Em 1413, Henrique, Príncipe de Gales, foi aclamado rei na Abadia de Westminster, o local da coroação desde o século XI. Henrique V sucedeu ao seu pai, Henrique IV, que, por circunstâncias especiais, foi empurrado para um trono que nunca deveria ter sido seu. A tragédia de Henrique IV foi a felicidade do filho. Ao contrário do pai, que sempre se sentiu culpado por ter ocupado um lugar que não lhe pertencia, Henrique V abraçou o papel de rei com a energia e determinação que lhe eram características, deixando uma marca tão profunda na história medieval inglesa que, ainda hoje, passados seis séculos, continua a ser lembrado como um dos grandes de Inglaterra.
Porquê? O que é que torna Henrique V tão especial? Winston Churchill, na sua história de Inglaterra, chamou-lhe “um raio de esplendor” na “história sombria e perturbada da Inglaterra medieval”. Dan Jones, autor da mais recente biografia do rei inglês, descreveu-o como “o maior rei guerreiro de Inglaterra”. Na introdução do seu livro, recentemente publicado em Portugal pela Vogais, o historiador britânico explica que Henrique V foi “o monarca que mais fez para promover a língua inglesa como idioma preferido de poetas e patriotas”, através de diversos patrocínios, como aquele que deu as escritores como Thomas Hoccleve e John Lydgate, e que foi recordado, na Idade Média e para lá dela, “como o apogeu da realeza: o homem que cumpriu a função exatamente como era devido”, estabilizando o governo da nação depois de décadas de grande instabilidade política.
Mas foi pelos “feitos militares espantosos” que Henrique V ficou conhecido. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que marcou a agenda política inglesa durante mais de um século, acabou por ser a grande obsessão do rei, que, tal como o seu bisavô, Eduardo III, usou todos os recursos disponíveis para estabelecer a sua posição em França — incluindo os bens da madrasta —, uma operação que culminou com a retumbante vitória inglesa em Agincourt (1415), mas que levou à morte precoce do monarca, com apenas 35 anos.
Já muito foi dito e escrito sobre Henrique V e dificilmente haverá muito mais para dizer. Contudo, na opinião de Dan Jones, que dedicou os últimos 20 anos a escrever sobre os Plantagenetas, a dinastia que dominou praticamente toda a Inglaterra medieval, esta personagem fascinante e intrigante merecia um novo livro, que explorasse ao pormenor “a sua vida antes de ser rei”, e não apenas os pontos altos da sua carreira militar e política — porque Henrique V só se tornou rei “a meio da história”. “Foi por isso que planeei ao longo da última década escrever uma biografia que consistisse num retrato autónomo do rei e do homem, ao mesmo tempo que também servia de volume final para ser lido a par de The Plantagenets e de The Hollow Crown [sem edição em Portugal]: não propriamente a terceira parte de uma trilogia, mas o painel final de um tríptico”, escreve o historiador.
O filho do novo rei
Henrique V nasceu provavelmente a 16 de setembro de 1386, no castelo de Monmouth, em Inglaterra. A sua mãe era Maria de Bohun, o pai Henrique Bolingbrook, filho do duque de Lencastre, João de Gante, um dos mais poderosos, ricos e influentes homens do reino, e pai da rainha portuguesa, D. Filipa de Lencastre. Henrique V não foi criado para ser rei, mas passou a infância e primeira juventude no círculo próximo de um monarca — o seu primo, Ricardo II de Inglaterra. O primeiro grande evento oficial em que participou foi o casamento de Ricardo em 1396, em Calais, com a filha mais velha do rei de França, Isabel de Valois, que tinha seis anos (o rei inglês tinha 29). A boda foi firmada como parte de um acordo de paz com o reino vizinho, com o qual Inglaterra estava em guerra desde 1337— um conflito pelo qual Ricardo II não tinha qualquer interesse e que queria que terminasse o mais rapidamente possível.
Em 1396, Ricardo II ocupava o trono de Inglaterra há quase 20 anos. Tinha apenas dez anos quando foi coroado após a morte do avô, o idoso Eduardo III, em 1377. O pai, outro Eduardo, conhecido como o Príncipe Negro, morreu em 1376, vítima de uma doença contraída durante uma campanha militar no reino de Castela, no norte de Espanha, da qual nunca recuperou. Inglaterra era, então, um reino esgotado de todos os seus recursos, que tinham sido empregues por Eduardo III na guerra em França sem resultados visíveis. A nação estava cansada e Ricardo, que tinha uma personalidade muito diferente da do seu pai e da do seu avô, estava determinado a pôr um ponto final no assunto. Queria dedicar-se tranquilamente àquilo que lhe dava mais prazer — ao luxo e à cultura da corte, na companhia de um grupo fechado de amigos que apoiavam todas as suas decisões, por mais extravagantes que fossem.
