O Presidente da República foi informado pela primeira vez na terça-feira ao início da noite pelo primeiro-ministro de que a ministra da Administração Interna tinha, por sua iniciativa, apresentado a demissão. O chefe de Estado concordou de “imediato” com a saída, alegando que não se podia “violentar quem considera não ter condições para continuar a desempenhar funções”. Marcelo Rebelo de Sousa, apurou o Observador junto de fonte de Belém, foi desde logo apologista da ideia de ser o primeiro-ministro a assumir a tutela, o que considera que “dá força e liderança à resposta à crise”.
Os dois combinaram que Luís Montenegro assumiria a pasta da Administração Interna pelo menos até ao fim-de-semana, o que significa que o próximo ministro nunca deverá ser apresentado antes da próxima semana, mas apenas quando passar a fase mais crítica da crise provocada pelo mau tempo. De resto, Luís Montenegro está há muito a acompanhar pessoalmente todo o dossiê relacionado com os efeitos das tempestades que se abateram sobre o país — Maria Lúcia Amaral já estava praticamente arredada de toda a operação mesmo antes de ter saído do cargo.
A expectativa de Belém é assim que ainda seja Marcelo a validar o nome e a dar posse ao novo ministro. Ao contrário do que chegou a circular, fonte de Belém nega ao Observador que o atual Presidente se tenha recusado a fazer uma remodelação mais alargada. A mesma fonte explica que o primeiro-ministro apenas apresentou proposta para esta alteração “muito específica” e nunca propôs qualquer outra mudança de lugares no Executivo.
Além disso, acrescenta a fonte de Belém, o atual Presidente da República “sente que tem toda a legitimidade para fazer qualquer remodelação até ao dia 9 de março, uma vez que está em plenitude de funções.” Ou seja: jamais Marcelo “deixaria uma decisão dessas para o próximo Presidente”.
A expectativa do ainda Presidente da República, perfeitamente alinhado com Luís Montenegro nesta matéria, é que só seja conhecido um novo ministro depois de passar o perigo para as populações. Até lá, será o primeiro-ministro, em conjunto com os secretários de Estado agora reconduzidos, a despachar e a liderar todas as decisões num momento particularmente crítico para o país. “Não faz sentido nomear [ministros] nesta altura”, diz fonte do Governo.
Em rigor, Montenegro não contava com a saída de Maria Lúcia Amaral neste momento. Ainda assim, e segundo foi possível apurar junto de várias fontes, a ex-provedora da Justiça chegou a um ponto de não retorno do ponto de vista emocional e até de resistência física. A pressão e o desgaste inerentes ao cargo levaram Maria Lúcia Amaral ao limite. Entre o deve e o haver, o primeiro-ministro percebeu que não tinha forma de pedir (mais uma vez) à sua governante para continuar.
A decisão de mexer na Administração Interna já tinha sido tomada por Luís Montenegro há muito tempo. Maria Lúcia Amaral também tinha manifestado disponibilidade para sair pelo menos desde o final de dezembro. O primeiro-ministro conseguiu convencê-la a ficar até que chegasse um momento mais oportuno para remodelar.
A tempestade Kristin e a situação cada vez mais difícil no terreno levaram a que a ministra “com base na [sua] iniciativa”, como sublinhou Montenegro, decidisse deixar o cargo. Perante os argumentos utilizados e o estado anímico de Maria Lúcia Amaral, o primeiro-ministro percebeu que não tinha outra alternativa que não fosse deixar sair a agora ex-ministra.
Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro deslocaram-se esta quarta-feira à zona de Coimbra para acompanharem aquela que parece ser a situação mais sensível no momento. Ao lado do primeiro-ministro, o ainda Presidente da República mostrou total solidariedade institucional. “O que se pode fazer, está a ser feito. O que é possível fazer em conjunto — APA, câmaras, instituições sociais, Estado — está a ser feito”, sublinhou Marcelo.
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