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Do "Companheiro Vasco" ao facho machista: os contrastes e as canções do verão mais quente

A euforia revolucionária cantou-se de José Afonso ao GAC, de Ágata a Quim Barreiros. Este é o segundo de uma série de 3 artigos sobre a transformação musical que se ouviu até depois do 25 de Novembro.

O debate é prosaico, por certo maçador: trata-se de um anteprojeto para alterar a legislação do teatro português. Na tribuna, Natália Correia apresenta, ponderadamente, argumentos contra a proposta de lei, que pretendia a nacionalização de todas as salas e companhias de teatro. Ora, em 1975 nada era prosaico, muito menos maçador. Um colega da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) interrompe a poetisa, gritando a plenos pulmões: “Contra-revolucionária!”. “Isso é grave”, rebate exaltada, a exigir, cara a cara, explicações. “Recusou-se, ao que Natália Correia respondeu dando-lhe uma bofetada.” O colega replicou na mesma moeda: um par de estalos.

Na reunião seguinte da SPA, enfim, lamentou-se o ocorrido e retomou-se a ordem dos trabalhos: nos primeiros meses do ano, com muito esforço, conseguiram diminuir a receita dos autores portugueses, que esta conquista fique em pauta — é o mundo ao contrário: celebra-se o lucro baixo e intelectuais andam à chapada, é o Portugal de 1975.

Este é o segundo de uma série de três artigos que exploram um período marcado, provavelmente, pelas mudanças mais drásticas e repentinas na história da música popular portuguesa, em apenas dois anos: primeiro, a música de intervenção como a banda sonora do 25 de Abril, em guerra aberta contra a restante música nacional; segundo, a euforia revolucionária do Verão Quente; terceiro, o impacto do 25 de Novembro, que, de novo, alterou radicalmente a canção portuguesa.

“É preciso ser menos artista e mais político”: como o 25 de Abril criou uma rutura na canção portuguesa

Festival da Canção Revolucionária em Curso

Segunda-feira, ao entardecer, uma multidão acanha-se num estúdio da RTP, à Rua das Tapadas, incluindo dois músicos que, um ano antes, seria impensável — para não dizer criminoso — vê-los a entrar nestas instalações: José Mário Branco e Sérgio Godinho. Na mesma reunião, mais acostumados ao estrelato televisivo, eis Paco Bandeira, Nuno Nazareth Fernandes, José Niza ou Rita Olivaes, ex-concorrentes do Festival da Canção, o principal acontecimento musical em Portugal dos últimos dez anos. O assunto é urgente: estamos no dia 3 de fevereiro, a uma semana e meia do Festival da Canção de 75, e nem sequer há cantigas apresentadas ao público, por opção política ou esquecimento — afinal, havia uma revolução em curso.

“A presença da RTP no festival deste ano chegou a parecer comprometida”, revela o Diário de Lisboa, sugerindo que, em cima da hora, decidiram organizar a festa, optando por uma solução insólita: os compositores concorrentes são o próprio jurado. A RTP convidou diretamente compositores que, segundo a organização, representavam “a nova e libertada canção portuguesa”, um conceito subjetivo que justifica a presença inesperada de notáveis da canção de protesto. José Mário Branco aceitou participar neste festival de “lamechices” com uma condição: tinha que ser identificado como membro do coletivo musical maoísta Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta (GAC) — “Abaixo o capitalismo! Viva a ditadura do Proletariado! Viva a democracia Popular!”, sentencia o comunicado dos GAC, em antecipação do primeiro Festival da Canção após o 25 de Abril.