▲ A capa de "Henrique V", de Dan Jones, na edição portuguesa da Vogais
Mas nem tudo estava bem em Inglaterra. Em 1388, a dependência de Ricardo pelo seu grupo de amigos chegados e os seus gastos descontrolados tinham empurrado para a ação um grupo de nobres, entre os quais se incluíam o seu primo, Henrique Bolingbroke, e o seu tio, Tomás de Woodstock, que passaram a controlar o reino. Em 1391, Ricardo II conseguiu recuperar o controlo, mas nunca se esqueceu do que lhe tinham feito. Assim, em 1398, quando ninguém esperava, agiu contra aqueles que lhe tinham tirado o poder, exilou a maioria, incluindo Henrique, e mandou matar Tomás de Woodstock, que tinha sido levado para Calais. Após a morte de João de Gante, Ricardo deserdou o primo, despojando-o de todas as riquezas e títulos. Em 1399, Henrique decidiu agir — regressou do exílio e tomou o reino, mudando a sua vida, e a do seu filho, para sempre.
Henrique IV foi coroado na tarde de 12 de outubro de 1399, um domingo, na Abadia de Westminster. Chovia torrencialmente. O seu filho Henrique, com 13 anos, acompanhou o pai de perto, carregando, ao longo do corredor central da igreja, a Cortana, a espada cerimonial usada na coroação dos reis de Inglaterra. Era ainda uma criança, mas já tinha idade suficiente para perceber o que tal mudança implicaria na vida do pai e também na sua. No ano seguinte, Ricardo II, que tinha sido obrigado a abdicar em favor do primo, foi assassinado no Castelo de Pontefract, onde estava detido, terminando assim com uma conspiração que pretendia voltar a colocá-lo no trono.
Henrique, o Príncipe de Gales com uma cicatriz feita por uma flecha
Henrique IV foi levado a substituir um rei que tinha causado grandes convulsões internas e cuja governação foi tudo menos consensual, mas o seu reinado não foi mais fácil do que o de Ricardo II. Desde o início que a sua pretensão foi contestada, e Henrique teve de lutar sem descanso contra as vozes dissidentes que pediam insistentemente que fosse substituído no trono, ou por um Ricardo falso ou por um primo afastado com sangue azul, consoante os seus próprios interesses. Nem mesmo os territórios fronteiriços, há muito em mãos inglesas, lhe deram descanso — em 1400, depois de mais de um século de domínio inglês, Gales revoltou-se. O responsável pela insurreição foi Owain Glyndwr, “um homem de bom nascimento, muito instruído e endurecido em combate”, com cerca de 40 anos, que queria deitar as mãos ao título de Príncipe de Gales. Assim, em outubro desse ano, o rei enviou o filho, que detinha o título, para Chester, na fronteira com Gales, para lutar pelo que era seu.
A campanha em Gales foi a estreia militar do príncipe Henrique. E foi uma experiência que o marcou profundamente. Um dos pontos altos foi a batalha de Shrewsbury (1403), que opôs os exércitos de Henrique IV e de Henry Percy, conhecido como Hotspur. Como explica Dan Jones, “infelizmente, a promoção do príncipe Henrique para encabeçar os assuntos galeses e a maneira entusiástica como abraçou a tarefa” exasperou Hotspur, que tinha sido tenente de Gales, e a família Percy, há muito envolvida nos assuntos galeses. Quando, na primavera de 1403, Henrique assumiu formalmente a tenência de Gales e se preparou para exercer o poder, os Percy explodiram de raiva e descontentamento. Não só abandonaram a luta contra os galeses, como decidiram contestar a própria prevenção de Henrique IV à coroa, difundindo o boato de que Ricardo II continuava vivo e de boa saúde e que se preparava para lutar pelo trono. O confronto tornou-se inevitável. Em julho de 1403, as duas forças defrontaram-se num campo de batalha perto da cidade de Shrewsbury, onde Henrique estava a preparar mais uma incursão a Gales.
