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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sara Carinhas: “Sou uma burguesinha privilegiada, mas e então?” /premium

Há muitas coisas que Sara Carinhas nunca viveu. A guerra é uma delas. Mas isso não impediu a encenadora e atriz de criar Limbo, que se estreia na Voz do Operário. Nem impediu uma conversa sobre tudo.

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Que o título não leve ninguém ao engano. Até porque, convenhamos, o difícil, quando se é privilegiado, é assumir. O privilégio de ter podido escolher, de ter saltado de escola em escola, de ter desistido de várias coisas, de ter ido para ciências para seguir no caminho inverso dos pais (Nuno Carinhas e Olga Roriz) e ainda assim acabar em Artes, antes de passar para a Faculdade de Letras, onde veio a licenciar-se em Estudos Artísticos.

“Limbo”, para ver em Lisboa, de 15 a 22 de Janeiro na Voz do Operário (uma incursão São Luiz Fora de Portas), é a segunda encenação a solo de Sara Carinhas – a primeira foi “As Ondas”, de Virginia Woolf, sobre quem, já agora, assume ter uma “mini-panca”. A peça sugere um enredo fragmentado, uma área de conflito, momentos de lazer ameaçados por bombas e sirenes. Por falar em sirenes: com Sara Carinhas também surgem os alertas dos trintas, o corpo a mudar, a responsabilidade a tomar conta dos pensamentos. Sara Carinhas está por aí, mulher mais do que feita, atriz das mais talentosas, que assume gostar mais do outro lado, o lado de quem ajuda o ator a ser melhor.

Está tranquila. Ainda que se irrite com a escrita automática, com este ritmo voraz das aplicações, do dizer tudo hoje e agora. Também se irrita com a possibilidade de ver uma série inteira de enfiada. Algo com o qual estamos solidários. Sugeriu pagar-nos terapia por esta conversa. Não chegou a acontecer.

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“Limbo” passa-se numa zona de conflito. Há alguns momentos de lazer, mas paira sempre uma ameaça sob a forma de sirenes ou bombas. O que é que quis dizer com isto?
Essa ideia de conflito é muito boa em geral e para o teatro em particular, para as cenas que gostávamos de construir. Gosto de misturar histórias e de fazer com que dentro delas não se perceba muito bem se é bom se é mau, aquela sensação de “perdi alguma coisa”, brincar com a ideia de “Limbo”.

Daí o nome, portanto.
Sim, também, “Limbo” está aqui de várias maneiras. Quer seja a mistura entre uma história e uma canção, uma canção e o silêncio, o silêncio e uma bomba. Acho que também teve que ver com este espaço [o Salão de Festas da Voz do Operário], a criação de um espectáculo que parece um bocadinho mais de entretenimento, mas que de repente, de vez em quando, nos tira o tapete.

Ou seja: gosta de provocar o espectador. Essa ideia do “perdi alguma coisa” é sempre desafiadora.
Sim, mas provocar não é necessariamente um objetivo. E gosto de ter o cuidado de, por mais que as pessoas se sintam pouco próximas dos atores fisicamente, não se sintam agredidas, não gosto dessa ideia da invasão, gosto que seja dentro da cabeça, o próprio público a escolher o que é que o afeta mais. O espectáculo não tem como objetivo propor uma coisa mais agressiva, é mais sobre uma viagem e sobre não explicar tudo.

O espaço cénico propõe mesas à volta de um “centro”, onde grande parte das cenas se passam.
O espaço já é o cenário, não se pode da Voz do Operário querer muito mais. Bom, podia querer, mas o meu objetivo em apresentar isto fora de um teatro era precisamente o de ocupar um espaço de alguma maneira, um espaço que se calhar não seria ocupado desta forma. Por outro lado, como isto é um salão fantástico, entra-se aqui e é logo cinematográfico, ainda por cima não é nada de 2018, parou no tempo, fez-nos ir àquelas imagens de cabaret, daqueles bunkers, aqueles sítios onde mesmo que estivesse acontecer uma guerra, onde lá fora toda a gente podia levar com a bomba, a vida continua, lá dentro continua-se, de facto, a beber.

