É uma das escritoras mais populares de sempre e é, certamente, a autora de policiais e livros de mistério mais lida da História. Com mais de 60 livros protagonizados por crimes e detetives (além de coleções de pequenos contos), a inglesa construiu um legado insuperável e é ainda hoje inspiração, referência e fonte de adaptações (a mais recente, “O Mistério dos Sete Relógios” estreia-se em breve na Netflix em três partes). Agatha Christie nasceu a 15 de setembro de 1890 e morreu a 12 de janeiro de 1976, há precisamente 50 anos. A propósito da data redonda, a Asa reedita a Autobiografia da escritora britânica.
São 700 páginas que passam pelos momentos mais marcantes da autora — e o livro, a publicar dia 20 de janeiro — inclui um índice remissivo para uma consulta particular mais rápida a afinada. Neste excerto que o Observador revela em pré-publicação, Agatha Christie recorda parte da viagem de 10 meses que fez com o primeiro marido, Archibald Christie (o mesmo que lhe deu o apelido, ela que nasceu Agatha Mary Clarissa Miller), e que a levou da Nova Zelândia ao Canadá, do Havai a Nova Iorque. Os momentos em que experimentou fazer surf, as dificuldades financeiras ou o relacionamento com familiares distantes são episódios que fazem parte destas linhas e que são bem menos conhecidos do que outras facetas da escritora.
▲ A capa da Autobiografia de Agatha Christie, reeditada pela Asa e disponível a partir do dia 20 de janeiro
Da segunda vez que fui à praia, aconteceu uma catástrofe. O meu bonito vestido de banho de seda, que me cobria dos ombros aos tornozelos, foi mais ou menos arrancado do meu corpo pela força das ondas. Quase nua, corri para a toalha de praia. Tive de ir imediatamente à loja do hotel, onde comprei um vestido de banho maravilhoso, de lã, reduzido e verde-esmeralda, que me encheu de alegria e que me ficava muito bem. Archie também achou o mesmo.
Passámos quatro dias no luxo do hotel e depois tivemos de procurar acomodações mais económicas. Por fim, arrendámos um pequeno chalet em frente ao hotel, por metade do dinheiro. Passámos os dias na praia e a surfar e, pouco a pouco, tornámo-nos especialistas, pelo menos para europeus. Ferimos os pés nos corais, até que comprámos umas botas de cabedal macio que se prendiam com atacadores nos tornozelos.
Não posso dizer que gostámos dos nossos primeiros quatro ou cinco dias de surf – foram demasiado dolorosos – mas havia, aqui e ali, momentos de pura felicidade. Rapidamente aprendemos a fazê-lo da forma mais fácil. Pelo menos eu aprendi – Archie, geralmente, ia até ao recife pelos seus próprios meios. A maioria das pessoas, contudo, tinha um rapaz havaiano que nos puxava. Nós deitávamo-nos na prancha, ele segurava-a com o dedo grande do pé e nadava vigorosamente. Depois esperávamos que o rapaz nos desse ordem para nos posicionarmos na prancha.
– Não, esta não, minha senhora. Não, não, espere… agora!
Ao ouvirmos a palavra «agora», lá íamos nós e, oh… era divinal! Não há nada igual. Não há nada como deslizar sobre a água a uma velocidade que nos parece estonteante, desde o recife distante até chegarmos à praia, abrandando suavemente, a boiar entre as pequenas ondas. É um dos prazeres físicos mais perfeitos que já vivi.
Depois de dez dias, comecei a ficar mais atrevida. Quando a onda me apanhava, punha-me cuidadosamente de joelhos na prancha, e depois conseguia levantar-me. Das primeiras seis vezes, caí, mas não era doloroso – simplesmente perdia o equilíbrio e caía da prancha. Claro que ficava sem ela, o que implicava uma sessão cansativa de braçadas, mas com sorte o rapaz havaiano ia buscá-la. Depois rebocava-me de novo e tentava outra vez. Oh, aquele momento de absoluto triunfo, no dia em que consegui manter o equilíbrio e cheguei à praia de pé em cima da minha prancha!