▲ José Mário Branco persistiu no impulso coletivista que o movia desde que aterrou em Lisboa; das ruínas do Colectivo de Acção Cultural de má memória, fundou o Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta

No final da mesma semana, representantes do Sindicato dos Profissionais de Teatro, Bailado, Circo e Variedades também se dirigiram à Rua das Tapadas, e exigiram, na portaria da RTP, serem recebidos pelo major Ramalho Eanes, Presidente do Conselho de Administração, para contestar os “moldes” do Festival da Canção, com compositores escolhidos a dedo, “em benefício de meia dúzia de amadores”. Se tiverem coragem, desafiam Ramalho Eanes, a RTP que coloque, lado a lado, músicos “profissionais” e “amadores” a interpretar a mesma canção, e o “povo” que escolha um vencedor.

As canções são apresentadas em diferido nos dias 14 e 15 de fevereiro. Na primeira noite, no Teatro Maria de Matos, o apresentador José Nuno Martins anunciou que, logo a abrir, “as cantigas não têm grande importância” — ouviram bem, foi assim que começou um festival de — precisamente — “cantigas”. “Fez-se com tal recato que deu a impressão de que o certame se sentia envergonhado de existir”, complementa a Flama sobre este “não acontecimento”. De tal forma não aconteceu, que os registos deste espetáculo desapareceram dos arquivos da RTP; até hoje, o canal público não justificou onde estão, ou se foram apagadas, as bobinas do Festival da Canção de 75.

A transmissão em direto restringiu-se à votação, como de costume, com comentários ao vivo, pelas tascas, snack-bares e salas de Portugal. O que dizer, por exemplo, deste desconhecido de cabelo aos ombros, colar de prata, óculos escuros e camisola natalícia, claramente do número abaixo, que se apresenta como Jorge Palma? “Quem está por cima afirma que a razão do mal/ Só tem a ver com o pecado original/ Mas diz o povo que o pecado essencial/ É o capital!”, canta em dueto com Fernando Girão, outro extraterrestre colorido que pousou na televisão portuguesa, ainda a preto e branco. A informalidade dos modos e da indumentária, à vontadinha, era um dos argumentos a favor do sistema inusitado de votação, outra forma de subverter os salamaleques do anterior regime; saía a gala, entrava o povo. E sublinhe-se esta última palavra: em dez canções a concurso, sete mencionam o “povo”.

▲ A crítica de Alexandre Pais à "mediocridade" da Eurovisão de 1975, publicada no Diário de Lisboa

Os compositores, distribuídos por uma bancada, votaram em frente a milhões de portugueses. O jóquer da noite foi José Mário Branco, que deu apenas 1 ponto (o mínimo) a todos os concorrentes, incluindo o amigo Sérgio Godinho, que devolveu a pontuação máxima a “Zé Mário”; entre as críticas construtivas, José Mário Branco explicou que, em A Boca do Lobo, Sérgio Godinho compôs sobre um “operário a mourejar”, quando deveria ser, evidentemente, “camponeses e operários a lutar”.

Os votos dividem-se. No final venceu, menos mal, um Capitão de Abril: Duarte Mendes. A Madrugada, composta por José Luís Tinoco, foi a escolhida para representar Portugal na Eurovisão, em Estocolmo, mesmo a calhar para vender além-Pirenéus, traduzida como uma extensão do 25 de Abril, ora “April Dawn”, ora “Chanson d’Avril”. A crítica discordou, esperava uma vitória revolucionária de Sérgio Godinho, ou do Alerta, do GAC — “sem dúvida aquela que melhor transmite à Europa, o espírito revolucionário de uma classe trabalhadora em luta aberta contra a exploração capitalista”. “Duarte Mendes demonstrará em Estocolmo que nada de novo, em matéria de cantorias, se passou neste país”, defende outro jornalista. “É a mesma coisa que está calado, ou pior.”

No dia 22 de março, em terras de suas majestades os ABBA, venceram os holandeses Teach-In, com o absurdismo enervante de Ding-a-dong — queremos um Ding-a-dong a toda hora, propõe o refrão. O 16.º lugar de Duarte Mendes não incomodou particularmente os portugueses: o “interesse” da Eurovisão é “mais reduzido do que nunca”, confirma o Diário de Lisboa. Quem é que tinha cabeça para um “Ding-a-dong” quando, há uma semana e pouco, no dia 11 de março, um recém-Presidente da República, António de Spínola, liderou uma tentativa de golpe de estado?

