O mais provável é ninguém ter reparado que, por mero acaso, o General Pinho Freire, membro do Conselho da Revolução, pernoitou na messe da Força Aérea, em Monsanto, após uma noitada de reuniões. Na madrugada de 25 de novembro, um subordinado informou-o que, ao que tudo indicava — e não há melhor forma de dizê-lo — a unidade estava cercada e o general preso. Felizmente, havia uma arma ao alcance do braço: um telefone. O general desenganchou o aparelho e disparou em todas as direções: Presidente da República, chefe de Estado da Força Maior, bases de Monte Real, Montijo, Tancos — “Então o senhor está preso e está ao telefone”, recriminou um dos paraquedistas sitiantes, que desarmou o prisioneiro.
No final da tarde, os carcereiros de Pinho Freire abandonaram o posto numa correria desalmada. “Vim atrás ver o que se passava e não tardei a perceber: era o coronel Jaime Neves que chegava”, contou ao Expresso, uma semana depois do golpe falhado. “Já não havia nada a temer. Fiquei descansado.” O general voltou ao posto de comando e, entre mais uma rajada de telefonemas, um contacto de Tancos garantiu-lhe que, quando os paraquedistas estavam praticamente “decididos a abandonar a base”, uma personagem inesperada manipulou os sargentos com “promessas de apoio que nunca viriam a ser cumpridas”. O nome era conhecido de qualquer português, ainda mais nos últimos anos: “O cantor Zeca Afonso”.
Este é o último de uma série de três artigos que abordam um período marcado pelas mudanças mais drásticas e repentinas na história da música popular portuguesa, ocorridas em apenas dois anos: o primeiro, sobre a música de intervenção como banda sonora do 25 de Abril, em guerra aberta contra a restante música nacional; segundo, seguindo a euforia revolucionária do Verão Quente; e o terceiro, este, abordando o impacto do 25 de Novembro, que, de novo, alterou radicalmente a canção portuguesa.
“Programas musicais” ou “gargarejo nacional-cancenetista”?
O General Costa Gomes declarou estado de sítio em Lisboa, apelando ao “povo” que não se deixasse “enredar em manipulações estéreis”. A televisão é ocupada, as emissões de rádio silenciadas e a imprensa escrita, alegada cúmplice na trama golpista, imediatamente suspensa. A única informação disponível, difusa e intermitente, chega aos portugueses pela RTP e através da Emissora Nacional (EN). No final do dia, 25 de novembro de 1975, uma locutora da EN coloca a rodar a música revolucionária do costume e, em seguida, uma seleção de canções folclóricas e românticas— a esta altura do campeonato, a balança da História podia pender para qualquer lado.
▲ José Afonso apontava ao Expresso, “braço armado da violência reacionária em Portugal”. O jornal respondia: “José Afonso deixou de ser lúcido"
Na Base de Tancos, em promessa redigida e assinada à mão, um dos músicos mais célebres do país, José Afonso, apoia “incondicionalmente” os golpistas, recusando a ordem de dispersão. Segundo Luís Filipe Rocha, presente em Tancos, naquele momento o Conselho da Revolução ponderou uma ordem de prisão. O Expresso revelou ainda que, durante o cerco, o compositor de Grândola, Vila Morena aludiu a uma intervenção iminente de Rosa Coutinho, o “Almirante Vermelho”, em frente a dois mil fuzileiros.
Ao abrigo da “vossa” lei de imprensa, reagiu José Afonso, em direito de resposta a esta “repugnante falsidade” da “chamada imprensa independente” do Expresso, o jornal fundado por Francisco Pinto Balsemão, então deputado do PPD: “É verdade que estive na base de Tancos”, confirma; recusa, no entanto, que alguma vez tenha mencionado eventuais reforços — “é pura mentira que camufla e esconde os interesses de classe de quem o afirma”. E os senhores doutores Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Sá Carneiro, são o “braço armado da violência reacionária em Portugal”. “José Afonso deixou de ser lúcido. Incapaz de entender o meio que o cerca grita como criança assustada”, responde o Expresso, colocando o “revolucionário infantil” de castigo, no canto da sala.