Revelámo-nos inexperientes noutra coisa, com resultados muito desagradáveis. Subestimámos completamente a força do sol. Como estávamos molhados e frescos dentro de água, não nos apercebemos do que o sol podia fazer. Claro que deveríamos ir surfar apenas de manhã cedo ou ao fim da tarde, mas íamos alegremente para dentro de água ao meio-dia, como os idiotas que éramos, e rapidamente as consequências se fizeram notar. Dores agonizantes, costas e ombros a arder a noite toda – e, por fim, grandes zonas de pele empolada. Eu tinha vergonha de ir jantar com um vestido de noite. Tive de cobrir os ombros com uma écharpe de gaze. Archie enfrentou os olhares indecentes na praia e descia de pijama. Eu vestia uma espécie de camisa branca para cobrir os ombros e os braços. Assim, sentávamo-nos ao sol protegidos dos raios escaldantes e só despíamos estas peças exteriores quando íamos para dentro de água. Porém, nessa altura o mal estava feito e os meus ombros demoraram muito tempo a recuperar. Há algo de profundamente humilhante em levantar a mão e arrancar uma longa tira de pele morta.
O nosso pequeno chalet tinha bananeiras à volta – mas as bananas, tal como os ananases, deixaram-me algo desapontada. Eu tinha imaginado esticar a mão, arrancar a banana do caule e comê-la. As bananas não são tratadas assim em Honolulu. São uma fonte de lucro muito importante e são sempre colhidas ainda verdes. Mesmo assim, embora não pudéssemos comer bananas diretamente da árvore, podíamos apreciar uma variedade enorme delas, cuja existência desconhecíamos por completo. Lembro-me de a minha ama, quando eu tinha uns três ou quatro anos, me descrever as bananas da Índia e a diferença entre bananas-da-terra, que eram grandes mas não sabiam bem, e as bananas, que eram pequenas e deliciosas – ou seria ao contrário? Em Honolulu havia umas dez variedades. Havia bananas vermelhas, bananas grandes, bananas pequenas, as chamadas bananas de gelado, que eram brancas e fofas por dentro, bananas para cozinhar, e por aí fora. A banana-maçã era outro sabor, creio eu. Uma pessoa tornava-se muito esquisita em relação às que preferia.
Os Havaianos eram também ligeiramente desapontantes. Eu imaginara-os como criaturas de uma beleza extraordinária. Fiquei ligeiramente desiludida, ao princípio, com o forte cheiro ao óleo de coco com que todas as raparigas se besuntavam, e a maior parte delas não era nada atraente. As grandes refeições de guisados de carne também não eram o que tínhamos imaginado. Sempre pensara que os Polinésios viviam basicamente de vários tipos de fruta deliciosa. A paixão por carne de vaca guisada surpreendeu-me bastante.
As nossas férias aproximavam-se do fim e soltámos muitos suspiros com a perspetiva de voltar à escravidão. Estávamos também a ficar um pouco apreensivos com a nossa situação financeira. Honolulu revelara-se muito caro. Tudo o que bebíamos ou comíamos custava o triplo daquilo que imagináramos. Alugar a prancha de surf, pagar ao rapaz – tudo custava dinheiro. Até agora estávamos bem, mas chegara o momento de sentir alguma ansiedade pelo futuro. Ainda tínhamos de percorrer o Canadá e as mil libras de Archie estavam a desaparecer rapidamente. Os bilhetes de barco já estavam pagos, pelo que não tínhamos de nos preocupar com isso. Podíamos chegar ao Canadá e daí voltar para Inglaterra. Mas havia ainda as minhas despesas durante a viagem pelo Canadá. Como é que íamos pagá-las? Contudo, afastámos esta preocupação da mente e continuámos a surfar desesperadamente enquanto podíamos. Demasiado desesperadamente, como se veio a revelar.
