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Goncalo Villaverde

Goncalo Villaverde

Quando falta a cola que mantém os músculos unidos pode a terapia genética travar uma doença rara?

Na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Diogo Fernandes tenta desenvolver uma terapia genética capaz de reescrever o curso de uma doença muscular rara e incapacitante.

Para muitos adolescentes, escolher uma profissão é um dilema. Para Diogo Fernandes, nunca foi. Ainda guarda em casa uma ficha da escola primária que o mostra bem: em frente à pergunta “Que profissão queres ter no futuro?”, escreveu com a sua letra infantil:  “Cientista.”

Para estudar o quê, ainda não sabia nessa altura, mas não demorou muito a descobrir. “Antes do final do ensino secundário já tinha decidido que queria estudar biotecnologia e trabalhar em terapia genética”, conta. E foi precisamente o que fez: mudou-se de Vale de Cambra para Aveiro, para fazer a licenciatura em Biotecnologia e, depois, de Aveiro para Lisboa, para ingressar no mestrado em Biologia Molecular e Genética, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Começou há um ano o doutoramento — financiado pela fundação “la Caixa”-  no grupo de investigação “Mecanismos moleculares da doença”, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde também dá aulas como professor assistente convidado.

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Para quem não tem muito conhecimento sobre biologia ou ciências da saúde, uma das primeiras frases de Diogo é um pouco intrigante: “Uma das principais partes do nosso corpo é a matriz extracelular”, diz ele. É surpreendente que haja dentro do nosso corpo alguma coisa, assim tão importante, da qual nunca ouvimos falar. Mas a matriz extracelular, que se encontra fora das células e é feita de proteínas, açúcares e outras moléculas, é – pode dizer-se sem exagero – o que nos mantém de pé. Ela funciona como um andaime que dá forma aos tecidos, ajuda as células a fixar-se, a comunicar e a receber sinais.

Dentro dessa matriz, detalha o investigador de 25 anos, há uma camada muito especial: a membrana basal — uma estrutura finíssima, que estabiliza tecidos e células. Um dos seus elementos mais importantes é a proteína laminina alfa-2, uma espécie de cola biológica, que ajuda a manter as fibras musculares ligadas e protege-as durante a contração.

Quando o gene LAMA2, responsável por produzir esta proteína laminina alfa-2, tem mutações, o impacto é devastador: é como se faltasse a cola que mantém as fibras musculares unidas e estáveis. “Se a proteína está em falta ou está presente mas de forma defeituosa, a membrana basal fica comprometida e não consegue dar apoio ao músculo durante a contração, algo que leva a ciclos sucessivos de degeneração muscular e à distrotrofia.”

A terapia genética — a correção ou substituição de um gene defeituoso — tem sido usada com um algum sucesso para tratar doenças causadas por mutações no ADN e é uma das áreas mais promissoras da medicina moderna. Diogo Fernandes está no primeiro de quatro anos de trabalho e vários grupos de investigação, em todo o mundo, estão a explorar este caminho para diferentes doenças, embora ainda não exista nenhuma terapia aprovada. 

É assim que surge a doença que Diogo Fernandes está a estudar: a distrofia muscular relacionada com LAMA2. Uma doença rara, mas profundamente incapacitante, que se manifesta pela fraqueza muscular, dificuldades motoras e, em muitos casos, problemas respiratórios. “Diferentes pacientes têm diferentes tipos de mutações no gene LAMA2  e, as diferentes mutações vão dar origem a um espectro da doença: há pessoas que desenvolvem a doença durante a vida adulta e conseguem ter alguma autonomia, noutras, a doença nota-se logo ao nascimento e é tão severa que não conseguem chegar a andar.”

A nível mundial, a doença afeta cerca de oito pessoas por cada milhão. O facto de ser rara, faz com que haja pouco interesse na sua investigação pelo que, como grande parte das doenças raras, ainda é incurável. “O que os médicos têm ao seu dispor neste momento são terapias para tentar aliviar os sintomas, não existe nenhuma abordagem terapêutica atualmente”, refere o investigador, actualmente no primeiro ano de doutoramento, sob a direção de Ana Rita Carlos, da FCUL e de José Escandell,do iBet.

O problema está nos genes, a solução também

A terapia genética — a correção ou substituição de um gene defeituoso — tem sido usada com um algum sucesso para tratar doenças causadas por mutações no ADN, sendo uma das áreas mais promissoras da medicina moderna.

Um dos exemplos mais marcantes do sucesso desta tecnologia é a atrofia muscular espinhal (AME), uma doença genética rara que, em Portugal, se tornou conhecida com os casos das bebés Matilde e Natália e, mais tarde, das gémeas luso-brasileiras Maitê e Lorena. O caríssimo medicamento que estas e outras crianças receberam é uma terapia genética:  entrega ao corpo, através de um vírus inofensivo, depois de modificado, uma cópia funcional do gene que não funciona na atrofia muscular espinhal, o SMN1. Com uma única dose, é possível restaurar a produção da proteína em falta e travar a progressão da doença. Os resultados têm sido transformadores: bebés que, até há pouco tempo, dificilmente sobreviveriam mais do que alguns anos, hoje conseguem sentar-se, gatinhar e até andar.

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“A tecnologia que vamos tentar usar é a mesma: usamos um vetor viral, retiramos tudo o que é patogénico e colocamos a componente terapêutica no seu interior para o entregar às células”, explica o investigador. “A diferença é que, neste caso, não podemos entregar o gene completo, porque o LAMA2 é demasiado grande. Temos de ser criativos e contornar o problema: em vez de entregar o gene inteiro, vamos corrigir o gene que existe no paciente.”

A estratégia faz sentido porque a maioria das mutações que causam a distrofia muscular associada ao LAMA2 resulta apenas da troca de um único nucleótido – os blocos que compõem o material genético. Assim, em vez de substituir todo o gene, em teoria, é possível corrigir apenas a parte que está alterada em cada pessoa.

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Vários grupos de investigação, em todo o mundo, estão a explorar este caminho para diferentes doenças, embora ainda não exista nenhuma terapia aprovada. Diogo Fernandes está no primeiro de quatro anos de trabalho, mas já testou esta abordagem em ratinhos e em amostras de tecido de pacientes. “Ainda é muito cedo, mas estou animado: o primeiro ratinho que testámos apresentou melhoria na força muscular e os testes em células de pacientes também foram promissores”, conta.

Daqui a três anos, espera ter percebido se esta estratégia de tratamento funciona e, eventualmente, despertar o interesse e o investimento da indústria, para criar de um produto com aplicação terapêutica. Nessa altura, diz, será também fase de tentar definir com mais precisão os próximos passos de carreira. Mas a verdade é que hoje, como no passado, não tem muitas hesitação ou dúvidas sobre o que quer fazer: quer progredir na carreira académica, como professor universitário. Seja porque isso traz perspetivas de estabilidade, seja porque descobriu que gosta mesmo do papel de professor.

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