O lazer ameaçado.
Continua-se a ouvir música. Acho que é um bocadinho isso que estes atores têm na cabeça. Uma das ideias que lhes dei foi como passar uma hora e tal com as pessoas, o que fazer perto delas, mesmo que lá fora esteja tudo a destruir-se.

"O engraçado disto é que sou uma burguesinha privilegiada, mas e então? Não vivi nada disto, mesmo dentro do nosso elenco há pessoas que viveram coisas muito mais brutais que outras. Isso é que é bonito, essa partilha de experiências traumáticas, a coisa do trauma também está aqui, mesmo que esteja disfarçada."

É uma analogia à forma como vivemos?
Acaba por ser, necessariamente. Claro que ao escolher uma coisa tão objetiva como o som de uma bomba estou a arriscar fechar a ideia do que se passa lá fora, mas as pessoas depois fazem as suas leituras.

Já foi interrompida por sirenes muitas vezes na vida?
Nada. O engraçado disto é que sou uma burguesinha privilegiada, mas e então? Não vivi nada disto, mesmo dentro do nosso elenco há pessoas que viveram coisas muito mais brutais que outras. Isso é que é bonito, essa partilha de experiências traumáticas, a coisa do trauma também está aqui, mesmo que esteja disfarçada. Uma das coisas que me fez fazer o espectáculo…

…foi o facto de isto ser distante?
Não exatamente… Teve que ver com uma espécie de olhar para um mundo que me é longínquo, mas que é impossível de ignorar. É algo demasiado concreto.

“Um ator pode dar tanto valor a um movimento como dá a uma palavra”

O espectáculo mistura histórias pessoais dos intérpretes com outros relatos menos diretos, certo?
Sim, isto é uma mistura de depoimentos deles, de depoimentos de outros, de coisas de ficção, mas que no fundo foram escolhidas por empatia nossa com os temas, ou que de repente tinham coisas gémeas entre eles. Mas sim, partiu muito de material que o elenco trouxe.

Porque é que quis que assim fosse?
Queria trabalhar com pessoas da minha geração, surgiu essa necessidade a partir de certa altura, acho que tem a ver com uma curiosidade de perceber como é que pessoas da minha idade pensam as coisas. E, necessariamente, ao escolher essas pessoas estava a escolher aquelas cabeças, seria estranho para mim não as deixar entrar, queria que isto tivesse o ponto de vista deles. E como não partia de uma peça de teatro ou de uma coisa fechada, teve que ser partilhado entre nós.

Um ator diz ou faz melhor quando a história é a sua?
Isso é engraçado. Às vezes não… depende. Isso é muito engraçado porque isso tem a ver com o problema da repetição, independentemente das histórias serem nossas ou não, e aí é preciso sempre que ser um bom ator, mesmo que a história seja minha o que é que eu faço se a fizer muitas vezes? Para onde é que ela vai? Isto porque posso perdê-la ou posso cristalizá-la num sítio que não interessa nada e deixa de ser fresca, ou a história pode não ser minha e eu posso torná-la cada vez mais minha. Independentemente de ser nosso ou não, o difícil até é como fazer que seja sempre pela primeira vez, todos os dias.

“Limbo” mistura várias coisas a nível dramatúrgico, a nível cénico, há canções, há dança. Isto está relacionado com esta ideia de salão, certo?
Sim. E não é só o que o espaço ofereceu, também está relacionado com a minha linguagem, andar à procura, quer seja como intérprete, quer seja como criadora. Gosto dessa zona: um ator pode dar tanto valor a um movimento como dá a uma palavra. Às vezes as palavras ficam mais fortes que o resto e acho que o bonito é que as coisas sejam mais equilibradas.

