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"Não fez assim tanta diferença". Entre o "prestígio" e o romper do "anonimato", qual o impacto do prémio Nobel na vida de um investigador?

O Observador conversou com dois vencedores do Nobel da Química, para perceber o impacto desta distinção na carreira e na vida de um investigador — e se o peso do galardão mudou ao longo das décadas.

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“Já estamos quase naquela altura, não é?”, brinca Thomas Cech, numa conversa com o Observador poucos dias antes da entrega dos primeiros Nobel de 2026. O investigador norte-americano entrou na prestigiada lista de laureados em 1989 e, quase todos os anos, no início de outubro, admite continuar a sentir o mesmo entusiasmo para acordar por volta das 4h para acompanhar os anúncios dos novos vencedores do prémio mais cobiçado do mundo. Até porque, apesar de não ir a Estocolmo há mais de duas décadas, o químico continua a ter um papel na seleção dos laureados nas áreas da Fisiologia ou Medicina, Química e Física.

Thomas Cech não é “o tipo de pessoa de ficar à espera de um telefonema em outubro”, conta ao Observador. Em 1989, não corriam rumores de que seria o seu trabalho na descoberta das propriedades catalíticas do RNA a ser premiado com o Nobel da Química, mas os vários prémios que recebeu nos anos anteriores eram um bom indicador de que o reconhecimento máximo acabaria por chegar. Este ano, quem vencer o Nobel da Química, por exemplo, para além da medalha de ouro e e de um diploma, vai para casa com 12 milhões de coroas suecas (cerca de um milhão de euros), que terão de ser divididos entre os vários laureados que normalmente são reconhecidos no mesmo ano. Mas um prémio Nobel é “mais do que isso”.

Já se passaram 37 anos desde que Thomas Cech foi à capital sueca pela primeira vez, mas o norte-americano com ascendência checa continua a considerar que este reconhecimento “tem um enorme peso”. “Existem muitos outros galardões, incluindo prémios com dotações financeiras superiores à do Nobel, como o Breakthrough Prize, criado por figuras de Silicon Valley, como Mark Zuckerberg”, afirma o investigador. Mesmo estas entidades, diz, medem “o seu próprio sucesso pelo número de laureados que acabam por vencer também o Prémio Nobel”. De acordo com Thomas Cech, “o Nobel continua a ser o padrão de referência” a nível mundial.

Richard Henderson venceu o mesmo prémio em 2017. O investigador britânico tornou-se laureado por um trabalho feito ao longo da década de 1980, mas cuja relevância na sociedade só se manifestou décadas mais tarde. “O testamento de Alfred Nobel estabelece especificamente que tem de haver um avanço intelectual com impacto real, e não apenas algo que dez pessoas considerem interessante”, explica ao Observador. Mesmo que já só tenha sido reconhecido numa fase posterior da sua carreira, sustenta o ponto de vista do químico norte-americano. A Academia Real de Ciências da Suécia e o Instituto Karolinska, diz Thomas Cech, “são instituições excelentes” e que, garante, levam muito a sério a análise de potenciais laureados. “Os prémios dividem opiniões porque é necessário escolher um vencedor em detrimento de outros e, ocasionalmente, ocorrem omissões. Mas o comité faz um trabalho de investigação minucioso. Recebem entre 500 e 600 nomeações anuais por categoria. Investigam cada caso em detalhe e pagam a especialistas para elaborarem relatórios. Eu próprio já fui consultado pelo comité do Nobel para avaliar determinadas áreas, tanto antes como depois de ter sido premiado”, recorda, reforçando que o prémio monetário “já não tem o peso relativo de outros tempos”, mas o “prestígio mantém-se intacto”.

O “peso” e o “prestígio” são, para estes laureados, indiscutíveis. Ambos admitem, no entanto, que os benefícios de vencer um Nobel não são tão evidentes como se esperaria. O único dever de um cientista premiado é dar uma palestra em Estocolmo na altura da cerimónia de atribuição do prémio, em dezembro, habitualmente. Porém, com a mediatização surgem outras responsabilidades e “muitos, muitos pedidos” de presenças em diferentes instituições mundiais que “só querem ter um Nobel a falar”, independentemente da área de especialização.

