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▲Joel Mokyr, Philippe Aghion, Peter Howitt foram distinguidos com o Prémio Nobel da Economia neste ano de 2025.

AFP via Getty Images

▲Joel Mokyr, Philippe Aghion, Peter Howitt foram distinguidos com o Prémio Nobel da Economia neste ano de 2025.

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Tão importante quanto promover a inovação é deixar "morrer" as tecnologias obsoletas, defendem Prémios Nobel da Economia

Taxas de crescimento positivas e constantes são tudo menos um dado adquirido – são, aliás, a exceção na história da Humanidade. Académicos premiados por darem receita para o crescimento sustentável.

“As pessoas dizem sempre isso”, mas Joel Mokyr garante que, pelo menos no seu caso, “é mesmo verdade“: nunca lhe “passou pela cabeça” que poderia ser um dos galardoados com o Prémio Nobel da Economia. Quase a fazer 80 anos e sem qualquer intenção de se aposentar nos próximos tempos, contou à Associated Press que, quando os alunos lhe perguntavam sobre isso, respondia que tinha “mais probabilidades de ser escolhido como Papa do que de receber um Nobel” – “o que é dizer muito, tendo em conta que sou judeu“.

Este professor da Northwestern University, nos EUA, nasceu nos Países Baixos mas tem nacionalidade norte-americana e israelita. Foi, nesta segunda-feira, o principal distinguido pela Academia Real Sueca das Ciências – e vai receber metade do prémio deste ano, com a outra metade a ser dividida entre um francês e um canadiano. Philippe Aghion, o francês, dá aulas em várias universidades europeias, entre as quais o INSEAD, o Collège de France e a London School of Economics and Political Science (LSE). E o terceiro galardoado, Peter Howitt, é um canadiano ligado à Brown University, nos EUA.

Apesar de o primeiro ser, acima de tudo, um historiador económico e os outros dois terem tido contributos mais analíticos e matemáticos, os três académicos têm uma área de pesquisa comum. “O Prémio Nobel deste ano reconheceu a importância da inovação tecnológica para o crescimento económico“, notou André Silva, professor da Nova SBE e um investigador em Finanças e Macroeconomia que chegou a dar aulas na Universidade de Chicago.

“Até há cerca de 300 anos, em vez dos 2% de crescimento anual per capita que hoje é falado com naturalidade, o crescimento económico per capita era próximo de zero”, salienta o especialista, acrescentando que, “mesmo com as estradas dos romanos ou viagens transatlânticas, a população no mundo vivia perto da subsistência“. Mas “tudo mudou a partir de 1700“, diz André Silva – e Joel Mokyr, em particular, “estudou com dados históricos os fatores que levaram à revolução industrial”.

A ideia básica é que foi, obviamente, a evolução tecnológica que lançou as economias ocidentais para uma multiplicação, por mais de 20 vezes, do PIB per capita nos últimos dois séculos – mas isso não explica tudo. Isto porque noutras ocasiões, recuando mais para trás no tempo, houve grandes evoluções tecnológicas que, depois, não tiveram o mesmo impacto nem a mesma perenidade.

“A mudança tecnológica, sem mais, não justifica o crescimento – porque houve inovações tecnológicas importantes, nos últimos milénios, mas nem todas conseguiram gerar um ritmo de crescimento sustentado”, salientou Kerstin Enflo, também ela historiadora na área da Economia que apresentou, em maior detalhe, as razões pelas quais o Nobel foi atribuído. Entre 1300 e 1650 o PIB per capita praticamente não se alterou, notou Kerstin Enflo (baseando-se em dados do Reino Unido e da Suécia), apesar de haver inovações tecnológicas muito importantes como o arado pesado e a prensa de Gutenberg.

Porque é que o Nobel da Economia não é igual aos outros?

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Conhecido oficialmente como Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, o galardão foi criado em 1968 pelo banco central sueco como tributo a Alfred Nobel — o empresário e químico do século XIX que inventou a dinamite e instituiu os cinco Prémios Nobel originais.

Desde então, o prémio de Economia foi atribuído 57 vezes a 99 laureados (três dos quais mulheres).

Embora os puristas sublinhem que o prémio de Economia não é tecnicamente um Prémio Nobel, já que não foi criado através do testamento de Alfred Nobel, a distinção é entregue juntamente com os restantes (medicina, física, química, literatura e paz), a 10 de dezembro — data que assinala a morte de Alfred Nobel, em 1896.