Descobri que sou muito feliz deste lado, quer seja ajudar um ator a construir um espectáculo, quer seja eu própria a construir o espectáculo

Por exemplo: a hipótese de um ator poder dançar e não se passar a chamar bailarino?
Sim, exatamente, até onde é que um ator pode ir sem achar que estamos só a brincar. É óbvio que isto é uma questão muito pós-moderna e hoje em dia vemos muito nos espectáculos toda a gente a fazer tudo. Não é necessariamente por isso, embora eu viva nesta época e a minha reação seja eco disso, mas como intérprete também gosto dessa zona em que as palavras são mais fortes. Claro que as palavras são fortes, são mais concretas… Mas sim, é um misto da minha linguagem com aquilo que o espaço pedia.

Algo que procura enquanto encenadora.
Sim, gosto de pensar as coisas para os intérpretes, acho que escolhi intérpretes que senti que estavam disponíveis para isto, todos têm formações e escolas artísticas muito diferentes entre si e que seria possível fazer este jogo.

Esta é a sua segunda encenação a solo. A primeira foi “As Ondas”, de Virginia Woolf. Disse numa entrevista em 2015: “Podia mudar já, podia passar a ser encenadora e não ia ficar com a amargura de não estar em palco ou não aparecer”. Mantém esta ideia?
Sim, sim, completamente. Descobri que sou muito feliz deste lado, quer seja ajudar um ator a construir um espectáculo, quer seja eu própria a construir o espectáculo, não fico horrorizada se uma coisa substituir a outra, embora ache que também não é necessariamente assim. E é bonito o percurso ser assim, aprender a ser intérprete e depois aprender a estar do outro lado, a comunicar com os intérpretes.

É mais isso do que uma eventual dor em ser atriz?
É. Tive sempre uma relação com uma representação intuitiva, começou com muito pouca noção da profissão. Muito tarde é que tentei ver de outra maneira, trabalhar de outra maneira, aprender mais. Isto é só mesmo uma questão de felicidade, sou mais feliz a construir, cá fora, e a ajudar o ator a ficar ainda melhor ator, sou mais feliz assim do que sou como intérprete.

“Isso da idade… é bom quando não nos assusta”

Já fez direção de atores para televisão, para a série “Terapia”, da RTP. Foi uma experiência engraçada?
Foi hiper-interessante, também foi um privilégio, a Patrícia Sequeira construiu um ambiente e um tempo de ensaios que geralmente em televisão não se tem. E eram quase monólogos, foi um trabalho muito giro porque muitas vezes o trabalho de direção de atores é muito ingrato porque se tem muito pouco tempo e tem-se um elenco muito grande. Ali era muito particular, partilhei a direção de atores com a Cristina Carvalhal e foi muito bonito, tinha-se tempo.

E um elenco diversificado: gente muito mais velha, gente que tinha acabado de se formar…
Exatamente. Acho que coisas como dirigir, encenar, apoiar, tudo isso tem mesmo a ver com olhar para cada um, lidar com cada um de forma muito particular. As coisas não funcionam para todos da mesma maneira, parece um cliché, mas acho muito importante quando se sente que um encenador ou alguém que nos está a dirigir tenta falar connosco de uma forma particular, porque consegue ver o grupo e consegue ver o particular. Isso e o que é que se decide dizer e o que é que se decide esconder, o que se mostra e o que se esconde.

"Sempre tive muita dificuldade em escolher e não sou daquelas que diz “quando nasci já queria ser atriz”, não tenho essa coisa do sonho ou da paixão. Tudo pode mudar. Posso decidir amanhã que não é nada disto. Sendo que há um limite. Se decidir amanhã ser cirurgiã já vou tarde."

Gosta dessas decisões?
Gosto muito. Claro que é da ordem do sensível, depende da personalidade de cada um, mas é muito perigoso dizer tudo ou dizer algumas coisas que fecham o sentido ou dizer cedo de mais. A Pina Bausch é que dizia isso, dizer que não cedo de mais.