O Observador conversou com dois vencedores do Nobel da Química, para perceber o impacto desta distinção na carreira de um investigador e como o universo do galardão máximo da ciência mudou ao longo das décadas.

epa08869369 A handout photo made available by The Nobel Prize shows the Nobel Prize medal and diploma being presented to chemistry laureate Emmanuelle Charpentier at the Swedish Ambassador's Residence in Berlin, Germany, 07 December 2020.  EPA/BERNHARD LUDEWIG / THE NOBEL PRIZE HANDOUT MANDATORY CREDIT: THE NOBEL PRIZE HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Os laureados recebem uma medalha de ouro, com a figura de Alfred Nobel, bem como um diploma e uma parte de um prémio monetário que ronda um milhão de euros

BERNHARD LUDEWIG / THE NOBEL PRIZE HANDOUT/EPA

Richard Henderson e os “deveres” de um Nobel

Richard Henderson tinha 72 anos quando venceu o seu Nobel. Sete anos antes, em 2010, tentou reformar-se da investigação. Mas, por ter obtido uma resposta negativa — “não podes reformar-te”, recorda a conversa —, acabou por continuar nos corredores do laboratório de Biologia Molecular em Cambridge até aos dias de hoje. “Para as pessoas que gostam do seu trabalho, isto é como um hobby pago”, brinca, sentado na cadeira do seu gabinete.

Mesmo já tendo ultrapassado a idade da reforma no Reino Unido e com um prémio Nobel na prateleira, o biólogo de formação continua a ir “todos os dias” para o laboratório, onde agora assume um papel “mais de mentoria”, a acompanhar diferentes projetos. Considera que “nada mudou”. Chega mesmo a admitir, questionado diretamente sobre o impacto que o prémio teve na sua carreira, que “não fez assim tanta diferença”.

O Nobel de Richard Henderson

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O trabalho que valeu o prémio Nobel da Química ao investigador britânico em 2017 foi desenvolvido, na verdade, durante a década de 1980. Richard Henderson, Joachim Frank e Jacques Dubochet foram distinguidos com o galardão por terem desenvolvido uma técnica de observação microscópica que preserva a estrutura de biomoléculas em solução, permitindo uma análise com alta resolução. Com esta técnica denominada de “microscopia crioeletrónica”, que passa por “congelar” as moléculas ativas, os investigadores passaram a conseguir gerar, de uma forma mais eficaz, imagens tridimensionais destes materiais biológicos. Em 1990, 15 anos após o primeiro modelo desenvolvido, Richard Henderson conseguiu captar as primeiras imagens de sempre com resolução atómica de uma proteína.

Naquele laboratório do Medical Research Center, num dos campus mais conhecidos do Reino Unido, já trabalharam 16 laureados ao longo do último século. Só quatro continuam vivos em 2026 e apenas um permanece a rondar as bancadas. “O Greg Winter [Nobel da Química 2018] fechou o seu grupo de investigação cerca de quatro anos depois do prémio; o John Walker [Nobel da Química 1997] continuou, mas está reformado; e o Venki Ramakrishnan [Nobel da Química 2009] fechou o seu laboratório há um ano para escrever livros”, descreve o Nobel da Química de 2017, admitindo que, apesar de não ter o seu próprio grupo de investigação, trata da “papelada” e das “avaliações” num grupo com “pessoas mais jovens”.

Por já estar nesta fase da sua vida quando recebeu uma chamada vinda da Academia Real de Ciências da Suécia, não sentiu grandes alterações na carreira de investigador, por ter adicionado um novo acessório ao seu palmarés. “No geral, acredito que tem um impacto positivo na vida de um investigador”, menciona de passagem, apesar de reconhecer que a grande maioria dos profissionais já se encontra na casa dos 50 ou 60 anos quando são distinguidos. “Mas há algumas obrigações”, aponta.

Oficialmente, o único dever de um laureado é dar a tal palestra em Estocolmo, mas existem muitas expectativas quando se entra no clube mais prestigiado de investigadores do mundo. “A principal de que me lembro foi quando somos convidados para ir a Estocolmo, permitem-nos levar convidados. Pensei em convidar membros da família, filhos e netos. Uma delas disse que achava que não podia faltar à escola, mas comentou com o professor de química que o avô tinha ganho o Prémio Nobel da Química e o professor ficou extremamente entusiasmado, muito mais do que eu ou as crianças”, recorda o investigador. Como consequência última do reconhecimento pelo seu trabalho, acabou a dar palestras nas escolas dos vários netos, para garantir que nenhum se sentia excluído.