O vencedor recebe (ou reparte) 11 milhões de coroas suecas (cerca de um milhão de euros), pagas pelo banco central sueco, o Riksbank.

Os pré-requisitos para um crescimento sustentado

O grande mérito do trabalho de Joel Mokyr, o historiador económico da Northwestern University, é ter “identificado os pré-requisitos para um crescimento sustentado, assente no progresso tecnológico”, afirmou Kerstin Enflo, que é membro do comité que escolhe os vencedores deste prémio. Por outras palavras, são variáveis que têm de existir para que uma inovação não só tenha um impacto grande como, também, consiga suster esse impacto nos (muitos) anos seguintes.

Um desses “pré-requisitos” é o chamado “conhecimento útil“, isto é, a ideia de que a inovação tecnológica, para poder ter tração, tem de ser passível de ser replicada e explicada. “Ao longo de grande parte da história humana, a inovação tecnológica baseava-se sobretudo em métodos que as pessoas sabiam que funcionavam mas não sabiam exatamente porque é que funcionavam (nem conseguiam facilmente transmitir esse conhecimento a outros)”, explicou Kerstin Enflo.

Por outro lado, “as sociedades têm de estar preparadas para a mudança“, salientou a professora convidada pela Academia Real Sueca das Ciências. “Houve vários episódios na História, retratados por Mokyr, em que se tentou bloquear o progresso tecnológico, com medo de que ele lhe fosse desfavorável”, notou, dando como exemplo os Luditas: “operários têxteis que destruíam máquinas com receio de que lhes roubassem o trabalho”.

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▲ Kerstin Enflo, membro do comité que atribui o prémio, explicou a importância dos contributos dos três galardoados.

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Para que a inovação derrube este tipo de obstáculos, Mokyr postulou que “é necessário que os intervenientes [as empresas, os Estados e os cidadãos] se coordenem para encontrar formas de acomodar a evolução de forma equilibrada e encontrar compromissos mutuamente benéficos”, salientou Kerstin Enflo, notando que foi isso que aconteceu, por exemplo, no período que ficou conhecido como o Iluminismo – que teve início no Reino Unido e, depois, alastrou para outros países.

Estados devem apoiar inovação e criar “redes de segurança” para quem fica para trás

Estes são alguns dos fatores essenciais para que a inovação tenha impacto no crescimento económico, de forma sustentada. Mas os outros dois académicos distinguidos destacam mais um, tão ou mais importante como os outros: a necessidade de deixar “morrer” as tecnologias e os setores produtivos obsoletos.

Philippe Aghion e Peter Howitt, afirma André Silva, da Nova SBE, “estudaram analiticamente como o processo de inovação, com o abandono de tecnologias antigas e a adoção de novas tecnologias, pode levar ao crescimento económico sustentável ao longo do tempo”. Inspirados pelas ideias do economista Joseph Schumpeter, estes académicos mostram que novas ideias e tecnologias não só substituem as antigas — num processo chamado “destruição criativa” — como também impulsionam a produtividade e a riqueza de um país.

“Um ponto importante da investigação desses autores é que, para haver inovação, é necessário que as pessoas criem novas tecnologias e que saibam usar as inovações que surjam ao longo do tempo”, acrescenta o investigador, notando que “isso vai além de dar subsídios à inovação”. “Questões como mobilidade e a capacidade de as empresas encerrarem e abrirem negócios também são importantes para que haja crescimento económico”, conclui.

"Um ponto importante da investigação desses autores é que, para haver inovação (...), questões como mobilidade e a capacidade de as empresas encerrarem e abrirem negócios também são importantes para que haja crescimento económico."
André Silva, professor associado da Nova SBE.

Os dois investigadores, embora trabalhem em continentes diferentes, desenvolveram em conjunto um complexo modelo matemático onde “a destruição criativa se afirma como um elemento central”, afirmou Kerstin Enflo.

“Este modelo trouxe uma mudança paradigmática na forma como pensamos no crescimento económico“, permitindo, acrescentou, calcular o crescimento económico médio introduzindo algumas componentes ligadas ao investimento em Investigação & Desenvolvimento (I&D) e à forma como algumas empresas têm sucesso e “roubam” o negócio às outras.