Como é que se faz direção de atores para um dinossauro, sem ofensa, como o Virgílio Castelo, por exemplo?
Isso da idade… é bom quando não nos assusta. Às vezes é muito relativo. Se for tudo uma questão de, de facto, as pessoas nos apaixonarem, tentarmos olhar para elas… toda a gente tem ali qualquer coisa dentro que se conseguirmos ver de forma especial nos ajuda facilmente a lidar com o facto de ser mais velho ou mais novo, a idade, a língua, à partida tudo isso parece formar um muro. Mas o que acho bonito, e que acho que este espectáculo também tem, é aquela coisa do “que história é que tens para me contar que tem lá dentro uma coisa que eu não vi à primeira quando olhei para ti?”. Acho que é isso, independentemente de quem está à nossa frente. Tentarmos ver qualquer coisa mais. Muitas vezes os atores precisam de ajuda para não irem para o sítio do costume ou para não fazerem aquilo que já sabem fazer bem. É só ajudar a tornar as pessoas mais brilhantes.

Cruzámo-nos, em Abril de 2018, num ensaio do “Perplexos”, uma encenação da Cristina Carvalhal para o texto do Marius von Mayenburg, onde era atriz. Nesse dia, não sei se lhe faltava texto ou algo do género, mas a Sara zangou-se. É pessoa de se frustrar com facilidade?
Sim, sou, acho que é normal. Mas lá está, como encenadora sou bastante mais calma, portanto deve ser qualquer coisa que muda. Mas se calhar é porque me sinto responsável por uma equipa inteira e porque tudo o que tu faço tem um reflexo. É preciso confiança. Embora não me importa nada dizer que não sei e que sou um ser humano. De um certo ponto de vista, sou uma espécie de mãe.

Encenadora como mãe, é bonito.
Ui, agora essa frase pode ser muito polémica. Mas sim, como intérprete, às vezes, se calhar, o umbigo é maior.

Está mais à volta de si, é isso?
Sim, estou mais preocupada se consigo, o que é que os outros estão a achar. Às vezes o público somos nós, não há público durante o processo, o público vem muito tarde, enquanto ator não.

Enquanto encenadora decidiu fazer aquilo daquela maneira e vai com aquilo até ao fim, em princípio.
Sim, sendo que depois há muitas borboletas na barriga. Mas sim. Ainda que tudo seja modificável, sou aquela pessoa que se estiver mal e se for a véspera e se for possível, mudo. E mudo depois da estreia do espectáculo, muda-se muito.

Este espectáculo mistura várias manifestações artísticas. Um bocadinho como a sua formação: fez ballet, estudou música. Há pessoas que defendem uma ideia de especialização…
Esse assunto é muito interessante. Também pode ser um ar dos tempos, há aqui uma espécie de velocidade, comer as coisas, que faz com que às vezes as pessoas queiram esticar os braços e chegar a todo o lado. Já todos sabemos fotografar, já todos sabemos escrever… isso é um problema dos tempos que pode afetar a minha geração realmente. Já há pessoas que nasceram a achar essa coisa da especialização algo estranho. Para mim é difícil achar que as coisas não estão todas ligadas, acredito completamente que tem que haver especialização, tem que se estudar, tem que se experimentar, tem que se saber. E particularmente em relação aos atores tem que se fazer muito, tem que se fazer em várias áreas, tem que se ser curioso. Havia alguém que dizia que o ator não sabe nada, é daqueles que está sempre a roubar de tudo, o ator tem de facto que ir ver exposições, ler livros, olhar para uma pessoa no metro… talvez venha daí a ideia de que tudo o que é do sensível, do belo e do artístico, tem que nos interessar. Tirando isso, em termos de personalidade, sempre tive muita dificuldade em escolher e não sou daquelas que diz “quando nasci já queria ser atriz”, não tenho essa coisa do sonho ou da paixão. Tudo pode mudar. Posso decidir amanhã que não é nada disto. Sendo que há um limite. Se decidir amanhã ser cirurgiã já vou tarde.