Depois do golpe de estado, uma festa bonita, pá

O golpe falhado de 11 de março de 75 foi o catalisador para o Verão Quente. Nos dias imediatos, nasceu o Conselho da Revolução, uma institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), e o IV Governo Provisório, sob a liderança de Vasco Gonçalves, anunciou a implementação de um amplo programa “revolucionário”. Nas primeiras sessões do Conselho da Revolução, alguns membros mais atrevidos, segundo Vasco Lourenço, sugeriram o saneamento, a prisão e o fuzilamento de Ramalho Eanes; entretanto, o Presidente do Conselho de Administração da RTP demitiu-se pelo próprio pé.

▲ Se continuássemos a descer até ao Rossio, em frente ao metro, circulava a literatura e as imagens de Estaline, Mao ou Marx, para gáudio dos turistas (imagem da revista "Flama")

O comandante Bouza Serrano, empossado na direção da Emissora Nacional (EN) após o 11 de Março, refletiu em discurso que o “nacional-cançonetismo” era uma “música reacionária” e deveria, obviamente, desaparecer da rádio estatal. A “Intentona” carregou no acelerador do processo revolucionário em curso. Durante uma edição do Programa da Manhã, os locutores da EN transmitiram A Internacional oito vezes de seguida: “De pé, ó vítimas da fome!/ De pé, famélicos da terra”.

A um mês das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, tudo fazia crer — a confiar nas canções a passar na rádio, nos espetáculos em cena, as capas dos jornais e, em suma, no ar dos tempos —, que a extrema-esquerda estava prestes a assumir as rédeas de Portugal. Ao descer a Avenida de Liberdade, na Feira do Livro de 75, vendiam-se improváveis best sellers, desde o Pequeno Dicionário do Marxismo à Biografia de Lenine. E se continuássemos a descer até ao Rossio, em frente ao metro, circulava a literatura e as imagens de Estaline, Mao ou Marx, para gáudio dos turistas, que fotografam os vendedores ambulantes de comunismo, as greves, as manifestações e os longos debates em praça pública, aos pés de um profusamente pichado D. Pedro IV — “Anarquia ou morte”.

Neste cenário adverso, o grande capital não se deu por vencido. O setor privado, no qual se incluem as editoras e as promotoras, compreendeu rapidamente que, por muito irónico que seja, o comunismo e as suas variantes revolucionárias eram um extraordinário bem de consumo. A Abreu organiza cruzeiros à Rússia, serviço de primeira, tudo incluído, num “paquete soviético”; os carros Mini vendem-se em contexto de manifestação — “Minicontestação” —, assim como “A Grande Manifestação” dos eletrodomésticos Philips — “abaixo os preços altos”. Os promotores de espetáculos adaptaram-se com a mesma naturalidade, até os bailaricos dos Santos Populares, que sacrilégio, são protagonizados pelo folclore húngaro, romeno ou da República Democrática Alemã (RDA). Na Avenida da República, o Gran Circo da Rússia anuncia leões, cavalos, chimpanzés e uma parelha de palhaços, alegadamente “soviéticos” — “este circo não tem nada em comum com a arte de circo soviética”, esclarece a Embaixada da URSS. Nem tudo é palhaçada: Ricardo Covões, pai de Álvaro Covões, apresentou o Ballet Folclórico Krasnoyarsk no Coliseu dos Recreios, ou ainda, as Noites de Moscovo — “espetáculo ligeiro de variedades da União Soviética”.

