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50 Sombras de Grey fez muito barulho, e os que se lhe seguiram repetiram a fórmula. Neste momento, o mercado português encontra-se pejado de romances eróticos de gosto duvidoso. A fórmula é também duvidosa – e é sempre a mesma. Lendo meia dúzia, percebe-se que se vende uma fantasia e que esta nunca varia, ainda que pareça muito fora da caixa. A intensidade está sempre lá, ainda que não deixe de ser implausível. Por vezes, até fisicamente impossível. Mas já lá vamos.
Todos os grandes grupos editoriais os têm e até as capas nivelam o estilo. É costume vê-los aí aos pontapés, com o tronco nu de um homem bombado, depilado. São gestores, patrões, génios informáticos, mas têm corpos de atleta. Nunca passam muito tempo a trabalhar, mas têm carros, casas, empregados. Não há, ao longo dos romances, uma única linha de estudo a atestar-lhe os génios, mas parecem colher sempre a admiração dos homens, os suspiros das mulheres. Se correrem maratonas, no fim cheiram a rosas. Se vestem uma camisa, parece que saíram directos da tábua de engomar. A pose é irrepreensível e eles sempre machos muito machos, com feromonas que encantam — e sempre insaciáveis. Este é o arquétipo masculino do romance erótico, maioritariamente heterossexual. Já as mulheres são sempre pãezinhos com sal a menos.
Publicado em 2012, O Amante, de Jodi Ellen Malpas, vai por este caminho: e caminho que rende, sendo o primeiro livro de uma trilogia. Ali assiste-se à relação – evidentemente intensa e conturbada – entre Ava e Jesse. Ela é decoradora; ele vive numa propriedade rural, luxuosa, pois claro. A atracção é imediata e ele é imediatamente dominante, além de ser controlador e emocionalmente intenso. Ela vive entre o prazer e o medo. Afinal, há ali um comportamento obsessivo que acciona os alertas todos, e o romance segue tomado pela posse e pelo desejo até ao fim.
Cinquenta Sombras de Grey (2015) acabou por se tornar o maior sucesso dentro deste estilo, introduzindo elementos mais violentos do que o habitual. Também ali a faísca entre Ana e Christian é imediata. Não se percebe o que atrai nela, mas percebe-se o que atrai nele: rico, poderoso, lindo, musculado, misterioso. A fórmula resultou e veio a ser repetida até à exaustão, embora aqui haja um contrato de dominação e submissão, numa incursão de BDSM. No meio de interacções sexuais violentas, há um mundo de luxo e um permanente teste de limites.
Simplesmente nua, Entrega total e Completamente tua são três livros de Raine Miller. Neste ponto, talvez bastem os títulos. Os três volumes foram publicados em Portugal em 2016 pela Topseller. E ali temos Brynne que se enamora por Ethan, que claro que é empresário, e claro que bem sucedido. A coisa faz faísca: basta verem-se para se quererem na cama. Debaixo dos músculos dele, há demónios emocionais, e a relação – tóxica – aguenta-se página atrás de página.
Vi Keeland conta com uma catrefada de livros publicados em Portugal, também pela Topseller. As capas dizem ao que se vai: há sempre um homem muito jeitoso, muito musculado, muito bem apresentado. Olha-se para o papel e sente-se o cheiro fresco a after shave. O egomaníaco, O playboy, O prof, O sedutor e outros contam as histórias que se adivinham pelos títulos. Há sempre um homem irresistível que deita abaixo as defesas da presa, que aqui é sinónimo para mulher. Os homens são sempre magnéticos, e as mulheres tentam sempre escapar ao poder que se lhes exala dos poros, mas não dá.
