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▲As fotografias foram tiradas entre 1981 e 1983

@Teresa Couto Pinto

▲As fotografias foram tiradas entre 1981 e 1983

@Teresa Couto Pinto

"O António gostava de ser fotografado e eu gostava de o fotografar": o "criador" Variações em 85 fotos no MUDE

"Meu Nome António" é a exposição o Museu do Design, em Lisboa, com imagens da fotógrafa, agente e amiga Teresa Couto Pinto, que nunca aceitou vender o espólio do artista.

Começou a ser sonhada em 2020 e nasce no dia em que António Variações completaria 81 anos. Meu Nome António é a nova exposição temporária do MUDE — Museu do Design, em Lisboa, e reúne 85 fotografias que Teresa Couto Pinto fez entre 1981 e 1983.

Há cinco anos, Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, estava a preparar a exposição Portugal Pop, focada na evolução da moda em Portugal entre 1970 e 2020. Nesse processo, a presença de algumas figuras da música revelou-se obrigatória e uma delas era António Variações. Leu a biografia oficial, escrita por Manuela Gonzaga, e descobriu algumas das fotos mais icónicas do cantor, registadas por Teresa Couto Pinto — soube imediatamente que tinha de chegar até à fotógrafa. Conheceram-se e, para essa mostra, Teresa Couto Pinto emprestou algumas peças de roupa do próprio Variações. Ao mesmo tempo, ambas perceberam rapidamente que dali podia nascer outro projeto — aliás, há muito que Teresa, agente, fotógrafa e amiga de Variações procurava um local para partilhar com o público aquilo que guardou desde a morte do artista, em 1984.

Depois da inauguração (com a entrada livre, sujeita à lotação do espaço), esta quarta-feira, dia 3, a exposição temporária abre ao público esta quinta-feira, dia 4 de dezembro, e pode ser vista até dia 26 de abril de 2026 na galeria A do piso -1. “Esta exposição fala de vida, de criatividade, de imaginação e de liberdade, portanto achámos que era uma boa maneira de celebrar o aniversário do António”, explica a diretora do MUDE. Meu Nome António recupera o título de um tema do músico que não foi incluído em nenhum disco  — em vida editou Anjo da Guarda (1983) e Dar & Receber (1984).

▲ Variações deixou-se fotografar em casa, no meio das fotos e objetos que colecionava

@Teresa Couto Pinto

António Ribeiro nasceu a 3 de 1944 em Pilar, concelho de Amares, e foi por lá que Teresa Couto Pinto chegou a fazer uma pequena exposição, mas sabia que “ao fim de 40 anos e embora preservados, os negativos das imagens tinham sofrido com o tempo, com a humidade, etc, e era preciso um trabalho de digitalização bem feito”, explica ao Observador. Foi isso que encontrou em Rui Pereira e na sua produtora, Terra Esplêndida, que colaborou na montagem desta mostra. “O Rui foi incansável na parte da logística. Tenho 70 anos e já me custa ser organizada.”

Com a curadoria de Bárbara Coutinho, foram escolhidas 85 fotografias de um conjunto com cerca de 300 captadas entre 1981 e 1983. Muitas são do mesmo dia e do mesmo momento porque Teresa, que nessa altura já era agente do cantor, “adorava fotografia e andava sempre com uma máquina”. “O António tinha aquele lado narcisista, gostava de ser fotografado, e eu gostava de o fotografar, portanto esta conjugação foi perfeita”, explica.

As imagens tinham dois propósitos: serem possíveis capas de álbuns futuros ou mostrarem a Variações “aquilo que as pessoas viam quando ele saía à rua com aqueles coordenados [de roupa] que arranjava”.

As primeiras imagens foram apresentadas à editora EMI-Valentim de Carvalho, onde a reação não foi unânime. “Estavam naquela insegurança de não saberem onde colocar o António. Ele cantava de maneira diferente, vestia-se de maneira diferente, não se encaixava em nada.”

“O António tinha aquele lado narcisista, gostava de ser fotografado, e eu gostava de fotografar, portanto esta conjugação foi perfeita”, explica Teresa Couto Pinto

Variações, um visionário, tinha mais certezas do que a editora. “Ele não queria aquelas imagens usadas nas capas dos singles com a cara a três quartos e lettering de lado que eram comuns na altura”, recorda Teresa.

