, sketches ou entrevistas. O seu percurso tem afunilado para o mesmo, o óbvio, a stand-up comedy e os espectáculos mais regulares. As digressões.

As digressões têm-se tornado mais regulares. O cuidado com os espectáculos também. “Consciente” é o novo espectáculo de Luís Franco-Bastos, que tem andado por todo o país desde o início do ano, e que ainda vai passar pelo Faial (8 de março), Coimbra (dia 15), São Miguel (16), Ilha do Pico (17), Alcobaça (29), Lamego (Teatro Ribeiro Conceição, 6 de Abril), Lisboa (Teatro Tivoli BBVA, 29 de Abril), Porto (Teatro Sá da Bandeira, 16 de Maio), Funchal (Centro de Congressos, 25 de Maio) e Portalegre (Grande Auditório do CAE, 31 de Maio). Depois de “Roubo de Identidade” e “Voz da Razão”, Luís Franco-Bastos em “Consciente” está muito distante do rapaz que imitava vozes há uns anos na televisão.

Hoje é outra pessoa. Trinta anos, tem um programa de sucesso no YouTube, “Erro Crasso”, com Pedro Teixeira da Mota, e está confortável com o rumo que as coisas estão a tomar. Faz parte desta geração que encontrou o seu caminho, num período em que a televisão lhes tirou o tapete e que a internet dá bons números — “sim, dá, mas não paga as contas”. Mas o stand-up sim, o que revela o estado de maturidade para o qual o formato caminha em Portugal.

“Tento fazer um ritmo semelhante ao das outras pessoas. Não correspondo ao cliché ‘trabalho melhor à noite’ ou ‘pela madrugada é que me vêm as ideias'”

Vamos começar pelo que nos traz aqui hoje…
A minha relação com o café. Epá, é profunda.

A tua relação com o café.
Por acaso, a minha relação com o café é profunda. Acho que o café tem uma certa relação com a comédia, não sei se é por causa do imaginário do “Comedians in Cars Getting Coffee”, se é de saber que muitos deles gostam de beber aqueles baldes de Starbucks de café americano, enquanto tomam notas e fazem observações. Associo sempre uma coisa à outra.

Quantos cafés é que já bebeste hoje?
Este é o segundo.

Expresso?
Sim. Vou tentar não passar dos quatro. É a minha meta diária, nunca passar dos quatro. Raramente passo dos quatro, estou a conseguir reduzir.

Quando é que tomas o último?
Provavelmente vai ser ao almoço, depois ao jantar vou evitar beber. Procuro gastar os cartuchos antes do almoço e mais perto da hora de ir para a cama ando a tentar não beber porque me deixa mais desperto. Sempre achei que era mito, mas não é. Não sou o super-homem, sou igual a toda a gente e se bebo café antes de ir para a cama, é um disparate.

O café à noite permite-me ficar mais desperto quando acordo. E não tenho problemas em adormecer.
Curtia, mas não é o que me acontece. Fico às voltas na cama a não conseguir adormecer e acordo cansado. Exatamente o inverso.

Quando é que trabalhas mais?
Tento fazer um ritmo semelhante ao das outras pessoas. Não correspondo ao cliché “trabalho melhor à noite” ou “pela madrugada é que me vêm as ideias”. Não gosto muito disso. Como não vivo sozinho e a minha namorada tem horários normais, tem um emprego das nove às sete… Se eu fosse trabalhar à noite estava desencontrado dela e isso não seria benéfico. E todas as pessoas que trabalham comigo, desde a minha agência, todas as pessoas a quem preciso de responder e estar em contacto fazem horários normais. Seria contraproducente estar desencontrado do mundo inteiro. Como gosto muito do que faço, sempre tive a sorte de ter pica para trabalhar a qualquer hora. Tento trabalhar ao longo do dia. A partir do momento que é hora de jantar, desligo um bocado como se durante o dia tivesse sido um horário laboral. Ultimamente tenho estado a obrigar-me, mesmo para trabalhar em alguns projetos, como o “Erro Crasso” (uma webseries de entrevistas humor disponível no YouTube, da autoria de Luís Franco Bastos e Pedro Teixeira da Mota), que vai voltar, ou outras coisas que estão na calha, das quais ainda não posso falar. Então obrigo-me a ficar fechado no escritório umas três ou quatro horas por dia, que é um horário laboral muito extenso, como se pode ver. Mas pelo menos nessas três ou quatro horas obrigatórias estou a produzir alguma coisa. Se bem que sou muito ambulante, gosto de trabalhar no escritório, na mesa da sala, num café, qualquer sítio para onde possa levar o portátil transformo aquilo num escritório.

