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Nem a gosto, nem toda a noite: como vai ser o verão para os reis do bailarico? /premium

Os bailaricos e as romarias vão ter de esperar, como quase tudo. Ou, pelo menos, terão de ser diferentes. Quim Barreiros, Ágata, Toy e Rosinha vivem “tempos estranhos” mas a olhar para a frente.

“Não há dinheiro para os que choram, quanto mais para os que cantam”, terá dito António de Oliveira Salazar a um grupo de músicos que foi pedir ajuda ao antigo ditador para continuarem a sua actividade. A história foi muitas vezes contada pelo pai de Ágata, uma das mais conhecidas artistas portuguesas de música popular, que se preparava, mais uma vez, para sair em festa no verão. Anos e anos depois, Ágata recorda-se daquela palavras maldosas. Os santos populares foram cancelados ainda durante o estado de emergência e muitas autarquias já fizeram questão de dizer que este verão as festas, muitas delas de cariz religioso, não vão acontecer. É uma pausa na cerveja na mão, na sardinha assada, no beijar, no cantar, no “hum hum” até cansar. E é uma pausa também nos quilómetros corridos pelos principais protagonistas destas festas, das queimas das fitas às romarias.

O Observador foi ouvir quatro artistas que têm feito a vida a entreter milhares de portugueses por esses palcos fora, sendo o símbolo de um país que, quase sempre a partir de maio, se reencontra com os seus emigrantes, de norte a sul. Há um otimismo quase transversal, e talvez meio incompreensível, entre Toy, Rosinha, Quim Barreiros e Ágata, ou porque a profissão sempre os obrigou a andar de sorriso na cara mesmo nas adversidades, ou porque, por agora, não dá para atirar a toalha ao chão. Há sempre a hipótese de se mudar de profissão, de “pôr fim ao sonho”, mas ainda não estamos aí. É preciso preparar 2021.

Quim Barreiros

“Por esta altura estaria diante de 50 mil estudantes, mas estou em casa”

Ainda antes de chegarmos aos meses quentes de junho, julho e agosto, maio costuma ser o cartão de visita de um verão sempre em festa. É a altura das queimas das fitas, muitas vezes palco de más notícias ou de figuras pouco recomendáveis. Mas a verdade é que, apesar dos seus 72 anos, Quim Barreiros estava mais do que pronto para nova voltinha nessas festas. “É um verão mais triste até nas semanas académicas. Nesta altura estaria no Porto com 50 mil estudantes e estou em casa. Tudo a comer, tudo a beber, mas temos de ser positivos. Mas fui um dos mais atingidos”, começa por confessar o obreiro de hits como “Cabritinha” ou a “Garagem da Vizinha”.

Quim Barreiros acredita que as festas religiosas vão voltar e que vai tudo melhorar: “Estou a dizer isso desde março, e olhe que tenho um sexto sentido”

© Ricardo Castelo / Observador

Até meados de outubro tinha 124 concertos marcados. Coisa pouca, portanto. Conseguiu fazer a primeira quinzena de março, mas depois parou tudo. Acredita, tal como o governo português tem feito questão de dizer, no bom senso e civismo do povo, e é por isso que não compreende como é que as autoridades, a par com as Câmaras Municipais, não têm dado licenças para que aconteçam algumas romarias no país.

No entanto, apesar do passo atrás na profissão, Quim Barreiros, que “já devia estar reformado”, prefere tentar dar a volta à questão. “Ainda sou dos homens mais procurados, se não houver trabalho, faço cantigas, letras, músicas, arrumo o escritório. Vou-me entretendo”, conta. Nesse olhar mais pessoal, até arrisca fazer algo que nunca tinha conseguido: tirar férias em Portugal no mês de agosto. “Ter assim uma semana de férias no Alentejo, no Algarve ou no Minho, porque nunca o fiz. Agora ando a correr, a marcar já uns jantarecos e umas patuscadas, sempre com as distâncias. Mas temos é de andar para a frente”, finaliza.

Já Rosinha puxa a cassete ainda mais atrás, para falar do percurso que faz antes de aterrar em Portugal: os espetáculos para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Só depois é que começa o verão aqui, com um disco sempre prestes a ser lançado e promovido. “Até maio fazemos muitos concertos com as comunidades portuguesas no estrangeiro que, este ano, não aconteceram. Depois temos as queimas, ou seja, em maio, trabalhava 20 dias. Todos os anos dizemos, entre nós, que seria bom ter dois diazinhos em casa. Agora estamos literalmente em casa e quem nos dera ter dois diazinhos de concertos”, afirma a cantora.

Quim Barreiros, que “já devia estar reformado”, prefere tentar dar a volta à questão. “Ainda sou dos homens mais procurados, se não houver trabalho, faço cantigas, letras, músicas, arrumo o escritório. Vou-me entretendo”, conta.