Por essa altura, já tinha alguns marcos na carreira: a ida ao programa de Júlio Isidro, O Passeio dos Alegres, em 1981; o primeiro espetáculo ao vivo na discoteca lisboeta Trumps e o primeiro single, Povo que Lavas no Rio/Estou Além, no ano seguinte; a gravação de Anjo da Guarda e espetáculos por todo o país segurir-se-iam em 1983.

A exposição, que engloba exatamente esse período, começa com duas provas de contacto originais e uma máquina idêntica à que Teresa usou para captar António Variações. A própria curadoria de Bárbara Coutinho foi feita a partir de provas de contacto, pequenas imagens que chegou a ter de ver à lupa. Há fotos inéditas e outras icónicas [com a argila na cara ou a tesoura a simular que se espeta o peito]. Estas, garante Bárbara, “apesar de muita gente já as ter visto, serão uma autêntica descoberta graças à qualidade que ganharam depois de terem sido limpas e restauradas”.

Não houve pós-produção, mudanças de cor, aplicação de Photoshop ou de outros métodos de IA, mas foi feito um restauro para preservar aquilo que era a fotografia analógica nos anos 80.

▲ Todas as fotos foram tiradas fora do palco, mostrando um Variações que poucas vezes foi visto, a não ser por quem com ele se cruzava na rua

@Teresa Couto Pinto

A mostra divide-se em quatro núcleos. O primeiro apresenta António Variações de corpo inteiro ou a três quartos. Faz pose e tem visuais ousados onde predente mostrar como conjugava de forma única roupas vintage e acessórios. O segundo mostra o interior da casa do cantor e os inúmeros objetos que refletem a sua identidade e estética. “É extraordinário olhar para as fotografias da Teresa Couto Pinto e perceber que em algumas o António está em pose e noutras outras vezes está em processo de preparação e de estudo do gesto, do olhar, do movimento do corpo, da forma como olha para a câmara, etc”, descreve a diretora do museu.

No terceiro núcleo há uma carga dramática no olha e no quarto e último surge um conjunto de fotografias das duas sessões preparatórias para a capa do disco Dar & Receber. Todas as imagens mostram um lado íntimo, até de cumplicidade com a câmara ou com a fotógrafa, e foram sempre captadas fora do palco.

Segundo Bárbara Coutinho, a exposição “não é estanque” e flui de forma muito orgânica. “Somos um museu de design e havia uma intenção clara de olhar para o António Variações enquanto uma das figuras maiores da nossa cultura pop, de alguém original, que não se encaixava em lado nenhum e que tratava a imagem como poucos. Era de facto um pós-modernista na verdadeira acessão da palavra porque juntava peças das mais diferentes origens e estilos, fossem elas do folclore ou da cultura internacional. Tinha um grande sentido estético e fazia essa mistura com a imagem, como também fazia na música”, explica a diretora do MUDE.

Das peças que mandava confecionar através de tecidos comprados em retrosarias à bijuteria comprada na Feira da Ladra, passando por um casaco de Pierre Cardin, “António Variações não seguia modas, o António Variações foi um criador, fez a sua própria moda, fez um estilo que era autêntico, original, de uma grande inventividade e isso marcou a época. Portanto, apresentar o António com diferentes conceções de visual foi uma das nossas preocupações”, defende Bárbara Coutinho.

“Somos um museu de design e havia uma intenção clara de olhar para o António Variações enquanto uma das figuras maiores da nossa cultura pop, de alguém que não é original, não se encaixa em lado nenhum, mas que tratava a imagem como poucos", diz Bárbara Coutinho

Algumas memórias são catapultadas para fora das fotografias, já que estão acompanhadas de algumas peças (casaco, óculos, etc) que fizeram parte daquele momento e foram preservadas até hoje. Estão expostas no MUDE como complemento. “Muitas coisas estiveram nas vitrines da barbearia. Fui eu que lhas ofereci e guardei-as depois da morte do António. Outras tinham sido deixadas por ele em minha casa”, conta Teresa.

A última sessão em que fotografou o amigo foi feita em casa dela, em Oeiras. “Eu tinha uma criança pequena e ele disse que ia lá ter comigo. Fizemos uma sessão na casa de banho, outra no quarto do meu filho. Foram ideias que ele trouxe de Nova Iorque, coisas mais ousadas como as calças rasgadas atrás, que ele queria trabalhar como inspiração para uma capa de um disco.”