[o mais recente episódio de “Erro Crasso”:]

O que consideras trabalhar?
É uma ótima pergunta, especialmente para fazer a um humorista.

Tem a ver com texto, provavelmente…
Há muita coisa. Considero “trabalho” enviar um email para a SPA a dizer que registei agora este ou aquele projeto de 2016 ou 2017 que já devia ter sido registado. Ou mandar um mail para a contabilista…

Parece que estiveste a fazer isso ontem.
Anteontem, está fresco na minha memória. Felizmente, quando está tudo a correr bem, contabilidade, faturas, pagamentos, registar coisas, marcar gravações, há muitas questões relacionadas com trabalho que não são efetivamente escrever piadas. E tudo isso acaba por ser “trabalhar”. Há coisas que têm de ser agilizadas. Além de trabalhar, há o lado de escrever, de fazer brainstorming. No caso do “Erro Crasso” estamos em fase de brainstorming e de escrita de alguns guiões da temporada seguinte. Isso é um exemplo mais concreto do trabalho mais clássico de escrever e criar ideias.

Treinas as tuas vozes em casa?
Vou treinando. Treino quando estou a escrever, imediatamente leio em voz alta para saber como me soa. Mas não sou de ensaiar loucamente ao espelho. Quando estou a escrever leio em voz alta para saber se faz sentido oralmente ou não, mas a maior parte dos testes e dos ensaios são feitos em palco, nas sessões de teste. Neste caso, como o espectáculo já está pronto e a rodar, o “Consciente”, não há propriamente ensaios que sejam necessários. Posso reler uma ou outra coisa, como o espectáculo é recente, para ter o alinhamento fresco na cabeça. Mas a maior parte do trabalho é de escrita, solidão e silêncio profundo.

Como surgiu este novo espectáculo, “Consciente”? O que ambicionas com ele?
O “Consciente” surge porque é o meu projeto principal, sempre. Olho para mim como um stand-up comedian que faz outras coisas também. A maior dos humoristas é assim que se vê e pensa a sua estratégia. Tencionava voltar à estrada com um espectáculo novo e as ideias do “Consciente” foram maturadas durante os últimos dois anos, estava a fazer o anterior espectáculo, o “Voz da Razão”, e já ia testando algumas ideias para o novo. Foi o espectáculo que tive mais tempo para limar, afinar, para ter a certeza que era este o caminho que queria seguir. Neste momento estou bastante contente com o resultado, os quatro espectáculos que já fizemos correram todos muito bem. E o que ambiciono é isso, é afirmar-me como um stand-up comedian de primeira divisão deste país. Esse é o meu objetivo principal.

[Luís Franco Bastos em “Voz da Razão”:]

Quando falas dessa ambição, há um lado de ti que quer deixar as vozes, as imitações, ser mais texto?
Sem dúvida. Qualquer pessoa que acompanhe o meu trabalho a fundo, desde o início… obviamente que a maior parte das pessoas não o faz, porque ninguém tem essa obrigação e sabemos que só uma pequena percentagem de pessoas é que conhece realmente bem o que fizemos. Quem me conhece realmente sempre soube que havia um lado de humorista muito mais forte do que o lado de imitador de vozes. Com o passar do tempo, o lado do humorista foi-se mostrando cada vez mais e as pessoas foram reparando que esse era o mecanismo principal. As vozes eram uma ferramenta ao serviço do humor e não o contrário. E se a ferramenta do humor não fosse o principal, se só imitasse as vozes dos outros, a minha carreira não tinha durado nem metade. Há muita gente que faz muito bem imitações, personagens, e é preciso bastante mais do que isso, para te distinguires, manteres uma carreira continuada e para fazeres a quantidade de projetos que eu já fiz, onde a parte criativa era extremamente importante. Essa é outra das ambições do consciente, que está a ser cumprida de uma forma muito natural. A prova disso é que há pelos menos dois anos que faço muito menos imitações do que fazia e nunca ninguém me perguntou porquê, ou se tinha saudades de.