Há já alguns dias que eu vinha a sentir uma forte dor no pescoço e no ombro e comecei a acordar todos os dias, às cinco da manhã, com uma dor quase insuportável no ombro e no braço direitos. Estava a sofrer de nevrite, embora ainda não soubesse o nome. Se tivesse o mínimo bom senso, teria dado descanso àquele braço e parado de surfar, mas tal coisa não me passou pela cabeça. Só nos restavam três dias e eu não queria desperdiçar nem um minuto. Surfei, pus-me de pé na prancha e exibi a minha intrepidez até ao fim. À noite, não conseguia pregar olho com as dores, mas tinha alguma esperança de que a dor passasse assim que deixasse Honolulu e parasse de surfar. Como estava enganada. Sofri com a nevrite, uma dor quase insuportável, durante as três semanas seguintes, talvez um mês.
Belcher não estava nada bem-disposto quando nos reencontrámos. Parecia guardar-nos algum rancor por causa das nossas férias. Estava na altura de nos pôr a trabalhar, disse.
– Passar este tempo todo sem fazer nada! Meu Deus! É extraordinário como organizaram isto, pagar às pessoas para não fazerem nada!
Ignorou o facto de ele próprio se ter divertido muito na Nova Zelândia e de estar com pena de ter deixado os amigos.
▲ Agatha Christie com Archibald, o primeiro marido da escritora, com quem fez a viagem de 10 meses à volta do mundo
Uma vez que as minhas dores não abrandavam, fui ao médico, mas este não ajudou muito. Deu-me um unguento para esfregar no cotovelo quando a dor fosse pior. Presumo que era cápsico; quase me abriu um buraco na pele e não aliviava muito a dor. Nesta altura, eu estava constantemente em agonia. As dores constantes deitam uma pessoa bastante abaixo. Começavam todos os dias de manhã, bem cedo. Eu levantava-me da cama e andava de um lado para o outro, já que isso parecia tornar a dor mais tolerável. Abrandava durante uma hora ou duas, mas depois voltava com vigor redobrado.
Pelo menos a dor afastou-me a mente das crescentes preocupações financeiras. Estávamos mesmo com problemas, agora. Archie estava praticamente no fim das mil libras e ainda faltavam três semanas. Decidimos que a única coisa a fazer era eu não ir à Nova Escócia e a Labrador e ir para Nova Iorque assim que o dinheiro acabasse. Aí, podia viver com a tia Cassie ou a tia May enquanto Archie e Belcher inspecionavam a indústria da raposa-prateada.
Mesmo assim, as coisas não foram fáceis. Eu podia ficar em hotéis, mas eram as refeições que nos saíam mais caras. Arranjei um bom plano: faria do pequeno-almoço a minha refeição principal. O pequeno-almoço custava um dólar – nessa altura, correspondia a uns quatro xelins em moeda inglesa. Assim, tomava o pequeno-almoço no restaurante e comia tudo o que constava da ementa, o que, devo dizer, era bastante. Comia toranja e às vezes papaia também. Comia bolos de trigo, waffles com xarope de ácer, ovos e bacon. Saía da mesa a sentir-me empanturrada, mas conseguia assim aguentar-me até à noite.
Tinham-nos oferecido vários presentes durante a nossa estada nos Domínios: um lindo tapete azul com animais para Rosalind, que eu estava ansiosa por colocar no quarto dela, e várias outras coisas – lenços, um tapete, artigos do género. Entre estes presentes estava um frasco enorme de extrato de carne da Nova Zelândia. Tínhamos andado com isto atrás e eu estava agora contente por o termos feito, pois percebi que ia depender dele para me alimentar. Desejei com todo o coração ter adulado mais o Desidratador para que ele me tivesse oferecido grandes quantidades de cenouras, carne, tomates e outras iguarias desidratadas.
