E se pudesse ir ao médico e sair do consultório com uma receita para participar num grupo de caminhada, num workshop criativo ou num projeto intergeracional? À primeira vista pode parecer invulgar, mas esta é uma abordagem que está a ganhar terreno nalguns países, com resultados promissores na promoção da saúde e do bem-estar.
Chama-se prescrição social e consiste em encaminhar utentes para atividades e recursos da comunidade, como grupos de apoio, exercício físico, iniciativas culturais ou voluntariado, com potencial para melhorar a sua qualidade de vida. O objetivo não é substituir os cuidados de saúde tradicionais, mas sim complementá-los, reconhecendo que fatores como a solidão, o isolamento e a falta de redes de apoio também influenciam a saúde física e mental.
Em Portugal, a prescrição social começou a ser testada em 2018 através de projetos-piloto que têm evidenciado o potencial desta abordagem para melhorar o bem-estar, combater o isolamento e contribuir para aliviar a pressão sobre o SNS. No entanto, para que a prescrição social ganhe alcance a nível nacional, não basta sensibilizar os profissionais de saúde para a importância de encaminhar os utentes: é fundamental que existam organizações sociais com capacidade para dar resposta às necessidades identificadas.
É neste contexto que surge a nova parceria entre a Fundação Ageas e a Fundação ”la Caixa”. Apresentada no passado dia 30 de setembro, esta iniciativa de Investimento de Impacto vai disponibilizar 5 milhões de euros para reforçar organizações sociais que atuam nas áreas da saúde, envelhecimento e deficiência, ajudando-as a crescer e a aumentar o seu impacto.
João Machado (Fundação Ageas) e José Pena do Amaral (Fundação “la Caixa”) no evento de lançamento da parceria.
Em entrevista ao Observador, João Machado, Presidente da Fundação Ageas, explica o potencial da prescrição social, os desafios à sua implementação em Portugal e o papel que esta parceria poderá desempenhar na construção de comunidades mais saudáveis e inclusivas.
Muitas vezes, os problemas que afetam a nossa saúde não se resolvem apenas no consultório ou no hospital. Que papel pode a Prescrição Social desempenhar na resposta a desafios como a solidão, o envelhecimento ou a saúde mental?
A prescrição social serve como complemento ao Serviço Nacional de Saúde. Enquanto o Serviço Nacional de Saúde trata da doença e recorre ao auxílio dos fármacos, a prescrição social é um sistema que se prevê que funcione em complemento e não em substituição, e isto é importante dizer.
A prescrição social, muitas vezes, é implementada por projetos de inovação social ou projetos culturais e permite, por exemplo, que uma pessoa que sofre de solidão, isolamento ou de algum tipo de problema relacionado com a saúde mental possa ver uma exposição, ser passeada de bicicleta, possa envolver-se com a atividade comunitária do seu bairro e, com isso, reduzir os seus níveis de solidão, melhorar os seus níveis de auto-estima e de sentimento de pertença.
No fundo, trazer a inovação social para dentro daquilo que é o Serviço de Saúde, ao invés de a manter um pouco à parte, como muitas vezes acontece.
Há evidências de que a Prescrição Social pode estar associada a uma menor utilização dos cuidados de saúde primários e dos serviços de urgência. Além de ajudar a melhorar a qualidade de vida dos utentes, a Prescrição Social pode ser, também, uma forma de reduzir a pressão sobre o SNS?
Sim. O que muitas vezes acontece quando as pessoas se sentem sós ou têm problemas de saúde mental, é a falta de comunicação, de interação e de ligação àquilo que é a vida na sua comunidade. Com a prescrição social, a pessoa vai certamente estar envolvida em atividades comunitárias, conhecer pessoas, ter um sentimento de propósito que provavelmente não havia antes.
Onde é que isto ajuda o Serviço Nacional de Saúde? É que estas pessoas que estão em situação de solidão, muitas vezes, recorrem às infraestruturas hospitalares, ao seu médico de família, às urgências, para tratar de episódios que poderiam ter sido prevenidos se houvesse uma melhor conexão social.
No médio e longo prazo, à medida que vai sendo disseminada, acredita-se que a prescrição social possa ter um impacto muito positivo naquilo que é a pressão e a quantidade de pessoas que o SNS hoje recebe.
Um estudo da University College London, divulgado pela National Academy for Social Prescribing do Reino Unido, estima que cada libra investida em Prescrição Social gera um retorno social de 9 libras. Se sabemos que determinadas respostas comunitárias funcionam, porque não estamos a investir mais nelas?
