Começou a pintar na década de 40 do século passado e só abandonou as telas no ano em que morreu, 2018 (a 22 de maio, aos 92 anos). Mais de 70 anos de carreira que traduziram uma ousadia constante em torno da arte da pintura e do desenho, tendo a(s) cor(es) por companhia e todos os espíritos animais e humanos à volta para poder inventar e copiar, trocar, substituir, usar e deitar fora. Foi um dos nomes mais sonantes da arte portuguesa e inscreve-se na galeria dos que ficam para sempre. A obra e o homem confundem-se, mas será a primeira a sobrevivente. Alvo de estudo, investigação e sistematização arquivística, Pomar, ou melhor, o legado Pomar está vivo e recomenda-se.
Comercialmente, a sua cotação mantém-se, está estável e em alta desde que, em 2015, O Almoço do Trolha (1946-50), o mais célebre dos seus quadros, atingiu o valor máximo para uma peça de Pomar, €350 mil. A compra foi feita pela família de Manuel de Brito, o seu mais fiel colecionador, amigo e galerista de sempre. A venda foi um dos primeiros atos da família de Manuel Torres, que o adquirira nos anos 50 por cinco contos (€25 de hoje) e o pagara ao amigo pintor a prestações. A promessa de compra e venda existia há muito e estava assente que só aconteceria depois da morte do proprietário original. Tinham passado dez anos sobre a morte do proprietário final.
A história é agora contada ao Observador pela viúva de Manuel de Brito, Arlete Silva, a curadora e responsável pela homenagem que agora marca a celebração dos cem anos do nascimento de Júlio Pomar na forma de uma exposição, Júlio Pomar na Coleção Manuel de Brito, no Centro de Arte Manuel de Brito, ao Campo Grande, em Lisboa, e que reúne quase 30 pinturas do artista, além de desenhos, bibliografia, fotografias, catálogos e memorabilia vária. O quadro, que exibe a imponência do neorrealismo português de que Pomar foi exímio executante e do qual se veio a distanciar totalmente, está exposto na mostra e serve ainda como chamariz para uma obra feita de ruturas, “cambalhotas” e piruetas artísticas que pautaram o percurso de Júlio Pomar, sempre distante e alheio à aceitação ou à rejeição.
▲ "A ideia não é olhar para trás e para o que o artista fez historicamente, não queremos fechar a obra naquilo que ela foi no seu tempo"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
A exposição, carregada de obras grandes no sentido da sua pertinência artística e histórica — vejam-se Café (1944), Metro IV (1964), Catch (1965), Le Bain Turc (d’après Ingres) (1970), Edgar Poe, Charles Baudelaire, un Orang-Outang et le Corbeau (1983), Os Mascarados de Pirenopolis (1988), Frida Kahlo dans le Rôle de Eve (1994), mas também de grandes formatos, fala de um artista de “espírito livre”, de “espírito inquieto que nunca se acomodava” e que “quando começava a ter um certo mercado dava uma cambalhota de 180º”.
Recorda-o Arlete Silva, do alto dos seus 82 anos, desde 1963 a trabalhar na Galeria 111, primeiro ainda enquanto livraria que fazia exposições. Arlete lembra-se de o ver “sempre no fio da navalha”. O relacionamento antigo começou nos idos anos 60. “Quando o Júlio Pomar foi para Paris, passámos a enviar-lhe pelo correio O Cavaleiro Andante, que era para o seu terceiro filho, o Pedro, que faleceu tragicamente num incêndio.” A amizade foi crescendo ao ritmo da admiração. Júlio Pomar era o artista preferido de Manuel de Brito e é até hoje o mais representado na sua coleção pessoal, pertencente a Arlete e aos filhos. Pomar, como tantos outros (René Bertholo, Jorge Martins, Eduardo Luiz, Gonçalo Duarte, José Escada, Lourdes Castro, Paula Rego, Costa Pinheiro), foi um dos artistas a quem Manuel de Brito e Arlete propuseram pagar uma mensalidade durante os anos de exílio. Chamavam-lhe então um abono e funcionava como um apoio para que pudessem viver melhor e comprar material. “Íamos a um cambista e transformávamos escudos em francos, ou em libras ou marcos, e, de dois em dois meses, ia o meu marido ou eu levar os envelopes de dinheiro. Era uma ajuda substancial, as bolsas da Gulbenkian estavam só então a começar”, conta Arlete.