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    Richard Henderson ganhou o Prémio Nobel da Química em 2017, com Joachim Frank e Jacques Dubochet
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    Richard Henderson ganhou o Prémio Nobel da Química em 2017, com Joachim Frank e Jacques Dubochet
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Além dos netos, Richard Henderson desabafa que recebe cerca de 100 convites por ano vindos de universidades e organizações de todo o mundo, que “tudo o que querem é convidar um vencedor do Prémio Nobel”. O laureado acusa várias destas entidades de quererem apenas “a figura” e não manifestarem interesse pela sua área de investigação. “Querem-nos como uma decoração para uma cerimónia de graduação. Sei de pessoas que ficam tão satisfeitas por serem convidadas que vão a tudo. Mudam a sua carreira inteira, param toda a investigação e tudo o que fazem é viajar a dar palestras, tornam-se celebridades”, refere.

Apesar de ser em tom de crítica, confessa que vê “algum valor” nos cientistas que tomam esta decisão. “Pode haver alguém numa universidade de que nunca se ouviu falar que ouve a palestra e decide seguir uma carreira na ciência”, lança a hipótese. O biólogo britânico só vai se estiver em causa um evento relacionado com a sua área de investigação ou se conhecer a organização. “Pessoalmente, se não houver ligação nem valor, não vou. E conheço muitas outras pessoas que fazem o mesmo. Só se houver significado por trás”, explica.

Thomas Cech e os que mais “beneficiam” da distinção de Estocolmo

Nunca se esquece o primeiro autógrafo. No caso de Thomas Cech, aconteceu enquanto escolhia laranjas no supermercado, pouco tempo depois de ter sido anunciado como vencedor do Prémio Nobel da Química de 1989. “Era completamente anónimo. Normalmente, ia ao supermercado comprar comida e ninguém sabia quem era”, conta ao Observador. De um momento para o outro, passou de ser um investigador recém-eleito para a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos — que via como uma “honra que realmente importava” —, para um orador convidado no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça.

“Esse tipo de coisas nunca teria acontecido antes”, confessa. Esta foi a grande mudança que verificou na sua vida, aos 41 anos, quando chegou a chamada vinda de Estocolmo em outubro daquele ano. De resto, a vida continuou. “Como cientista e professor, não acho que tenha mudado muita coisa, porque já estava numa boa posição profissional, já era respeitado na área”, refere, admitindo até que apesar de reconhecer o valor da instituição, não se “importava assim tanto” com o Prémio Nobel. A diferença foi mesmo só com o “público em geral”.

O Nobel de Thomas Cech

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O trabalho de Thomas Cech procurou, de certa forma, responder à questão eterna sobre a origem da vida. O bioquímico norte-americano descobriu que o RNA tinha capacidades catalíticas, que conseguia potenciar reações químicas no núcleo de uma célula, ao contrário do que se acreditava na altura. A descoberta, que foi premiada em 1989, obrigou a adaptação de muita literatura existente na época. Antes dos trabalhos publicados por Thomas Cech e Sidney Altman, acreditava-se que o RNA se limitava a transmitir a informação genética existente no DNA, que determinava a composição e a função das proteínas. Contudo, descobriram que para além de cumprir estas funções, que os ácidos nucleios que compõem aquela cadeia única também eram enzimas — na altura, acreditava-se que apenas as proteínas podiam ter funções enzimáticas.

Thomas Cech foi o 13.º laureado mais jovem de sempre na área da Química. Estava, por isso, numa fase distinta da sua carreira quando comparado com a grande maioria dos vencedores do mesmo prémio, como Richard Henderson. Não interrompeu a sua carreira, continuou a investigar como se nada tivesse acontecido e, nesse sentido, não nota qualquer benefício direto do prémio na sua investigação. “Já tinha um financiamento muito bom. Não ficou pior depois do Nobel, mas também não ficou significativamente melhor. Não precisava de ficar melhor”, sublinha.

Nesta métrica, considera que quem beneficia mais com a distinção são as instituições onde os investigadores têm os seus grupos de trabalho. “Anunciam o número de vencedores do Prémio Nobel que têm, o facto de continuar a gerir um laboratório e a ensinar estudantes é algo destacado pela universidade; e está tudo bem. Estou grato por terem dado um teto ao nosso trabalho e fico satisfeito que retirem algum benefício indireto disto”, afirma Thomas Cech.

O investigador que conversou com o Observador foi o primeiro laureado da Universidade do Colorado, em Boulder. Entretanto, já passaram por lá mais quatro. Com cada Nobel nos quadros, as universidades “aumentam o seu prestígio”. No caso de Richard Henderson, o investigador britânico começou logo numa das melhores instituições do mundo. “Ganharam um Prémio Nobel cerca de seis meses após a abertura, por causa de trabalhos anteriores”, conta. E estes resultados acabam por “definir um padrão”.

