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Nelson Mandela foi libertado há 35 anos
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▲Nelson Mandela foi libertado há 35 anos

AFP/Getty Images

▲Nelson Mandela foi libertado há 35 anos

AFP/Getty Images

Na África do Sul, "Mandela já não é um super-herói". Sobretudo para os jovens, que querem "tudo mais depressa"

Nelson Mandela foi libertado há 35 anos. Na África do Sul, perdeu entretanto a aura de ícone incontestado. Sobretudo entre os jovens negros, que dizem ainda viver num "apartheid económico".

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Khulu Mbatha lembra-se perfeitamente daquela manhã de 11 de fevereiro. O histórico membro do ANC  — o African National Congress, à altura movimento de libertação negro contra o apartheid na África do Sul — estava em Atenas, como delegado enviado pelo partido, para participar numa cimeira inter-religiosa. Os trabalhos deviam começar às 8h00, mas foram de imediato interrompidos: os media internacionais começavam a noticiar que Nelson Mandela, ativista do ANC preso há 27 anos, iria ser libertado, depois de um acordo proposto pelo Presidente F. W. de Klerk. “Porra…”, suspira Mbatha ao lembrar-se dessa manhã, num telefonema com o Observador a partir de Pretória. “Dizia-se ‘O Mandela pode sair, o Mandela pode sair!’”

Se na Grécia havia agitação, na África do Sul o ambiente era frenético. Jonny Steinberg — à altura um estudante branco, de 19 anos, profundamente envolvido na luta anti-apartheid na Universidade — foi a correr com os colegas para o bairro do Soweto, na esperança de ver Mandela regressar a casa. “Não vimos nada”, reconhece. “Mas, naquele dia, no Soweto ninguém foi trabalhar. Havia milhares de pessoas nas ruas, foi um dia mágico. Nunca senti um espírito de poder coletivo tão forte como aquele.”

Seria preciso esperar pela tarde para ver a tão aguardada imagem: Nelson Mandela, de 71 anos, atravessa o portão da prisão e é recebido por um pequeno grupo e pelas câmaras de televisão. De fato e gravata, dá uma das mãos à mulher, Winnie Mandela, enquanto caminham. Ambos levantam a outra mão num punho cerrado. “Foi um dia estranho e maravilhoso”, resume ao Observador Steinberg. “Um ser humano estranho, mítico, que quase ninguém tinha visto e que encarnava a própria ideia de liberdade do país.”

De Klerk, ex-PR da África do Sul durante o apartheid, morre aos 85 anos

▲ F.W. de Klerk com Nelson Mandela

STR/EPA

Em vez de ir diretamente para o Soweto, Nelson Mandela parou primeiro em frente ao edifício da Câmara Municipal de Joanesburgo, para discursar perante a multidão que o aguardava. “Camaradas e compatriotas, cumprimento-vos a todos em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos”, disse. À altura, os sul-africanos ainda não sabiam que este era o pontapé de saída para a democratização do país, que se tornaria plena com as eleições de 1994, vencidas pelo próprio Mandela.

Mas, como explica o “camarada” Mbatha, o simbolismo daquele momento já valia por si só: “Só ouvir a voz dele… Não interessava o que ele dizia, só a voz! Ele estava vivo, estava forte, estava preparado para liderar a África do Sul em direção à liberdade. Estava pronto para negociar, mas numa negociação a sério. E continuava a acreditar nos princípios, valores e ética da libertação.”

Os “born free” desencantados com a política

Thato Molefe não era nascido quando Nelson Mandela foi libertado. Nem sequer quando se realizaram as primeiras eleições livres, em 1994 — só nasceria um ano depois. Este jovem advogado de 30 anos sabe sobre aquele dia de fevereiro o que lhe foi transmitido pelos pais e avós — “sobretudo a alegria” do momento — e também pelo que leu. Reconhece o mérito de “Madiba”, alcunha pela qual Mandela era conhecido, mas considera “injusto” que se coloque sobre ele toda a responsabilidade da transição, para o bem e para o mal.

Mais do que isso: apesar de toda a admiração que nutre pela figura, Thato reconhece que o Mandela dos seus pais e avós não é o mesmo que o seu e o dos seus amigos. “Não acho que os jovens ‘born free’ [‘os nascidos em liberdade’ alcunha dada no país aos que nasceram depois de 1994] admirem Mandela da mesma foram que aqueles que viveram o apartheid admiram”, diz ao Observador o advogado, a partir da Cidade do Cabo.