Quando Belcher e Archie iam aos seus jantares nas Câmaras do Comércio, ou outros jantares oficiais, eu recolhia à cama, tocava a campainha, dizia que não me estava a sentir bem e pedia um grande jarro de água quente para me ajudar na indigestão. Quando este chegava, juntava-lhe um pouco de extrato de carne e alimentava-me com isso até de manhã. Era um frasco enorme e durou-me dez dias. Às vezes, claro, era convidada também para os jantares ou almoços. Esses eram os dias mais felizes. Tive especialmente sorte em Winnipeg, onde a filha de um dos dignitários da cidade me foi buscar ao hotel e me levou a almoçar num restaurante muito caro.Foi uma refeição maravilhosa. Aceitei todos os pratos mais substanciais que me eram oferecidos. Ela comeu muito delicadamente, e não imagino o que terá pensado do meu apetite.
Penso que foi em Winnipeg que Archie foi com Belcher fazer uma visita aos elevadores de cereais. Claro que devíamos ter pensado que uma pessoa com problemas de sinusite nunca devia entrar num elevador de cereais, mas acho que tal não ocorreu a nenhum dos dois. Ele voltou ao fim do dia, com os olhos vermelhos e lacrimejantes e com tão mau aspeto que fiquei assustada. Conseguiu fazer a viagem do dia seguinte até Toronto, mas quando lá chegou foi-se completamente abaixo e estava fora de questão prosseguir.
Belcher, claro, ficou possesso. Não mostrou a mínima compreensão. Archie estava a deixá-lo ficar mal, disse. Archie era jovem e forte, era um disparate sucumbir desta maneira a um mau estar. Sim, claro que sabia que Archie estava com febres altas. Se era tão fraco de saúde, nunca devia ter vindo. Agora Belcher tinha de conduzir o barco sozinho. Bates era um inútil, toda a gente sabia disso. Bates só servia para lhe fazer as malas, e mesmo assim arrumava tudo mal. O idiota nem sequer conseguia dobrar umas calças como devia ser.
Chamei o médico, a conselho do hotel, e ele declarou que Archie tinha os pulmões congestionados, não podia deslocar-se e estaria incapaz de efetuar qualquer tipo de atividade durante pelo menos uma semana. Furibundo, Belcher partiu sozinho e eu fiquei, praticamente sem um tostão, sozinha num grande hotel impessoal com um paciente que, nessa altura, estava delirante. Archie tinha mais de 39º de febre e, ainda por cima, apanhou urticária. Estava coberto dela dos pés à cabeça e sofria terrivelmente com a comichão, além da febre alta.
Foram uns dias terríveis e dou-me por feliz de já não me lembrar do desespero e solidão que senti. A comida do hotel não era adequada, mas saí e arranjei-lhe uma dieta de doente: cevada e papas de aveia, de que ele gostava bastante. Pobre Archie, nunca vi ninguém tão fora de si com aquilo que passou com a maldita urticária. Eu dava-lhe banhos de esponja sete ou oito vezes por dia, com uma solução fraca de bicarbonato de soda e água, o que o aliviava um pouco. No terceiro dia, o médico sugeriu que pedíssemos uma segunda opinião. Dois homens de ar sério puseram-se ao lado da cama de Archie, com expressões muito severas, a abanar a cabeça e a dizer que o caso era grave. Enfim, uma pessoa acaba por ultrapassar estas coisas. Uma manhã, a febre de Archie baixara, a urticária estava ligeiramente menos inflamada e era evidente que ele estava a caminho da recuperação. Nessa altura era eu que me sentia bastante fraca, principalmente, creio, devido à ansiedade.
Ao fim de mais quatro ou cinco dias Archie recuperou a saúde, embora ainda estivesse um pouco fraco, e juntámo-nos ao detestável Belcher. Já não me lembro de onde fomos a seguir; possivelmente Otava, que adorei, por causa da cascata e dos bosques de áceres, que eram lindos. Ficámos numa casa particular com um almirante de meia-idade, um homem encantador que tinha um pastor-alemão maravilhoso. Costumava levar-me a passear entre os áceres num trenó puxado por cães.