Uma conversa, uma cabeça rapada e uma amizade para a vida

Teresa Couto Pinto e António Variações conheceram-se em 1978 ou 1979 quando o cantor entrou num centro comercial da Rua Castilho, em Lisboa, onde ela trabalhava. “Tinha saído toda a gente para almoçar e eu tinha ficado a tomar conta das lojas. Como estávamos só os dois, acabámos por ficar uma hora à conversa, à espera que os outros voltassem.”

Ele contou que ia abrir um cabeleireiro e ofereceu-se para cortar o cabelo a Teresa. “Eu tinha acabado de me separar e queria mudar de vida, de visual, tudo. Foi aí que ele me rapou a cabeça — e eu tinha o cabelo comprido. Fui a primeira G.I. Jane aqui em Portugal, fiquei com a alcunha de Teresa Punk.”

▲ A exposição está dividida em quatro núcleos, com fotos feitas para diferentes propósitos e em fases diferentes

@Teresa Couto Pinto

Primeiro ficaram amigos, depois começaram a trabalhar juntos. Conjugaram as relações pessoal e profissional até ao fim — Variações morreu a 13 de junho de 1984 na sequência de uma broncopneumonia bilateral — e, por isso, Teresa guardou muitos pertences do músico.

Nas décadas que se seguiram foi abordada por fãs e familiares para vender o espólio do artista. “Sempre disse: não tenho de vender o espólio do meu amigo. Se ele deixou estas coisas comigo, é para ficarem comigo. Sempre achei que tudo isto, incluindo as fotos, não podia cair nas mãos de qualquer um. É um legado e uma responsabilidade que tenho”, garante Teresa Couto Pinto.

Perpetuar e honrar António Variações é o objetivo principal da fotógrafa, que considera também imperativo contar a história dos anos 80, época em que as imagens foram captadas.

“Cresci no fascismo e passei pela libertação do 25 de Abril. Depois disso, os anos 80 foram maravilhosos, toda a gente saiu da toca. As pessoas que estavam fechadas, com a sua criatividade atrofiada porque não podiam demonstrar nada, começaram a abrir-se. Criou-se no Bairro Alto e naquelas zonas de Lisboa um local de encontro de músicos, pintores e transformistas. O António não era o único que usava aquelas roupas mais extravagantes, havia mais pessoas assim, e subir e descer o Chiado nessa altura era uma festa.”

Na sequência da exposição está prevista uma publicação cujos moldes ainda estão a ser definidos. “Para já, teremos um jornal com os textos de parede e, a seguir, estamos a trabalhar em algo que ainda não sabemos se será um jornal ou uma publicação com uma vida mais longa”, diz Bárbara Coutinho.

▲ “António Variações não seguia modas, o António Variações foi um criador, fez a sua própria moda, fez um estilo que era autêntico, original, de uma grande inventividade e isso marcou a época"

@Teresa Couto Pinto

O objetivo é reunirem contributos de pessoas contemporâneas de António Variações, que com ele privaram e que viveram o contexto dos anos 80. “Queremos também ter investigadores e profissionais de diferentes áreas, como a música, a moda, a imagem ou a comunicação para que possam olhar outra vez para a obra do António e destacar de facto o seu vanguardismo e o seu pioneirismo em muitos destes setores”, explica.

A edição será em português e em inglês e deverá estar pronta a 26 de abril de 2026. “Queremos ter uma versão em inglês para que, quem não entende português, possa ter acesso a uma informação credível, objetiva e respeitadora do António Variações”, justifica a diretora do museu. Até lá, vivem as 85 fotografias de Meu Nome António que “têm uma linguagem muito própria e universal”.

O MUDE está aberto de terça a quinta-feira, das 10h às 18h; sexta e sábado até às 20h; e domingo, das 10h às 18h. Os bilhetes para as exposições temporárias custam 11€ e Meu Nome António tem visitas guiadas a 7, 14 e 21 de dezembro, às 11h. No dia 12 há uma visita em inglês, às 18h. Crianças até aos 12 anos não pagam e as restantes condições estão no site oficial.

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