Como é que começaste a notar isso?
Um bom exemplo disso foi quando comecei a fazer o “Erro Crasso”, o meu talk show independente no YouTube. O “Erro Crasso” foi dos primeiros projetos que desenvolvi onde as imitações não faziam sequer parte. É uma conversa, um talk show, onde criamos conteúdos humorísticos, de improviso e em conversa com pessoas – não é só improviso, há coisas preparadas, claro. Quando o “Erro Crasso” surgiu tive o receio que viesse alguém questionar porque é que estava a fazer alguma coisa assim. E passados dois anos, as pessoas quando me abordam na rua só me perguntam quando volta o “Erro Crasso”, nunca me perguntam porque é que nunca mais imitei o Alberto João Jardim. É sinal de que a coisa foi feita de uma forma gradual e natural. Quando te esforças muito e tentas fazer uma coisa bem feita, as pessoas querem é uma coisa gira, que as divirta, não estão muito preocupadas se vais para as imitações ou para stand-up clássico. Desde que tentes fazer uma coisa bem-feita, as pessoas gostam.

Quando te convidam para ir fazer qualquer coisa, sobretudo na televisão, é para ires fazer as vozes. Isso não te incomoda?
Incomoda bastante.

"Quem me conhece realmente, sempre soube que havia um lado de humorista muito mais forte do que o lado de imitador de vozes. Com o passar do tempo, o lado do humorista foi-se mostrando cada vez mais e as pessoas foram reparando que esse era o mecanismo principal e as vozes eram uma ferramenta ao serviço do humor e não o contrário. E se a ferramenta do humor não fosse o principal e as vozes fossem tudo o que tivesse, a minha carreira não tinha durado nem metade."

Os rótulos existem e escondem a plenitude.
Mas os rótulos existem e demoras algum tempo até descolar, até as pessoas perceberem que és mais completo do que isso. No meu caso acontece a mesma coisa, se durante bastantes anos eu, sobretudo, mostrei uma ferramenta, é normal que as pessoas me associem a ela. Mas a verdade é que os meus espectáculos cada vez têm menos imitações e nunca passaram a vender menos bilhetes, pelo contrário, cada vez vendem mais. O meu público, que me conhece, sabe como estou a trabalhar agora e gosta disso. E com o tempo as pessoas que estão mais distantes, acredito que irão perceber também. O trabalho está a ser feito, as coisas estão na rua, desde o anterior espectáculo, que tinha algumas imitações ainda, é um processo contínuo e há determinadas ocasiões onde gostava que a perceção já fosse diferente. Mas de uma forma geral isso tem evoluído muito. E tem evoluído muito onde é mais importante, que é junto do público. Quando as pessoas me abordam já nem fazem o que faziam antigamente, que era pedir vozes na rua. Ou vêm dizer que gostam do meu trabalho ou vêm dizer que gostam do “Erro Crasso” e que têm saudades. Nas pessoas que mais interessam, que é o público, o processo está a decorrer a uma velocidade até melhor do que estava à espera.