“Há um sentimento forte de que Mandela ‘se vendeu’ quando negociou a transição, porque esta manteve muita da velha ordem intacta. Sobretudo manteve a riqueza e o poder nas mãos dos brancos. Não acho que toda uma geração pense assim, mas esta é uma interpretação do que aconteceu na década de 1990 que é cada vez mais comum entre os jovens politicamente ativos e mais à esquerda.”
Jonny Steinberg, autor sul-africano

“Para nós, há o sentimento de ‘eles puseram a mesa’. Com a visão do ANC, dos outros partidos, da sociedade civil, do setor privado… Nós, os jovens, queremos dizer: ‘Obrigado por terem posto a mesa, mas queremos ser nós a dizer-vos agora como é que devem ser as coisas daqui para a frente.’”

Os “born free” não são todos iguais, alerta o escritor Steinberg, dizendo que “é difícil generalizar”. Mas não há dúvidas de que há aquilo a que chama de um “desencantamento com a política” entre as gerações mais novas e que está a transbordar, sobretudo entre “uma minoria da classe média intelectual”, para um descontentamento até com o próprio Mandela — durante anos figura unificadora da nação.

“Há um sentimento forte de que Mandela ‘se vendeu’ quando negociou a transição, porque esta manteve muita da velha ordem intacta. Sobretudo manteve a riqueza e o poder nas mãos dos brancos”, nota o escritor. “Não acho que toda uma geração pense assim, mas esta é uma interpretação do que aconteceu na década de 1990 que é cada vez mais comum entre os jovens politicamente ativos e mais à esquerda.”

O “apartheid económico” que ainda existe: “Hoje em dia, o condutor do autocarro é negro. Mas continuamos no mesmo autocarro”

Essa “velha ordem” que “manteve” os privilégios nas mãos da minoria branca é comprovada pelas estatísticas — apesar de não ser tão óbvio se Nelson Mandela merece arcar com toda essa responsabilidade.

Stefan Chavez-Norgaard, autor de uma tese de 2015 sobre os “born free”, resume assim a situação: “Os jovens sul-africanos, em particular os negros, têm visto o fosso racial e económico cavar-se cada vez mais desde o fim do apartheid, o que os deixa descontentes com a relação entre o governo democrático e a redistribuição da riqueza”, diz ao Observador o professor de Políticas Públicas. “Continua a existir uma precariedade material gritante: estima-se que 32% dos sul-africanos estão desempregados e cerca de 13 milhões de pessoas, ou seja, quase 25% [da população] vivem graças ao Rendimento Mínimo do Estado. O número de negros nesta situação é desproporcional.”

epa10113757 Unemployed men stand near a hardware store looking for work at a popular store in Johannesburg, South Africa, 10 August 2022. According to the Quarterly Labour Force Survey (QLFS) for the first quarter of 2022, the unemployment rate was 63.9 percent for those aged 15-24 and 42.1 percent for those aged 25-34 years, while the current official national rate stands at 34.5 percent. A lack of education and training is considered the root cause of unemployment in South Africa.  EPA/KIM LUDBROOK

▲ Homens desempregados oferecem os seus serviços como canalizadores à beira de uma estrada em Joanesburgo

KIM LUDBROOK/EPA

Segundo dados do Banco Mundial, a África do Sul é, neste momento, o país com o maior nível de desigualdade do mundo. O fosso entre ricos e pobres é gritante — 10% da população possui 80% da riqueza — e tende a traduzir-se diretamente num fosso entre brancos e negros: de acordo com dados da Comissão de Direitos Humanos do país, 64% dos negros sul-africanos são classificados como pobres; entre os brancos, apenas 1% estão nessa condição.

O país com a maior taxa de desemprego do mundo tem também uma taxa de desemprego jovem ainda mais chocante: 45,5% da população entre os 15 e os 34 anos não tem emprego, de acordo com os dados oficiais.