Estes dois meses de quarentena foram “estranhos” porque “os dias são todos iguais”, ainda que, como Rosinha vive no campo, acaba por respirar um pouco melhor. Só que o trabalho, que dantes era “fazer a mala e arrancar”, agora está em ponto morto. Porque entre estrada e concertos também há entrevistas de promoção de um novo disco, das televisões às rádios, que acontece tradicionalmente até meio de julho. “Estamos à espera de saber novas indicações por parte do governo para saber se lançamos um disco novo. Não vou lançar um disco e ficar com todos em casa, não é?”, questiona. Neste caso, é difícil dar a volta à questão.

Toy

“É um ano para esquecer, sem direito a subsídios”

Toy, um “homem da união”, admite que nunca esteve parado nestes últimos meses, apesar de ter lhe terem sido adiados quarenta concertos e cancelados outros onze. Estava a caminho de mais um dos seus melhores anos na carreira, a par com 2019, mas levou um abanão, sendo um profissional “sem direito a subsídios”. E por abanão leia-se um “soco no estômago” no que vai ter de pagar de IRC. “É um ano para esquecer, uma página em branco num livro da vida”, diz.

“É possível termos aquilo que vimos no Primeiro de Maio, com as pessoas a ouvir o comício. Tem de haver contenção, máscara, mas não há nem abraços nem beijinhos”, acredita Toy.

Por outro lado, o cantor e compositor português acreditou, “apenas por um dia”, que estaria a tirar umas merecidas férias, só que logo no dia a seguir, surgiram as entrevistas, o dizer “presente” nas redes sociais e até a obrigação de “tirar um curso intensivo de informática” para perceber como funcionavam ferramentas como o Zoom ou o Skype. E depois, apesar do soco dos impostos, continuou a trabalhar, porque um artista de música popular não se resume a estar em palco de microfone na mão. “Tive um convite para escrever músicas para uma novela, tive um ou outro produto publicitário onde compus as canções e hei de fazer dois concertos em streaming. Nunca estive parado”, afirma.

Rosinha: "“Ficámos a zeros desde esse dia [8 de março]. Sou otimista por natureza, mas tenho dúvidas que este ano se realize mais alguma coisa"

PAÍS REAL PRODUÇÕES

Ora e se o ano passado por cada barraquinha de santos populares se cantava “Toda a Noite”, em 2020, Toy acredita que, apesar de terem sido cancelados os festivais e os santos populares, ainda nos vamos poder soltar e libertar. E concorda que as autarquias tenham adiado para 2021 os seus eventos, até porque é ano de eleições. “Acredito que vão acontecer romarias este ano em meados de agosto e setembro, porque há espetáculos que não foram adiados ou desmarcados. Nós trabalhamos para clubes, autarquias, associações, comissões de festas semi-privadas e até para grupos de emigrantes que se juntam”. Ou seja, há comissões de festa que não conseguiram fazer um peditório anual para pagar as festividades, mas há outras que terão dinheiro suficiente para o fazer, seguindo as condições sanitárias impostas pela Direção Geral de Saúde. “É possível termos aquilo que vimos no 1.º de Maio, com as pessoas a ouvir o comício. Tem de haver contenção, máscara, mas não há nem abraços nem beijinhos”, conta.

Ágata

“Pagamos os nossos impostos e não temos regalias nenhumas”

Outra das artistas que já anda nestas lides há muito tempo é Ágata que, apesar de ter uma agenda menos preenchida do que os restantes, também viu alguns dos seus concertos cancelados — só em maio foram nove. Aproveitou para trabalhar num projeto mais intimista, só ao piano e cantado em espanhol, que quer levar às televisões. Cantar ao piano e exercitar a voz, diferente do calor de um concerto, mas talvez não menos compensador. E ainda disponibilizou um mini concerto seu, este mês, para apoiar a Kausa Animal nas suas redes sociais.

Agora, a nível profissional, aí não tem grandes dúvidas: foi mau, muito mau. “Isto foi péssimo a nível profissional. Pagamos os nossos impostos e não temos regalias nenhumas”, afirma. Apesar de “não estar aflita” financeiramente, por ter construído a sua vida com algum fôlego, puxa para si o papel arriscado de falar pelo sector: “Durante um, dois, três meses, conseguimos gerir as nossas vidas, mas depois acaba todo o pé de meia e vamos agarrar-nos onde?”, questiona.

Com iniciativas como o TV Fest, “eu ganhava um amigo e perdia 150". "A melhor maneira era baixar os impostos"

JOÃO SEGURO/OBSERVADOR

Ágata também critica o fundo de emergência da GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas), no valor de um milhão de euros, para os cooperadores daquela instituição. “Foram 500 mil euros só para os cooperadores, desse dinheiro não vou ver nada. Quem não tem IRS tem direito a 200 euros em cartão para ir ao supermercado, uma loucura. Os outros chucham no dedo. Quem paga impostos e está no ativo, não tem direito a nada. O governo devia ter dado um ordenado mínimo a cada artista que está no ativo. Porque os que não estão há muito tempo, aproveitam-se desta fase para ir buscar algum dinheiro”. Afinal, o sorriso na cara de quem vagueia pela música popular não dura para sempre. Isso e o setor não estar assim tão unido como se pretendia, diz-nos.