Depois de Otava fomos às Montanhas Rochosas, ao lago Louise e a Banff. O lago Louise foi, durante muito tempo, a minha resposta sempre que me perguntavam qual o sítio mais belo que vira: um grande e extenso lago azul, rodeado de montanhas baixas, todas de formas maravilhosas, culminando com montanhas cobertas de neve ao fundo. Em Banff, tive uma grande sorte. A minha nevrite ainda me causava bastantes dores e resolvi experimentar as nascentes sulfúricas quentes que muitas pessoas me asseguravam que me fariam bem. Todas as manhãs me banhava nelas. Era uma espécie de piscina e, se nos deslocássemos para uma das extremidades, apanhávamos a água quente ao sair da nascente, com um forte cheiro a enxofre. Eu punha o pescoço e o ombro debaixo dessa água e, para minha grande alegria, ao fim de quatro dias a minha nevrite deixou-me de vez. Estar novamente sem dores era um prazer inacreditável.
Por fim, Archie e eu chegámos a Montreal. Os nossos caminhos separar-se-iam agora: Archie seguiria com Belcher para inspecionar as criações de raposas-prateadas e eu apanharia o comboio para sul, até Nova Iorque. Nessa altura, o meu dinheiro esgotara-se completamente.
▲ Nesta Autobiografia, Agatha Christie escreve sobre a infância, a Inglaterra do início do século, as duas guerras, dilemas pessoais, viagens, negócios e, claro, algumas das suas obras
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Fui recebida em Nova Iorque pela minha querida tia Cassie, que foi tão boa para mim, tão meiga e afetuosa. Fiquei instalada no apartamento onde ela vivia, em Riverside Drive. Nessa altura ela já devia ser bastante avançada em idade, quase oitenta anos, creio. Levou-me a visitar a sua cunhada, Mrs. Pierpont Morgan, e alguns dos Morgan mais novos da família. Levou-me também a restaurantes esplêndidos e alimentou-me com comida deliciosa. Falava muito sobre o meu pai e os seus primeiros anos em Nova Iorque. Diverti-me imenso. A tia Cassie, mais para o final da minha estada, perguntou-me o que eu gostaria de fazer no último dia. Disse-lhe que o que me apetecia realmente fazer era ir comer a uma cafetaria. Em Inglaterra não havia cafetarias, mas eu lera sobre as de Nova Iorque e estava ansiosa por experimentar uma. A tia Cassie achou esse desejo extraordinário. Não imaginava por que motivo alguém havia de querer ir a uma cafetaria, mas, como queria agradar-me, lá fomos nós. Era a primeira vez que ela própria ia a um desses estabelecimentos, disse-me. Peguei no meu tabuleiro, tirei coisas do balcão e achei a experiência muito divertida.
Depois chegou o dia em que Belcher e Archie eram esperados em Nova Iorque. Sentia-me feliz por eles estarem a chegar, pois apesar da simpatia e generosidade da tia Cassie começava a sentir-me como um pássaro numa gaiola dourada. A tia Cassie nunca sonharia em deixar-me ir sozinha a algum lado. Isso era tão estranho para mim, habituada a deslocar-me livremente em Londres, que me deixava impaciente.
– Mas porquê, tia Cassie?
– Oh, nunca se sabe o que pode acontecer a uma jovem tão nova e bonita como a Agatha, que não conhece Nova Iorque.
Garanti-lhe que correria tudo bem, mas ela insistia em mandar-me num carro com motorista ou em levar-me ela própria. Às vezes, tinha vontade de me escapulir à socapa durante três ou quatro horas, mas sabia que a deixaria preocupada, por isso continha-me. No entanto, comecei a desejar estar em Londres e poder sair sozinha de casa sempre que me apetecesse.
