No jobs for the boys, diz agora Cavaco. E jobs for the wives no seu Governo? /premium

04 Abril 20194.984

13 mulheres e duas irmãs de governantes ou de pessoal de gabinete trabalharam em gabinetes ministeriais ou em cargos de nomeação política no segundo Governo de Cavaco Silva. Até há empregos cruzados.

A frase original até era de outro primeiro-ministro, António Guterres, mas apesar de o socialista a ter popularizado em 1995, quando chegou ao Governo e colocado como mantra, nunca pegou. O “com o PS no poder não há jobs for the boys” rapidamente virou anedota, com também os socialistas a passarem à prática de empregos públicos para as hostes partidárias. A expressão ficou, no entanto, célebre e esta quarta-feira, o ex-Presidente Cavaco Silva, aproveitou-a, para mais uma vez entrar indiretamente na controvérsia sobre a endogamia no Governo socialista. Cavaco disse que já em 2017 classificou”a prática de jobs for the boys” como “muito negativa” e “as situações deste tipo como indecorosas”. Mais uma vez a frase não cola. No Governo que saiu da sua segunda maioria, 1991, eram 13 as mulheres e duas irmãs de governantes de chefes de gabinete que se cruzavam em gabinetes ministeriais.

Como se tem vindo a e verificar, a prática de jobs for the boys é muito negativa para o país e para os portugueses. No livro que escrevi em 2017, classifiquei as situações deste tipo como indecorosas”

A teia de relações foi revelada pelo semanário Independente, na edição de 7 de fevereiro 1992, e num artigo que tinha como título “O Interno Feminino” — uma paródia com o título do programa da RTP “Eterno Feminino”, apresentado por Teresa Guilherme nas tardes daqueles anos. O texto discorria sobre empregos dados a mulheres de governantes sociais-democratas dentro de gabinetes ministeriais e entre os casos contava-se, por exemplo, um cruzamento curioso: a mulher de Luís Marques Mendes, Sofia, era Adjunta do secretário de Estado da Agricultura Álvaro Amaro que, por sua vez, tinha a sua mulher a trabalhar no gabinete de Marques Mendes, na Secretaria de Estado do Conselho de Ministros.

Uma troca que, por exemplo, escaparia à regra que o atual primeiro-ministro, António Costa, impôs agora para o seu Governo: “Só haveria uma questão ética se alguém nomeasse um familiar seu”. Não acontecia no caso de Mendes e Amaro.

Celeste Amaro tinha começado a trabalhar no início desse ano como vogal nos Serviços Sociais da Presidência do Conselho de Ministros. Era técnica superior na Câmara Municipal de Coimbra, mas acabou por vir com o marido para Lisboa quando este foi nomeado ministro e começou por trabalhar na Secretaria de Estado da Juventude. Estava nos serviços sociais requisitada ao gabinete de Mendes. Sofia Marques Mendes, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, era funcionária pública e professora, foi contactada na altura pelo Independente e dizia que ainda se estava a “meter nos assuntos do gabinete”, mas que estava a gostar do trabalho.

Celeste Amaro dizia ao jornal que “as coisas eram difíceis para qualquer mulher de um membro do Governo. Tem de se servir de mãe e pai. E ninguém que seja profissional quer deixar de trabalhar. Acontece o mesmo com algumas amigas minhas que estão na mesma situação”, pode ler-se no artigo que o Observador consultou (ver em cima na galeria de imagens todo o artigo).

Ainda recentemente, no seu comentário na SIC-Notícias, Marques Mendes não poupava o atual Governo sobre as nomeações familiares. Aliás, disse mesmo que “é de chamar a atenção a António Costa que esta sua tendência para ter governos em circuito fechado só lhe cria problemas. Ganha votos com os passes sociais e perde com a overdose de familiares no governo”.