“Se novos cientistas mais jovens, digamos, líderes de grupo, estão a tentar fazer algo bastante aborrecido e não muito importante, rapidamente ficam com a ideia de que talvez devessem estar a fazer algo mais desafiante, porque este laboratório ainda é muito bem financiado. Os investigadores não dependem de concursos, de bolsas. A maior parte do financiamento é global, de todo o instituto”, explica o biólogo. Este esquema acaba por ser o padrão entre as maiores universidades e centros de investigação no globo.

  • Thomas Cech ganhou o Prémio Nobel da Química em 1989, com Sidney Altman
    Lars Åström/Nobel Foundation
  • Thomas Cech ganhou o Prémio Nobel da Química em 1989, com Sidney Altman
    Lars Åström/Nobel Foundation

Voltando a Thomas Cech, que descreve a Universidade do Colorado como “muito boa”, dá o exemplo de Berkeley, de Stanford, de Harvard ou MIT, “que quase todos os anos recebem um ou dois Nobel”. É um valor exagerado, mas demonstra a ideia de que “o sucesso atrai sucesso” e que o prestígio do Nobel gera uma espécie de bola de neve que acaba por atrair mais financiamento para a instituição e mais investigadores e projetos promissores. “No nosso país [EUA] há muitas doações filantrópicas para as universidades, e as pessoas ricas tendem a pensar nestas mais reconhecidas como os lugares que devem apoiar”, completa.

Na Europa, os exemplos são Cambridge e Oxford, no Reino Unido, ou o Instituto Max Planck, na Alemanha, bem como o próprio Instituto Karolinska, na Suécia. “Em Portugal, estão numa situação semelhante à do Colorado. Têm excelentes universidades, mas, por alguma razão, não têm sido vistas como as do topo na Europa”, considera. Thomas Cech acredita que a ausência de prémios Nobel nos corredores das universidades não deve ser interpretada como um sinal de pouca qualidade — e vice-versa. “Não significa que todos se devam mudar para as outras. Tive as minhas propostas, considerei-as e decidi que posso tanto fazer o meu melhor trabalho como viver a minha melhor vida num local rodeado pela natureza e numa comunidade menor”, conta.

O “processo humano” e os eventos que “mantêm um estilo” há mais de um século

Nunca há mais do que três laureados por prémio, por ano. Podem ser menos, mas nunca mais. Isto leva a que, em alguns anos, haja pessoas que “injustamente” são excluídas do anúncio em outubro. “É bom ter um limite, caso contrário haveria pressão para ter um número enorme de pessoas a ganhar todos os anos”, confessa Thomas Cech. Contudo, o investigador que se formou em Boulder, no estado norte-americano do Colorado, admite que, depois de ter começado a participar no processo de votação, começou a aperceber-se desta exclusão.

“Muitas vezes, confrontamo-nos com dilemas: como é que podemos deixar esta pessoa de fora se foi a verdadeira pioneira? De facto, os outros três fizeram um trabalho fantástico mais tarde, mas esquece-se de quem foi pioneiro”, desabafa. Neste momento, Thomas Cech está em Vancouver há um ano como “visiting professor“. Na Simon Fraser University, aos 78 anos, dá aulas a estudantes de licenciatura na casa dos 20. “Continuo a apreciar a interação humana. As novas gerações vivem nas redes sociais, mas considero esse formato demasiado distante do contacto humano. Não utilizo redes sociais”, diz ao Observador.

E é nesta valorização pelo “humanismo” no processo de seleção de laureados que Thomas Cech encontra o prestígio das instituições. “Por ser um processo humano, não se espera perfeição”, defende. O interesse nos anúncios que costumam ser transmitidos ora na Academia Real de Ciências da Suécia (no caso da Física e da Química) ora no Instituto Karolinska (para a Fisiologia ou Medicina) aumentou particularmente no final da década passada.

“Estava convicto de que a descoberta da edição genética com o CRISPR ia vencer o Nobel. Mas, ano após ano, o prémio não saía”, descreve. Jennifer Doudna era uma das principais cabeças à frente do projeto inovador que hoje em dia é o “gold standard” para a manipulação de genes. A bioquímica foi, também, bolseira de pós-doutoramento no laboratório coordenado por Cech em Boulder. “Acompanhei o processo com entusiasmo, todos os anos, até que finalmente aconteceu em 2020”, lembra com um grande sorriso no rosto.