▲ O grande capital não se deu por vencido: os carros Mini, por exemplo, vendem-se em contexto de manifestação — “Minicontestação”

Os músicos esquerdistas, patrocinados pelos sindicatos, associações e os governos provisórios, apontam para Portugal como a nova meca revolucionária. A RTP e a EN acompanham as digressões de Georges Moustaki, Paco Ibanez, Pi de La Serra, ou um grupo russo de músicos e dançarinos “operários” — entre eles, a solista, Valentina Saenko, responsável por um guindaste numa fábrica de máquinas. Chico Buarque é um caso particular: soube-se que o músico, já bem conhecido do público português, compôs uma canção em homenagem ao 25 de Abril que, como era hábito, foi censurada e impedida de gravação no Brasil. A RTP arriscou uma operação de risco: os correspondentes no Rio de Janeiro filmaram, pela calada, uma interpretação desta nova canção, Tanto Mar, que teve a sua estreia mundial na RTP, no programa Música, Música — “Foi bonita a festa, pá”.

O malhão não é reacionário

Aconteceu um “fenómeno” no “mercado do disco”, revela um jornalista em reportagem pelas discotecas de Lisboa: José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho são os campeões de vendas e, ainda, Fausto Bordalo Dias, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira ou Luís Cília — “De António Calvário ou Madalena Iglésias nem se fala”. Este “fenómeno” derruba a visão redutora que o PREC foi um período somente de canções panfletárias, de qualidade musical tenebrosa, distanciado do público. É certo que havia canções políticas que serviam um propósito imediato, gravadas às três pancadas, mas é igualmente certo, injustamente esquecido, que houve uma genuína mudança no gosto popular e 1975 foi um ano memorável para a música portuguesa.

A primeira evidência de que estes álbuns caíram no esquecimento da história está na dificuldade em encontrá-los: 50 anos depois, é necessário recorrer a uma loja de segunda mão e alguma sorte para sequer ouvir esta música em condições. Que Nunca Mais, por exemplo, do revolucionário gentil Adriano Correia de Oliveira, não é reeditado desde 1997; ao mesmo tempo que Fausto produziu este derradeiro fulgor criativo de Adriano, lançou Um Beco Com Saída, as canções mais cínicas destes primeiros anos da “bela democracia à portuguesa”. Nestes dois álbuns, as melodias latejantes de Fausto são sustentadas pelos multi-instrumentistas Júlio Pereira e Vitorino, que se estreiam precisamente em 75: o primeiro, ao lado de Carlos Cavalheiro, no álbum Bota Fora, ainda sem cavaquinho; o segundo, no clássico Semear Salsa ao Reguinho, o desvelar de uma voz suave, de canto e cante, que esconde fervura na garganta:

“Não julgues por eu cantar
que a vida alegre me corre
Eu sou como um passarinho
tanto canta até que morre”

Se ainda não estão convencidos, ouçam o álbum de estreia de Jorge Palma, Com Uma Viagem na Palma da Mão, um monólogo desvairado de prog rock no auge do Verão Quente, a comprovar a complexidade deste período musical. Ou espreitem Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, o último LP dos Quarteto 1111 de José Cid, uma primeira experiência sinfónica, anterior ao 10.000 anos depois entre Vénus e Marte. E deixemos para o final a prova irrefutável, um dos melhores álbuns da nossa história é de 75: Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios da Banda do Casaco — “É como se a Banda do Casaco fosse o 25 de Abril da música popular portuguesa”, sentenciou o crítico de música do Expresso. Em contraste absoluto com a seriedade auto-imposta de um Letria, este bando de pândegos, liderados por Nuno Rodrigues e António Avelar de Pinho, cantam sobre um tipo que vende a alma a Satanás e vive à conta de uma mulher sem braço — “filha de um ricaço” — num mergulho profundo no fatalismo absurdo da psique nacional.