Nos dias seguintes ao golpe fracassado, protagonistas daqueles últimos meses, entre músicos, intelectuais, jornalistas e militares, foram subitamente ultrapassados pelo tempo. O Conselho da Revolução ordenou comissões militares de inquérito, com afastamentos imediatos, alguns célebres, como o caso de José Saramago, diretor-adjunto do Diário de Notícias — “fui dissolvido, não posso ser suspenso”, respondeu com ironia —, outros que passaram despercebidos, hoje figuras incontornáveis, como Artur Albarran, Armando Carvalheda ou Júlio Isidro. Os saneamentos, acredita-se, superaram o rigor da limpeza após o 25 de Abril; em 30 dias, 150 profissionais dos media foram afastados por colaboração com as “forças sublevadas do 25 de Novembro”.
No final do ano, António de Almeida Santos, ministro da Comunicação Social, preparou o terreno para um novo país: Portugal em 1976. Por decreto de lei, a rádio Renascença foi entregue ao Patriarcado de Lisboa e as restantes rádios, porta-vozes da revolução, foram nacionalizadas, designadas de Radiofusão Nacional, com quatro emissões distintas — sem qualquer ideologia, garante o major João Figueiredo. Numa frase memorável, Almeida Santos resumiu o objetivo centrista do ano seguinte, em vésperas de eleições: “Nem só Cristo nem só Marx, nem só Pessoa nem só Aleixo, nem só Marceneiro, nem só José Afonso”.
A viragem política, e a reestruturação da imprensa, rádio e televisão, alteraram radicalmente o destino da música portuguesa. No mês de janeiro de 76, as rádios saneadas e nacionalizadas, ainda sem publicidade ou noticiários independentes, dependiam inteiramente de “programas musicais”, que, surpreendentemente, por iniciativa própria, retornaram aos bailaricos de orquestra, os fados ligeiros, as baladas melancólicas e o sempre seguro rock’n’roll — mas com as manias de “progressivo”.
“A canção revolucionária, considerada pelos falsos socialistas como autêntica lavagem cerebral, passa a ser considerada persona non grata pelos novos padrões da radiofusão”, denuncia o crítico de música Mário Correia. “Regressa o tempo do faducho de triste memória, das cantiguinhas a tresandar a amor lamechas (…) Regressa, enfim, o gargarejo nacional-cancenetista! O conformismo em notas de música”.
Uma canção — e um país — para a Europa
O final abrupto do processo revolucionário é consolidado, diante de milhões de portugueses, no palco que, ano após ano, evoca a mesma questão, que poucas vezes foi tão urgente: quem somos e para onde vamos? A dois meses das eleições legislativas, o mote do Festival da Canção de 76 foi uma tomada de posição: “Uma canção para a Europa”. O novo desígnio nacional, confirmado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, em negociações por Bruxelas, era a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE). “Nem a médio prazo poderemos entrar no Mercado Comum”, desespera o major, justamente na semana em que são anunciadas as canções “para a Europa”.
Os oito temas a concurso foram selecionadas entre 133 composições, submetidos de forma anónima, para evitar o caciquismo que ensombrou a edição anterior, em linha com o recém-aprovado Estatuto de Televisão, que exigia “abstenção de todo o partidarismo”. E os intérpretes são, em mais uma edição histórica sem paralelo, uma única pessoa, Carlos do Carmo. A escolha não foi inocente: o filho de Lucília do Carmo era um representante ideal da desejada normalidade democrática, entre a tradição — um fadista da casa, de um charme inatacável — e a juventude politizada — intérprete da nova canção, à esquerda, mas sem aquele cheirinho de alecrim revolucionário.