Em Portugal faltarão ferramentas para acelerar esse processo? Estás a fazer um espectáculo de stand-up, não seria interessante que fizesses esse espectáculo e que o apresentasses também na televisão, como se fosse um stand-up special. Em Portugal, esse formato não existe, mas há plataformas onde isso poderia acontecer.
Sim e não. Não, porque sinto que há outros espaços onde isso é possível acontecer. E sim, porque é menos do que devia e tens bastante razão no que estás a dizer. Mas estamos a viver consequências de um facto incontornável: a stand-up comedy em Portugal está 50, 60 anos atrasada em relação aos países anglo-saxónicos onde surgiu. Nos Estados Unidos começou a bombar a sério nos anos 1970, 1980, em Portugal começou em 2005 e o verdadeiro boom deu-se há cinco anos. É normal que as coisas cá ainda precisem de evoluir mais: e já estão a evoluir bastante. Este é o ano em que tens mais humoristas com espectáculos a solo pelo país, de stand-up, que está a ser ótimo para a divulgação do género, a dinamização do mercado, o público ser cada vez mais, os teatros estarem vez mais recetivos a receber este género, para as televisões também começarem a olhar para isso. Tens tido cada vez mais incursões de stand-up na televisão em Portugal. E, portanto, depois depende da estratégia pela qual optas: no meu caso, optei por disponibilizar o “Voz da Razão”, filmado no Coliseu, de forma gratuita, no YouTube, para toda a gente que quisesse ver. Nem sequer tentei vendê-lo a uma televisão. Achei mais importante, naquela fase, ser disponibilizado de forma livre e imediata, porque achei que era um trabalho que fazia questão que chegasse ao máximo de pessoas possível. Na televisão chegaria a um número considerável de pessoas, mas preferia que estivesse no YouTube para ser ainda mais acessível e não ficar ali para sempre. Não queria que fosse uma coisa que passava na televisão, a determinada hora, e quem não pudesse ver, não via. Além de achar que a televisão poderia censurar alguma espécie de conteúdo e não queria correr esse risco. Estrategicamente para nós, o que fez mais sentido foi disponibilizá-lo de forma independente. É isso, o meio ainda vai evoluir. E, infelizmente, não tens uma cultura de stand-up specials, não tens comedy clubs, era importantíssimo haver, não tens crítica, um circuito totalmente montado, mas estás melhor do que estavas há uns anos e acredito que a coisa vai continuar a melhorar. Temos de ser pacientes, isto está muito no início, apesar de se notar um desenvolvimento considerável, está muito no início.

"Há uma frase de que gosto muito, do Kanye West, que diz "as pessoas às vezes são limitadas pela perceção que têm de si próprias'"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sentes que o teu público ainda está na televisão? Ou começas a sentir que o teu público é aquele que vai aos espectáculos?
Muito. Faço sempre essa observação, antes de um espectáculo meu começar ou a seguir a acabar, viro-me sempre para alguém da equipa e digo “depois diz-me a média das idades, a pinta das pessoas”. A resposta é invariavelmente a mesma: “Público altamente heterogéneo”. O que é um ótimo sinal de que o meu público é vasto. Neste momento, estou mais na internet do que noutros locais, apesar de ser relativamente novo, tenho 30 anos, trabalho desde os 18, já estou a trabalhar há 12 anos e em 12 anos colecionei uma série de projetos e presenças em vários meios que me permitiu angariar uma quantidade grande de pessoas que gostam de mim e estão dispostas a comprar bilhete para um espectáculo meu. Desde pessoas mais novas que veem o “Erro Crasso” e outros projetos na internet. Mesmo na internet, o meu público vai até aos 35 anos, pelo menos. Pessoas mais velhas, ou dessa idade, que me acompanharam durante muito tempo na rádio ou viram aparições televisivas minhas, mais ocasionais nos últimos anos mas mais condensadas em termos de importância, como por exemplo os “Globos de Ouro”. Uma ida aos “Globos de Ouro” vale por um ano de programas de televisão. E, mesmo isso, é um exemplo bom do que estavas a dizer, do meio não dar as oportunidades necessárias: nesse aspeto não me posso queixar.

O que te pedem quando te convidam para os “Globos de Ouro”?
No segundo ano que fiz pediram-me para enviar uma proposta de guião, do material que queria fazer. Tinha lá um segmento em que falava do Ronaldo, que incluí por sentir que de alguma forma tinha essa obrigação ou as pessoas esperavam isso. E eles disseram que eu não precisava de fazer isso, era bom a fazer outras coisas, que devia escrever piadas sobre outras coisas. Achava uma coisa e eles queriam que não me limitasse a isso. Há uma frase que gosto muito, do Kanye West, que é um psicopata, como sabemos, mas de quem sou muito fã, que diz “as pessoas às vezes são limitadas pela perceção que têm de si próprias”. E se olhares para ti de fora, podes fazer coisas que não te imaginas a fazer. E neste caso estava a ser limitado pela perceção de mim próprio. Cada vez mais o meu público são as pessoas que me vão ver ao vivo. Tanto que ao longo deste ano a minha ativação principal vai ser o espectáculo, as pessoas que me irão ver são as mais importantes de todas. Mas as pessoas que me vão ver também são as que consomem os conteúdos online, que veem o “Erro Crasso”, que viram muitas outras coisas que fiz. É difícil quantificar isso, ser objetivo nesse aspeto. Hoje em dia as pessoas que me pagam para ver ao vivo são as mais importantes.