▲ Um dos melhores álbuns da nossa história é de 75: "Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios", da Banda do Casaco

Ao contrário de outras indústrias culturais, as grandes editoras mantiveram praticamente as estruturas desde o 25 de Abril, somente ajustaram o repertório, sobretudo, mitigando a profusão de singles de fado e folclore — segundo os críticos, claros vestígios fascistas do tempo da outra senhora. Este catálogo não desapareceu por inteiro, inclusive, as editoras apostam em fadistas e folcloristas com poder de encaixe socialista: a título de exemplo, o fadista Rodrigo, amplamente divulgado pela Valentim de Carvalho, intérprete de, sublinhe-se, “canções revolucionárias”; ou o fadista humorista Artur Gonçalves, que leva a mariquinhas à Rua António Cardoso, sede da PIDE, em Vamos Dar Caça À Pide:

“Tudo mudou de figura e na sala de tortura
Onde tanta gente andou de gatas
Quando em noites muito beras essas feras
Enfardavam democratas”

O folclore ligeirinho dos ranchos desapareceu das rádios e da televisão, mas não há qualquer evidência que alguma vez tenha perdido público, pelo contrário. Estudos demonstram que, após o 25 de Abril, aumentaram os ranchos ao longo de Portugal, ainda assentes num modelo institucionalizado pelo Estado Novo, em contradição com a linha de ação dos governos provisórios. Em 75, o Conselho Nacional de Música defendeu que o estado devia incentivar as “canções” que o “povo” “cria espontaneamente para as diversas tarefas do dia-a-dia” — ou seja, sob a lente marxista, um folclore de canções de trabalho, não é esta rebaldaria afetada, jocosa e de bailarico, que ainda alegra os nossos dias. O etnógrafo Michel Giacometti, militante do PCP, constitui o Plano de Trabalho e Cultura, que pretendia incentivar os estudantes a interpretar música tradicional, dita “autêntica”, e a recolherem o reportório em trabalho de campo, não esquecendo, pelas aldeias, os “testemunhos vivos” da “luta de classes do povo português em geral contra o fascismo e contra a exploração capitalista”.

▲ Um dos nossos melhores repentistas, Quim Barreiros, fez um balanço imediato destas primeiras eleições livres, em "O Malhão Não É Reaccionário"

Os músicos fanáticos de uma suposta sapiência do povo português foram surpreendidos quando, no dia 25 de Abril de 1975, a maioria dos votos para a Assembleia Constituinte estavam no centro político, entre o PS de Mário Soares e o PPD de Francisco Sá Carneiro. Um dos nossos melhores repentistas, Quim Barreiros, fez um balanço imediato destas primeiras eleições livres, em O Malhão Não É Reaccionário:

“Ai malhão malhão
Chamaram-nos reacionários
Temos que ser comunistas
Para ser revolucionários
Comunistas não seremos
Dissemos nas eleições”

A edição independente é uma arma

Nos anos seguintes, a democracia e a indústria musical portuguesa prevaleceram, mas naquela fervura do Verão Quente, a estrutura incipiente que sustentava as editoras foi severamente ameaçada pelo terramoto político. Os trabalhadores da Sassetti, a editora vanguardista que revelou José Mário Branco e Sérgio Godinho, proprietária de uma série de discotecas, ocuparam as instalações da empresa e sanearam a direção; em simultâneo, uma série de ídolos da canção, de Fernando Tordo a José Afonso, dispensaram os intermediários e seguraram as rédeas do próprio destino.

Um colaborador recente da Sassetti, Fernando Tordo, o homem da Tourada, vencedor do Festival da Canção de 73, e conhecido de todos os portugueses, provou que aquela voz revolucionária não era só garganta: fundou a Toma Lá Disco, uma cooperativa musical, porventura a primeira. A cooperativa foi lançada com o EP Fado De Alcoentre, um poema de Ary dos Santos sobre a surpreendente fuga de dezenas de pides da cadeia de Vale do Judeus — essa mesma prisão, há coisas que não mudam:

“Os pides desceram pela corda alegremente
Os guardas andavam passeando em Alcoentre
E a esquerda levou com mais um corno pela frente

Esta maldade não se faz à gente
Que merda!”