Rosinha

“É aterrorizante porque a perspetiva é não ter trabalho absolutamente nenhum”

A preocupação com os técnicos que acompanham estes músicos é a outra face, muitas vezes escondida, da crise que atravessa e vai atravessar o panorama musical português. Quim Barreiros resolve esse problema pagando um salário à sua equipa, através do lay off. “Recebem menos, mas dá para comer e para as despesas”. Mesmo assim, o artista acredita que as festas religiosas vão voltar e que vai tudo melhorar: “Estou a dizer isso desde março, e olhe que tenho um sexto sentido”.

Rosinha conta que há colegas seus que já estão a abandonar a profissão, a abandonar o tal sonho, porque quem anda nesta luta só o pode “fazer por gosto”. Mas “vamos todos voltar a levar no pacote, a lavar a amêijoa, a segurar no pincel, sempre com um sorriso. Esse é que nunca ninguém me tira”, conclui.

Rosinha sabe que este setor foi o primeiro a fechar e o último a sair, uma frase que podia muito bem já ter virado slogan de uma das suas canções. Mas ao contrário de Quim Barreiros, Rosinha não conseguiu aderir ao lay off, ainda que falemos de uma artista que faz, em regra, 200 concertos por ano. Tanto a cantora, como os seus técnicos — de um grupo que chega às 20 pessoas — ficaram sem receber nada desde o Dia da Mulher, 8 de março. Lembrando, claro, que para realizar um dos seus espetáculos, também é preciso outro pessoal, fora da sua “estrutura”, como quem trabalha com os geradores de luz ou nos próprios palcos, que está a passar por dificuldades. “Ficámos a zeros desde esse dia. Sou otimista por natureza, mas tenho dúvidas que este ano se realize mais alguma coisa. É aterrorizante porque estamos no início de 2020 e a perspetiva é não ter trabalho absolutamente nenhum”, diz. Até porque depois do verão, vinham novamente as tours pelas comunidades portuguesas noutros países, que estão na mesma situação ou piores do que Portugal.

Conta que há colegas seus que já estão a abandonar a profissão, a abandonar o tal sonho, porque quem anda nesta luta só o pode “fazer por gosto”. Além disso, sabe que há quem precise de apoio para fazer algo tão básico como comer. E apesar dessa situação lhe tirar alegria, não seria a Rosinha se não deixasse uma mensagem mais positiva: “Vamos todos voltar a levar no pacote, a lavar a amêijoa, a segurar no pincel, sempre com um sorriso. Esse é que nunca ninguém me tira”, conclui.

Ágata: “Durante um, dois, três meses, conseguimos gerir as nossas vidas, mas depois acaba todo o pé de meia e vamos agarrar-nos onde?”

Igor Martins / Global Imagens

Toy, apesar de dizer logo que não é vidente, aposta que em 2022 já estaremos como estivemos em 2019: bem soltos. Vai ser preciso aprender a viver com o vírus, mas espera também que o governo português arranje outras alternativas que não o TV Fest — que acabou por não se realizar. “Eu ganhava um amigo e perdia 150. Dá-me a sensação que, apesar de parecer ter sido feita com boa intenção, essa iniciativa provocou desunião. A melhor maneira era baixar impostos”, sugere o cantor.

E é aqui que voltamos à história de Salazar, contada por Ágata: “Eu não tenho dinheiro para os que choram, quanto mais para os que cantam”. Porque, se é verdade que “a música alimenta o espírito”, nos próximos tempos haverá menos disponibilidade — financeira e mental — e vontade para consumir este tipo de música. E os apoios financeiros nunca vão chegar para suprimir as necessidades de todos os artistas.

"Quem não tem IRS tem direito a 200 euros em cartão para ir ao supermercado, uma loucura. Os outros chucham no dedo. Quem paga impostos e está no ativo, não tem direito a nada. O governo devia ter dado um ordenado mínimo a cada artista que está no ativo", queixa-se Ágata.

Do lado do público, há claro quem queira voltar a comer farturas e bifanas, quem conte os minutos para poder voltar às canções e aos bailaricos com anos de vida, mas a Covid-19 deixará algumas marcas. Não será uma mudança radical, é certo, mas 2021 vislumbra vir a ser o ano zero deste sector. E, nesse caminho, há quem já não vá fazer os quilómetros e quilómetros de estrada toda a noite. Quem já não se queira soltar, ou quem queira simplesmente que o vírus saia da sua vida, porque já não o pode ver. Mas há uma garantia: “temos de meter as coisas a mexer”, termina Ágata.

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