▲ Carlos do Carmo no palco do Festival da Canção de 1976, onde deu voz a todas as concorrentes a "canção para a Europa"
Na noite de 22 de fevereiro, Estúdio 1 da RTP, um galante Carlos do Carmo estreia as canções, em passeio, ainda sem os autores identificados; duas semanas depois, é guiado pela eterna dupla Ana Zanatti e Eládio Clímaco, numa finalíssima didática, com apontamentos do maestro António Vitorino de Almeida — “o que é que vem para aqui fazer um gajo da clássica”. Entre o plateau e o piano, num ímpeto frenético, analisa cada canção, em sessões de debate livre com uma plateia de figuras públicas, barbudos revolucionários, senhoras de laca e gaiatos aborrecidos — “Um festival chamado Vitorino”.
O vencedor do Festival da Canção, em reflexo dos anseios democráticos, foi definido por “votação pública”, através de cupões distribuídos pelos jornais, que são cortados, preenchidos e enviados para a RTP. Uma Flor de Verde Pinho, poema de Manuel Alegre dos tempos do exílio, resgatado pelo amigo José Niza, foi o campeão da noite (25,25% dos votos), taco a taco com Novo Fado Alegre, de Fernando Tordo e Ary dos Santos (23,97% dos votos).
A corrida a dois foi um espelho perfeito do momento político à esquerda. “A votação das canções entrou muito num jogo partidário”, comenta um dos convidados da plateia, durante a transmissão em direto. “Influenciou altamente o povo pela proximidade do ato eleitoral”. O célebre crítico de televisão, Mário Castrim, comunista sobrevivente do PREC, apontou o “Novo Fado Alegre” como a única canção de resistência ao 25 de Novembro, não por acaso, composta por dois militantes do PCP. Em período eleitoral, esta competição de cantigas foi uma sondagem à boca de urna: vencem Manuel Alegre e José Niza, dois candidatos à Assembleia da República pelo Partido Socialista (PS), que doam o prémio de 50 contos à campanha de Mário Soares.
Ó Tempo Volta Para Trás? Das cinzas do PREC, renasce uma pop portuguesa
“Dentro de 3 minutos iniciaremos um período de emissão a cores”. E surge o jornalista Adriano Cerqueira com uma indumentária que, até aquele momento, era absolutamente digna à ocasião — “Especial Eleições” da RTP — e agora, as cores revelam um blazer mostarda e uma gravata apalhaçada, às bolas vermelhas. Para o bem e para o mal, as eleições legislativas, a 25 de Abril de 76, foram um abrir de olhos: uma vitória expressiva do PS, seguido, a dez pontos percentuais, pelo PPD de Francisco Sá Carneiro, e, pasmem-se, o CDS de Diogo Freitas do Amaral. Esta reviravolta sociológica ocorreu, ao mesmo tempo, noutro formato de sufrágio universal: a tabela de vendas da música popular.
No próprio dia de eleições, as canções mais vendidas também desenham um país a cores, em tons pastel, de inspiração nipónica. Os dois singles mais vendidos são genéricos de desenho-animado, a “heroína japonesa” Heidi e as “Aventuras de Wickie, O Viking”, dois sucessos esmagadores da RTP que comprovam como a televisão pública, sobretudo após o PREC, sentou milhões de portugueses em casa. E a canção mais popular entre os graúdos segue a paleta reluzente, Ontem, Hoje e Amanhã, um clássico José Cid, de marca registada: o sintetizador brincalhão, os versos nostálgicos, e aquele slide à George Harrison, em cheio no ouvido de qualquer transeunte, sem resquício de comício, menção à reforma agrária, sequer os malefícios do patronato.
▲ O Quarteto 1111 em 1970: Michel Silveira, Tozé Brito (então acabado de chegar à banda), António Moniz Pereira e José Cid
D.R.