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Mas pode fazê-lo.
Posso ir já. Se calhar o que estou a dizer é sempre sobre a mesma área, o mesmo assunto. Por exemplo, sempre tive um grande fascínio pelo fotojornalismo, acho que é algo fascinante que devia ser mais discutido. Tenho na família muitos fotógrafos portanto é uma profissão que sempre esteve aqui ao meu lado.

Podia ter sido fotógrafa.
Se tudo falhar…

Pede uma máquina emprestada.
Exato. Isto para dar um exemplo. Se não for tudo feito só porque sim, se alguma coisa nos interessar muito pode-se sempre mudar o disco e ir para ali.

“Aborrecia-me, queria mudar. Do ténis, à guitarra, à dança jazz”

Podemos recuperar o seu percurso de formação?
Claro. O ballet e o canto… foi como acontece com muitas crianças que o fazem quando são mais novinhas. E lá está, tenho um percurso tonto de ter abandonado muitas coisas.

Desistia?
Sim, aborrecia-me, queria mudar. Do ténis, à guitarra, à dança jazz.

Natação?
Sim. E isto não tem a ver com o facto de não ter uns pais rigorosos, eles foram-se foi adaptando às coisas que achava que me interessavam. Acho que tem a ver com falta de disciplina, são formas de estar na vida mais intuitivas e criativas e menos capazes de ficar muito tempo na mesma coisa. Embora pronto, depois percebe-se mais tarde que é muito importante ter disciplina. Insistir, ficar até ao fim, só muito mais tarde na vida é que lidei com isso, fazer até ao fim. E depois quis ir para ciências no 10.º ano, porque acho que inconscientemente, não queria fazer aquilo que os meus pais eram.

Mas não era de uma forma ativa, então?
Não, acho que não, até porque seria uma rebeldia que não ia dar em nada. Fui para ciências porque achava que era interessante, mas o que havia cá dentro era qualquer coisa como “não vou para o sítio que é suposto”. Que é suposto para mim, não porque os meus pais me tenham dito o que quer que seja que eu fosse ser. Mas pronto, depois desisti, fui para artes, fiz artes até ao 12.º e depois fui para a Faculdade de Letras.

Mestrado em economia, a seguir?
Não, nada disso. Tirei a minha licenciatura em Estudos Artísticos, que era muito teórico, era o que eu queria e que achava que precisava porque tive a sorte de começar a trabalhar muito cedo, fazia menos sentido para mim uma escola prática. Precisava de formação, de livros…

…de calhamaços.
Sim. E de poder escrever, ler, foi das melhores coisas que me aconteceu: fiz tudo isto já tarde mas foi quando fez sentido. Neste momento estou a acabar o mestrado em Estudos Teatrais também na Faculdade de Letras. Já fiz e agora ando a fazer a dissertação, que tive de interromper devido ao espectáculo.

Sobre o que fala essa dissertação?
É sobre o trabalho de uma professora com quem estudei que é a Polina Klimovitskaya, uma professora russa, que já esteve cá em Portugal e que tem muito poucas coisas escritas sobre como é que ela trabalha e eu decidi que era bom para a humanidade centrar-me nela.

"O Passos Manuel foi das melhores escolas de sempre, tinha uma mistura de pessoas incrível, isso sim era uma grande educação, lembro-me de ter colegas com namorados na prisão, outras que viviam no centro da cidade, colegas com pais artistas, tinha de tudo. O Filipa Lencastre era um bocadinho mais betinho... um bocadinho mais das Avenidas, sendo que eu sou uma miúda das Avenidas."

Falamos de teatro?
Sim, conheci-a em Évora, ela tem uma linguagem tão diferente e lá está, não dizia muitas coisas e o que dizia era tão mindblowing que fiquei a pensar que tinha que ir estudar com ela, isto porque também nunca fiz escola de teatro. Fui atrás dela para Nova Iorque, estive lá meio ano a estudar e depois temos tido um namoro de ela vir cá, eu ir a Paris, ela vir a Portugal… isto já dura há oito anos. Muitos atores lembram-se dela e estudaram com ela em Lisboa ou no Porto, mas nunca ninguém conseguiu ter tempo ou vontade de tentar escrever sobre o trabalho dela.

