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O ano da graça de Rosalía

Com o álbum "LUX" nas listas da melhor música dos últimos 12 meses e com os bilhetes para os concertos de 2026 a voar, eis Rosalía em 2025: mais do que uma estrela pop, um acontecimento, um monumento.

Este é o momento pelo qual, durante semanas, dezenas de milhares de pessoas em Portugal tanto esperaram, o momento com que sonharam, a razão pela qual pouparam nos cafés e nos jantares fora e em todas as despesas possíveis de modo a reunir à volta de uma centena de euros (ou quatro) para estar na fila dos bilhetes para os concertos de Rosalía em Portugal.

Para sermos específicos, digamos que nesta terça-feira os bilhetes para os concertos na Meo Arena, a 8 e 9 de Abril, em Lisboa, foram postos em pré-venda, com as sobras guardadas para o dia da venda oficial, quinta-feira 11 (com preços entre os 50 e poucos e os 400 e muitos, dependendo da vista, do conforto e da proximidade face à estrela) e muitos certamente a esperar o anúncio de mais datas (haverá?).

Isto porque comprar bilhetes para um concerto em 2025 é como jogar um vídeo jogo na vida real: há a pré-venda e depois a venda, isto já depois de um pré-registo. Em ambas situações é preciso clicar na tecla F5 do computador milhares de vezes, e convém, antes de chegar a esta fase, ter amealhado mais de uma centena de moedas e, caso a pessoa consiga os bilhetes e estes não aumentem de preço durante a compra (por enquanto, o preço dinâmico não é legal em Portugal, mas vamos ver até quando), marcar logo o concerto no Google Calendar porque, vamos lá a ser sinceros, quem é que se lembra numa quarta feira chuvosa de abril que comprou bilhetes para um concerto quatro meses antes?

Mas se é para dizer as verdades, digamo-las todas: desta vez, há boas razões para não esquecer a data dos concertos. Recordo-me do dia em que me pus a ouvir LUX, o tal novo álbum de Rosalía, e recordo-me como se fosse hoje – possivelmente, porque foi só há um mês. Mas nesse dia, algo aconteceu no coração que bate no peito deste desafinado: concluí que isto (LUX, o disco) era (atentem bem, porque eu não digo coisas destas muitas vezes), isto era história da arte, ou – para ser preciso – é História da Arte, assim, com A grande. Não apenas um acontecimento, mas um monumento, uma catedral, um ovni, Nossa Senhora a descer à Terra para nos mostrar um pedaço do paraíso – e concluí também, estando (curiosamente) absolutamente certo, que devíamos todos parar imediatamente tudo o que estamos a fazer, ajoelhar-nos, chorar e agradecer.

Críticos de música são conhecidos pelas suas reações hiperbólicas, algo que— e guardem bem esta informação — vai diminuindo com o tempo e o alargar do conhecimento da história da música, mas que não nos torna imunes ao (ocasional) deslumbramento (quando este é merecido). A física ensina-nos que por cada ação há uma reação e, se houve hypes e marketing à volta de LUX, também houve quem tenha vindo de imediato desmerecer o disco, dizendo que é uma tentativa superficial de cruzar música tradicional (flamenco, rumba, etc) com sinfonismo e eletrónica.

LUX tenta, de facto, conciliar linguagens aparentemente contraditórias, mas o erro da definição acima é tomá-lo como superficial. Nunca o poderia ser – porque Rosalía tem uma daquelas vozes que a coloca ao nível de uma Amália ou de uma Piaf. Ela podia estar a cantar uma receita de arroz de bacalhau com aipo e couve lombarda, que ainda assim sentiríamos pontadas na jugular e alquebravam-se-nos as perninhas.

Tomem como exemplo Mio Cristo Piange Diamante — e muito honestamente não faço ideia de como é que isto poderá ser traduzido em palco, mais ainda num alinhamento que tem de incluir canções que têm o seu centro no reggaeton ou em beats dançáveis, mas parem tudo o que estão a fazer e ouçam: as harpas, as cordas, os sopros, todo um universo simultaneamente cinemático e planante, que dá espaço à voz de Rosalía e acentua cada sentimento: é difícil, em 2025, estar mais perto de uma experiência religiosa (pelo menos, e segundo o que me disseram, sem recurso a drogas).

Não se dá o devido valor à voz de Rosalía, a toda a contradição e angústia e libertação que transporta. Isto já não é pop, isto já não é só música experimental – é uma experiência quase-religiosa. E perante isto, a única coisa que podemos fazer é parar imediatamente tudo o que estamos a fazer, ajoelhar-nos, chorar e agradecer. E tentar comprar bilhetes.

Ou sigam até De Madrugá, em que, de início, o ritmo é sustentado só com a voz e palmas – antes de entrarem as cordas, carregadas de intensidade, como nuvens plúmbeas em dia de borrasca: isto é flamenco, mas não é flamenco, isto não é sequer etiquetável e ainda bem – é sinal de que acabámos de ser abalroados por uma entidade desconhecida, acabada de nascer, mais uma daqueles epifanias que alteram as coordenadas daquilo a que chamamos música. Ou, para os crentes: um milagre.

