De há muito tempo para cá que desejo ver estudado o folclore musical açoriano (…) mas esse estudo só pode ser feito por quem tenha competência para ele — cultura musical completa e cultura especializada.
Estas podiam ter sido as palavras de B Fachada a Romeu Bairos, quando o primeiro, músico e produtor lisboeta, desafiou o segundo, miúdo nascido a 20 de setembro de 1993 nas Furnas, em São Miguel, a fazer canções com o seu sotaque. O facto é que os protagonistas desta história nem sequer eram vivos quando se deu esta afirmação, mas o que Luís da Silva Ribeiro (1882 – 1955) deixou em carta em 1952 não está longe do que aconteceu em 2021.
O então fundador e diretor do Instituto Histórico da Ilha Terceira escrevera, nessa ocasião, a Artur Santos (1914-1987), pianista, compositor e etnomusicólogo que desenvolveu vários levantamentos de música folclórica em Portugal antes de Michel Giacometti o ter feito. Ao contrário de Giacometti, Santos viajou até aos Açores e deixou para a posteridade uma antologia sonora que se tornou na primeira compilação de cantares da região.
Nessa compilação, datada de 1958, ouve-se a certa altura uma mulher de voz ligeiramente anasalada cantar: “Sol baixo, sol baixinho / Sol baixinho também queima”. A mulher, de nome Virgínia de Andrade Cabral, era uma familiar afastada de Romeu Bairos, revelou-nos o próprio numa entrevista que, inesperadamente, acabou numa cantiga no meio da redação do Observador.
[“Romê das Fürnas” está disponível na íntegra no Spotify:]
“É a minha tia-avó velha, era assim que a conhecia”, espantou-se Romeu ao recordá-la. O músico micaelense falava-nos do seu primeiro longa-duração, Romê das Fürnas, da relação com B Fachada, que produziu e gravou o álbum no estúdio de Rui Veloso, e de uma infância passada entre a torre da Igreja de Santana e a garagem da avó, onde havia rabecas, zabumbas, violas da terra e todo o tipo de instrumentos folclóricos.
Confuso? A História é mesmo assim, um Presépio de Lapinha cheio de intrincados elementos capazes de pôr a dialogar cantadeiras, poetas e tocadores de tempos desfasados. E se assim não fosse, Romê das Fürnas não seria o álbum rico que é, com bailes e modinhas do antigamente e do agora.
Ele quer estar “entre a gente boa”
Romeu Bairos é nome e cara que se deu a conhecer ao grande público em duas ocasiões: a primeira, na edição de 2021 do Festival da Canção, onde interpretou o tema Saudade com o duo de DJs e produtores Karetus; a segunda, na série Rabo de Peixe, da Netflix, na qual vestiu o papel do amigo e rapper Sandro G. Antes disso, ainda teve uma passagem pelo programa The Voice, em 2015, onde explicou a Marisa Liz, sua mentora, que o que ele queria com a música era “chegar às pessoas e fazer com que elas se sentissem felizes”.
No fundo, dez anos volvidos, a vontade de Romeu mantém-se intacta. O problema é que até se dar o encontro com B Fachada, que desembocaria em Romê das Fürnas, o músico de 32 anos andou um pouco perdido.
Seguir uma carreira como ator, mesmo tendo passado os olhos pelos guiões da segunda e terceira temporada de Rabo de Peixe, era coisa que não o entusiasmava. “Senti que não era agora. É uma obra de ficção muito bem realizada, mas não queria estar a insistir numa coisa que correu bem, até porque aquilo se está a distanciar dos Açores… se é que alguma vez foi próxima.”
Por outro lado, havia a opção de voltar para o registo jazzístico, com notas de blues e folk, que marcou o seu EP de estreia, Cavalo Dado (2019), mas esse também não era o caminho – pese embora, a dada altura da vida, Romeu tivesse assumido que queria ser músico de jazz. “Mas depois”, resmunga, “não gostava daqueles professores falsos moralistas e, alguns deles, abusadores”.