A batalha aconteceu a 21 de julho. Henrique IV saiu vitorioso. Hotspur, morreu em batalha. O jovem Henrique sobreviveu, mas foi atingido na cara por uma flecha. Apesar de ter conseguido arrancar a haste, a ponta de metal ficou enterrada na cara, a uma profundidade de 15 centímetros. O príncipe foi levado primeiro para Shrewsbury e depois para Kenilworth, e o cirurgião John Bradmore foi chamado de Londres para lhe tentar salvar a vida (na Idade Média, um ferimento desse género podia ser mortal). Depois de ter passado vários dias a tentar abrir a ferida, alargando o corte deixado pela flecha, Bradmore introduziu utensílios de metal, que ele próprio concebeu, “bem fundo na cabeça de Henrique, agarrando, afrouxando e puxando para fora a ponta da flecha alojada algures na zona posterior do crânio, enquanto um aposento repleto de servidores ansiosos” assistia. A dolorosa operação foi um sucesso, mas Henrique ficou para sempre com uma marca na cara — uma longa cicatriz, junto ao nariz.
▲ Morte de Henry Percy, conhecido como Hotspur, na batalha de Shrewsbury a 21 de julho de 1403, da qual Henrique IV saiu vitorioso (c. 1860, autor desconhecido)
A recuperação foi demorada — só em setembro do ano seguinte é que Bradmore regressou a Londres e Henrique pode finalmente sair do castelo de Kenilworth e voltar à estrada. A primeira paragem foi no túmulo do santo Thomas Becket, na Catedral da Cantuária, onde agradeceu o milagre da sua sobrevivência. Depois seguiu para Walsingham, onde existia um santuário dedicado a Nossa Senhora. Henrique só regressou a Gales no verão de 1404, onde, mais uma vez, deu provas da sua capacidade militar e de liderança. A revolta em Gales foi eventualmente aplacada e Owain Glyndwr desapareceu sem deixar rasto. Apesar do fracasso da sua campanha, tornou-se um símbolo da resistência galesa, e muitas canções foram escritas sobre ele.
Nos anos que se seguiram à Batalha de Shrewsbury, Henrique IV continuou a lutar contra os inimigos da coroa. Foi também durante esse período que teve os primeiros problemas graves de saúde. Os primeiros sintomas de uma doença que chegou a ser descrita como lepra, um diagnóstico abrangente que podia corresponder a diferentes doenças debilitantes, apareceram no verão de 1405, quando o rei se preparava para mais uma batalha contra os Percy. Em julho, Henrique IV foi afetado por um cansaço extremo e ficou com o corpo coberto por pústulas dolorosas. No ano seguinte, em abril, faltou pela primeira vez à abertura de um parlamento por estar demasiado débil e incapaz de montar o seu cavalo.
Henrique IV nunca recuperou da doença, tendo vivido mais sete penosos anos. E nunca entregou as rédeas do poder. A situação estava longe de ser ideal. Como aponta Dan Jones, um rei incapacitado é pior do que um rei morto, pois provoca entraves legais àqueles que, como o príncipe herdeiro, tentavam manter as engrenagens do poder a funcionar na sua ausência. À medida que o tempo foi passando, o príncipe Henrique começou a sentir-se frustrado — ambicionava ter o poder para tomar decisões, mas esse estava-lhe vedado enquanto o pai estivesse vivo. A situação levou a uma cisão com Henrique IV, que destituiu o filho de todos os seus cargos governativos. O príncipe teve de aprender a ter paciência e a esperar pela sua oportunidade.
O rei enfermo morreu a 20 de março de 1413, depois de ter caído à cama uma última vez. Tinha 45 anos. De acordo com um cronista, o príncipe herdeiro terá sido a última pessoa a visitá-lo. Durante o encontro, Henrique IV terá perguntado ao filho se teria direito à coroa, já que ele nunca teve. “Meu Senhor, como a haveis conservado e protegido com a espada, é também minha intenção conservá-la, guardá-la e defendê-la com a minha vida”, respondeu-lhe o príncipe. “Querido filho, faz agora com ela o que te parecer bem”, disse-lhe Henrique IV, morrendo de seguida.