As canções de Fernando Tordo e Ary em 75, também ausentes das plataformas de streaming, são um retrato vivo das contradições do PREC; a maioria esquecidas pelo tempo, com uma honrosa exceção, O Facho, interpretada por Paulo de Carvalho, outro vencedor do Festival da Canção feito revolucionário:

“Saneia o chefe
que o compromete
com toda a calma
E vende a alma
é um machista
não leninista:
o facho!”

A editora Orfeu de Arnaldo Trindade, como vimos no artigo anterior desta série, foi a grande beneficiada após o 25 de Abril. Contudo, o maior ganha-pão estava em risco de embalar a trouxa e zarpar: José Afonso mostrou ao editor as primeiras canções compostas em liberdade e foi surpreendido pelo redondinho não. Arnaldo Trindade, que não era propriamente um homem de direita, recusou-se a gravar o que considerou um reportório panfletário. A música em questão, Viva Poder Popular, replicava uma palavra de ordem da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR), o movimento “marxista revolucionário” de Palma Inácio e Camilo Mortágua; após a recusa da Orfeu, a LUAR editou o único single de “Zeca” em 75. Este movimento político anunciou, num comício de encher o olho, no Coliseu dos Recreios, um “contrapoder popular revolucionário”, sem recorrer a eleições, com aval, no palco, de José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Carlos Alberto Moniz e Francisco Fanhais — “homens que sempre puseram a música ao serviço da revolução”.

▲ A LUAR anunciou no Coliseu um “contrapoder popular revolucionário”, sem recorrer a eleições, com aval, no palco, de José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Carlos Alberto Moniz e Francisco Fanhais

Em sete anos consecutivos, conforme delineado em contrato, José Afonso editava um álbum por ano pela Orfeu, em dezembro, tão certo como o Natal dos Hospitais. Em 75, nem Natal dos Hospitais, nem LP de José Afonso. O autor do hino da revolução estava, desde o momento em que a Grândola, Vila Morena ecoou na Renascença, a agitar a malta, furiosamente. Em janeiro, a convite do MFA, foi a Luanda, Cabinda ou Huambo, em apoio público ao MPLA, enquanto decorriam as negociações pela independência. A meio do ano, estava nos confins de Portugal, entre as aldeias de Bragança, a colaborar com o Programa de Dinamização Cultural e Esclarecimento Político, as campanhas itinerantes do MFA de entreajuda, doutrina e espetáculos. Numa destas sessões de esclarecimento, nas Minas da Ribeira, acompanhado pelo fiel escudeiro Fanhais, foi desafiado, do dia para a noite, a compor uma canção sobre uma “história verdadeira”, um tal de Manuel Augusto, um mineiro preso pela PIDE por ordem do patrão; no dia seguinte, José Afonso interpreta, de papel na mão, Em terras de Trás-os-Montes, e, reza a lenda, os camaradas trabalhadores decidem, logo ali, entre Coelhoso e Parada, ocupar as Minas da Ribeira.

Numa estrada paralela, sentido maoísta, José Mário Branco persistiu no impulso coletivista que o movia desde que aterrou em Lisboa; das ruínas do Colectivo de Acção Cultural (CAC) de má memória, “Zé Mário” fundou o Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta (GAC), desta vez, sem pontas soltas — as canções são assinadas pelo coletivo, sem vedetas, e segue, à linha, as coordenadas da União Democrática Popular (UDP), o partido do ex-preso político João Pulido Valente, camarada dos tempos de Paris.  Os “cantos de luta”, “ao serviço das classes exploradas”, refletem as políticas maoístas e, sobretudo, revelam uma verdade absoluta até aos seus últimos dias: José Mário Branco era incapaz de compor uma canção apática, quanto mais um mero panfleto.

