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Muitos quiseram ver e ouvir Finneas, pelas canções e porque é o "irmão de Billie Eilish". A sensibilidade pop é inegável, mas as canções nem sempre estão ao mesmo nível
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▲Muitos quiseram ver e ouvir Finneas, pelas canções e porque é o "irmão de Billie Eilish". A sensibilidade pop é inegável, mas as canções nem sempre estão ao mesmo nível

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Muitos quiseram ver e ouvir Finneas, pelas canções e porque é o "irmão de Billie Eilish". A sensibilidade pop é inegável, mas as canções nem sempre estão ao mesmo nível

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

NOS Alive: um segundo dia entre o barulho das luzes de Anyma, a classe dos Justice e o imparável hip hop em português

Ao segundo dia de festival, o Passeio Marítimo de Algés esteve muito longe de estar cheio num dia que perdeu Sam Fender e em que a aposta principal esteve na música eletrónica.

Ao segundo dia do NOS Alive de 2025, reinaram os espetáculos de música eletrónica com uma grande aposta visual, mas também houve espaço para pop rock que pediu menos agitação do corpo — mas uma maior ligação emocional. Entre tudo isto, há muito tempo que não nos lembramos de ver um Passeio Marítimo de Algés tão vazio.

A programação díspar deste dia — sem um óbvio cabeça de cartaz como encontramos nas outras datas, com a estrela Olivia Rodrigo a esgotar o primeiro dia e os Muse e os Nine Inch Nails a afirmarem-se como grandes bandas de encerramento — terá sido a grande responsável, numa altura em que cada vez mais se fala na crise dos grandes festivais de música e na saturação do mercado.

Outra coisa que não estamos habituados a encontrar no NOS Alive é uma programação principal tão eletrónica — sobretudo com um homem só ao comando de todo o Palco NOS, com um formato assumidamente de DJ set, como foi o caso do ítalo-americano Anyma. O artista de 37 anos tornou-se conhecido no meio como metade da dupla Tale of Us, mas nos últimos anos emancipou-se a solo e transformou-se num monstro comercial.

Super-estrela na era do TikTok, Anyma tem vindo a surpreender e a revelar-se impactante junto de um público desejoso de estímulos rápidos com os seus visuais apelativos e imersivos. Mais do que ouvintes, tratam-se de seguidores e espectadores nas redes sociais, sobretudo através dos vídeos gravados na sua residência na Sphere, a inigualável arena a 360 graus que abriu em 2023 em Las Vegas, nos EUA, o que abriu novas possibilidades criativas para os artistas pensarem em conceitos visualmente envolventes.

▲ Anyma

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O seu marcante espetáculo de visuais e luzes, adaptado a palcos mais normais para que pudesse viajar pelo mundo, terá sido o grande chamariz para ser programado em festivais como o NOS Alive que, até hoje, não têm por tradição programar DJs como cabeças de cartaz — o que é ainda mais surpreendente quando ouvimos a música de Anyma, house de natureza melódica e progressiva.

É suficientemente acessível enquanto música eletrónica destinada ao grande público, mas também é genérica, sem nada de muito particular que a distinga, sem um cunho autoral diferenciador. Se o NOS Alive não cedeu quando festivais como o belga Tomorrowland se tornaram fenómenos mundiais, se o festival de Algés não concedeu lugares de destaque a muitos DJ-estrela que apareceram com o estrondo da EDM há 15 anos, porquê agora? Considerando a fraca adesão do público, talvez seja algo a ter em conta para as próximas edições.

De pé, apenas com uma mesa comprida à sua frente, Anyma é um único homem perante uma multidão de vários milhares de pessoas a dançar. Atrás e nos ecrãs gigantes laterais, os tais famosos visuais vão fazendo a sua magia — são impactantes, sim, mas não conseguem nem chegar perto das projeções que vimos na Sphere ou mesmo noutros locais com ecrãs de qualidade superior. Além disso, entre os humanóides que têm marcado o seu imaginário em nome próprio — lançou três discos Genesys desde 2023 —, florestas pós-apocalíticas ou naves espaciais, até pode existir uma certa coerência temática que aponta para um futuro não muito otimista, mas não se trata de uma narrativa coesa com um princípio, meio e fim. São adornos sem um sumo maior que poderia fazer a diferença.