Henrique V foi coroado a 9 de abril de 1413, um domingo. “Estava mais bem preparado para governar do que qualquer outro rei” antes dele. A sua aprendizagem tinha sido mais longa, “mais rigorosa e mais abrangente nas suas experiências do que a de qualquer outro rei inglês desde que Eduardo I” tinha herdado a coroa em 1272. Apesar disso, muitos duvidavam da sua capacidade para o cargo e para lidar com os desafios financeiros, religiosos e políticos, assim como com o “ressentimento pela dinastia de Lencastre em geral”, que demorava a dissipar-se. Por essa razão, o período que se seguiu, foi um dos “mais dramáticos e memoráveis de toda a história de Inglaterra”, considera Dan Jones. Foi uma época marcada pela reconciliação e estabilização internas, mas também pelo conflito. Henrique V decidiu retomar a Guerra dos Cem Anos e reclamar a herança que o seu bisavô, Eduardo III, não tinha conseguido reivindicar — o trono de França.
Um rei em guerra com França
Nos vários livros que foram escritos sobre Henrique V, o rei é constantemente retratado como um homem duro e desprovido de sentimentalidade. Um retrato que contrasta fortemente com as histórias da “juventude indomável” do príncipe que “fervia com as chamas de Vénus” e que se fazia acompanhar por indivíduos da pior espécie, como descreveu um cronista. Estas foram exploradas por William Shakespeare na peça histórica Henrique V (c. 1599), mas existem poucos indícios de que sejam verdadeiras. O que se sabe ser verdade é que, após a coroação, Henrique V se tornou num homem diferente. A partir desse momento, passou a fazer-se acompanhar por “um séquito de padres, pregadores e sacerdotes profissionais”. “Devoção, fervor, sobriedade e a busca da justiça e da vontade de Deus”: estas foram as características que passaram a definir o rei inglês, mas sem que este abdicasse da dignidade própria de um monarca inglês. Citando uma carta escrita por um espião francês, Dan Jones relata que os ministros do rei pensavam que ele tinha uma “maneira sofisticada de ser de um senhor e uma excelente atitude”. Por outras palavras, tinha todas as características que eram exigidas a um verdadeiro cavaleiro.
▲ A Batalha de Angicourt (1415), por John Gilbert (1817-1897)
Henrique V dedicou os primeiros meses do seu reinado a lutar contra o Lolardismo, um movimento herético iniciado pelo teólogo John Wycliffe, e um dos seus principais líderes, John Oldcastle, que tinha sido uma figura próxima de Henrique. Enquanto o rei lutava contra a heresia em Inglaterra e queimava lolardos na fogueira, do outro lado do Canal da Mancha, em França, as coisas iam de mal a pior. Há vários anos que as duas principais casas francesas — a Armagnac e a de Borgonha — lutavam pelo controlo do reino, aproveitando-se da doença prolongada do rei. Carlos VI, que décadas antes tinha casado a sua filha mais velha com Ricardo II em Calais, sofria de episódios regulares de loucura, durante os quais perdia a noção de quem era e de qual o seu papel no reino. A doença do rei manifestou-se pela primeira vez em 1402, durante um episódio que ficou famoso e que foi imortalizado por Alexandre Dumas num dos seus romances históricos: durante uma viagem ao norte de França para aplacar uma insurreição, Carlos VI teve um ataque de fúria violenta após ouvir o som de uma arma a embater numa armadura. Gritando que estava a ser atacado por traidores, pegou na espada e matou dois pagens. O rei teve de ser controlado, amarrado a uma liteira e levado à força para a cidade de Le Mans, de onde a comitiva tinha acabado de partir. Depois, perdeu a consciência, mantendo-se num estado catatónico durante vários dias. Carlos VI acabou por recuperar, mas nunca mais voltou a ser o mesmo.
Quando Henrique V subiu ao trono, o conflito entre os Armagnac e os borgonheses durava há vários anos e tinha atingido recentemente um novo pico após o assassinato de Luís de Valois, duque de Orleães, irmão de Carlos VI e uma das figuras mais influentes do reino, por João, duque da Borgonha. O rei inglês decidiu aproveitar a situação, reunir um exército e invadir o território francês. O objetivo era recuperar os territórios que tinham sido concedidos ao seu bisavô, Eduardo III, no âmbito do Tratado de Brétigny (1360) e o dinheiro do resgate do rei João II, que foi capturado pelos ingleses durante a Batalha de Poitiers (1356), mas não só. Henrique V foi mais longe e exigiu aos franceses todos os territórios em França que tinham alguma vez pertencido à coroa inglesa, como a Normandia, Maine e Anjou, e ainda a mão da princesa Catarina de Valois em casamento, assim como um dote apropriado.