▲ "Viva o Poder Popular", de José Afonso, replicava uma palavra de ordem da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR), o movimento “marxista revolucionário” de Palma Inácio e Camilo Mortágua

Ao longo de 75, o GAC popularizou uma grandiosa homofonia revolucionária que, meio século depois, é mimetizada por outros jovens grupos de coros politizados. Os singles incontornáveis Alerta ou A Cantiga É Uma Arma são de edição própria, vendidos loja a loja, mão a mão, ou em “sessões de luta”, os concertos improvisados em comícios, associações, sindicatos, por onde seja, pelo pão e pela paz, e pela nossa terra.

A cantiga é uma arma, mas, convém lembrar que, como diz a canção, tudo depende da bala e da pontaria. A edição marginal à indústria não era somente de propósitos altruístas, ou de uma certa desenvoltura ideológica, apresento-vos o caso extraordinário da Editora Vitória, de José Crispim — se o nome vos diz alguma coisa é porque assistiam aos programas de variedades na década de 90, apimentados pela brejeirice tasqueira do duo Ele e Ela (ele, Crispim, ela, Lena Silva). Em 75, José Crispim fundou a Vitória para editar, com olho para o negócio, uma carrada de canções políticas, sem qualquer controlo de qualidade; é desta editora o primeiro single de Fernanda de Sousa, de fama Ágata, Heróis Trabalhadores, que aborda os homens que “sonham com mais tractores para trabalhar a terra” — uma temática que difere, ligeiramente, do primeiro single enquanto Ágata, Quentinha e Boa. O single revolucionário foi apresentado no Circo do Povo, ao Martim Moniz, um circo sem animais por falta de orçamento, confessa a organização — “é um circo pobre, mas honesto”. Outra pérola da Editora Vitória: a Ressurreição do Meu País de um sorridente Alex, O Fabuloso, de novo os camponeses e as inchadas, mas numa voz de bordel, inconfundível; nada mais, nada menos, que o Mister Gay, quando ainda era criança, em pleno PREC.

O que faz falta é censurar a malta

O panfleto musical mais célebre, responsável pela má fama da canção política, foi totalmente acidental. O casal Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo enjeitaram no estúdio, em Campo de Ourique, uma canção para acompanhar o single Daqui o povo não arranca pé! e, ocorreu-lhes, até porque ninguém ouve o Lado B, uma cantiga descartável, sequer afinada, de apoio ao primeiro-ministro: Companheiro Vasco. O refrão orelhudo — “Força, força companheiro Vasco/ Nós seremos a muralha de aço” — agradou aos chamados gonçalvistas, que, com acesso aos jornais, rádio e televisão, tornaram Companheiro Vasco no grande sucesso, quem sabe maldição, de Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo.

Estampado, em letras garrafais, os versos de uma canção: “FORÇA, FORÇA COMPANHEIRO VASCO”. A tarja estava em frente ao primeiro-ministro, durante o incómodo discurso na Escola D. António da Costa, em Almada, agosto de 75, quando anunciou que — preparem-se — “chegou enfim a hora da verdade da revolução portuguesa”. A “hora da verdade” contemplava, em primeiro plano, um programa ambicioso de nacionalizações, desde a banca aos seguros, sem esquecer a cultura portuguesa. A nacionalização do teatro foi a principal legislação apresentada para o setor, e, à boleia, o silenciar de canções inconvenientes ao regime gonçalvista.

▲ Os gonçalvistas, com acesso aos jornais, rádio e televisão, tornaram "Companheiro Vasco" no grande sucesso, quem sabe maldição, de Maria do Amparo e Carlos Alberto Moniz