O contraste com a mesma tabela do ano anterior é chocante. Em vez de canções presentes, socialmente alerta — O Facho, O Povo Unido Jamais Será Vencido ou O Que Faz Falta —, os portugueses elegem o José Cid a recordar uma “menina”, “mais alegre e mais bonita”, de “laçarote no cabelo”, e “um fato à marujo feito de cetim”. As reminiscências pueris não se ficam por aqui: ainda em abril de 76, os responsáveis pela versão portuguesa de Wickie, o Tozé Brito e o escocês Mike Sergeant, com Fátima Padinha e Maria José Almeida nos coros, de nome Green Windows, lançaram Lembranças, outro single sobre paixonetas inocentes, a brincar às casinhas:
“Lembras-te do tempo em que voltávamos a casa
Juntos num abraço que a noite sempre abriga
De uma festa a dois que a tua mãe pensava
Ser a festa de anos de uma amiga”
Das cinzas do PREC, renasce uma pop portuguesa. As vozes harmonizadas, o sintetizador veludíneo, o ritmo de dança morna, e o assalto lírico de doces melancolias, eis um escape à mundana politiquice, na ressaca do Verão Quente. O cenário em 76 não era brilhante: aumento do desemprego, a inflação, o custo de vida, as insolvências, uma crise financeira internacional e ainda, entre tantos outros celeumas, milhares de retornados encavalitados pelo país. O ambiente era de fim de festa: por ordem do governo, todos os espetáculos têm de terminar antes da meia-noite, para poupar energia. Em contraste, as canções de José Cid e Tozé Brito eram um brilho, uma luz cintilante ao final do túnel.
A alquimia pop destes dois magos da canção ligeira tem um ponto de partida exato, em 1973, no clássico instantâneo Vinte Anos, quando os dois descobriram a fórmula mágica, como alcançar milhões — e cifrões — com uma melodia saudosista, arranjos pomposos, e, a rematar, um refrão catita. O sucesso foi precoce: meteu-se o exílio de Tozé Brito, em Londres, e um processo revolucionário.
Aos 23 anos, o portuense António de Brito, pai de uma criança de dois meses, regressou a Portugal no final de 74, com o serviço militar por cumprir e as rádios vedadas à pop sumptuosa. Fez o que pôde: dirigiu a música da revista Garotas no Espeto, no Laura Alves, com uma alegada “vedeta strip-tease”, e compôs, nas folgas da tropa, canções políticas, entre elas, Soldado-Escravo para Manuela Bravo; a prova que este pequeno-burguês não estava formatado para as cantigas marxistas, a título de exemplo:
“Escravo de ideologias, filosofias e crenças
Escravo só por dinheiro
Escravo porque não pensa
Autómato de Hiroshima
Palhaço rico em Saigão
Milionário no Congo
Por venderes o coração”
A entrada de Tozé Brito na consciência nacional deu-se no início de 76, ainda amiúde, no Festival da Canção, onde acompanhou Carlos do Carmo à viola em Maria-Criada, Maria-Senhora, uma composição que versa sobre uma “menor de idade”, que “entrega o corpo” por “dez dinheiros”, e mereceu o seguinte comentário antropológico de Vitorino de Almeida, em direto: “Devo dizer que há uma coisa verdadeira nesta canção, é que, desculpem-me, mas a verdade é esta, grande parte da educação sexual de muitas gerações da nossa sociedade fez-se com casos como este”. Resultado: último lugar.
▲ José Cid, na fotografia que serviu de capa para "Portugal, É!", single editado em 1975, poucos dias antes do 25 de Novembro
José Cid é outra história, bem mais antiga: ainda nem havia um Primavera Marcelista, já andava um passo à frente da estação, como líder do vanguardista Quarteto 1111, que lhe garantiram, em ditadura, os pergaminhos de uma extensa lista de canções censuradas, e amizade de Adriano Correia de Oliveira ou José Jorge Letria. Por essas e por outras, durante o PREC, foi poupado de extraordinários maldizeres e, assim como a restante classe, adaptou-se prontamente às exigências revolucionárias, sem largar um jeito obstinado:
“Venho te falar de paz
Trago as mãos cheias de amor
Mas não trago conselhos
Seja de quem for”
Assim garantiu em Portugal, É!, o primeiro single em liberdade. O segundo, A Festa do Zé — “Acabou-se a guerra na Guiné Bissau/ E o Zé soldadinho regressou feliz” — é lançado seis dias antes do 25 de Novembro. E voltamos a Ontem, Hoje e Amanhã, apresentado no Festival Mundial da Canção Popular, em Tóquio, e lançado no início de 76.