Todos estes seguem a mesma fórmula. O objectivo não é propriamente, ou somente, a criação de um auto-erotismo, ou seja, uma forma de veicular a possibilidade de excitação sexual por parte de quem lê. Em vez disso, o conteúdo parece estar ali para preencher uma fantasia, que tem tanto de físico quanto de emocional, e que passa sempre por uma ideia de salvação, o que me leva a querer que é esse o propósito da leitura e que é aí que se atingem os desejos inconscientes ou subconscientes do público, regra geral feminino. O romance erótico, ao invés de servir como mera evasão – como conteúdo pornográfico –, usa uma série de ingredientes que já se provaram eficazes para o efeito final, que passa, em termos comerciais, pelo consumo de massas e, em termos da relação leitora-livro, pela satisfação imediata de uma necessidade. Com isto, as vendas, quando não atingem números volumosos, não deixam de ser consideráveis ou estáveis. Como esses pilares nunca variam, alguma coisa dirão da cultura em que nos inserimos e formamos.
O casal desequilibrado
Não falha: ela é doce e dócil e virginal. Totalmente inexperiente, sem grandes atributos, sem encantar ninguém. Atrás dela, nunca há hordas de homens. Tem um emprego normal, amigos normais, uma vida normal. É uma qualquer vizinha do lado de uma qualquer casa. Regra geral, é até meio enjoativa, e tão inocente que dá dó. Ele é o oposto: poderoso, dominante, controlador, misterioso, emocionalmente imaturo, atormentado. Um durão a precisar de uma mão de seda de mulher. Lendo-se dois ou três romances, depressa se torna evidente que a protagonista serve como ponto de identificação para a leitora, que, por suposição estatística, também terá o seu quê de banal. Ora, sendo-o, como não sentir o apelo do mais belo dos homens, esse que moverá montanhas por ela, esse que por ela curará as feridas do seu coração estilhaçado?
Temos aqui a tríplice: 1) ela é banal; 2) ela é escolhida; 3) ela cura-o. Quando se juntam, ela descobre o desejo, e ele descobre que é possível aliar o amor à excitação. Por isso a questão física é uma situação emocional para ambos, embora em sentidos opostos. À medida que a narrativa avança, os dois descobrem qualquer coisa: ela descobre que o sexo lava a alma; ele descobre que sexo faz mais do que lavar o corpo – ainda que o lave com ela no suor de uma noite inteira. Com o seu corpo imponente, ele ensina-a a descontrolar-se; com a sua ternura, ela ensina-o a amolecer. Portanto, claro que a questão erótica está lá, mas, com tudo pesado, serve afinal para uma espécie de salvação emocional – e, que maravilha, salvam-se os dois.
O alfa traumatizado
O homem é sempre muito sério, muito controlador, muito dominante. Manda na cama como na vida, ergue a voz quando é preciso, não admite que o contradigam – eis a mais estereotipada imagem da masculinidade. A sua lista de características parece um arraso: pernas de futebolista, braços de lutador de boxe, cara angulosa de modelo. Antes dela, teve muitas; depois dela, continuou a ter o apelo de várias.
É sexualmente insaciável, ao ponto de, página após página, ir assumindo um papel quase fisicamente impossível. Ali não há período refratário: depois de uma vez, ele aguenta mais quatro ou cinco. É poderoso e inatingível, porque mesmo na cama soa a fantasia. Representa o poder físico e financeiro, mas canaliza ainda uma expectativa de sentimentozinho: é que, no meio de tanta rigidez de gestos, reside a promessa de uma vulnerabilidade contida e de, portanto, se transformar o inalcançável. Há ali um trauma qualquer que só a protagonista – banal, especial – conseguirá descobrir e curar.
A cama como enredo
Nestes romances eróticos, a cama não é coisa pontual – em vez disso, é parte constitutiva da narrativa. Ou até mais: é motor da narrativa. O enredo avança porque estes episódios acontecem, e cada um leva uma carga dramática exagerada para o assunto em questão. Aqui, são criados episódios de tensão que só espoletam mais tensão, e a intensidade vai aguentando a narrativa, viciando mais e garantindo a continuidade do que é problematizado, como a tensão emocional associada. As cenas são escritas quase de forma bélica: há uma presa e um caçador; há uma necessidade de resistir e uma impossibilidade de o fazer. E, como talvez se preveja, cada acto sexual é um abalo.