Os Estados e os responsáveis pelas políticas públicas devem interferir neste processo de forma muito cuidadosa: têm de encontrar um equilíbrio entre incentivar a inovação mas, também, ao mesmo tempo, saber aceitar a eliminação das “perdedoras” enquanto se garante as necessárias “redes de segurança” para quem foi ultrapassado pela inovação.

“A destruição criativa cria conflitos que devem ser geridos de forma construtiva”, afirmou a Academia Real Sueca das Ciências, avisando que, “caso contrário, a inovação será bloqueada por empresas estabelecidas e grupos de interesse que correm o risco de serem prejudicados”.

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▲ Carlos Moedas escreveu o prefácio de um dos galardoados, Philippe Aghion.

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John Hassler, presidente do comité que dá este prémio e que também participou na conferência de imprensa em que os vencedores foram anunciados, afirmou que “o trabalho dos laureados demonstra que o crescimento económico não pode ser considerado como garantido. Devemos preservar os mecanismos que fundamentam a destruição criativa, para que não voltemos à estagnação“.

“Graças às contribuições destes académicos, e à investigação subsequente, temos uma melhor probabilidade de garantir que o crescimento pode continuar e ser orientado numa direção que beneficie a Humanidade“, concluiu John Hassler.

Nobel da Economia de 2025 entregue a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt, pela pesquisa sobre a destruição criativa

Carlos Moedas escreveu prefácio de livro de Philippe Aghion, editado em Portugal

Tal como Joel Mokyr, também Philippe Aghion mostrou-se “totalmente surpreendido” pela distinção. Participando através do telefone na conferência de imprensa, o académico francês confessou ter “dificuldade em encontrar palavras” que pudessem expressar a surpresa e a honra que estava a sentir.

Aghion é coautor do livro “O poder da destruição criadora – Inovação, crescimento e o futuro do capitalismo“, editado em Portugal em 2021 pela Temas e Debates, do grupo da editora Bertrand. Este é um livro que tem prefácio de Carlos Moedas, reeleito neste domingo como presidente da Câmara de Lisboa e antigo comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação.

“Aghion é um neoschumpeteriano que acredita que um verdadeiro equilíbrio entre o poder e o Estado, da sociedade civil e do mercado é a solução para este impasse”, escreveu Carlos Moedas. Mas, “ao contrário de Schumpeter, Aghion é um otimista informado. Para ele, o poder da destruição criadora está no centro do crescimento económico e é a base do nosso bem-estar, desde que realizado num ambiente devidamente regulado”, concluiu Moedas, que se diz amigo pessoal do académico premiado.

"É preciso um mercado grande e concorrência eficaz – a abertura é um pré-requisito para o crescimento sustentado."
Philippe Aghion, participando ao telefone na conferência de imprensa em que foi anunciado como um dos vencedores do Nobel da Economia.

Questionado pelos jornalistas, o académico francês indicou que vai usar o dinheiro do prémio (que rondará os 250 mil euros) para entregar a um laboratório de pesquisa académica em que participa em Paris. E, na resposta a outra questão, salientou que não vê com bons olhos a “vaga protecionista nos EUA”, considerando que taxas alfandegárias agravadas e outras medidas de protecionismo económico são “ameaças ao crescimento económico”.

“É preciso um mercado grande e concorrência eficaz – a abertura é um pré-requisito para o crescimento sustentado“, afirmou Philippe Aghion, salientando, porém, que o “lado positivo” da política comercial de Trump é que está a fazer a Europa acordar para uma realidade que é a de “não poder aceitar que os EUA e a China sejam os líderes incontestáveis na inovação”.

Na Europa, disse, “temos falhado na implementação de planos de inovação disruptiva, em alta tecnologia, e temo-nos focado em inovações apenas incrementais, por empresas de dimensão média”. Por outro lado, “faltam-nos políticas e instituições que promovam a inovação, incluindo um mercado financeiro desenvolvido, que existe nos EUA mas não na Europa”.

Além disso, lamentou, falta na Europa um organismo semelhante à norte-americana DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), um organismo financiado pelo Estado federal e que foi decisivo, por exemplo, no desenvolvimento dos primórdios da internet. Na Europa, não existe um organismo como esse, afirmou Philippe Aghion: “Temos na Europa um soft power fantástico mas precisamos de maximizar o potencial que temos“.

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