Os inevitáveis Justice e o que Finneas ainda tem para caminhar sozinho

Ficámos melhor impressionados, na verdade, com o espetáculo visual dos Justice. Oito anos volvidos desde a última vez que tocaram em Portugal, a dupla francesa composta por Gaspard Augé e Xavier de Rosnay trouxe ao Passeio Marítimo de Algés a performance de Hyperdrama, o álbum que lançaram em 2024. Também eles são apenas dois homens em cima de um enorme palco, mas a sua presença — ao contrário da de Anyma, que se posiciona como o centro das atenções, sempre iluminado e visível — é propositadamente dissimulada, de maneira subtil e inteligente, utilizando os músicos como figuras cénicas numa obra-prima de light design.

Serão poucos os concertos que já vimos no NOS Alive (ou noutro festival português) com uma estrutura de luzes tão avançada e com tanta diversidade de efeitos, com os projetores a moverem-se pelo palco como se se tratassem de marionetas manipuladas por mestres da iluminação, tal não era a sua fluidez de movimentos e os resultados do seu posicionamento.

▲ Justice

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O duo foi tocando temas da sua carreira de 20 anos, da sua eletrónica que tanto vai beber à disco como ao rock, do seu electroclash, da sua escola francesa. Diríamos que a música não conseguiu atingir o nível do espetáculo de luzes, que pedia mais graves, mas na verdade Anyma trouxe esses sons mais baixos e acabou por não sair por cima.

Entre uns e outros, vimos do outro lado do recinto um dos concertos mais relevantes desta edição no Palco Heineken. Finneas já se tinha apresentado em Portugal como membro da comitiva da sua irmã mais nova, a super-estrela Billie Eilish, mas estreou-se com um concerto seu no nosso país nesta noite de sexta-feira.

Quem aparece associado a um astro tão grande, como é o caso da sua irmã, dificilmente conseguirá descolar dessa imagem e construir uma identidade própria distinta. Não é que Finneas seja um discípulo da irmã; pelo contrário, foi ela quem aproveitou o seu talento de composição e escrita para dar vida a canções que a tornaram num dos maiores fenómenos e sucessos mundiais da última década. Finneas será uma das pessoas com mais mérito no percurso que Billie Eilish tem feito, mas torna-se difícil dissociá-lo da obra fraternal, encará-lo de forma autónoma quando se tornou “o irmão de Billie Eilish”. “Traz a tua irmã!”, gritou um espectador durante o concerto.

▲ Finneas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os gritos de entusiasmo que se ouviram no início, tal como noutros momentos durante o alinhamento, foram também idênticos aos espetáculos de Billie Eilish. Finneas navega pelo mesmo universo, partilhando muitos fãs com a irmã, e os seus três discos editados desde 2019 aproveitam para si próprio as suas competências enquanto autor de canções pop. O mais recente, For Cryin’ Out Loud! (2024), esteve em destaque no Palco Heineken, mas temas anteriores como Angel, The Kids Are All Dying ou Let’s Fall In Love For The Night foram dos mais acarinhados pelo público, que ostentou cartazes ao longo da noite.

“Se lixar uma das letras é porque estou a ler os cartazes e a tentar decifrar-vos”, atirou, bem disposto, o cantautor que está prestes a completar 28 anos e que, já na reta final, colocou um boné de Portugal e deixou-se envolver na bandeira nacional. Performer já experiente, com uma boa presença em palco e uma voz com um alcance notável, Finneas é o dono de uma pop que soa autêntica, sem artifícios nem demasiadas superficialidades, que consegue ser catártica — mesmo que, ainda assim, aqui e ali tenha momentos mais genéricos, que se assemelham a tantas outras coisas.

