1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Ninguém foi avisado, subitamente, o sétimo álbum de Bieber surgiu nas plataformas de streaming: SWAG, assim mesmo, em letras garrafais, sob um fundo preto, acompanhado por uma sessão fotográfica, a preto e branco, com a mulher, modelo e rainha da cosmética, Hailey Bieber, e o filho de um ano, em ambientes rústicos familiares, pela fotógrafa Renell Medrano
i

▲Ninguém foi avisado, subitamente, o sétimo álbum de Bieber surgiu nas plataformas de streaming: SWAG, assim mesmo, em letras garrafais, sob um fundo preto, acompanhado por uma sessão fotográfica, a preto e branco, com a mulher, modelo e rainha da cosmética, Hailey Bieber, e o filho de um ano, em ambientes rústicos familiares, pela fotógrafa Renell Medrano

▲Ninguém foi avisado, subitamente, o sétimo álbum de Bieber surgiu nas plataformas de streaming: SWAG, assim mesmo, em letras garrafais, sob um fundo preto, acompanhado por uma sessão fotográfica, a preto e branco, com a mulher, modelo e rainha da cosmética, Hailey Bieber, e o filho de um ano, em ambientes rústicos familiares, pela fotógrafa Renell Medrano

"SWAG": a emancipação de Justin Bieber é um dos álbuns pop do ano

O sétimo álbum do outrora "menino de ouro" surgiu sem aviso, após a separação definitiva do agente que o descobriu há quase vinte anos. "SWAG" é um álbum orgulhosamente experimental e já marcou 2025.

Numa discreta cidade canadiana, em pleno inverno, garantia de noites longas e temperaturas gélidas, um miúdo cambaleia em palco, estranhamente confiante. A mãe filma a cena, mas entre a câmara tremida e a iluminação precária, a face deste jovem prodígio, contratenor de uma sagacidade precoce, permanece na sombra. A revelação foi repentina, apenas um ano depois, estava no estúdio com Usher, o suprassumo da canção sensual, a encantar pré-adolescentes com uma voz cristalina e um penteado à tigela. Quase vinte anos findados, este nome nunca mais nos deixou: Justin Bieber.

Aos 12 anos, Justin Drew Bieber concorria a um concurso de talentos na cidade de Stratford, a 150 km das Cataratas do Niagara. A apresentação foi imaculada, de gravata e camisa para dentro, interpretou So Sick, o hino R&B arrebatador de Ne-yo — uma escolha no mínimo inusitada para uma criança branca canadiana em 2007. O vídeo foi publicado no Youtube, o agente Scooter Braun deparou-se aleatoriamente com aquela filmagem tosca, contactou de imediato a mãe e pediu ajuda a Usher para fundar a Raymond Braun Media Group, uma empresa com o único propósito de gerir a carreira e editar a música de Justin Bieber. A aposta foi certeira: mais de 150 milhões de discos vendidos.

No final do ano passado, os detetives da internet revelaram que Justin Bieber já não seguia o seu agente no Instagram, o equivalente em 2025 a uma chapada de luva e um inevitável duelo à pistola. Nos meses seguintes, as publicações da estrela pop tornaram-se erráticas e embaraçosamente genuínas — nunca é bom quando a pessoa que, em improviso, declarou que a Anne Frank seria uma “Belieber”, tem acesso livre ao telemóvel. Alguma coisa acontecia no reino Bieber e neste mês de junho obtivemos uma resposta contundente: Justin e Scooter (o mesmo com o qual Taylor Swift teve uma quezília durante anos) firmaram um acordo financeiro e romperam definitivamente, a via aberta para o lançamento de SWAG, o álbum de emancipação do menino de ouro da pop.

[o álbum “SWAG” para ouvir na íntegra no Spotify:]

Ninguém foi avisado, subitamente, o sétimo álbum de Bieber surgiu nas plataformas de streaming: SWAG, assim mesmo, em letras garrafais, sob um fundo preto, acompanhado por uma sessão fotográfica, a preto e branco, com a mulher, modelo e rainha da cosmética, Hailey Bieber, e o filho de um ano, em ambientes rústicos familiares, pela fotógrafa Renell Medrano, a mesma de Mr. Morale & the Big Steppers, o álbum-terapia de Kendrick Lamar saturado de traumas e queixumes. Depois do álbum conceptual Justice, que começa, a sério, com um discurso de Martin Luther King Jr., o que teríamos feito para merecer mais uma empreitada de responsabilidade social de Justin Bieber. Felizmente, SWAG não poderia estar mais distante de qualquer pedagogia, é alegre e sossegado, todo mel e melismas, um regresso àquele palco discreto em Stratford, àquele miúdo estranhamente confiante, logo quando ninguém o esperava.