“Pomar continua a ser inesgotável”
Em 1967, a Galeria 111 organizava a primeira exposição individual de Júlio Pomar, Desenhos para o Pantagruel, uma mostra de desenhos a partir do livro de Rabelais. Curiosamente, o ponto de partida, ou pelo menos um ponto de grande entusiasmo para Gabriel Abrantes (n. 1984, Carolina do Norte, EUA), o artista plástico e cineasta que o Atelier-Museu Júlio Pomar convidou para comemorar o centenário do pintor através de uma encomenda para uma exposição inesperada. “Em setembro está programada uma exposição totalmente nova do Gabriel Abrantes. O Gabriel é fascinado pelos desenhos do Pomar onde há figuras muito mordazes e irónicas. Viu alguns desenhos sobre Pantagruel e ficou encantado pois quer trabalhar essa dimensão. A encomenda que se lhe fez é trabalhar pintura. Como é que um artista que recorre à Inteligência Artificial lida com a obra de Júlio Pomar hoje?”, avança Sara Antónia Matos, diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar. A exposição tem por título Pintura – Pintura e “é, de facto, para fazer pintura, não é para projetar vídeo, como é mais comum em Gabriel Abrantes, porque o Atelier-Museu não tem condições para ser plenamente escurecido. Esse diálogo vem provar que Pomar continua a ser inesgotável”.
Sara Antónia Matos revela a programação comemorativa do centenário de Júlio Pomar que assenta na exploração da ideia de colagem na obra de Júlio Pomar. “A ideia de compor plano sobre plano, repintar por cima do que estava por baixo, ver as camadas a aparecer e a desaparecer e ver as figuras que nelas se entroncam atravessa toda a obra, quer no período da colagem, em que o artista chega a pôr objetos em cima da tela, quer posteriormente e até numa fase anterior.” A exposição vai chamar-se “A cola não faz a colagem” e tem inauguração prevista para abril/maio.
Este ano, também, será marcado por um dos momentos mais aguardados no que respeita ao estudo da obra de Júlio Pomar, o lançamento do terceiro volume do Catálogo Raisonné, cujos dois primeiros volumes foram organizados pela Fundação Júlio Pomar, particularmente pelo filho, Alexandre Pomar. “Os dois volumes já existentes foram uma fonte fundamental para conseguirmos agora concluir o terceiro volume, que vai de 1986 a 2013. A Fundação ajudou-nos imenso, trouxe-nos muitas fontes e, a partir daí, seguimos todos os rastos, pusemos anúncios para procurar e localizar obras, descobrimos coisas que não tínhamos visto, até uma série que estava praticamente desaparecida e que pouco se conhecia dela, sabíamos que existia por umas fotografias de trabalho. Temos 333 entradas ou qualquer coisa assim. É a conclusão do estudo e sistematização que se assume como um trabalho fundamental do Atelier-Museu. Embora tenhamos esta necessidade de olhar para a frente e de abrir perspetivas sobre a obra de Júlio Pomar e sobre a contemporaneidade, é muito importante estudar e criar ferramentas sobre toda a obra”, explica Sara Antónia Matos. Ainda sem data fixa, o lançamento acontecerá a seguir ao verão, em setembro.
▲ Júlio Pomar, autor de uma obra feita de ruturas, “cambalhotas” e piruetas artísticas, num percurso sempre distante e alheio à aceitação ou à rejeição.
JOSE COELHO/LUSA
A nível académico, há muita gente a querer estudar Júlio Pomar. “Se até à abertura do Atelier-Museu não havia muitos estudos universitários, nomeadamente teses, passou a haver muito mais, e essa procura tornou-se uma realidade. Pela mão de Tereza Martha, a viúva do artista, criou-se uma bolsa de mestrados em articulação com a Universidade Nova de Lisboa, que está a permitir a estudantes universitários fazer mestrados com base na obra de Júlio Pomar. Estamos a preparar uma nova exposição que resulta precisamente da colaboração com uma dessas investigadoras, Constança Pupo Cardoso, e que nos tem permitido pôr novas pessoas a olhar para a obra do pintor, ela vai trabalhar connosco até ao nível da curadoria”, realça ainda a diretora do Atelier-Museu.