Ele, diz, queria estar “entre a gente boa” e a gente boa acabou por se revelar a sua própria gente: a avó, fundadora do Grupo Folclore da Casa do Povo das Furnas, que ensaiava na garagem e punha à mão de semear de Romeu todo o tipo de instrumentos tradicionais da ilha; o avô Francisco “Frank” Medeiros, “dos homens mais bem vestidos e bem arranjados que conheci” e que, ao emigrar para o Canadá, deu possibilidades aos filhos de estudar; à mãe Elizabeth Medeiros, cantadeira exímia que inscreveu Romeu na Academia de Música da Ribeira Grande; à trisavó Jacinta, mulher de gancho que veio a dar nome a um improvável “hit dos Açores”; ao Zé Padre que fez de Romeu, acólito rebelde de 9 anos, o último sineiro da torre da Igreja de Santana; e ao Sandro G, “que fez mais pelo regionalismo do que algumas entidades”, defende. “Só existe Chico da Tina por causa do Sandro G.” Concertinas e violas da terra ao alto, esta vida é mesmo para ele.
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O arquiteto metódico e o aprendiz espontâneo
As peças estavam todas lá, mas Romeu Bairos precisou que alguém de fora da ilha lhe fizesse ver isso. “Às vezes as coisas mais importantes estão debaixo dos nossos pés”, nota. É aqui que entra B Fachada e uma conversa algo surrealista à porta de um restaurante onde ambos jantavam, antes de irem ver Benjamim a celebrar o primeiro aniversário do disco Vias de Extinção (2021) no Lux, em Lisboa.
“Foi o Nuno Lucas [baixista] que me puxou para esse jantar”, lembra. “Eu sentei-me ao lado do Manuel Pinheiro [percussionista] e de repente ouvi uma voz [aqui, Romeu para a história, faz-se sério, engole o sotaque micaelense, e começa a imitar B Fachada]. Eu tinha de ir falar com aquele gajo!”.
▲ “Às vezes as coisas mais importantes estão debaixo dos nossos pés”, diz Romeu Bairos, sobre o momento em que reorientou a criatividade para a sua terra
A conversa andou à volta de pequenas indignações e bizarrias, como o facto de não haver pivots de telejornal madeirenses ou com sotaque da Amareleja, considerações que alimentaram a curiosidade de B Fachada. Passados uns dias, Romeu Bairos recebia uma mensagem com um desafio: “Vamos fazer um disco com o teu sotaque?” Nem pensou duas vezes, até porque “o B” é “uma instituição”: “Ele é muito bom. Ele sabe construir merdas. Se fosse um arquiteto, era o Niemeyer!”
Niemeyer e aprendiz puseram-se, então, a escarafunchar no cancioneiro regional açoriano e a tecer arranjos e melodias, com alguma tensão pelo meio. “Ele é muito metódico e eu sou muito espontâneo. Tive de dar a mão à palmatória, mas houve cedências das duas partes. Aprendi de tudo com ele e ele aprendeu que os açorianos são fodidos”.
A primeira fase do trabalho passou pela seleção de três modinhas: Sol Baixinho, tradicional de Santa Maria, Braços, da Terceira, e Manjericão, de São Miguel. A primeira, a tal que a “tia-avó velha” Virgínia gravou nos anos 50, diz:
“O meu pai é tocador
Minha mãe é cantadeira
Eu sou filho deles ambos
Canto da mesma maneira”
“É praticamente verdade”, constata Romeu, corrigindo que o pai, ao invés de tocador, também era cantadeiro. O detalhe pouco importa, até porque esta, mais do que tudo, é uma canção afetiva: “Há qualquer coisa nela que me comove. É legítimo a gente se comover”.
Braços fala de um homem apaixonado por uma bonita amante e pelos pastos das suas ovelhas, misturando o lavor com o amor e alguma “marotice”: “A gravação original é do José da Lata, o maior cantor dos Açores e o nosso grande intérprete do século XX!”, clama com vigor, apelidando-o de Robert Johnson da Terceira.