Os orgasmos são, em todas as ocasiões, os melhores de sempre, espalhando ondas de prazer pelo corpo; o suor cobre os corpos que mergulham no pasmo do amor; os movimentos são dignos de acrobatas; o desespero torna a sessão numa tortura, sem por isso deixar de ser aprazível; e cada pequeno gesto é a raiz fértil de um orgasmo – ou de vinte ou trinta. Os movimentos prévios já de si são tensos: ainda antes de se tocarem, já estão os dois prontos. Uma mera troca de olhares é tensão acumulada, e sem toque garante-se o que, na vida real, nem com toque lá se chega. É essa tensão que domina as cenas, e que continua em cena já fora da cama.
O homem rico
Não lhe bastando ser um Adónis, o protagonista nunca tem bolsos suficientes para o dinheiro que tem. Os lençóis da cama que tem são sempre do melhor linho, o whiskey é sempre do mais caro, e quem teria um Fiat se pode ter um Porsche? As casas são sempre modernas, de design claro e funcional, e nunca é preciso esticar o braço porque haverá quem abra a porta. Da mesma forma, não anda a pé quem pode ir de jato privado. Homem assim, evidentemente, nunca terá tocado numa professora da escola primária, excepto se essa professora for a protagonista do romance.
De resto, são só modelos, actrizes de Hollywood, e todas babam por ele sem que ele babe de volta. Todas que não a protagonista são corpos para passar o tempo – e para esconder a ausência dela. Também esta estratégia apela à fantasia da leitora, que passa pela ascensão da normalidade aos píncaros. Em vez de um príncipe, um CEO; em vez de um castelo, uma penthouse; em vez de uma carruagem, um carrão; em vez de um conflito régio, um trauma a ser resolvido por umas mãos de mulher banal.
Uma leve pancadinha
50 Sombras de Grey talvez seja mais do que leve. Christian batia todos os pontos anteriores e ainda tinha uma sala de tortura. Tudo isso foi bem aceite pelas leitoras, que encheram prateleiras com a série de E. L. James. Na maior parte dos romances, não se vai tão longe, embora a figura do macho que tortura esteja ali presente. Podem ser umas pancadinhas ao de leve (mas que deixam marca), podem ser umas mãos presas atrás do corpo (impossibilitando a fuga), pode ser a sugestão de sexo à bruta (que soa a ameaça).
Em várias páginas, a sugestão de cama não se distingue bem de uma ameaça de violação. São muitos os parágrafos em que abundam frases como “Vou comer-te [mas não dizem “comer-te”] com tanta força que vais mancar uma semana”. Claro, tudo isto só funciona para a ideia de fantasia, porque quem lê fantasia com o impacto sobre o homem, não com uma dor hebdomadária. Com tudo isto pesado, casa-se tudo: ele é o dominador, mas só por querer dominá-la já ele o dominado – é ele que não resiste à sexualidade brutal e gritante da banalidade dela.
E funciona sempre
Em equipa que ganha não se mexe. Em receita de bolo não se inova. Os eróticos aí andam a mostrar o que há de insatisfação na vida de tantas mulheres, mais do que leitoras, e cumprem um papel de validar necessidades, e de garantir sonhos através do amor romântico, sem nunca abdicar do campo sexual. Ao mesmo tempo, mostram uma hipótese de fuga à lassidão dos dias, mostrando um cenário em que tudo é um despertar emocional ao mesmo tempo que uma conexão química animal.
Com o corpo do homem, garante-se a validação de um engate dos bons. Com a sua indisponibilidade emocional, garante-se a validação da capacidade de controlo. Com o seu poder financeiro, garante-se uma vida fantasiosa, de Disney. E com tudo o que fica por dizer garante-se a ideia de um amor de conto de fadas, ainda que o príncipe também saiba ser monstro – sendo que no final o monstro foi afinal sempre um príncipe. Ao prometer e adiar, o romance erótico garante que a tensão que, a pontapés, vai imprimindo às páginas vá sendo transmitida às leitores, sequiosas pelo final feliz (sem trocadilho).
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.