Os Wombats estiveram meio perdidos. Os Macacos de Chinês e Capicua nunca se perdem

Não podemos olhar para o copo meio cheio no caso dos The Wombats, a banda britânica que veio substituir o compatriota Sam Fender, que se viu obrigado a cancelar a digressão internacional graças a um problema de saúde nas cordas vocais. “Definitivamente não somos o Sam Fender”, avisou, logo a abrir, o vocalista Matthew Murphy. “Só soubemos que íamos fazer este concerto há uns dois dias!”

▲ The Wombats

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Simpáticos e descontraídos, os The Wombats só tinham passado uma vez antes por Portugal, precisamente há 10 anos no NOS Alive. Desde então, lançaram três discos, incluindo Oh! The Ocean, editado no início deste ano. Apesar da ternura e da competência, de tocarem um pop e indie rock agradável que contrastou de algum modo com um final de tarde de julho tão cinzento, as canções são de facto genéricas — e não conseguiram atrair uma grande multidão, provavelmente a mais pequena naquele horário em muitos anos.

Nem sequer a presença de uma mascote de um vombate — o amoroso animal australiano que dá o nome à banda — a tocar trompete fez grande diferença para as contas finais. Seja como for, cumpriram o papel inesperado que lhes foi atribuído e até lhes soube a pouco. “Temos de voltar mais rápido da próxima vez”, manifestaram em direção ao público português.

Entre ingleses, norte-americanos, franceses ou italianos, também encontrámos espaço para a música portuguesa. No intervalo e na mudança de palco entre os The Wombats e os Justice, Capicua reuniu uma vasta multidão no Palco WTF Clubbing, pré-disposta a ouvir as canções do seu novo álbum, Um Gelado Antes do Fim do Mundo, mas também temas emblemáticos que têm marcado o percurso da rapper portuense, como é o caso do êxito Vayorken.

▲ Capicua

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Acompanhada por uma banda que encontrou o equilíbrio certo nos arranjos, mantendo um som orgânico mas não o afastando em demasia da sua essência hip hop, Capicua foi interpretando os seus temas sobretudo politizados — o novo trabalho é um disco urgente que confronta de frente os grandes problemas de hoje — com assertividade e doçura na medida certa.

Outra das boas valências de Capicua ao vivo, que foi finalmente transportada para este último disco, é a sua transição natural entre um registo de rap, a sua voz cantarolada e a sua palavra dita, diferentes abordagens que acabam por se complementar e acrescentar camadas a um espetáculo que já era rico pelas canções.

Ainda antes disso, começámos este segundo dia de NOS Alive a assistir ao concerto de regresso dos Macacos do Chinês. Há praticamente 15 anos que o grupo não estava no ativo, embora vários dos seus membros continuem ligados à música e se tenham desdobrado por múltiplos projetos — com destaque para os MGDRV, que juntavam o rapper Pité (anteriormente, Skillaz) e o produtor de serviço, Apache. A banda fica concluída com Alexandre Talhinhas (guitarra), Tiago Morna (guitarra portuguesa) e Drupez, que não constava oficialmente da formação mas que aqui se apresentou como um verdadeiro macaco do chinês.

▲ Macacos do Chinês

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sempre foram, acima de tudo, uma banda de fusão. O espírito do hip hop, para quem tudo é matéria-prima e tudo se reinventa, o próprio rap, mas também a guitarra portuguesa, os ritmos minhotos, a influência africana ou indiana, os universos mais britânicos do grime e demais subgéneros eletrónicos. Em palco, conjugam da melhor forma todas estas valências, com uns arranjos que não defraudam a natureza digital dos instrumentais nem desperdiçam os valiosos graves de que também é feita a sua música.

Numa era em que uma das grandes tendências é cruzar a tradição nacional com elementos modernos e contemporâneos, sejam ambiências hip hop ou texturas eletrónicas, os Macacos do Chinês mostram que estavam de alguma forma à frente do seu tempo e voltam em altura certa. Já está confirmado que esta será a primeira data de um regresso que terá, em breve, um concerto em nome próprio em Lisboa e, muito provavelmente, música nova a caminho. “Quem disse que isto não batia?”, rimam em Plutão, o seu primeiro single de sempre, editado em 2007. “Querias uma cena assim, esquece, antes não havia”, canta Pité. “E ainda não há”, acrescenta agora, quase 20 anos depois.

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