“O nacional-cançonetismo e o teatro comercial não cabem na revolução portuguesa”, defendeu Carlos Porto, crítico de teatro, militante do PCP e um dos autores da nova Lei do Teatro, uma legislação redigida entre diversos simpatizantes do PCP, do ator Morais e Castro ao dramaturgo Luís Francisco Rebello, e discutida pela classe em reuniões do sindicato e da SPA — incluindo a sessão de lambadas que abriu este artigo. A legislação foi apresentada ao público pelo Ministro da Comunicação Social, o comandante Jorge Correia Jesuíno, e os seus redatores argumentaram que, depois do 11 de Março, impunham-se “medidas autenticamente socializantes” como a eliminação dos “monopólios” e de qualquer “entidade empresarial privada”. Segundo a jornalista Manuela de Azevedo, o governo de Vasco Gonçalves estudava ainda uma lei que, na prática, poderia acabar de vez com esta chatice da liberdade criativa: um decreto para “requisitar” qualquer sala de espetáculos que apresentassem “espetáculos que possam considerar-se contrários ao programa de democratização do MFA”.

O debate legislativo, cozinhado em caldinho entre os redatores e o governo, nasceu inquinado; aos músicos e atores visados restou convocar uma assembleia extraordinária do Sindicato dos Profissionais de Teatro, Bailado, Circo e Variedades. Um grupo de “não revolucionários”, onde se incluíam António Calvário, Maria de Lurdes Resende, Simone de Oliveira, entre tantos outros, protestou a complacência do representante do sindicato, o encenador Fernando Gusmão, na redação do anteprojeto. Nesta assembleia extraordinária, os artistas — “menosprezados e vítimas de discriminação” — acusam diretamente José Jorge Letria pelo “ostracismo” na RTP e EN; pelo meio das cinco horas de debate, Vítor Espadinha, entre os contrários à legislação, enervou-se, e achou por bem puxar pelos galões revolucionários, ora vejam, comunista há 15 anos e com diversos registos de prisão, garantiu — “Exibiu três passaportes, um dos quais seria falso. Disse ter estado em Moscovo e na RDA”.

▲ Na revista "Lisboa Acordou", o palco apontava o dedo à “marginalização” do fado e sugeria que os comunistas controlavam a rádio e a televisão

O principal empresário na berlinda, Vasco Morgado, deu a resposta em palco: num dos quadros da revista Lisboa Acordou, os atores em cena acusam Letria pela “marginalização” do fado e sugerem que os comunistas controlam a rádio e a televisão. Na assistência, no decorrer da estreia, o Presidente da República, General Costa Gomes, e ainda, nas primeiras filas, a jornalista Vera Lagoa, que, agradada com as rábulas anticomunistas, fez-se ouvir em todo o Teatro Monumental: “Abaixo a ditadura!”.

O calor insuportável do Verão Quente alongou-se ao outono, a muralha de aço do companheiro Vasco ruiu, o almirante Pinheiro de Azevedo foi encarregue de segurar as pontas, e o país na mesma, em ambiente de guerra civil. Em novembro de 75, a sucessão de eventos é vertiginosa, desde a explosão de gás lacrimogénio no Terreiro do Paço — “É apenas fumaça” —, às ameaças de “manobras militares” pelo Comando Operacional do Continente (COPCON), liderado por Otelo Saraiva de Carvalho.

No dia 16 de novembro, o “povo trabalhador” manifestou-se contra a “política de direita” do governo provisório; entre a multidão, gritos a exaltar o líder da COPCON, devidamente assinalados pelos jornalistas, frustrados pelo iminente anúncio do novo comandante da Região Militar de Lisboa, o moderado Vasco Lourenço: “Otelo Saraiva Carvalho tem agora a sua própria base social de apoio. Dir-se-ia, portanto, que mais do que nunca é necessário que das palavras passe à ação”. Uma semana depois, José Afonso enviou uma carta aos militares de Tancos, dirigindo-se concretamente aos apoiantes de Otelo, a “oferecer” os “serviços” para “eventuais sessões de convívio”. E chegámos à data fatídica, 25 de Novembro de 1975: o prometido é devido, entre tanques, pára-quedistas e prisões, José Afonso arrepia caminho a Tancos. O que fazia então falta, há de ter pensado, era animar a malta.

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