Thato Molefe escapou a essa sentença, porque conseguiu trabalho num escritório de advogados. Mas sabe que é uma exceção. “Muita gente está frustrada, porque, mesmo tendo lutado para entrar na Universidade e tendo conseguido tirar o seu curso, estão agora sentados em casa, sem emprego. É desmotivante, porque sempre nos disseram que se tivéssemos um curso, teríamos um emprego. Mas na verdade tornamo-nos só ‘empregáveis’ e não empregados, não há trabalho”, afirma. “A triste verdade é que há muitos sul-africanos jovens que fizeram a sua parte, esforçaram-se e as suas expectativas não foram cumpridas.”

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Para além da dificuldade para os mais pobres — a larga maioria das vezes negros — em pagarem as propinas para tirar um curso, o futuro sucesso profissional, nota o advogado, assenta muitas vezes nas “redes de relações que colocam a pessoa no sítio certo” — e que são geralmente dominadas pelos sul-africanos brancos.

É por isso que o veterano Khulu Mbatha não hesita em dizer que o país ainda vive uma forma de apartheid, de caráter económico: “Oficialmente, vivemos numa sociedade não-racial, mas o racismo e a discriminação não se resumem a ser tratado de forma igual perante a lei”, decreta. “A maioria das pessoas não foi puxada das condições económicas que existiam quando tínhamos racismo e discriminação. E a maioria destas pessoas são negras, enquanto a maioria da riqueza continua a pertencer aos brancos. Daí que a maioria dos negros olhe para esta sociedade e diga: o governo falhou-nos.”

Mfundo Mtirara, sobrinha do próprio Nelson Mandela, resumiu em tempos a questão desta forma: “Hoje em dia, o condutor do autocarro é negro. Mas continuamos no mesmo autocarro.”

O ANC e a “mancha permanente” da corrupção

Na África do Sul pós-1994, dizer “o governo” é como dizer “o ANC”. No poder desde o primeiro executivo liderado por Mandela, o movimento de libertação tornado partido passou a ser sinónimo do Estado. E o descontentamento com as promessas não cumpridas recai, naturalmente, sobre ele.

Mas o ANC não é apenas vítima das circunstâncias. Mbatha, autor do livro Unmasked: Why the ANC failed to govern, aponta o dedo aos seus camaradas, por não terem sabido fazer a transformação de “movimento de libertação” para partido democrático — uma crítica que estende a outros movimentos semelhantes em África, como o MPLA em Angola e a FRELIMO em Moçambique. “Não perceberam que já não estavam numa luta pela libertação. Libertação de quem? De vocês próprios?”, questiona. “Gerir um país não é como gerir um movimento destes, onde há um centro de comando. ‘O Presidente fala e todos têm de obedecer’? Não é assim, numa democracia há várias vozes.”

Para além dos tiques autoritários, um outro fator sujou permanentemente a reputação do ANC ao longo dos anos: a corrupção. Envolvendo vários responsáveis do partido, num país com milhões a viver abaixo do limiar da pobreza, foi cristalizada na presidência de Jacob Zuma, implicado em vários escândalos. “Esse é o principal fator do descontentamento com o ANC”, nota Jonny Steinberg. “O partido é visto como uma organização totalmente podre, corrompida, que serve apenas os seus próprios interesses e essa é uma mancha permanente. Nunca vai desaparecer completamente.”

“Não perceberam que já não estavam numa luta pela libertação. Libertação de quem? De vocês próprios? Gerir um país não é como gerir um movimento destes, onde há um centro de comando. ‘O Presidente fala e todos têm de obedecer’? Não é assim, numa democracia há várias vozes.”
Khulu Mbatha, membro histórico do ANC

Para alguns, o nome de Mandela começou de certa forma a ser ligado a este funcionamento corrupto do ANC. “Não acho que ele seja visto como a fonte da corrupção, mas há quem considere que, sem querer, ele foi um facilitador dela, forjando uma aliança entre ‘uma nova elite negra’ e a ‘velha elite branca’”, acrescenta o escritor. “Não creio que alguém ache que ele era corrupto, mas há quem pense que o novo regime que ele criou é permissivo face à corrupção.”

Winnie Mandela, “o verdadeiro soldado”, contra um Mandela “corrompido”

Um homem em particular tem impulsionado esta mensagem ao longo da última década: Julius Malema, antigo presidente da Juventude do ANC que fundou o partido Economic Freedom Fighters (EFF). Destacando-se pelas roupas “de classe operária” e as boinas que usam até no Parlamento, os políticos do EFF defendem propostas radicais como a expropriação de terras a sul-africanos brancos e a nacionalização de várias indústrias.