Acho que há duas razões e uma é consequência da outra. A principal razão é o desconhecimento das várias partes interessadas. Há um desconhecimento, desde logo, da classe médica, do que é a prescrição social, das administrações hospitalares, de muitos assistentes sociais, e da população a quem pode ser feita esta prescrição social.
Como existe este desconhecimento, também não há uma infraestrutura criada para a prática de prescrição social – isto, principalmente, se compararmos com a infraestrutura que existe para a prescrição médica, que é um sistema que funciona muito bem, que tem muitos recursos, muito incentivo, portanto, é uma resposta muito mais fácil e preparada.
No caso da prescrição social, o médico tem de conhecer os projetos, convencer o paciente, falar com o assistente social, etc. Como não existe tanta preparação, o médico tem de fazer este caminho sozinho – e há médicos que já o fazem, por iniciativa própria e porque acreditam muito no poder da prescrição social e da rede de apoio comunitário. Mas a verdade é que o médico tem de ter essa vontade, e se atende 20 e tal pessoas por dia, fica mais difícil ter um acompanhamento personalizado.
Além disso, os projetos também não estão preparados para ser alvo de prescrição social, a Segurança Social também não conhece bem a prática, por isso diria que há tudo por fazer.
Apesar de já existirem projetos de Prescrição Social em Portugal, esta abordagem ainda é pouco conhecida. Em que ponto é que estamos? Existem diferenças significativas entre regiões na capacidade de disponibilizar este tipo de respostas?
Acho que estamos ainda no começo. Existem algumas experiências piloto em Portugal: temos algumas na região de Lisboa, uma na região Centro, e depois há algumas na Área Metropolitana do Porto. Mas eu diria que não existem diferenças significativas entre regiões, porque na verdade não há nenhuma região com esta prática implementada. Todo o país precisa – e eu sei que não se pode desenvolver o país todo ao mesmo tempo, é uma coisa que é gradual – mas não há nenhuma que tenha uma prática desenvolvida.
Quais são os maiores desafios à expansão da Prescrição Social em Portugal?
Há desafios tanto do lado da procura, como do lado da oferta. Do lado da procura, primeiro vai ter de se dar a conhecer o que é prescrição social. Depois, tem de se convencer e explicar quais são os efeitos e benefícios, implementar, registar e medir o impacto que a prescrição social tem nas pessoas em Portugal. E depois é preciso disseminar esses resultados dos primeiros anos de experiência e acreditamos que com a disseminação desses resultados vai ser mais fácil no médio/longo prazo haver uma adoção nacional desta prática da prescrição social.
Ao mesmo tempo, temos de desenvolver o outro lado: a oferta. Ou seja, têm de ser organizações sociais e culturais que estejam dentro de um sistema de prescrição, que estejam preparadas para receber pessoas que são indicadas pelos médicos. Os projetos têm de ter uma certa dimensão para a prescrição social.
Depois, também tem de se desenvolver dentro da estrutura da Segurança Social uma capacitação para os assistentes sociais. Ou seja, o assistente social também tem de saber que existe uma oferta de prescrição social na região onde opera para poder encaminhar os pacientes que são identificados pelo médico para esses projetos. Em inglês este termo existe, é o link worker, ou seja é o trabalhador que faz a ligação entre o médico e o projeto que vai incidir sobre aquele paciente.
E depois a classe médica também tem de estar mais informada sobre o benefício da prescrição social. Posso confessar que nenhum dos médicos com quem a Fundação Ageas falou mostrou qualquer resistência à ideia da prescrição social e os que a conheciam estavam muito dispostos a testar. A questão é que não havendo o sistema preparado, não havendo projetos preparados, não conseguem começar.
A Fundação Ageas e a Fundação ”la Caixa” juntaram-se para criar uma parceria com potencial de gerar impacto no desenvolvimento da Prescrição Social em Portugal. O que esteve na origem desta decisão?
É uma parceria essencialmente para promover o Investimento de Impacto em Portugal. O Investimento de Impacto é diferente do donativo. Há uma evolução da lógica do donativo para uma lógica de investimento de capital nas organizações, para que as organizações possam crescer, possam escalar e tornar-se total, ou pelo menos, parcialmente autónomas dos subsídios e dos donativos.
E o que nós acreditamos é que um sistema de prescrição social, para existir, tem de ter organizações sólidas, desenvolvidas e que estejam em várias regiões do país. Por exemplo, um projeto que apoiamos, o “Pedalar Sem Idade Portugal”, já está em 12 cidades neste momento, mas achamos que pode estar em 30 ou 50 cidades. No fundo, ajudamos a organização a criar canais de receita próprios para que possa ter a solidez suficiente para estar nestas geografias todas.