Como é que um, digamos, “autor de uma certa via de intervenção”, cede agora aos caprichos da canção mais rasteira, questiona o jornalista, após o lançamento de Ontem, Hoje e Amanhã. José Cid: “Porque eu não sigo uma via preconcebida, mas sim canto e componho ao sabor da inspiração, como quem respira ar ou come um pão com manteiga ou possui uma mulher”. “Qual é o Zé Cid verdadeiro?”, insiste. “Nothing is real, já os Beatles o diziam. Só posso ver a música por uma via anárquica”.
O anarquismo do chamusquense José Albano Cid falou mais alto: quem produz, canta e toca todos os instrumentos, escusa de dividir caché. Despediu-se do Quarteto 1111, que já não contava com Tozé Brito, e dos Green Windows, que, pelo final do ano, também perdeu Tozé Brito. Esta sucessão de eventos foi altamente significativa na música portuguesa: José Cid começou a gravar 10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte, o magnum opus do prog rock nacional, e tornou-se, single a single, o conquistador das tabelas de vendas, e dos grandes, grandes, amores.
▲ Os Gemini em 1976, quando foram distinguidos com um disco de ouro
Os destroços do Quarteto 1111 e dos Green Windows continuaram a dar fruto: frustrados com o amadorismo generalizado, Tozé Brito e Mike Sergeant regressam à sala de ensaios, trabalham as harmonias vocais, embelezam os folhinhos do guarda-roupa, criam um logótipo e aprendem aquele passo de dança imprescindível, o leve oscilar de anca e braços. Atentos à linha de montagem ABBA, angariam duas cantoras: Isabel Ferrão, funcionária da Nexus, discoteca de Lisboa, que por sua vez traz a amiga Teresa Miguel, bailarina do Parque Mayer. Nascem os Gemini. O memorável single de estreia, Pensando em Ti, foi coroado disco de ouro, um sucesso sem precedentes, que desbravou caminho para, anos depois, a criação das girl bands Cocktail e Doce. A história vai longa para chegar aqui: foram as mudanças políticas, sociais e culturais que desencadearam a profissionalização da pop nacional; o 25 de Novembro iniciou mais do que um novo ciclo político, abriu as portas do salão de baile.
Ide em paz e que Hermano da Câmara vos acompanhe
As vedetas da canção, desde José Cid a brincar com o cão, de samarra alentejana, ao primeiro concerto dos Gemini, vestidos a condizer, um casal a preto, outro a branco, são apresentados semanalmente no Ligeiríssimo, a proposta musical da RTP para este novo cenário político. O locutor Pedro Castelo, que se tinha afastado do caos da Renascença durante o Verão Quente, era o responsável pela emissão, onde, cigarro atrás de cigarro, revelou que, um único artista português conseguiu destacar-se entre os LPs mais vendidos de 76: um monge cantor, recluso no Mosteiro de Singeverga, pelos lados de Santo Tirso.