Por fim, Manjericão, um dos balhos mais curiosos da ilha de São Miguel, sobretudo pelo lirismo da letra e da música, segundo o Grupo Folclórico de Cantares e Balhados da Relva, foi escolhida pelo seu lado subversivo, arma de resistência da altura do Estado Novo. “O regime teve de meter mão nas tradições, para criar uma espécie de identidade e estandardização. Então há várias letras do Manjericão da Serra.” A que Romeu canta é uma letra antiga, antes do lápis azul lhe passar por cima, e que incita a quebrar cadeiras, quê sou marceneiro palas consertar.
Não é sobre os Açores, é sobre os açorianos
A partir destas três canções, estava feita a espinha dorsal de Romê das Fürnas, um disco que não é sobre os Açores, frisa Romeu, mas sim sobre os açorianos: “O que interessa são as pessoas”. Tendo sempre as pessoas presentes, o músico, ajudado pela amiga de infância, Micaela Sousa, violinista do disco, juntou mais quatro canções da sua autoria ao alinhamento.
É nesta junção do antigo com o de agora que o disco, aparentemente direto e singelo, se torce como o tronco de uma oliveira anciã, cheia de colheitas para contar. A lírica de Romeu Bairos faz-se de palavras simples e horizontes vastos, como as de José da Lata, tocando em temas como o luto, o mar, o vento de nordeste, os namoricos de lua nova, tocando, em suma, na açorianidade de Vitorino Nemésio e no modo de ser daqueles que se apegam à ilha com olhos de fome a adivinhar-lhe à proa, como escrevera o poeta florentino Pedro da Silveira (1922-2003).
[o vídeo de “Jacinta”:]
Roupa Lavada, a mais depurada e, talvez, a mais comovente do disco, foi escrita num “quarto minúsculo de merda e caríssimo de Lisboa” aquando da morte do avô Frank. Fala da bênção de ter roupa lavada para fazer uma cama, mas também dos dias em que o senhor mandou águaria e se foram embora os cheirinhos tão bons de lavanda, sabão azul e jasmim.
Jacinta, o tal hit que fez de Romeu uma diva pop nos Açores – “as pessoas veem-me na rua e dizem, Eh Jacinta! – surgiu-lhe no velório do avô: “Lá os funerais são à antiga”, conta. “O morto fica no meio e nós ficamos a noite toda a velá-lo. Há sempre velhotas que começam a falar e de repente é uma risota do caraças”. O motivo da risota foram as recordações da trisavó Jacinta, das suas tropelias e arreliações, pano que deu mangas à fantasia e à história de uma mulher que pula da janela para ficar a noite toda a namorar. Já Calços da Maia é uma canção de dor de corno pura e dura, capítulo indispensável de qualquer enredo novelesco.
Por fim, Pescadô, que surge já depois dos agradecimentos, é dedicada aos “gajos que nascem para ir para o mar” e que dele não voltam, deixando mulheres e filhos e as suas mães a rezar. “Uma vez, toquei-a em New Bedford e estava lá um senhor que começou a chorar muito. Disse-me, depois, que lhe fazia lembrar a sua terra, que era Ribeira Quente”, partilha Romeu.
[o vídeo de “Calços da Maia”:]
Há em Pescadô tanto de Fausto Bordalo Dias como de Dorival Caymmi, de todos os que escreveram e cantaram miseráveis naufrágios, de corpo e de espírito, porque nestes versos de Romê das Furnas há também uma ferroadela aos terraplanistas, aos muitos que há nos Açores (“conheço tantos”) e nas terras do velho e novo mundo.
Para que não nos afoguemos nas margens do fim do mundo, bailemos a reboque da viola da terra nos concertos de apresentação de Romê das Furnas. O primeiro é já no dia 15 de março na SMUP, em Parede. Em abril, os balhos e modas sobem até Barcelos (3 de abril) e voam até Ponta Delgada, para o festival Tremor (12 de abril). Lisboa (3 de maio), Porto (15 de maio), Coimbra (16 de maio) e Cascais (24 e 25 de maio) são as datas do maduro maio e mais serão anunciadas até ao final do ano.
Nos intervalos dos espetáculos, Romeu Bairos estará a preparar um segundo volume em que, avança, irá “falar mal do Governo dos Açores, do turismo em massa e dos gajos que andam a explorar as vaquinhas”. Falar bem? Só do povo. O seu, claro está, e que, vistas bem as coisas, é também o nosso.