A entrada de SWAG é desorientante, ao primeiro segundo, estamos ensopados em sintetizador da década de oitenta, imediatamente seguido de uma caixa de ritmos, azeiteira ao limite, agora de finais da década de noventa, como se Hold Me Now dos Thompson Twins fosse produzido por Max Martin, o mago sueco que criou a sonoridade de Britney Spears, Backstreet Boys e companhia. E não ficamos por aqui: Bieber canta num murmúrio sedutor em ALL I CAN  TAKE, uiva “baby, baby, baby”, naquele R&B do início do século, até rematar com manipulações de voz, agora sim, mais perto de 2025, ainda na sombra de Frank Ocean.

A curiosidade inicial é perceber, agora emancipado, sem amarras nas canções, quem são os compositores de confiança do renovado Bieber? Vejamos a lista de compositores de ALL I CAN  TAKE: os compinchas Eddie Benjamin e Jackson Morgan; Carter Lang, o colaborador mais regular de SZA; Daniel Chetrit, compositor de The Weeknd ou Solange; e Tobias Jesso Jr, o homem da pianada melancólica e um dos compositores mais concorridos dos últimos anos — só em 2025 escreveu para Miley Cyrus, Haim ou Bon Iver. Até aqui, não é uma lista de colaboradores particularmente surpreendente, e sobretudo, não explica esta estranheza etérea que atravessa ALL I CAN  TAKE, e ainda, a maioria das canções de SWAG, um álbum de pop orgulhosamente experimental.

Justin Bieber adapta-se a qualquer camuflagem, está cómodo na mesmice das vibes, porém, a sua escola é o R&B dos anos 2000 — Usher, Ne-yo, Alicia Keys, R. Kelly — quando não bastava uma linha melódica cativante de 10 segundos e era necessário construir uma canção de corpo e membros e dançar por cima, com — claro — swag.

A segunda canção do álbum, DAISIES, aponta para dois nomes-chave: Mk.gee e Dijon. O primeiro, um guitarrista virtuoso acanhado, criou numa cave em New Jersey algo impensável neste século: um método e uma sonoridade inaudita, absolutamente idiossincrática, de dedilhar uma guitarra elétrica, num jogo constante de provocação, ora esconde-se e carrega no pedal, ora abre os acordes e escancara um desembaraço melódico avassalador — em breve saberemos se esta alquimia é transposta para o palco, no dia 15 de agosto, Festival Paredes de Coura. A produção de Mk.gee coloca a música sempre distante, assemelha-se a um vizinho do lado com o volume moderado, que nos obriga a colar o ouvido à parede para distinguir os instrumentos; uma qualidade diáfana que agrada a Dijon, o seu principal parceiro de armas, e autor de R&B lo-fi que tem regenerado um género em morte lenta — até Frank Ocean regressar numa manhã de nevoeiro.

Esta foi a golpada de mestre de Justin Bieber: depois de convidar Mk.gee e Dijon para interpretar e produzir num par de canções, capturou o génio hipnotizante numa lamparina, com óleo a pingar da primeira à última faixa. E as guitarras e os sintetizadores vaporosos não distraem da atração principal, pelo contrário, servem a voz distintiva do cantor, em vez de, como tantas vezes aconteceu, a arte de Bieber ser mera cola de refrões pegajosos.

A voz modulada de YUKON remete para as parcerias com Skrillex ou Diplo, quando o instrumento de Bieber foi cortado e colado, distribuído estrategicamente com pinças pelas canções, qual opção de sintetizador, aqui e ali, a colorir uma melodia — Sorry ou Where Are Ü Now, por exemplo. Os singles de eletrónica dançante delimitaram o final do ídolo pré-adolescente e garantiram a presença de Bieber como um porto seguro para complementar qualquer canção de sucesso, até, porque não, reggaeton — Despacito (Remix). A receita funciona, quem sou eu para a desdenhar, mas se me permitem, algo se perdeu pelo caminho do sucesso, YUKON demonstra isso mesmo: a voz despida e modulada dispensa qualquer outro artifício e exige um palco sozinho.