Andaste a preparar o “Consciente” naquela sala pequena do São Jorge algures em Setembro?
Sim, foi um dos locais onde o fiz.

Faltam espaços assim em Lisboa?
Faltam. E das poucas tentativas que houve… na verdade, houve uma única tentativa de um espaço que abriu e fechou ao final de alguns meses, ou um ano, porque era muito mal gerido…

Qual?
O Lisboa Comedy Club. Faz falta, sim, mas o mercado precisa de crescer um pouco mais para que isso possa ser um negócio rentável. Mas acredito que estamos a caminhar para isso. E não havendo isso há uma série de outras formas de contornar o assunto. Há boas iniciativas de transformar espaços que não são comedy clubs em comedy clubs temporários. Iniciativas como o “Construção”, em que montámos o nosso próprio comedy club numa sala do São Jorge, várias noites que vai havendo noutros espaços. Felizmente há vontade e um espírito de iniciativa por parte dos comediantes e há cada vez mais abertura por parte dos espaços para fazer noites de comédia. Vamos contornando a questão como podemos.

"É mais importante que se façam boas noites de comédia que corram bem do que abrirem espaços que morrem ao fim de pouco tempo, que nos faz recuar mais do que avançar. Como quando uma televisão dá uma oportunidade a um determinado formato, se essa sitcom fracassar, vamos demorar nove anos até uma televisão arriscar e investir numa outra sitcom".

E fazer algo como o “Construção” funcionar de uma forma regular?
É possível, não sei se é possível agora. Mas com algum crescimento do mercado isso virá a ser possível de uma forma muito sólida em dez anos, talvez até menos, cinco, vá lá. É mais importante que se façam boas noites de comédia que corram bem do que abrirem espaços que morrem ao fim de pouco tempo, que nos faz recuar mais do que avançar. Como quando uma televisão dá uma oportunidade a um determinado formato, se essa sitcom fracassar, vamos demorar nove anos até uma televisão arriscar e investir numa outra sitcom. É mais importante que o mercado cresça de uma forma sustentada e depois tenhas um comedy club quando ele já pode sobreviver, do que ter um espaço que abre e depois fecha, porque isso pode retrair investidores, marcas que se queiram associar. Preciso que cresça de maneira sustentada, para que não desapareça.

Vês isso a acontecer pelo país fora? Viajas pelo país, vês clubes, bares, a existirem em todo o país?
Um comedy club mesmo?

Não, noites de comédia.
Sim, sem dúvida. Isso já acontece. Não diria pelo país todo, mas há um eixo, de Aveiro para cima, mais coisa menos coisa, há uma cultura muito forte de noites de comédia no norte do país. E esse é um dos locais, quando estou em fase de testes, onde aproveito para testar material. E são algumas das noites em que vai mais malta. É um dos sinais de evolução, o pessoal já percebe, de vez em quando pode aparecer um gajo mais conhecido que vem para experimentar. E é um momento giro para toda a gente, vês mais um comediante que não estavas à espera, já tinhas pago uma entrada para ver aqueles e vais ver mais um. As pessoas já compreendem que ele estava em ambiente de teste e de experiência e isso pode dar-lhes pica para depois irem vê-lo numa coisa maior e mais a sério.

Consegues sentir quando o teu material resulta ou não resulta?
Sinto o público mais evoluído, sabe o que está a ver, sabe como o stand-up funciona, claramente. Mesmo que possamos todos concordar que as coisas podem evoluir, as coisas estão muito melhor do que estavam há uns anos.