É filha da Olga Roriz e do Nuno Carinhas, deduzo que tenha estado bastante tempo em camarins e nos bastidores dos seus espectáculos.
Sim… bom, eu não tenho muito boa memória, mas claro que estive e claro que isso afeta, eu acho, o meu gosto por ver de fora. Mas lá está, foi tão natural quanto outros pais que fossem professores ou médicos.

É difícil essa posição, de ser filha de dois artistas tão importantes em Portugal, ou seja, sentiu alguma vez a necessidade de provar o seu talento para afastar os típicos “assim também eu”?
Quando me fazem essa pergunta é quando penso que isso ainda afeta. Mas eu já não sinto esse peso, quanto às pessoas acharem que os nomes querem dizer coisas… acho que sim, acho que isso vai sempre existir. Mas importa dizer que não foram as únicas pessoas que me influenciaram, há muitas outras que me afetaram imenso e que, se calhar, a certa altura, foram os que apostaram em mim. Gente que tem uma relação saudável com o facto de sermos todos artistas e não invadirmos o espaço uns dos outros, somos espectadores do trabalho uns dos outros, é muito saudável.

Cresceu em Lisboa?
Sim.

Em que escolas andou?
Mudei de escolas vinte vezes. Estive no Filipa Lencastre, no Passos Manuel… aí gostei, o Passos Manuel foi das melhores escolas de sempre, tinha uma mistura de pessoas incrível, isso sim era uma grande educação, lembro-me de ter colegas com namorados na prisão, outras que viviam no centro da cidade, colegas com pais artistas, tinha de tudo. O Filipa Lencastre era um bocadinho mais betinho… um bocadinho mais das Avenidas, sendo que eu sou uma miúda das Avenidas, já vivo há muitos anos na Avenida João XXI, mas ainda não foi totalmente invadida, sente-se que é um sítio que ainda tem uma sensação de bairro, lojas de bairro, mercearias, frutarias que estão ali há décadas.

Já a conhecem?
Sim, talvez, acho que agora já. Já vivi em Alfama também, fui muito feliz, é um bairro extraordinário, e que tem uma vida… as pessoas falam umas com as outras, ouve-se um neto a chamar a avó pela janela, e não estou a dizer isto do género “ai que pitoresco, que engraçado”, mas é, de facto, uma forma de vida diferente, sabemos os nomes das pessoas, não é possível viver ali sem se viver em comunidade e isso é uma coisa que se está a perder.

Alfama é aliás um exemplo bastante concreto dessa gentrificação. Que hobbies tinha?
Sempre fui muito filha única… distraio-me sozinha muito facilmente. Diziam que fazia isso durante horas, monólogos e papelinhos e coisinhas e bonequinhos. Não tenho memórias de muitos amigos, mas isto de mudar muitas vezes de escola também tem esse lado… mas sou uma rapariga que sempre gostou de ler, de ver filmes, hoje em dia consumo séries como se não tivesse mais nada para fazer, o que é horrível porque me tira horas de sono.

Pois, e agora há aquela possibilidade de ver os episódios todos de uma vez…
É horrível.

Não gosta?
Adoro, mas… a nossa saúde.

Pois, talvez não devesse ser permitido.
Pois não, a coisa de esperar pelo próximo episódio fazia parte, só para a semana é que dava para ver. Mas isso tem a ver com o tal ritmo de que falava, que está a influenciar a forma como vemos as profissões, como estamos com os amigos, como aguentamos um espectáculo de teatro, a maior parte das pessoas saca do telemóvel dez minutos depois de ter começado, nem que seja só para olhar e depois voltam a meter no bolso.