Onde havia mais wives

Os ministérios dos Assuntos Parlamentares, de Couto dos Santos, da Administração Interna, de Manuel Dias Loureiro, e a secretaria de Estado da Cultura, de Pedro Santana Lopes, eram aqueles que mais mulheres de governantes empregavam. Dias Loureiro tinha a mulher de então, Fátima Dias Loureiro, a trabalhar como adjunta de Santana. E o seu subsecretário de Estado, Sousa Lara, empregava Filomena Encarnação, mulher de Carlos Encarnação, secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna.

Encarnação, por sua vez, tinha como secretária Regina Estácio Marques, mulher de um assessor de Cavaco Silva. E tinha ainda no seu gabinete, Fátima Loureiro, mulher de Carlos Loureiro que trabalhava no mesmo Ministério, no gabinete ao lado, como secretário de Estado da Administração Interna. Ao Independente dizia que ser mulher de um membro do Governo “não lhe atrasa nem adianta a vida”. Ainda falava do ordenado 250 contos líquidos (cerca de 1250 euros — na altura o salário mínimo estava próximo dos 40 contos, ou seja, cerca de 200 euros). Dizia que não era muito, já que em Lisboa tinham outros gastos: “Em Coimbra tínhamos a nossa própria casa”.

A rede já vai complexa, mas havia mais. No gabinete do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, António Couto dos Santos, estava como secretária do próprio governante Margarida Cunha, mulher de Arlindo Cunha, ministro da Agricultura. Ainda com Couto dos Santos estavam Isabel Elias da Costa, mulher do secretário de Estado das Finanças Elias da Costa. E ainda Teresa Corte Real Silva Pinto, que era secretária pessoal do ministro e também irmã da secretária de Estado da Modernização Administrativa, Isabel Corte Real. A outra irmã deste Governo era a de José Honorato Ferreira, o chefe de gabinete do próprio primeiro-ministro Cavaco Silva. Eduarda trabalhava no gabinete do ministro das Finanças, Braga de Macedo.

Manuel Falcão, chefe de gabinete de Santana, tinha a mulher Isabel Ataíde Cordeiro a trabalhar com Isabel Mota, na secretaria de Estado do Desenvolvimento e Planeamento Regional. Mas neste caso, a mulher até tinha chegado ao Governo antes do marido, logo em 1988.

Maria dos Anjos Nogueira também não era nova no Governo quando, em 1991, foi nomeada como adjunta do secretário de Estado da Saúde José Martins Nunes — já tinha passado pelo mesmo Ministério quando a responsável máxima era Leonor Beleza.  O seu marido, Fernando Nogueira, também já não era um estreante. Repetia as funções que tinha tido no Governo anterior, como ministro da Presidência que acumulava com a Defesa Nacional. Empregava no Ministério Maria Cândida Menezes, mulher de Luís Filipe Menezes que era nessa altura secretário de Estado Adjunto dos Assuntos Parlamentares.

Na Presidência do Conselho de Ministros, por sua vez, Marques Mendes tinha como assessora Paula Teixeira da Cruz, e no mesmo edifício trabalhava o seu marido na altura, Paulo Teixeira Pinto que era sub-secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. O jornal refere que o marido até entrou no gabinete depois da mulher, que já lá estava desde o Governo anterior e ainda a competição entre os dois juristas de currículo respeitável que já vinha desde a faculdade.

Fora do Governo, mas num cargo de nomeação governamental estava Margarida Sousa Uva, mulher de Durão Barroso que era na altura secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. Margarida trabalhava na Comissão dos Descobrimentos.

A capa do Independente foi recordada esta quarta-feira à noite, na SIC-Notícias, pela secretária-geral Adjunta do PS. Ana Catarina Mendes aconselhou a leitura do “uma investigação feita pelo doutor Paulo Portas [era diretor do jornal], em 1992, que revelava bem quais eram as escolhas do primeiro-ministro Cavaco Silva”.

Na semana passada, Cavaco Silva já tinha feito uma declaração que também foi alvo de verificação por parte do Observador, num fact-check onde já se expunham algumas das relações familiares nos Executivos do antigo primeiro-ministro. Nesse dia Cavaco tinha afirmado que não tinha detetado nos sues governos “nenhuma ligação familiar”. Volta agora a atirar ao lado.

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