“Nas universidades vê-se que partidos como o EFF são muito populares. São como um fogo na barriga dos jovens que querem atingir a liberdade económica ainda nesta geração”, conta Theto, de 30 anos. “Quando Julius Malema deixou o ANC e fundou o próprio partido, muitos jovens seguiram-no, porque pensaram ‘Aqui está um jovem que vai enfrentar ‘A Mãe ANC’”.

epa08215988 Opposition Economic Freedom Fighters (EFF) party leader Julius Malema objects as South African President Cyril Ramaphosa attempts to deliver his State of the Nation address at the opening of the national parliament in Cape Town, South Africa, 13 February 2020.  EPA/SUMAYA HISHAM / POOL

▲ Julius Malema, líder dos EFF, criticou Mandela no passado

SUMAYA HISHAM / POOL/EPA

Malema não hesitou em explorar os sentimentos dúbios de alguns sul-africanos face a Nelson Mandela. Nos primeiros tempos do partido, ainda em 2015, declarou: “Não pertenço àquela religião chamada Mandela.” E elaborou: “Se não querem votar em mim porque critico o Mandela, então querem viver uma mentira. Deem o vosso voto àqueles que vivem em mentira, eu não o faço.”

Em concreto, o líder do EFF partilhou uma tese que, dez anos depois, ganhou raízes junto de muitos membros da geração “born free”: a de que, depois sair da prisão, quando Nelson Mandela se separou da mulher Winnie, foi viver para casa de uma família branca rica, os Oppenheimers, e que isso abriu caminho a “um arranjinho” com a antiga elite dos tempos do apartheid. “Nelson Mandela costumava ir aos clubes dos homens brancos que dominavam a economia sul-africana na altura”, acusou Malema.

O escritor Jonny Steinberg, que é também autor do livro Winnie & Nelson, resume a “narrativa” que diz ter sido criada pelo líder dos EFF e que ganhou tração junto de muitos jovens: “Quando Mandela deixou Winnie, em 1992, passou alguns meses a seguir na casa de um empresário na área das seguradoras muito rico, Douw Steyn. Malema pegou nesta história e disse ‘Depois de 1992, Mandela deixou de estar com Winnie e de ser influenciado por ela e passou a ser influenciado pelos capitalistas brancos’.”

▲ Winnie Mandela, a ex-mulher de Nelson Mandela, é ainda vista como um símbolo revolucionário por alguns jovens

KEVIN SUTHERLAND/EPA

Não por acaso, os EFF também têm explorado amplamente a imagem de Winnie Mandela como uma verdadeira revolucionária — a ex-mulher de Madiba levou a cabo várias ações violentas em nome do ANC durante o apartheid —, por oposição a Nelson Mandela. “Winnie como o verdadeiro soldado, que se manteve fiel à ideia de mudança radical, e Mandela como o homem que foi corrompido e a quem os capitalistas brancos lavaram o cérebro depois de ser libertado”, ilustra Steinberg. “Esta é a grande narrativa populista que pessoas como Malema continuam a alimentar.”

Thato Molefe reconhece que conhece muitos que pensam como o líder do EFF no que a Mandela diz respeito. O advogado diz que não quer ir tão longe, porque não sabe “o que aconteceu naquelas reuniões” durante a transição e porque, citando uma frase cara ao próprio Madiba, “um santo é um pecador que continua a tentar”. Já sobre Winnie Mandela, não esconde a admiração: “A História fez dela uma vilã e acho que tinha muitas contribuições a dar ao país que só agora entendemos. Mas toda a gente tem defeitos, o senhor Mandela também, e não quero sentir que tenho de tomar uma posição a favor de um ou de outro. Ambos fizeram coisas importantes.”

A eleição histórica e o tombo do ANC, que podem marcar uma nova fase “pós-Mandela”

O EFF pode ter capitalizado com este discurso, sobretudo junto dos jovens, mas nem por isso se tornou um portento político. Hoje em dia, diz Jonny Steinberg, “é um partido em perigo”. “Teve muito sucesso quando surgiu, mas agora já não consegue crescer mais”, descreve, apontando que o partido não tem conseguido ir além dos 10% em eleições.

