Vencedores

Pedro Nuno Santos

Há um mês ninguém diria que Pedro Nuno Santos podia ser primeiro-ministro daqui a dois. No debate desta terça-feira foi o próprio Luís Montenegro a admitir que ou ele ou líder do PS seriam o chefe do Governo que será eleito em maio. Num Governo que se esperava que — mesmo sem conseguir aprovar o Orçamento em outubro — durasse no mínimo até março de 2026, o Spinumgate caiu no colo e foi o colinho que o secretário-geral do PS precisava. É, desde logo, o vencedor formal porque consegue (com uma cheringonça, é certo) apear o Governo e voltar a ir a votos no espaço de pouco mais de um ano, evitando a longa travessia que muitas vezes é fatal para os líderes da oposição. Isto tudo no mesmo dia em que duas sondagens positivas de duas empresas diferentes o dão como vencedor de eleições. Sem mandatos para Governo, mas com votos suficientes para afastar Luís Montenegro. Era, compreensivelmente, um homem feliz que circulava pelos corredores do Parlamento no serão desta terça-feira.

Rui Rocha

Estava numa posição ingrata: condenar Montenegro sem se condenar à irrelevância política. Rui Rocha sabe que as próximas eleições legislativas terão um grande incentivo ao voto útil à direita e que Luís Montenegro parte para elas numa posição particularmente delicada — pelo que não convém ficar excessivamente colado à imagem de idiota útil da AD e de aliado passivo do primeiro-ministro. Sob pena de espantar os que procuram um voto alternativo ou estão desiludidos com Montenegro. Ao mesmo tempo, fazer uma oposição destrutiva a Montenegro seria condenar a IL à quase-irrelevância, dinamitando qualquer ponte que pudesse existir para futuros entendimentos — e os liberais querem muito (mas mesmo muito) fazer parte da próxima solução de poder. Rui Rocha tentou ter o melhor dos dois mundos: criticou duramente Montenegro enquanto lhe dava confiança através do voto, embrulhando tudo num grande ato de responsabilidade. Em termos de coerência política, não foi bonito. Como exercício de ginástica artística, mereceu nota dez. E pode ser que os eleitores lhe deem razão.

Vencidos

Luís Montenegro

É, objetivamente, o grande derrotado da tarde. O líder do PSD tem toda a legitimidade para alimentar a sua narrativa da vitimização — faz parte da dialética própria de qualquer campanha eleitoral. No entanto, chegou a ser risível o esforço que demonstrou em tentar tomar todos por tolos. Quase um mês depois de ter rebentado o caso Spinumviva, duas semanas depois de ter ameaçado avançar com uma semi-moção de confiança, dias depois de António Leitão Amaro ter desmentido (!) Manuel Castro Almeida, seu colega de Governo, dizendo que era impossível ao Executivo retirar a moção de confiança, Montenegro apareceu no debate a oferecer uma “conversa” privada com Pedro Nuno para resolver a crise. Depois, ofereceu a retirada da moção de confiança a troco de uma CPI relâmpago, de 15 dias. A seguir, eram 60 dias. Tudo em direto, tudo à vista de todos, para que ficasse bem clarinho que era o PS o mau da fita. Acredita quem quiser, naturalmente, mas há duas coisas inegáveis: ninguém negoceia de boa fé nestes termos, em direto, ao vivo e a cores; além disso, se Montenegro estava de facto tão empenhado em convencer Pedro Nuno dos seus argumentos, poderia ter marcado esta “conversa” para ontem, anteontem, há uma semana, há quinze dias…Quando se exigia responsabilidade, houve taticismo. Mais uma vez. Para já, Montenegro caiu da cadeira de primeiro-ministro e vai caindo a pique nas sondagens. Os eleitores dirão daqui a dois meses se esta jogada de altíssimo risco se revelará ou não vencedora.