Voltando ao “Consciente”. Que tipo de humor é que tentaste trabalhar e que espectáculo quiseste apresentar?
O facto é que este é o meu espectáculo mais consciente até agora, mas não é só isso. O sentido de humor é a forma de nos tornarmos mais conscientes acerca de qualquer assunto. Fazeres humor e desconstruíres uma tragédia com humor é uma forma de a processares, aceitares, refletires sobre ela, desmistificares a sua presença, de aceitares que as tragédias fazem parte da tua vida. Ao invés de teres medo de falar sobre elas, tentares fingir que não existiram, isso é pior para toda a gente. Não acho que o humor perpetue maus comportamentos. A falta de bases, de educação, de princípios é que o perpetuam. Se a pessoa tiver bases e educação sólida, isso permite que as pessoas não perpetuem maus comportamentos. E se houver humor ainda podem refletir sobre o assunto e rir-se. A falta de bases, de educação, de transmitirmos coisas importantes às pessoas, na educação, e desde cedo, é o real culpado, mas é fácil culpar os humoristas. Ou seja, uma piada sobre uma doença não é o que vai perpetuar a tragédia. Faz falta falares com os teus filhos e ensinares coisas, transmitires valores. Isso, sim, vai ajudar a que se tornem pessoas melhores. Não é por se rirem de uma piada sobre uma tragédia que vão ser pessoas piores. Isto é a minha visão. O “Consciente” não aborda propriamente tragédias, nem sequer é o caso, mas é uma forma de explicar a importância que o sentido de humor para mim tem para a consciência das pessoas. Se olhares para a vida com sentido de humor tens uma visão mais abrangente e colorida do que sem. A falta de sentido de humor é, para mim, uma espécie de daltonismo. E se olhares para as coisas com sentido de humor, vais ter uma experiência de vida mais completa. Graças ao meu sentido de humor, ganho mais consciência sobre aspetos da vida que eu não ganharia de uma forma mais limitada.

"Por enquanto os rendimentos do programa chegam para ajudar as despesas que aquilo dá. Mas ainda não são suficientes para cobrir, requer investimento da nossa parte"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Tinhas necessidade de falar?
Surgiu-me naturalmente. Não acho que o humor tenha essa obrigatoriedade, para mim o humor só tem obrigatoriedade de fazer rir. Mas da mesma forma que há doze anos o que me estimulava era encontrar uma piada fixe para fazer com determinada imitação, hoje em dia o que me está a estimular fazer é isto.

Sentes que estás no ponto da tua carreira em que tens de fazer isto?
Não sinto que tenha de fazer nada. A não ser aquilo que me dá prazer fazer. E o que me estimula fazer. Não é por uma questão de obrigatoriedade ou sentir que alguém me impôs isso. É mesmo porque nesta fase, com a pessoa que sou hoje em dia, o humorista que sou, a experiência de vida e profissional acumulada, é isto que quero oferecer agora. É o que me está a dar prazer e estimula fazer agora. Estou numa fase que trabalhei a vida inteira para atingir, que é viver quase exclusivamente de stand-up, ser quase a minha atividade principal, chegar para viver confortavelmente. Como o caso do “Erro Crasso”, que é um investimento 100% nosso. E não só isso, como outros projetos semelhantes que possam vir a acontecer. Portanto, poder fazer exatamente o que nos estimula artisticamente, viver bem disso e financiar outros projetos é de sonho e estou muito contente por ter chegado a esta fase e desfrutar dele.

Aos dezoito anos, ou antes, o que te fez seguir esta carreira?
É uma necessidade, fazer rir. É uma espécie de sociopatia, um vício meio autista até da nossa parte, de tentar encontrar qualquer coisa, a toda hora, que possa provocar uma reação de riso nas outras pessoas. É um prazer que nós temos e um exercício cerebral do qual não conseguimos abdicar. Portanto, estava talhado… podia não ter conseguido, não ter tido sucesso, inevitavelmente iria tentar ser humorista por ter essa vontade incontrolável.

Mas há doze anos o panorama de stand-up não era como era agora.
Não era, mas já existia.

Mas vias isto a acontecer? Tinhas vontade de fazer espectáculos de stand-up?
Tinha totalmente, era de longe o sonho de uma vida. Não só se realizou, como felizmente é possível fazê-lo em melhores condições. Não só pelo meu trabalho desenvolvido, mas pelo desenvolvimento do mercado em si.

O que fazes quando não estás a trabalhar?
Falei disto com um amigo no outro dia, o Filipe Homem Fonseca, e somos iguais. Quando não estamos a trabalhar queremos é escapismo, coisas que não tenham nada a ver com trabalho. Não consumo muita comédia e a comédia que consumo, quando estou a ver, sinto que estou a trabalhar. Exceto com stand-up, com isso consigo abstrair-me mais, e se for fã, consigo ver, quase pelo prazer infantil de ver alguém de quem sou fã. Mas quando não estou a trabalhar, procuro fazer coisas que não têm nada a ver com comédia. Ficção científica é um dos meus géneros preferidos, leio banda-desenhada, jogo Playstation.