O álbum Jesus, de Frei Hermano da Câmara, foi o LP nacional mais vendido após o PREC, numa reviravolta drástica; ainda há coisa de seis meses, o Conselho da Revolução recusava-se a devolver a Renascença à Igreja Católica. “É o acontecimento do ano, com a venda de milhares e milhares de exemplares”, garante a Música & Som. O canto de homem devoto, suplicante em frente ao relicário, tremula pelos gira-discos e ondas médias das rádios, entra nas casas portuguesas a conquistar as almas crentes, neste país que se queria revolucionário:
“Na mão de Deus, na sua mão direita
Descansou afinal meu coração
Do palácio encantado da ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita”
O inesperado apelo de um monge beneditino, mais ainda fadista, e pior, da elite burguesa, foi o golpe derradeiro na popularidade da música de intervenção. E Frei não era uma presença habitual nos palcos, na rádio ou na televisão, sequer nas casas de fado. Este primo de Maria Teresa de Noronha e Vicente da Câmara, habitué dos salões privados entre Cascais e Lisboa, anunciou a vocação religiosa em Fado da Saudade, gravado no próprio mosteiro, onde esfregava o chão, e outras profissões de mãos calejadas. O omnipresente Mário Martins, responsável por artistas e reportório da Valentim de Carvalho, abriu-lhe as portas do paraíso: o monge compositor foi acompanhado pelos Quarteto 1111 em Bruma Azul Do Desejado, numa névoa de mellotron, e gravado por Amália Rodrigues em O Rapaz Da Camisola Verde.
▲ O álbum "Jesus", de Frei Hermano da Câmara, foi o LP nacional mais vendido após o PREC, numa reviravolta drástica
Durante o PREC, Frei Hermano da Câmara desapareceu de cena, recolhido em contemplações litúrgicas, até ao regresso triunfal em meados de 76. Uma maioria, até então silenciosa, fez-se ouvir com um estrondo: o êxito de “Jesus” legitimou a contra-revolução católica, que começou, logo às badaladas da meia-noite, com o regresso da missa à Renascença, agora sob controlo do Patriarcado.
E o pior álbum do ano é de… José Afonso!
Numa noite de março, ano de 1974, o Coliseu dos Recreios antecipou, por um mês, a Revolução dos Cravos; em palco, e entoado pela plateia, um grito libertário de Grândola, Vila Morena. O I Encontro da Canção Portuguesa, o evento canónico que reuniu os protagonistas da música de intervenção, foi organizado pela Casa da Imprensa, numa substituição direta pela Grande Noite do Fado, a maratona épica de fadistas amadores e profissionais que acontecia desde 1953 — uma vil manifestação fascizante, segundo os críticos, responsável pela alienação da população. O cancelamento da Grande Noite do Fado assumiu contornos de manifesto político. Dois anos depois, em março de 76, a Grande Noite do Fado regressa ao Coliseu dos Recreios, como se nada tivesse acontecido.
O 25 de Novembro empoderou uma nova geração de críticos musicais, que seria determinante para definir o gosto musical em democracia. Os jornalistas da geração anterior formaram-se durante as crises académicas, no rescaldo das polémicas “eleições” de 1958, pelos corredores das faculdades, cineclubes e associações de estudantes, onde surgiu a canção de protesto como hoje a conhecemos; o propósito desta crítica musical não era a elevação da arte, a canção tinha um único e nobre serviço à sociedade: derrubar o regime. Depois do 25 de Abril, como visto nos artigos anteriores, os fundamentalistas radicalizaram o discurso. Ora, a seguinte geração de críticos, jornalistas e radialistas seguiu na direção contrária, ao virar esta contestada página da nossa história, se necessário, com violência: no final de 76, José Afonso foi considerado o autor do “pior álbum do ano”.
Uma mão cheia de garotos, ainda na casa dos vinte, entre eles, Rui Morisson, António Sérgio ou Pedro Pyrrait, reuniram-se para definir os melhores e piores álbuns deste primeiro ano em democracia constitucional. A sentença é provocadora: o álbum Com as Minhas Tamanquinhas, enfim a resposta do “Zeca” à efervescência do PREC, foi o único destacado como o pior de 76 — isto num ano que teve, por exemplo, o Tira Fora Que Vem Gente de Quim Barreiros ou O Algarve é Sempre Lindo de Eugénia Lima, só para nos restringirmos ao acordeão. “É evidente que, em termos absolutos, o disco de José Afonso (…) não foi o pior que se publicou de artistas portugueses”, explicam os críticos, defendendo a urgência de alertar para o “deslocamento” deste disco — “não só pela falta e inspiração no que toca à parte da composição, como também a grande infelicidade que caracteriza a maior parte das desenxabidas letras”.