Acreditamos que o Investimento de Impacto – que é, acima de tudo, um instrumento para ajudar as organizações a terem mais solidez financeira – é absolutamente essencial, porque também não nos interessa ter uma organização que expande para várias cidades e depois não tem a estrutura suficiente para atender os pacientes.
Primeiro, é necessário fazer crescer as organizações e, em paralelo, fazer estas organizações serem um “satélite”, um complemento ao Serviço Nacional de Saúde, por fazerem parte do sistema de prescrição social.
A parceria de Investimento de Impacto vai apoiar organizações sociais com potencial para reforçar as respostas comunitárias. Porque é que consideram importante atuar precisamente nesta dimensão?
As organizações sociais, na sua génese, foram criadas para resolver um problema social, ambiental ou cultural. São organizações que trabalham, desenvolvem a sua operação em função do seu beneficiário. Estando estruturalmente sub-financiadas – dependem muito de donativos, de subsídios, que muitas vezes chegam tarde, são poucos e de baixo valor -, aquilo que se pretende é que possam, na prescrição social, também ver uma nova forma de poderem monetizar o seu impacto.
Se a organização estiver presente em, por exemplo, cinco cidades e estiver a ser, também, localmente financiada pelas câmaras municipais, por causa do serviço que presta ao beneficiário, torna-se um prestador de serviços daquela comunidade. E isso é uma forma de gerar rendimento para a organização e, com isso, poder estar mais bem financiada, poder ter mais recursos para gerir uma estrutura sólida e que preste um bom serviço ao beneficiário.
As organizações sociais têm, não só a vocação para prestar um bom serviço social e cultural, mas também esta necessidade de encontrar novas formas de financiamento. Acreditamos que a prescrição social pode ser uma alavanca para novas formas de financiamento das organizações.
De que forma o Investimento no reforço destas organizações pode contribuir para criar melhores condições para a expansão da Prescrição Social?
Acho que há duas camadas que se complementam. O Investimento de Impacto financia esta escalabilidade. As organizações, para servirem muitos beneficiários, têm de ter uma estrutura sólida, que depende de pessoas, de tecnologia, dos seus próprios prestadores de serviços e, portanto, é dispendiosa.
Este é um caminho que não se faz de um dia para o outro, é um caminho de médio e longo prazo, mas também é por isso que as fundações têm a capacidade e são o financiador com o perfil mais adequado para o fazer. Porque a filantropia joga-se sempre num médio e longo prazo. A filantropia pode correr riscos que, se calhar, as empresas não podem correr. As fundações, como existem há muitos anos e vão continuar a existir, podem financiar este crescimento das organizações e destas estruturas sólidas.
Acreditamos que o Investimento de Impacto é a ferramenta certa para ajudar as organizações a escalarem e a tornarem-se alvo de prescrição social.
Com um investimento previsto de 5 milhões de euros, que impacto esperam concretamente gerar e como pretendem medi-lo?
O nosso objetivo é escalar 20 a 25 organizações sociais em Portugal. O que significa fazer com que cheguem a muitos mais beneficiários do que hoje estão a chegar e também, ao mesmo tempo, ter uma maior autonomia financeira. Já é, pensamos nós, suficiente para medir o impacto que este instrumento pode ter no setor da economia social. Se tiver um impacto positivo, porque não fazer mais milhões, mais parcerias e fomentar que outras fundações se juntem também a esta prática?
O impacto de cada organização será sempre visto caso a caso, mas existirão dois modelos e dois momentos de avaliação externa ao nosso trabalho na parceria. O primeiro decorrerá a meio – começará ao fim de dois anos e meio e penso que será apresentado no início do terceiro ano da parceria – e o último será realizado no final dos cinco anos da parceria.
João Machado (Fundação Ageas) e José Pena do Amaral (Fundação “la Caixa”) à conversa com Fernanda Freitas (empreendedora social).
Queremos também provar que o Investimento de Impacto é uma ferramenta que as fundações em Portugal podem usar para ajudar o crescimento das organizações. Em países como o Reino Unido, os Países Baixos, a Alemanha, a Itália, a França e a Espanha, existem dezenas de fundações a fazer Investimento de Impacto. Em Portugal, ainda é uma prática quase inexistente. Temos uma economia social que está sub-financiada, onde o donativo médio é muito baixo e não se escala uma organização de uma cidade para dez cidades com donativos de cinco, dez, ou sequer, 50 mil euros. É preciso investimento com mais recursos e não só financeiro, mas também investimento não financeiro. Ajudar as organizações a criarem canais de receita, a gerirem as suas equipas, a pensarem a estratégia e a avaliação de impacto que estão a fazer. E, é por isso, que a Fundação Ageas tem uma equipa especializada para trabalhar no âmbito desta parceria, para ajudar a acelerar o crescimento destas organizações.