Uma das questões que nos podemos colocar, e que já antecipei acima, é saber que Rosalía vamos ter em palco, tendo em conta a diferença estilística entre cada disco. O exercício pode ser fútil, até porque a reposta mais aproximada à certa será: todas. Mas desconfio que aumentar a lupa sobre a biografia pode vir a ser-nos útil: Rosalía estudou flamenco durante nove anos no colégio de música da Catalonia. Depois disso, passou anos a cantar em bares em Barcelona, até gravar, em 2017, o seu primeiro álbum com a ajuda do produtor Raül Refree — nessa altura, a Rosalía que nos surgia dedicava-se quase exclusivamente ao flamenco, e tudo na sua música era mais sombrio.

Chamemos a esta a Rosalía I. Que não era uma tradicionalista – por alguma razão fazia versões de Bonnie Prince Billy. Era, sim, um ser em mutação, mutação essa revelada em El Mal Querer (de 2018), que foi inicialmente pensado como tese académica da própria Rosalía. Admitamos que ela não será uma música virtuosa, apenas alguém que sabe criar uma sequência de acordes ou imaginar uma melodia; assim sendo, precisa de alguém que a ajude a dar corpo à sua visão – no caso foi o produtor El Guincho que a ajudou a pegar na tradição flamenca (palmas, voz, atmosfera de faca e alguidar) e misturou-lá com a pop urbana atual: o R&B, a eletrónica, as melodias memoráveis. Bastou o single Malamente e, posteriormente, o espantoso Con altura para se tornar uma estrela global.

▲ A pop de câmara une-se à voz e à eletrónica na demanda de uma nova espiritualidade, enquanto Rosalía pensa no que é ser mulher em 2025 e estar em constante processo de transformação

Aqui chegada, Rosalía podia ter seguido o habitual guião: aparecer em canções de outras estrelas globais, lançar um par de singles orelhudos e depois, quando fosse criar um novo disco, aplicar a mesma receita do disco anterior. Mas ela é irrequieta, está sempre à procura – e foi assim que nasceu Motomami, o álbum em que ela perdeu qualquer medo, e se atirou a todos os géneros: dembow, bachata, reggaetón, pop, hip-hop, sintetizadores, samples, ritmos latinos, tudo o que se possa imaginar. Alguém disse que era como se Björk tivesse vinte e poucos anos e se deparasse pela primeira vez com o reggaeton e ritmos de baile latino e esse alguém estava correto. O facto de ter sido eu a dizê-lo só amplifica a ideia de que quem o disse estava correto.

Tão correto que Björk surge em Berghain, o operático primeiro single de LUX, que aborda o famoso clube de Berlim, conhecido pela liberdade sexual que proporciona a quem o frequenta – adequadamente, as cordas abrem como um batalhão de cavalaria à desfilada. Sendo uma canção admirável, é talvez a que neste momento menos me apetece ouvir, tanta foi a exposição a que fui sujeito, mal saiu.

(Mas há um pormenor que amo profundamente: no final da canção ouve-se um sample extraordinário: é a voz de um homem a dizer “I’ll fuck you ‘till you love me”, e cai ali de forma perfeita, como uma pústula num pecador crente; é, na realidade, uma gravação de Mike Tyson, completamente perdido da cabeça, a ameaçar um jornalista, e um dia toda esta carga semiótica vai ser estudada em universidades.)

Uma das questões que nos podemos colocar, e que já antecipei acima, é saber que Rosalía vamos ter em palco, tendo em conta a diferença estilística entre cada disco. O exercício pode ser fútil, até porque a reposta mais aproximada à certa será: todas.

A presença de Björk faz-se sentir em LUX e não apenas no single: esta mistura de cordas com beats (e, no caso, música tradicional) para criar canções que escapam a qualquer classificação, lembra a islandesa por alturas de Vespertine. Nesse sentido, LUX é um salto quase tectónico: gravado com a London Symphony Orchestra sob a direção de Daníel Bjarnason, produzido pela própria Rosalía, ostenta uma série de convidados (a mencionada Björk, Yves Tumor, Carminho, Estrella Morente Sílvia Pérez Cruz, entre muitos outros) de modo a levar a cabo uma espécie de música total reflexiva e experimental: ancorada na tradição, sim, que lhe traz a gravitas necessária, mas inabalável na sua vontade de unir galáxias distantes: a pop de câmara une-se à voz e à eletrónica na demanda de uma nova espiritualidade, enquanto Rosalía pensa no que é ser mulher em 2025 e estar em constante processo de transformação.

Não há muitos discos capazes de juntar as cordas a beats, e acabar com alto batidão, como acontece em Reliquia; ou que tenham a potência de La Yugular, uma maravilha de canção; ou que vá do sinfónico à música de câmara, deixando, a dado momento, as vozes sozinhas, e nós entregues a elas, devastados com este furacão. Ouço Mundo Nuevo e penso que deve ter sido isto que os nossos pais sentiam quando Amália ou Piaf ou Joni Mitchell lançavam um novo disco: poder assistir a uma voz, capaz do efeito mais arrebatador, com uma intensidade demoníaca, a descobrir todo o seu poder, no exato instante em que deixa de ser apenas uma voz e se torna veículo das nossas dores, dúvidas, alegrias e esperanças – tal como neste exato momento Rosalía deixou de ser uma estrela para ser uma Deusa.

Não se dá o devido valor à voz de Rosalía, a toda a contradição e angústia e libertação que transporta. Isto já não é pop, isto já não é só música experimental – é uma experiência quase-religiosa. E perante isto, a única coisa que podemos fazer é – como disse alguém extraordinariamente inteligente e bonito – parar imediatamente tudo o que estamos a fazer, ajoelhar-nos, chorar e agradecer. E tentar comprar bilhetes. Mas essa é outra oração.

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