Archie e Belcher passaram uma noite em Nova Iorque e, no dia seguinte, embarcámos no Berengaria para a nossa viagem de regresso a Inglaterra. Não posso dizer que tenha gostado de estar novamente no mar, mas desta vez sofri apenas moderadamente com os enjoos. Contudo, o mau tempo, quando surgiu, foi em má altura, porque tínhamo-nos inscrito num torneio de bridge e Belcher insistira para que eu fosse parceira dele. Eu não queria, pois embora Belcher fosse bom jogador, tinha tão mau perder que ficava sempre terrivelmente amuado. Contudo, como em breve ia ver-me livre dele, lá começámos o nosso torneio. Inesperadamente, conseguimos chegar à final. Foi nesse dia que o vento levantou e o barco começou a baloiçar. Não me atrevi a pensar em desistir. Limitei-me a rezar para não passar uma vergonha à mesa de jogo. As cartas foram dadas para aquela que poderia muito bem ser a última mão e, quase de imediato, Belcher, com o sobrolho franzido, bateu com as cartas na mesa.
– Nem vale a pena jogar este jogo – disse. – Não vale mesmo a pena.
Estava com uma expressão furiosa e penso que pouco faltou para desistir e dar a vitória aos nossos adversários. Contudo, eu parecia ter todos os ases e reis do baralho. Joguei terrivelmente mas, felizmente, tinha um excelente jogo. Era impossível perder. Afetada pelos enjoos, joguei a carta errada, esqueci-me de qual era o trunfo, fiz todas as asneiras possíveis – mas as minhas cartas eram demasiado boas. Fomos os vencedores triunfantes do torneio. Depois recolhi à minha cabina e gemi miseravelmente até atracarmos em Inglaterra.
Acrescento, como post scriptum às aventuras desse ano, que não cumprimos a nossa jura de nunca mais falar com Belcher. Estou certa de que todos os leitores compreenderão. As fúrias que se apoderam de nós quando estamos forçados à companhia de alguém evaporam-se quando a altura de stress passa. Para nossa grande surpresa, descobrimos que na verdade gostávamos de Belcher, que apreciávamos a sua companhia. Ele jantou muitas vezes connosco e nós com ele. Recordámos juntos, com perfeita amizade, os vários acontecimentos da nossa volta ao mundo e chegámos a dizer-lhe:
– Sabe que se comportou de forma atroz, não sabe?
– Imagino, imagino – disse Belcher. – Eu sou assim, sabe? –Acenou com a mão. – De qualquer maneira, tinha muitas preocupações. Oh, não vocês os dois. Vocês não me preocuparam muito exceto quando o palerma do Archie adoeceu. Fiquei absolutamente perdido naquelas duas semanas que tive de passar sem ele. Não pode fazer alguma coisa ao seu nariz e a essa sinusite? Como consegue viver com um problema desses? Eu não conseguia.
Inesperadamente, Belcher voltara da viagem noivo de uma bonita rapariga, filha de um dos oficiais públicos na Austrália, que trabalhara como secretária dele. Belcher tinha pelo menos cinquenta anos e ela não teria mais de dezoito ou dezanove. De qualquer modo, ele anunciou muito subitamente:
– Tenho uma novidade. Vou casar com a Gladys!
E casou mesmo com Gladys. Ela chegou de barco, pouco depois de termos regressado. Estranhamente, julgo que tiveram um casamento feliz, pelo menos durante alguns anos. Gladys tinha boa índole, gostava de viver em Inglaterra e sabia lidar extraordinariamente bem com o conflituoso Belcher. Creio que foi uns oito ou dez anos depois que soubemos que se estavam a divorciar.
– Ela encontrou outro sujeito de quem gostou – anunciou Belcher. – Não posso dizer que a censuro, na verdade. É muito nova e claro que eu sou um velho rabugento, para ela. Ficámos amigos e vou dar-lhe uma pensão. É boa rapariga.
Numa das primeiras ocasiões em que jantámos juntos depois do regresso, disse a Belcher:
– Sabe que ainda me deve duas libras e dezoito e cinco dinheiros pelas meias brancas?
– Oh, Céus – disse ele. – A sério? E espera que lhe pague?
– Não – respondi.
– Ainda bem – disse Belcher. – Porque não vou pagar. –E ambos nos rimos.