Ao seguir este processo novamente três décadas após ter sido o premiado, Thomas Cech teve a oportunidade de comparar a sua experiência à da vencedora no ano da pandemia. “Em 1989, não tínhamos internet nem redes sociais, escrevíamos cartas em papel”, começa o investigador. “No entanto, os eventos em Estocolmo mantêm um estilo muito consistente, com mais de um século e, de alguma maneira, nunca passam de moda”, acrescenta, referindo que ambos tiveram experiências “muito semelhantes” na cerimónia de entrega do prémio.

Mas com a entrada numa nova era digital, onde já existem redes sociais e a internet, os laureados enfrentam uma “realidade nova”. “Os pedidos para falar são mais frequentes e agora até recebo solicitações geradas por bots de inteligência artificial, que apago logo”, descreve. E, tal como Richard Henderson, a resposta aos pedidos verdadeiros costuma ser negativa.

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    Jennifer Doudna, vencedora do Nobel da Química em 2020, foi bolseira de pós-doutoramento no laboratório coordenado por Thomas Cech em Boulder, no Colorado
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    Jennifer Doudna, vencedora do Nobel da Química em 2020, foi bolseira de pós-doutoramento no laboratório coordenado por Thomas Cech em Boulder, no Colorado
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Aproveitar a beleza da Escandinávia no inverno e não “mandar palpites”: os conselhos dos laureados para os Nobel do futuro

O impacto que o Prémio Nobel tem na vida de um investigador, no fundo, “depende da pessoa”. Segundo Richard Henderson, é possível que o galardão altere o comportamento de alguns e algo que acontece “ocasionalmente” entre os novos laureados é dizerem: “Sempre soube que tinha um bom discernimento e agora tenho um Prémio Nobel, por isso posso começar a fazer declarações sobre tudo, incluindo coisas de que não sei nada”.

Para os próximos membros do clube Nobel, Richard Henderson deixa um conselho simples: “Não andem por aí a mandar palpites sobre coisas de que não sabem nada”. O biólogo britânico foca as suas recomendações nas camadas mais jovens, nas próximas gerações de cientistas. “A melhor coisa a fazer ao escolher a carreira de investigação ou um tópico é garantir que escolhem algo em que estejam genuinamente interessados. Porque sempre que houver dificuldades — quer a experiência não funcione, quer não haja dinheiro ou não se seja promovido —, precisam de estar motivados por estar genuinamente interessados no que fazem”, diz ao Observador.

Não é comum os novos vencedores pedirem conselhos aos veteranos sobre a “nova vida” após o Nobel. “Não há uma rede de Alumni” ou um “grupo” de laureados, como revela Thomas Cech. “Se há, nunca fui convidado”, ri-se. “Mas uma coisa que notei é que, quando comunicamos, chegamos uns aos outros muito facilmente. Se enviar um e-mail ao Phil Sharp [Nobel da Fisiologia ou Medicina 1993], recebo uma resposta dentro de uma hora. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas nunca receberia uma resposta”, afirma o bioquímico.

Quando venceu o seu Nobel, Thomas Cech optou por continuar a sua vida “como se nada tivesse acontecido”. Aos 41 anos, tinha “filhos jovens” e, por isso, considerou importante “não deixar que estar no centro das atenções destruísse a situação familiar”. “Se levava a minha filha à escola na traseira da minha bicicleta todas as manhãs, vou continuar a fazê-lo”, conta. Não se arrepende de ter “banalizado” o momento, sublinhando que é “importante ser verdadeiro com quem se é”, mas confessa que se tivesse de dar um conselho a um novo laureado, seria “tire algum tempo livre”.

“Não tente apenas manter a sua vida a funcionar normalmente. Aproveite durante um ano. Vai receber um número enorme de pedidos de entrevistas, de comentários, para viajar, e compreenda apenas que este é um momento especial na sua vida e não o afaste, aproveite”, comenta o bioquímico norte-americano, que não viveu o próprio conselho. A onda do Carpe diem não deve parar em dezembro, quando acontece a “festa enorme” na capital da Suécia.

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▲ Os vencedores dos Prémios Nobel da Química e da Física juntam-se numa cerimónia em Estocolmo, no mês de dezembro, com a presença da família real sueca

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“Às pessoas que acabaram de ganhar o prémio: estejam preparadas, isto é algo grande, vai ser uma semana maravilhosa de jantares, brindes, palestras e visitas a diferentes partes da Suécia numa estação em que a maioria dos turistas não vai. Em dezembro, na Escandinávia, é pôr do sol o dia todo. Tirem partido e desfrutem desta oportunidade única na vida”, recomenda Thomas Cech.

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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