“A facilidade de escrever e não estar a olhar olhos nos olhos… escrever sem parecer que vai haver uma consequência também destrói a linguagem”

Já passaram dez minutos?
Isso e… que horas são? Quando não é para tirar uma fotografia, porque se não registar não aconteceu. Há uma série de coisas a que o teatro também teve de responder quando isto dos telemóveis surgiu que é extraordinário. Sinto que as pessoas têm menos paciência para estar, para estar a olhar, usufruir.

Pergunta-se muito a duração da peça, não é?
Isso é logo, e se tem intervalo. Esta é muito civilizada, uma hora e dez, tem cházinho, mas pronto, também já vi espectáculos de três horas que passaram sem que desse conta. Como é que estamos só num sítio? Isto de estar sempre a consumir, o próprio cérebro fica… é como a falta da cafeína ou assim.

É um vício. Por falar em vícios, que séries tem andado a ver?
Há umas coisas que não vou dizer, que tenho vergonha.

Guilty pleasures.
Eu vejo de tudo, acho que faz parte da curiosidade, tem que se ver tanto uma novela, como a seguir um reality show, como depois uma série de época. Mas agora estou a ver “Killing Eve” porque a Sandra Oh ganhou um Globo de Ouro, gosto muito dela, não é necessariamente muito bom, mas tenta contar uma história de uma forma engraçada. E é muito importante, finalmente, a normalização das histórias queer sem ser um problema, isso… aleluia, irmãos! Ainda por cima não é tão óbvio assim, é uma espécie de atração que ela renega, mas é bonito que isso já não seja um problema.

“Quem são as nossas pessoas? Que tempo passamos com elas?”

Que espectáculos ou livros foram importantes para si a certa altura da sua vida, que coisas a marcaram?
Podemos falar d’As Ondas, da Virginia Woolf. Quando li a primeira vez, não percebi metade e isso interessou-me imenso, senti que entrei numa cabeça complexa, para um mundo estranho, assustador, se calhar um bocadinho dark demais para o momento em que li, não me lembro que idade tinha. E fascinou-me, como é que consigo ler um livro por inteiro e sentir que houve um mundo que passou ao lado? Acho que foi isso que me fez voltar a ler. Toda a gente que me conhece sabe que eu e a Virginia Woolf…

Porquê?
É uma pessoa que escreveu imenso, quase que passei a minha vida toda a descobrir coisas novas, registos totalmente diferentes uns dos outros, e ela escrevia desde pequenina, descobri no outro dia um jornal que eles faziam em casa, entre irmãos, a vida da família Stephen.

Já leu tudo de Virginia Woolf?
Fui lendo, fui lendo. Quer seja como autora, quer seja pelo seu humor, pela sua reivindicação, pelo seu papel de mulher, pela capacidade de observação, é uma autora daquelas que posso colocar no início de qualquer lista. E essa coisa, que não vem só dela, mas com a qual ela insistiu muito e que se chama fluxo de consciência, que é escrever como se estivesse dentro da cabeça das pessoas, é extraordinário, e é uma lição para todas as áreas, podemos ter uma profissão qualquer que aquilo ensina imensas coisas sobre como pensar, como olhar para os outros.

E que mais?
Há uma autora portuguesa que acho essencial: a Maria Velho da Costa. Já tentei, através de leituras encenadas, fazer com que os outros a oiçam, e que acho que é muito importante e especial, escreve com um português que está a desaparecer…claro que há coisas novas que aparecem muito interessantes, mas há outras que desaparecem, morreram na oralidade. Tenho essa sensação com a Maria Velho da Costa, se ela deixar de escrever vão-se perder muitas coisas.

"Menos ansiedade e sempre com várias portas abertas, não gosto quando tenho a sensação que fiz a mim próprio uma gaiola, fazemos isso sem querer, muitas vezes, gosto de me relembrar: 'estás a pôr-te dentro de uma gaiola ou não?' ou 'fechaste-te aí dentro de uma ideia?'”