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Aguiar-Branco

José Pedro Aguiar-Branco mostrou-se agastado com os momentos mais crispados do debate e nem por isso reagiu com a solenidade habitual. Ao contrário do que é comum, às vezes pareceu perder a mão ao debate. Primeiro, Eurico Brilhante Dias — que estava a ser demasiado sensível com os apartes — queixou-se de não ter tempo para falar e Aguiar-Branco deu um ralhete algo despropositado ao deputado socialista (que até nem estava a exagerar assim tanto na perda de tempo). Mas se com os socialistas a crispação é mais comum, desta vez até o seu partido de origem embirrou com o presidente da Assembleia da República. Hugo Soares não gostou que Aguiar-Branco parasse o tempo quando a bancada social-democrata aplaudiu (com ironia) uma citação de Sá Carneiro dita pelo próprio Eurico Brilhante Dias. O líder parlamentar do PSD fez mesmo uma interpelação à Mesa sobre a condução dos trabalhos. Depois disso, no momento que mais era preciso e havia dúvidas regimentais sobre a suspensão dos trabalhos, deu-se o acaso de não estar na Mesa. Depois, não sendo de somenos em matéria de quem ganha e perde, Aguiar-Branco — que tinha quase garantido que seria a segunda figura da Nação até setembro de 2026 – pode ter de abandonar o cargo já em junho deste ano.

Hugo Soares

Hugo Soares tinha tido uma prestação perto da perfeição no debate da primeira moção de censura. A partir daí foi caindo de forma progressiva. Já no debate da segunda moção não conseguiu manter a mesma frieza e esta terça-feira nem a voz de indignação conseguiu controlar. Em determinado momento pegava em telefones, qual Sousa Cintra numa célebre reportagem televisiva, saía da sala a toda a velocidade e chegou a sentar-se ao lado de Rui Rocha. De microfone ligado, pegou-se com Aguiar-Branco, fez uma proposta de reunião em nome do Governo (que depois retificou para uma proposta entre líderes parlamentares), mas sempre sem sucesso. Apresentou também um requerimento que não foi aprovado. Se muitas vezes é uma mais-valia para o primeiro-ministro, desta vez desajudou mais do que ajudou. No campeonato de fiéis escudeiros, a irritabilidade de Hugo Soares contrastou com a calma olímpica de Pedro Duarte.

Marcelo Rebelo de Sousa

Foi relegado para o papel de figurante ao longo de todo este processo. Luís Montenegro achou por bem, aliás, nem sequer consultar o Presidente da República antes de se dirigir ao país e acionar o primeiro torpedo nuclear. Quando, depois de longos dias em silêncio, decidiu intervir, foi para anunciar o calendário de umas eleições que, pelo menos no plano formal, não eram sequer um dado adquirido. Queimou etapas e tornou a crise praticamente inevitável. Marcelo Rebelo de Sousa, que se aproxima rapidamente do fim do seu ciclo político, não contava com estas eleições. Mais: não queria estas eleições. Pior: tem medo que estas eleições sejam sinónimo do regresso de Pedro Passos Coelho e da chegada do Chega ao poder. O que aconteceu esta terça-feira pode não ter resultado da intervenção direta de Marcelo nesta crise concreta; mas é fruto de várias decisões questionáveis (a dissolução de 2021, o ultimato a António Costa no arranque da maioria absoluta, a crise de 2023) que foi tomando ao longo do percurso. Tornou-se, por demérito próprio, o “grande dissolvente”. E, também ele, fator de instabilidade política.

E o afónico

André Ventura

Num dos debates mais importantes da sua ainda curta (porém fulgurante) vida política, André Ventura esteve sem voz. Literal e metaforicamente. Azar dos Távoras, o líder do Chega chegou ao Parlamento afónico e não conseguiu impor o registo habitual. Inevitavelmente, a tarde acabou por ficar dominada pelo duelo a dois entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos. Ventura não riscou e passou ao lado. O que não é necessariamente bom — o Chega deixou de ser o centro do debate político e isso pode prejudicar o partido — nem é necessariamente mau — se André Ventura for talentoso, e André Ventura é talentoso, o Chega pode conseguir sobressair desta crise política acima dos dois partidos do “sistema”. Ao longo do debate desta tarde, aliás, houve momentos em que Ventura, por não estar aos gritos, pareceu de facto um líder responsável. Pode ser o suficiente para tentar fazer esquecer os casos, mais e menos graves, que têm atingido o seu partido. E o suficiente para inverter o plano inclinado em que parecia ter entrado.