O que jogas?
Sobretudo “FIFA”. “FIFA” e “Call Of Duty”.

E jogas online?
Ocasionalmente. Prefiro jogar o modo história, jogar contra o computador, do que perder contra crianças de sete anos. E comer, gosto muito de comer. E faço desporto para poder comer.

"O Louis C.K. é um dos melhores humoristas de todos os tempos, teve um comportamento lamentável e um problema psíquico grave. Há muitos aspetos a ter em conta, não se pode ir só para o preto ou branco. Há muitas áreas cinzentas, é válido para ele, para o Michael Jackson, para uma série de outros."

O “Erro Crasso” foi um desejo de entrar no comboio do YouTube ou veio com o desejo de criares algo independente?
O YouTube foi uma consequência, por ser o meio onde fazia mais sentido ter um conteúdo daqueles, livre, não foi do género “agora vou tornar-me YouTuber”. O “Erro Crasso” nasceu da necessidade de ter um projeto 100% independente onde pudesse fazer o que quisesse criativamente. Numa primeira fase, iria ser um podcast, curtia ter um podcast onde poderia falar livremente com pessoas e desenvolver um espaço meu. Depois pensei que o meu sidekick poderia ser o Pedro Teixeira da Mota, por ser um humorista jovem de quem gostava, que estava numa fase em que fazia sentido inclui-lo num projeto. E depois entrámos numa fase de que mais do que conversa gostávamos de fazer jogos e rubricas com as pessoas. Começámos a perceber que o lado dos desafios perdia se fosse só áudio. Ao decidirmos que teria de ser filmado, surgiu-nos o nome “Erro Crasso”, foi uma ideia do Pedro. Estávamos em Dublin os dois, porque fomos lá ver o Louis C.K., antes de ser oficial que ele era um psicopata. E estávamos numa esplanada a beber pints de Guiness ao meio-dia, fizemos um brainstorming e surgiu o nome “Erro Crasso”. Como até àquele momento nenhuma televisão me tinha dado essa oportunidade, resolvi chegar-me à frente. Já existe um certo culto do programa, já ultrapassou os cem mil subscritores, as visualizações do programa estão sólidas entre os 200 e 300 mil, o nosso programa mais visto de todos tem quase meio milhão. E a ideia é continuarmos a fazer aquilo pelo prazer que nos dá.

Há rendimentos daí?
Por enquanto os rendimentos do programa chegam para ajudar as despesas que aquilo dá. Mas ainda não são suficientes para cobrir, requer investimento da nossa parte. A nossa intenção foi sempre ter um conteúdo bom para oferecer às pessoas e que se reflete de outras maneiras, como nas receitas dos espectáculos ao vivo. Dá um retorno gigantesco em termos artísticos.

Saberes o que se sabe hoje do Louis C.K., mudou alguma coisa sobre o que achas sobre ele?
Obviamente que muda na parte humana. Enquanto humorista, continua a ser genial, o que se descobriu é lamentável. Mostra que infelizmente ele tem um problema mental. E é triste. Mais do que qualquer outra coisa, é triste.

Mas conseguirias ver ou rever o trabalho dele da mesma forma?
Conseguiria abstrair-me disso por momentos, ver a comédia e apreciar por si só. Quando tens uma relação artística forte com alguém, consegues abstrair-te disso até de uma forma irracional. Sinto que a comédia é escrutinada de uma forma que outras áreas não são. Embora nunca tenha sido provado, a relação do Michael Jackson com crianças sempre foi muito duvidosa, e muitas pessoas não duvidam… não está provado, lá está, mas muitas pessoas não duvidam que ele tenha tido comportamentos errados. Mas alguém questiona que ele tenha sido um dos maiores artistas de todo o sempre? Não. Acho que ninguém. Da mesma forma que o Louis C.K. é um dos melhores humoristas de todos os tempos, teve um comportamento lamentável e um problema psíquico grave. Claro que sim, nesse aspeto… há muitos aspetos a ter em conta, não se pode ir só para o preto ou branco. Há muitas áreas cinzentas, é válido para ele, para o Michael Jackson, para uma série de outros.

Fotografias de Diogo Ventura

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