Falou aqui na questão da oralidade e da linguagem, no espectáculo, numa cena da Filomena Cautela sobre o Síndrome de Resignação, fala-se um bocadinho do terreno do sono e do sonho. Esta é uma questão que tem sido abordada por várias pessoas recentemente, a linguagem como insuficiente. Concorda?
Tenho estado a defender o equilíbrio entre as várias linguagens, mas estando nesta profissão não posso não gostar das palavras. É muito importante. Obviamente que entre a nossa complexidade, a quantidade de pensamentos que temos por segundo e aquilo que decidimos dizer… vai todo um mundo, daí ser tão interessante uma escritora fazer um fluxo consciência, que é algo impossível, mas tentares escrever com o mar que o nosso pensamento tem. Isso é um problema a vários níveis, para já a quantidade de asneiras que ouvimos todos os dias e que nos entram por todo o lado, pessoas que têm responsabilidades gigantes, o que é que decidem dizer quando abrem a boca? A escrita automática, esta coisa diária, a facilidade de escrever e não estar a olhar olhos nos olhos – não estou a fazer um discurso mau sobre as redes-sociais, podem ser bem usadas –, mas a questão de escrever sem parecer que vai haver uma consequência também destrói a linguagem. Isso também está a afetar a forma como falamos. Depois, sim, claro que as palavras, às vezes, são fraquinhas. Quando as coisas são muito fortes, as palavras são fraquinhas, nunca dizem exatamente o que querem dizer.

Tem 32?
31.

Certo…
Caso para dizer que não é um nenhum 31, sem problema…

Queria desafiá-la a analisar o momento atual da sua vida, “Tenho 31 anos, estou assim, sinto isto…”
Posso ter que pagar terapia depois de toda esta nossa conversa…

Sem problema.
Como é que eu estou? Acho que estou mais tranquila nesta forma de ser inconstante, de ir fazendo o que me faz sentido, ao mesmo tempo que tenho que ser adulta e pagar as contas. Profissionalmente, estou mais leve em relação a aceitar o que surge e, ao mesmo tempo, a provocar projetos que preciso de fazer, mas não tenho ansiedade, estou mais calma em relação a decisões que vou tomando. Vou reforçar que estudar faz muito bem à cabeça, seja o que for, poder parar, poder escrever. Gosto de ter várias áreas onde pôr os pés e sinto que encontrei um equilíbrio nisso. E os trintas mudam coisas em nós, o nosso corpo, o que é mais importante na vida, isso vai mudando.

De dez em dez anos convém recapitular.
Acho que sim, há quem o faça a toda a hora, também. Quando era mais nova e as pessoas desejavam saúde, pensava sempre “que seca”, mas depois penso “sim”. Sim, tomar conta de nós, o nosso corpo, a nossa cabeça, vivemos uma vida muito doida e às vezes não sabemos ou não podemos dizer que não. A saúde é, de facto, incrível. Depois aprendem-se outras coisas, as pessoas. Quem são as nossas pessoas? Que tempo passamos com elas? lembro-me de passar uma fase hiper-adolescente de não saber que é importante fazer um jantar ou um almoço, de estar olhos nos olhos. A minha geração e ainda uns mais novos, sinto que estão mas não estão, acho que vamos dando mais valor a isso. Uma boa conversa? Um bom cházinho de fim de tarde? Não há nada como isso. Em geral, a palavra é “tranquila”.

Pessoal e profissionalmente, porque uma coisa também contamina a outra.
Sim, está tudo contaminado. Menos ansiedade e sempre com várias portas abertas, não gosto quando tenho a sensação que fiz a mim próprio uma gaiola, fazemos isso sem querer, muitas vezes, gosto de me relembrar: “estás a pôr-te dentro de uma gaiola ou não?” ou “fechaste-te aí dentro de uma ideia?”

Ui, as ideias…
As ideias, o que pensei que podia fazer e onde é que iria estar, isso não interessa para nada.

Abaixo as expectativas.
Elas existem e eu sou a favor da ficção, da construção, acho que é isso, por exemplo, estar apaixonado, olhar para a frente. Aborreço-me com facilidade e é bom não nos fecharmos numa gaiola.

Está bem, portanto.
Estou bem.

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