O exército inglês desembarcou na costa francesa a 19 de agosto de 1415, dando início a uma dura campanha militar na zona da Normandia. Depois de várias expedições falhadas, em outubro, os ventos começaram finalmente a soprar a favor dos ingleses. A 25 de outubro, Dia de São Crispim e São Cipriano, as tropas ingleses enfrentaram os franceses em Agincourt, naquela que se tornou uma das batalhas mais famosas da Guerra dos Cem Anos. Apesar da superioridade numérica dos franceses, os ingleses conseguiram vencer, recorrendo, para isso, a uma estratégia semelhante à que tinha sido usada por Eduardo III na Batalha de Crécy (1346): confiando que os franceses arremeteriam contra o centro inglês, Henrique V posicionou os arqueiros nos flancos, de modo a que estes disparassem as suas flechas à medida que o exército opositor avançava. Cerca de 500 franceses terão morrido, um número que contrasta negativamente com as cerca de 100 baixas inglesas. Sabe-se que, pelo menos, 320 franceses foram feitos prisioneiros. Os restantes sobreviventes, foram chacinados por ordem de Henrique V, que decidiu assim contrariar todas as boas práticas cavalheirescas, que determinavam que os prisioneiros deviam ser tratados com “propriedade, em consonância com o seu estatuto”. Uma decisão que, como aponta Dan Jones, se figuraria “como uma enorme mácula no caráter” do rei.
Depois da Batalha de Agincourt, Henrique V regressou a Inglaterra para celebrar o seu triunfo. E voltou a França no verão do ano seguinte, para concluir a conquista da Normandia. O sucesso dessa campanha, que levou os ingleses pela primeira vez até aos arredores de Paris, levou à assinatura, a 21 de maio de 1420, do Tratado de Troyes. A cerimónia, realizada na catedral da cidade, contou com a presença da rainha, Isabel da Baviera, em representação do rei, ausente por motivos de saúde. O acordo substituiu o Tratado de Brétigny e atribuiu a Henrique V o papel tanto ambicionado pelo seu bisavô: o de herdeiro do trono de França. Composto por 31 cláusulas, o Tratado de Troyes deserdou o delfim, o príncipe herdeiro, e nomeou o rei inglês regente do reino de França durante a restante vida de Carlos VI. Depois da morte deste, a coroa seria transferida para Henrique V e para os seus herdeiros. O acordo definiu também as condições do casamento com a princesa Catarina, que aconteceu a 2 de junho, na Igreja de São João, em Troyes.
▲ A cena em que Catarina fala, na ilustração de Robert Dudley para a peça "Henry V", que William Shakespeare
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Henrique V regressou a casa em fevereiro de 1421. Foi a última viagem que fez a Inglaterra. Morreu pouco mais de um ano depois, a 31 de agosto de 1422, de “uma febre aguda e de disenteria avassaladora” que apanhou durante mais uma campanha em França. Tinha 35 anos. Humphrey, o seu irmão mais novo, ficou encarregue da governação de Inglaterra durante a menoridade do seu filho, o futuro Henrique VI, que ficou famoso pelas suas próprias razões — por precipitar Inglaterra na guerra civil, a chamada Guerra das Rosas (1455-1487).
O melhor rei medieval de Inglaterra?
A vida de Henrique V foi passada no campo de batalha, lutando pelos interesses de Inglaterra dentro e fora de fronteiras. Apesar do esforço que levou a cabo para tentar estabilizar o reino depois de um período conturbado, a verdade é que os seus grandes feitos não foram alcançados na corte ou no Parlamento, mas à frente do seu exército, sobretudo em França, onde conseguiu o que nenhum rei antes dele foi capaz de alcançar: ser reconhecido como herdeiro da coroa francesa. Um feito extraordinário, concretizado por um homem extraordinário. Decidido e destemido, Henrique V fez tudo o que estava ao seu alcance para cumprir os seus objetivos, mesmo quando os meios eram escassos e as probabilidades reduzidas, incluindo aceitar as acusações de bruxaria proferidas contra a sua madrasta, Joana de Navarra, com quem até então tinha uma boa relação, de modo a deitar a mão ao seu dinheiro e usá-lo para financiar a campanha em França.