▲ A capa de "Com as Minhas Tamanquinhas", de José Afonso, editado em 1976
Na eventualidade de ainda persistirem algumas dúvidas, permitam-me o parêntesis: Com as Minhas Tamanquinhas não é, evidentemente, o pior álbum de 76, sendo, obviamente, um dos melhores; entre o baião e a marrabenta, estas canções gingadas celebram as iniciativas comunitárias — Os Índios da Meia-Praia —, condenam os traidores da revolução — Como se Faz um Canalha —, e amaldiçoam o contra-golpe — Chula da Póvoa —, reconfigurando, de novo, a paisagem musical portuguesa, de Trás-os-Montes a Moçambique — “Isto aqui era uma orquestra, quem diz o contrário é tolo”.
O crítico de música do Expresso, Pedro Pyrrait, inventou um epíteto insolente para a canção de protesto, o “nacional-intervencionismo”, ridicularizando o insulto favorito da geração anterior — o “nacional-cançonetismo”, uma espécie de género que era colado a qualquer músico indesejado. A agressividade destes garotos no pós-PREC foi a mesma que moveu, anos antes, outros a maltratar qualquer gravação ou concerto de Amália Rodrigues; derrubam-se as estátuas do passado para erguer os novos heróis da canção, num país desejoso de outras histórias, ainda em construção.
“A única explicação que dão é que não querem canções políticas”
A degradação da economia, as medidas de austeridade, e o consequente empobrecimento da população, certamente não contribuíram para quem, com os escudos contados, fosse decidir entre os Genesis ou José Jorge Letria. Em 75, o preço dos discos aumenta 25% e, no ano seguinte, com novos impostos, 30% por transação, os singles e os LPs sobem em flecha. No mercado paralelo, explode o fenómeno dos vendedores ambulantes de “cassetes piratas”, entre 60 a 40 escudos, pelas feiras, esquinas ou metro, estima-se que 80% do mercado de música é pirata.
“A música de intervenção sofreu uma quebra”, analisa a Música & Som, quando começou um debate existencial, entre os próprios autores: como é que, subitamente, o género musical mais popular perdeu terreno para o exato oposto? “A única explicação que dão é que não querem canções políticas”, desabafa Paulo de Carvalho, a confirmar receções gélidas de algumas plateias, logo agora, que se tornou militante do PCP e começou a compor com regularidade. O Festival da Canção foi a boia salva-vidas: durante os ensaios, Carlos do Carmo engraçou com uma nova composição, Lisboa Menina e Moça, que seria a génese do álbum Um Homem na Cidade, a obra-prima do fado em liberdade, e a afirmação do autor Paulo de Carvalho.
“Penso que, a partir de 1976”, refletiu Fausto Bordalo Dias, anos mais tarde, “as pessoas que continuavam a solicitar-nos não compravam os nossos discos, mas sim outros discos, mesmo de compositores e intérpretes que hostilizavam determinadas ideias de solidariedade, de apoio a esta ou aquela luta”. É uma questão central: não obstante o fenómeno de vendas da canção politizada, os outros géneros musicais persistiram, sobretudo a luminosidade da canção pop e rock anglo-saxónica, que encadeou o consumo musical português durante largos anos. “As dez discotecas são unânimes num ponto: a música popular anglo-saxónica vende-se exatamente como antes do golpe de Estado”, relata um jornalista, em choque, meses após o 25 de Abril.