As novidades não se ficam por aqui neste centenário. “Vamos lançar um prémio de pintura, também suportado pela viúva, Tereza Martha, em colaboração com o museu, para artistas emergentes que estejam a trabalhar a ideia de pintura com novas perspetivas, uma vez que os assuntos e as metodologias não se esgotam. De resto, a ideia de abrir e receber os outros e os mais novos na casa dele foi o que aprendemos com Júlio Pomar. Ele vinha aqui com espanto, e fazia sentir aos outros que esta casa também era deles.”
Uma descoberta recente no Atelier-Museu aconteceu pela mão de Rita Salgueiro, uma profissional da casa, vai dar origem a mais uma publicação. “Encontrámos os relatórios que Júlio Pomar escreveu enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian durante os anos 60 e que enviava de Paris para Lisboa, e vamos fazer a sua publicação para completar também os três volumes de textos da sua autoria a que chamaremos Parte Escrita IV”, acrescenta a diretora. “Quero muito publicar ainda as cartas que Júlio Pomar trocou com Maria Velho da Costa. Estávamos nesse processo quando ela faleceu. Está publicada a correspondência com Menez. Há sempre novas dimensões porque trabalhamos o espólio por fases, assemblage, retrato, erotismo, nunca estando nada esgotado.”
Com o objetivo da grande difusão, o Atelier-Museu está também a preparar uma “démarche gigantesca com a Wikipédia e a Google Arts para fazer uma divulgação séria online da obra de Júlio Pomar. Havia muito pouco material sério disponível. Vamos espalhar por cem línguas a obra do pintor. É preciso pensar como é que o trabalho divulgado digitalmente em redes e plataformas consegue complementar a obra, não é substituir, pois a experiência da obra é insubstituível, não se vê no ecrã da mesma forma que frente a frente, a imagem tem um corpo. Não podemos ignorar a necessidade de estar também aí”, continua Sara. Com o mesmo intuito, lança-se este ano uma parceria com o Instituto Camões que levará a obra de Júlio Pomar a diversas embaixadas portuguesas e também a outros equipamentos culturais.
Ainda em maré de comemorações, os desenhos de Robertos realizados pelo pintor estarão em exposição no Museu da Marioneta, em Lisboa.
“Um intelectual de largo espectro”
O centenário do nascimento de Júlio Pomar chega nos treze anos de atividade do Atelier-Museu e marca também a sua total autonomia para gerir o legado do pintor, cuja Fundação cessa funções assim que a secretaria-geral da Presidência do Conselho de Ministros aceite e determine a sua extinção, desejada há já dois anos pela família. Todo o acervo da fundação passará para o museu e a fundação deixará de ter atividade própria. Ao todo serão mais de meio milhar de obras. “Confiámos e entregámos a responsabilidade de gerir o legado de Júlio Pomar ao Atelier-Museu. Orientei a fundação durante estes anos todos, desde 2007, sobretudo, só que preciso de me livrar dessa responsabilidade porque estas coisas em termos familiares funcionam mal”, explica ao Observador Alexandre Pomar, o filho mais velho de Júlio Pomar. “Uma vez que existe o Atelier-Museu cujo edifício foi comprado em 2000 pelo João Soares, enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e inaugurado em 2013, com António Costa, quatro presidentes de câmara depois, (todos se implicaram no museu e espero que o atual e os próximos continuem a manter o apoio), essa missão de apresentar o artista e de trabalhar o seu espólio fica em mãos independentes. Entregámos o acervo todo da fundação aqui ao museu, onde já estava depositado. Também era uma condição estatutária da fundação, se ela se extinguisse as obras não voltavam para a família”, continua Alexandre Pomar.