Justo, mas duro, nunca teve pudor de tomar decisões pouco consensuais que sabia que, mais tarde ou mais cedo, manchariam a sua imagem. Temente a Deus (para alguns até demasiado) e amante das artes (gostava particularmente de música e tocava vários instrumentos), um dos seus passatempos favoritos era a leitura, um hábito que herdou da mãe, tendo sido um grande patrono da literatura em língua inglesa numa altura em que o francês era ainda falado pela maioria dos membros da elite política inglesa. Para o historiador medieval Edward Hall, Henrique V “foi a flor da cavalaria e o modelo que todos os reis bem-sucedidos deviam seguir se quisessem ter êxito”. Mas será mesmo assim?
A Guerra dos Cem Anos, a que o rei inglês dedicou uma boa parte da sua vida e que acabou por ditar a sua morte precoce, foi, em grande medida, uma batalha perdida. Todas as conquistas inglesas acabaram, num momento ou outro, por serem revertidas. Foi assim com Eduardo III e também com o seu bisneto. O dinheiro gasto, as vidas perdidas e o sofrimento humano — tudo foi em vão. França permaneceu teimosamente francesa. Nenhuma das conquistas de Henrique V se tornou permanente. Claro que é preciso encarar estes e outros acontecimentos da vida do rei tendo em conta o tempo em que aconteceram. Independentemente das acusações que se possam fazer contra o seu caráter e ações, a verdade é que, como refere Dan Jones, “no seu tempo, o consenso era de que Henrique se aproximava do modelo ideal da realeza, tanto pela sua conduta pessoal como pelos seus feitos políticos”, e essa reputação só continuou a crescer nos séculos seguintes, o que, em parte, explica a fama que o monarca tem ainda hoje.
Mas se isso não significa que Henrique V fosse perfeito, Dan Jones parece estar convencido de que foi este o melhor rei medieval inglês. O seu Henrique V não tem defeitos, apenas qualidades. O historiador estava tão determinado em passar a imagem de um rei sem falhas que transformou todos os seus erros em vitórias. Quando Henrique se virou contra o seu pai enfermo, na perspetiva de Dan Jones, as suas ações foram o resultado de um desejo ardente de ação e não de uma conspiração para tirar Henrique IV do trono; quando, já rei, aceitou como verdadeiras as acusações de bruxaria contra Joana de Navarra, para Dan Jones, não se tratou de um ato de oportunismo contra uma pessoa que lhe era próxima, mas uma ação inteligente que não teve qualquer consequência para a rainha viúva, o que não é verdade. Aliás, como mostrou a investigação feita por Gemma Hollman, o processo contra Joana de Navarra abriu um precedente que permitiu que outras mulheres nobres e ricas depois dela fossem acusadas e condenadas pelos mesmos crimes, nalguns casos com consequências realmente graves. Dan Jones não reflete sobre nada disso.
▲ O heróico Henrique V, retratado por Benjamin Burnell (1769–1828)
O historiador não chega também a justificar o subtítulo do seu livro e o porquê de considerar Henrique V o “maior rei guerreiro de Inglaterra”. Talvez não considere que seja preciso — os factos falam por si. Ainda assim, é difícil não pensar noutros grandes reis guerreiros de Inglaterra, como Eduardo I, que ficou conhecido pela luta feroz contra os escoceses, e o próprio bisavô de Henrique V, Eduardo III, que deu início à Guerra dos Cem Anos e que passou quase toda a sua vida no campo de batalha, alcançando em Crécy a vitória mais decisiva de todo o conflito. Então, o que é que torna Henrique tão extraordinário? Cada historiador terá a sua resposta a dar, mas, para Dan Jones, a justificação está, mais uma vez, na opinião que os ingleses tinham do seu rei:
“Os contemporâneos de Henrique viam nele um expoente de virtude cristã e cavalheiresca, e a encarnação viva da tradicional dignidade real. O que viam — corretamente — era um monarca que fez os sistemas do governo inglês funcionar como se esperava que fizesse, sem recorrer a inovações forçadas nem manipular o sistema em seu benefício. Viam um defensor da ortodoxia religiosa e um disciplinador severo, mas consistente, que raramente agia irrefletidamente ou imprevisivelmente, e que costumava cumprir a sua palavra. Viam um mestre de guerra que aprendeu com os seus erros e se revelou, até à sua doença final, binariamente difícil de matar.”
Talvez o que distinga Henrique V dos seus antecessores é que todos gostavam dele. Nada mal para alguém que não nasceu para ser rei.