GettyImages-1293980236

▲ SWAG não poderia estar mais distante de qualquer pedagogia, é alegre e sossegado, todo mel e melismas, um regresso àquele palco discreto em Stratford, àquele miúdo estranhamente confiante

Getty Images for T-Mobile

As três primeiras canções de SWAG advinham uma obra prima portentosa que, infelizmente, nunca se impõe, inevitavelmente, surgem as canções derivativas que são carne para o assador das playlists do algoritmo, mesmo com a peculiar produção e instrumentação que centraliza o álbum. Uma crítica apontada é a aparente falta de um single monstruoso, que pode comprometer a longevidade de SWAG — Justice era desgraçado, mas desafio qualquer ser humano a resistir a doçura de Peaches. É uma perspetiva de vista curta, SWAG não é apenas um álbum do agora, é um álbum do amanhã, a consolidação de uma voz.

SWAG é uma voz amiga, um convite para um tête-à-tête. Mas desengane-se quem procura a intimidade a que estamos acostumados nas lides da pop (já lhe bastam os paparazzi). A lírica de Bieber mantém-se na rama da alcofa: “anda cá querida, estou a  pensar em ti, que sinuosa és, não te vás embora” e assim por adiante. Em síntese, o narrador está sexualmente entusiasmado. No entanto, a conta gotas, abre-se o véu: GO BABY refere a cosmética de Hailey Bieber num verso memorável — “That’s my baby, she’s iconic/ IPhone case, lip gloss on it”; em WALKING AWAY promete uma resistência matrimonial; DADZ LOVE professa o recém amor paternal; e em três áudios, espaçados ao longo do álbum, o comediante Druski encarna um terapeuta, referindo diretamente os desafios de saúde física e mental que têm assolado o cantor — a última digressão mundial, Justice World Tour, foi cancelada após Bieber sofrer uma repentina paralisia facial; entretanto, espera-se que Bieber anuncie uma nova digressão a qualquer momento.

Além de Mk.gee e Dijon, Bieber não descartou as obrigatórias participações de rappers, para cumprir a santa trindade da canção popular contemporânea — aquele miscelânea de pop, R&B e hip hop — contudo, novamente, desconstrói a lógica dos seus álbuns anteriores, onde um rapper proeminente — Travis Scott, Nas, DaBaby — certificava o cantor como aceitável para as “ruas”, ou pelo menos, como uma certa dose de swag, a tal palavra omnipresente que podemos traduzir como “pausado”. À exceção de Gunna, ponta de lança do trap sulista, os rappers são relativamente marginais: a cadência desengonçada de Sexyy Red, pautada pelas hilariantes indiscrições sexuais, eleva SWEET SPOT, enquanto Cash Cobain, vanguardista do drill nova-iorquino, encadeia SWAG, a canção mais 2025 do álbum, imersa numa névoa de vibes.

As guitarras e os sintetizadores vaporosos não distraem da atração principal, pelo contrário, servem a voz distintiva do cantor, em vez de, como tantas vezes aconteceu, a arte de Bieber ser mera cola de refrões pegajosos.

A questão das “vibes”, expressão enervante para uma dispersão e extensão melódica sem particular resolução musical, é crucial para compreender o que distingue SWAG de outros álbuns pop R&B que têm surgido. Justin Bieber adapta-se a qualquer camuflagem, está cómodo na mesmice das vibes, porém, a sua escola é o R&B dos anos 2000 — Usher, Ne-yo, Alicia Keys, R. Kelly — quando não bastava uma linha melódica cativante de 10 segundos e era necessário construir uma canção de corpo e membros e dançar por cima, com — claro — swag. Bieber parte das vibes para formar canções, daquelas poucas que ainda nos fazem ouvir rádio. “Tudo o que sai da boca dele: isso é música pop”, argumentou recentemente Mk.gee. Exato, ou como dizia Amália Rodrigues, fado é o que eu canto.

A segunda metade de SWAG dá-se ao contemplativo. O menino de ouro apresenta-se acústico, naquele registo grave de Love Yourself, mas aqui mais rude; ZUMA HOUSE é praticamente uma fita demo improvisada, e GLORY VOICE MEMO nem isso, soa a um espontâneo áudio de WhatsApp gospel, imensamente superior ao sofrível Freedom, EP dedicado ao gospel lançado há quatro anos. A interpretação contemplativa mais singular é DEVOTION, com o falinhas mansas Dijon a fazer a sua melhor versão de Leon Bridges, e Justin Bieber, outrora um conservador da pop, a apontar para os píncaros do R&B, pensem em Prince ou D’Angelo, esse é o nível de ousadia. DEVOTION é canção de fim de festa, de sol a amainar, Justin Bieber promete continuar nesta devoção ao amor e à música, abrir a porta e deixar entrar o ar fresco. O prometido é devido, OK Justin?

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.