Não é o crescimento do EFF, nem a sua narrativa “anti-Mandela”, que ajuda a explicar o recente resultado histórico das últimas legislativas, em maio de 2024: embora tenha sido o partido mais votado, o ANC teve um tombo, dos 57,5% que obteve na eleição anterior para 40%. Isso significou que, pela primeira vez, o partido deixou de ter maioria absoluta no Parlamento e foi obrigado a negociar com a oposição para formar governo.

Parte desse resultado explica-se pelo sucesso repentino do MK, o partido formado pelo ex-Presidente Jacob Zuma — despeitado após a expulsão do ANC na sequência dos vários casos de corrupção que o envolvem — e pela fatia do eleitorado captada pelo EFF. “É claro que são ameaças ao ANC”, resume Steinberg. “Mas isto acontece num contexto em que a participação eleitoral foi muito, muito baixa.”

epa10368687 South African and ANC President, Cyril Ramaphosa  prior to his address at the 55th ANC (African National Congress) National Conference held in Johannesburg, South Africa, 16 December 2022. The event held every five years determines the leader of the ANC and the TOP 6 of the party as well as future ANC policy. This conference will be critical in the future of South African President Cyril Ramaphosa as he tries to retain leadership of the party after the damming Phala Phala report.  EPA/KIM LUDBROOK

▲ O Presidente Cyril Ramaphosa é o atual líder do ANC, à frente de um governo de coligação

KIM LUDBROOK/EPA

O alerta do investigador não é displicente, se tivermos em conta que, nestas eleições, a abstenção atingiu o valor mais alto desde as primeiras eleições democráticas, em 1994: 42%. Se a tendência for a mesma do ato eleitoral anterior, em 2019, quase metade dos abstencionistas serão jovens com menos de 30 anos. O sentimento foi ilustrado por um ativista do Soweto, Prince Qwabe, num evento em 2022 onde questionou o que ganham os sul-africanos em votar. “Se eu comprar um frigorífico, há uma garantia. Neste caso, estou a comprar uma promessa. Se ela não for cumprida, eu devia poder retirar o meu voto. É por isto que milhões de pessoas não votam, o voto já não tem valor”, desabafou.

Após as eleições de 2024, emergiu um novo governo na África do Sul que, pela primeira vez, não é totalmente controlado pelo ANC: apresentou-se como o título de “Governo de União Nacional”, mas é na prática uma coligação entre o ANC, a Aliança Democrática (DA, partido ligado à minoria branca, mas que foi oposição ao apartheid) e o pequeno partido IFF.

Seria de esperar que, num país habituado a uma maioria sólida de um partido só, esta nova realidade pudesse ser difícil de navegar — ainda para mais com os ferozes MK e EFF na oposição. Mas o Presidente Cyril Ramaphosa tem, pelo menos para já, conseguido evitar grandes pontos de tensão e ruturas. As sondagens dos últimos meses mostram até uma ligeira subida quer do ANC, quer da DA.

“A certa altura vamos ter de deixar de falar dos Mandelas e perceber que foram figuras importantes, mas as suas palavras e ideologias não vão necessariamente moldar a África do Sul do futuro. Por isso, sim, admito: Mandela já não é um super-herói para os jovens.”
Thato Molefe, advogado de 30 anos da Cidade do Cabo

“Se eles conseguirem trabalhar juntos, manter a estabilidade e conseguir algum sucesso económico, creio que as pessoas vão continuar a votar neles”, prevê Steinberg. “Não com grande alegria ou confiança, mas olhando para eles como o mal menor.” O histórico Mbatha tem dúvidas que será esse o caso: “Este governo chega numa altura de profunda insatisfação com a política, em que a maioria dos jovens estão desempregados. Chega numa altura em que nem todas na nova geração respeitam os feitos do passado e querem tudo feito mais depressa.”

E, no meio de tudo isto, como fica o legado de Nelson Mandela na África do Sul de hoje? Para Thato, representante desta geração nascida em liberdade, há que reconhecer o seu papel como figura histórica que trouxe o fim do apartheid, mas é tempo de olhar em frente. “A certa altura vamos ter de deixar de falar dos Mandelas e perceber que foram figuras importantes, mas as suas palavras e ideologias não vão necessariamente moldar a África do Sul do futuro. Por isso, sim, admito: Mandela já não é um super-herói para os jovens. Só para aqueles que são mais velhos e se lembram bem dele.”

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