No final do processo revolucionário, a tendência estrangeira adensa-se: “Há praticamente dois meses e meio que, dentre os dez mais procurados, não surge um único [LP] que seja português”, desespera José Niza, em novembro de 75, a escrever para a Tele Semana. “Isto, sendo um drama, é também um sintoma”. O compositor de E Depois do Adeus aponta dois erros fatais: “A rejeição provocada pelo autêntico massacre sonoro a que a rádio e a TV submeteu os ouvidos dos portugueses no pós-25 do Abril”, com “Cantos Livres que primaram pela desafinação, pelo improviso e pela desorganização”; e a “falta de imaginação-criadora dos verdadeiros autores e intérpretes revolucionários, os quais, talvez por mobilização para outras tarefas, saíram do seu campo habitual deixando um vazio que, rapidamente, o oportunismo ocupou”.
O 25 de Novembro conduziu os protagonistas da música de intervenção por caminhos dispersos, desencontrados, à deriva pelos próximos anos de crise financeira, consolidação democrática e aproximação institucional da Europa. “O 25 de Novembro acaba por ser um marco fundamental, na exata medida em que importa conhecer quais as posições que vão assumir os autores revolucionários”, refletiu, no calor do momento, Fernando Tordo, que, ao contrário de muito boa gente, manteve-se revolucionário e proprietário dos seus próprios meios de produção, assim como o Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta (GAC) de José Mário Branco, na luta até à vitória final.
Os músicos partidários, como José Jorge Letria e José Barata Moura, entre tantos outros militantes do PCP, permanecem em sentido com o partido, num balanço malabarista entre a crítica feroz à social democracia — “Socialismo, sim mas pouco/ Para não levantar suspeitas/ Barafustar como um louco/ E alinhar sempre com as direitas” — e a sobrevivência económica — “É o fungágá, fungágá da bicharada/ É o fungágá, fungágá da bicharada” — ambas canções são de 76 e da autoria de José Barata Moura, mas apenas uma, adivinhem qual, podia ser ouvida, todos os sábados, nas televisões portuguesas.
▲ As capas de "A Valsa da Burguesia" e "Fungagá da Bicharada", de José Barata Moura
O autor de Avante Camarada, Luís Cília, que sempre manteve uma saudável relação de amor-ódio com o PCP, assumiu as dores dos camaradas na depressiva Novembro, naquela voz dada a melancolias:
“É novembro e no entanto
é tempo de joeirar.
A palha que vai ficando
arde e faz-nos sufocar.
E é talvez a fumarada
que te rasa os olhos de água.
A confusão, camarada;
o momento e não a mágoa”
“Há que passar a uma fase seguinte, recuperar o crédito”, argumentou Luís Cília, o único músico de intervenção que, desde que regressou a Portugal, lutava pela profissionalização da cantiga armada — equipamento, agenciamento, caché —, para espanto dos restantes camaradas — “Pergunto: um cirurgião, se um dia operar de borla, vai lá aparecer com uma faca de talho?”. E a fase seguinte surgiu, pelos Trovante, Júlio Pereira, ou a Brigada Victor Jara, os filhos obstinados do PREC, que recolheram ensinamentos musicais, práticos, e também políticos.
O “detonador” do 25 de Novembro, citando a revista Flama, estilhaçou a ténue união da extrema-esquerda. A “cisão” dos marxistas da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) afastou definitivamente José Afonso do movimento, um reflexo da rutura que ocorria, há meses, entre os próprios cantores de protesto. “Eu, pelo menos, fui-me abaixo das canetas”, confessou “Zeca”, numa mesa-redonda sobre a “canção política” com José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho que terminou, como não poderia deixar de ser, em lavagem de roupa suja. Nesta conversa, Adriano assinalou com razão: “Não vale a pena, hoje, tentarmos saber de que lado é que as pessoas estão (…) quem é que cometeu erros e quem é que não cometeu (…) o tempo e a história é que vão decidir!”.
Em apenas dois anos, fez-se uma história épica: da canção marxista aos lamentos de um monge fadista, da sobriedade dos coros maoístas ao brilho das harmonias vocais, da viola ao sintetizador, do camarada Vasco ao amigo José Cid. E este passado, como bem nos ensinou o próprio, é apenas outra forma de perscrutar o tempo presente, a caminho do futuro: ontem, hoje, e amanhã.