▲ "Há sempre novas dimensões porque trabalhamos o espólio por fases, assemblage, retrato, erotismo, nunca estando nada esgotado”
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
“Às vezes a existência da fundação até era concorrencial com o museu, as pessoas confundiam as duas entidades. Nunca quis que houvesse uma relação entre a família e o museu, só participei da escolha do primeiro diretor e organizei duas exposições. Dou apoio, ajudo, dou informações, mas não há qualquer vínculo entre a família e o Atelier-Museu”, assegura com algum alívio. “Há depois o legado em termos de herança que pertence aos herdeiros. E aí houve coisas que foram oferecidas à fundação e depois ao museu. Agora trata-se às vezes de vender coisas. Fizemos uma exposição na Galeria São Roque há pouco tempo para isso, e procura-se comercializar na medida do possível desenhos e obras que existem no espólio da família. Pinturas são muito poucas. O meu pai foi vendendo sempre em vida, viveu do que pintava, nunca tinha outros salários. Portanto, as obras de pintura que restaram são poucas. Além disso, há muitos pedidos de certificados, pedidos de informações sobre obras, por parte das leiloeiras e coisas do género. E isso é uma correspondência que acontece todas as semanas. A questão que se põe é se eu consigo transmitir e passar essa responsabilidade às minhas netas”, conclui Alexandre que assina para além dos dois primeiros volumes do Catálogo Raisonné, Júlio Pomar. Depois do Novo Realismo, Guerra & Paz, 2023, um livro que propõe uma releitura sobre a obra do pai.
O trabalho do Atelier-Museu tem sido intenso. Desde o primeiro momento, Sara Antónia Matos desenhou um programa que fosse ao encontro de novas perspetivas da obra no presente e recusou um olhar estagnado sobre o passado. “Nunca achei que fosse boa ideia manter um espaço de exposição permanente da obra. O que pretendemos é cruzar Júlio Pomar com gerações mais novas, por forma a mostrar como é que o seu legado e os conceitos que lançou na contemporaneidade, as suas novas perspetivas sobre arte, tinham tido sequência ou tinham até lançado sementes que os seus congéneres tinham desenvolvido posteriormente. Sempre com o sentido de perceber a importância da sua obra no presente. A ideia não é olhar para trás e para o que o artista fez historicamente, não queremos fechar a obra naquilo que ela foi no seu tempo e que já tinha sido importante em cada período, mas, pelo contrário, abordá-la com o ponto de vista do presente.”
Desde 2013 muitos foram os novos artistas a passar pela Rua do Vale, nº 7, um antigo armazém de ferragens, primeiro, de livros depois, e adaptado por Álvaro Siza Vieira a museu. “Cruzámos Júlio Pomar com artistas de gerações posteriores: Rui Chafes, Julião Sarmento, Cabrita Reis, Luisa Cunha, Sara Bichão, Rita Ferreira, Susanne Themlitz, entre outros. Gerações posteriores diversas que foram dialogando com a obra para entendermos de que forma os seus conceitos continuavam operantes. A partir daí, foi abrir a porta à organização de conferências, à edição de publicações. Ao mesmo tempo, estudávamos e sistematizávamos o seu espólio e o seu legado. Também temos convidado não só artistas, mas curadores a olhar para a obra do Pomar. Já passaram por cá até pessoas inesperadas que eventualmente sem o nosso convite não teriam olhado para a obra de Pomar com a mesma profundidade. Estou a falar de Delfim Sardo, Paulo Pires do Vale, Ana Rito, Óscar Faria, Mariana Pinto dos Santos… Também procuramos que novos profissionais entrem no domínio das artes, a escrever ou a comissariar, tantos já passaram por cá e olharam com perspetiva renovada dimensões várias”, continua a diretora do Atelier-Museu.
Pretende-se aproximar o espírito do artista à atividade da casa que leva o seu nome diz Sara Antónia Matos: “Júlio Pomar era um intelectual no sentido mais lato do termo. Era, além de um artista, um intelectual de largo espectro. Às vezes apresentam-se os pintores, os artistas, como fazendo parte da História da Arte. Entendo que Júlio Pomar não só participou da História da Arte como também a construiu com ele. Foi construindo a História da Arte portuguesa com ele desde o neorrealismo, daquela arte mais associada a uma crítica social, até ao período mais gestual das corridas, passando nos anos 70 para o recorte e para a colagem, nos anos 80 para uma nova figuração… Foi mudando de estilo, de ideias, de conceitos, de metodologias plásticas e não só foi participando da História da Arte como a foi construindo. Isso é que o marca indelevelmente. Temos outros importantes artistas, mas quantos tiveram tamanha ousadia de estar constantemente a transformar-se?”